Estrellas Funestas

Chapter 4

Chapter 43,949 wordsPublic domain

A educação seria alguma cousa no genio de D. Maria; mas o temperamento era tudo. Derrancava-se-lhe o sangue, se não girava desempedido, e resfolegava pelas valvulas da altercação, da teima e do conflicto. Renhir era o principio vital da sua compleição. Carecia de contrariar-se, quando não topava estorvos a desafia'-la á disputa. Uma sua intima dizia que Maria das Dôres, em dias mal humorados, chegava a beliscar-se para se irritar contra si propria. Isto será de mais; cumpre, porém, duvidar em cousas mais disparatadas. A mulher, em geral, é um complexo de bons e maus prodigios. Releva que tenhamos sempre apontada a admiração ás multiplices fórmas de espirito, em que a mulher se transfigura, segundo os varios incidentes de seu modo de ver e julgar.

Gonçalo, capacitado da milagrosa reforma de sua consorte, ia relaxando o proposito de emenda, que fizera, no tocante a certas culpas, de que D. Maria estava mais que muito sabedora, para nunca as esquecer.

Durante o largo espaço do divorcio, represára ella enchentes de fel, que ameaçavam com seu natural pendor romper os diques, logo que mão extranha desconjunctasse uma pedrinha da levada, ou uma nova gotta cogulasse e desbordasse a represa insoffrida.

O indiscreto galã occasionou o desmancho da ordem, que se tinha, para o assim dizer, em frageis arames. Constou a D. Maria que seu marido andava enviscado de uma cantarina italiana, mulher de perigosas manhas e infernal seducção, que trazia na sua carteira inscriptos em catalogo os homens que á sua chamma fatidica se tinham abrazado, pagando com o ouro e com a honra, e alguns com o futuro bem de suas familias, a gloria de morrerem á ponta de um florete extranho, ou á bocca da propria pistola.

A denuncia fôra vestida com o maravilhoso costumado por quem relata historias d'esta natureza. A actriz era uma vulgar mulher, carecida mesmo da singularidade da belleza, que, a meu ver, é singularidade de pouco momento, quando alguma tragedia lhe não dá o relevo. Tragedias na vida da cantora havia apenas as do libreto, em que ella mesmo assim figurava na parte inoffensiva dos comparsas, e tinha sempre a cargo lamentar a prima-dona, que morria ás mãos do tyranno, ou o galã que lhe pedia por grande mercê um pouco de verdete para se matar, como traído ou desamado pela ama d'ella.

Pobre Persini! (chamava-se ella Persini) se Deus te julgasse pelo depoimento dos homens, em que caldeiras de bitume iriam ferver teus ossos!

Ossos é que ella tinha muito acotovellados por aquelle corpo acima, se havemos de acreditar os oculos de alguns coevos. Concordam, porém, todos em ter sido Gonçalo Malafaya um apaixonado idolatra de Persini, e um dos poucos amadores que saíram vivos dos paços encantados d'aquella Armida.

Como quer que fosse, D. Maria das Dôres estourou, conflagrou-se, reaccendeu o antigo inferno, e constituiu-se o natural dragão da sua obra. Extranhou Gonçalo as arremettidas, que o descostume tornára novas. Desaffeito de soffre'-las, rebateu-as com virulencia, como corrido d'aquella docilidade com que n'outr'ora ia aparando as frechas no escudo da paciencia, e fugindo. Agora, adargou-se com uns modos despejados de impudor; e, no que dizia, dava a pensar que a sua vontade era soberana, e os seus caprichos inviolaveis.

D. Maria, bemfadada de acrisolada virtude conjugal, dado que os annos orçassem já pelos trinta e dois, houve pejo de redarguir com indecorosas ameaças, e até cuspiu a tentação de as dizer á cara do demonio tentador, que está sempre de espia em conflictos d'esta especie.

Gonçalo recalcitrou no vicioso amor á artista, e D. Maria na explosão dos ciumes, se eram ciumes, que eu não me atino bem a dar-lhe o nome. Ciosas temos nós visto esposas desamoraveis, e teimamos em denominar _ciume_ o que é, em boa definição, _vaidade_. Vaidade seja, ou, se quizerem, ciume a indomavel raiva de D. Maria, o saír deshonrada em busca d'elle, o aldrabar á porta da cantora, se lá farejava o marido, o alliciar lacaios para a espancarem á saída do theatro, o induzir-lhe a creada a ministrar-lhe uns pós de ratos, que, de fracos e revelhos, já as ratazanas do palacete os digeriam sem o menor symptoma de dyspepsia.

A guerra caseira chegou a termos de se ameaçarem no calor da refrega. Até alli nunca o marido exorbitára das leis da delicadeza prescriptas a homem que se estima em si e em sua esposa; mas, tanto ella lhe acrisolára a impaciencia, que o desvariado Gonçalo chegou a abrir e vibrar a mão em direitura ás faces intactas da mulher. Maria das Dôres correu a tirar pela gaveta de um toucador de ebano, e saíu de lá com um punhal luzente, temeroso pela afouteza com que a mão viril o brandia.

Gonçalo riu; mas, a falar a verdade, o riso era fingido. Sobejava-lhe colera, e medo tambem. Como quem pede treguas, o cavalheiro, pasmado do arrojo, cruzou os braços, e disse:

--Mulher de faca! pasmosa cousa!

--Um cavalheiro de mão erguida para sua mulher! vergonhosa cousa!--replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graça para ella, e de mofa para elle.

--Está, pois, demonstrado--redarguiu o pallido Malafaya--que estou aqui á mercê do punhal da prima Maria das Dôres!... Extranho destino o meu! Não basta matarem-me o coração, e o futuro?... estará escripto que o meu corpo morra ás mãos mimosas da minha esposa?

--Não!--bradou ella--não em quanto o senhor, me respeitar como senhora, se me não quizer respeitar como esposa. Convença-se porém de que as affrontas de mãos hão de ser repellidas como as affrontas de palavras.

--Que quer de mim, prima Maria das Dôres?

--Quero que me respeite para que o mundo me respeite.

--A senhora é que se enxovalha, dando indecorosas scenas em publico.

--Forçada pelas suas devassidões, sr. Gonçalo! Basta de vexames! Temos cada qual seu caminho a seguir.

--Que quer dizer?

--Que o abomino, que o desprezo, que acceito hoje o divorcio, proposto ha dois annos; mas um divorcio de casal, de familia, de futuro e de tudo. Maria Henriqueta... quero-a comigo.

--A lei não lh'a concede.

--Ha de conceder-m'a! Eu provarei aos juizes que Maria Henriqueta não deve ser entregue a um pae, que não sabe ser marido. Veremos quem triumpha, sr. Gonçalo! Veremos se uma mãe sabe advogar os interesses e a moralidade de sua filha.

Cedeu Gonçalo o campo e saío pensativo, a aconselhar-se. Aquietaram-lhe o alvoroço os letrados, assegurando-lhe que a menina não podia ser disputada ao patrio poder com allegações extranhas á moralisação d'ella.

Quando n'essa noite voltou a casa, achou Gonçalo signaes de grande reboliço, e deparou-se-lhe o capellão benzendo-se, e tartamudeando a nova da saída da fidalga, com os seus bahus para casa de seu pae. Suspeitoso de um attentado maior, tramou Gonçalo vigilante espionagem aos passos e designios da prima. Logo, na tarde do seguinte dia, soube que D. Maria das Dôres ia a Lisboa, com o projecto de tirar a filha do collegio.

N'essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas recommendações para debellar quaesquer ardis judiciarios da consorte, favorecida pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro.

Então se viu quanto sobreleva amor de pae a todas as affeições mesquinhas, que muitas vezes armam ciladas e quedas mortaes, d'onde não ha ahi erguer-se um homem para a honra.

Esqueceu-lhe, n'um momento, a Persini, que o esperava com a ceia, lardeada de convivas de sua estofa, e cavalheiros da tempera de Gonçalo. Nem chispa de saudade lhe vislumbrou na longa e fadigosa jornada. Anceava-se em Lisboa, e ante si não via senão a angelical figura de Maria Henriqueta extendendo-lhe os braços, como a pedir-lhe resgate do captiveiro que a mãe lhe queria infligir. Mal apeou do tressuado cavallo, que devorára leguas ao sabor do amo, foi Gonçalo cuidar de requerer intimação judicial á directora do collegio para não entregar a menina a sua mãe, sob qualquer pretexto, e com qualquer auctorisação. Conseguido isto, em que cifrava tudo, o carinhoso pae desfadigou-se em aturadas conversações com Maria Henriqueta, a qual viçava em formosura á competencia com os dons do espirito.

N'um d'aquelles dias, Gonçalo Malafaya, passando diante do palacio do conde de Miranda, recordou as noites venturosas que alli passára, e recolheu-se triste. Tristezas de coração, aos quarenta annos, se procedem de saudades da bemaventurança dos vinte, são golpes que rasgam fundo, e curam em falso, por não fecharem, digamo'-lo assim, cauterisados pelo ardor das lagrimas.

Ao outro dia, Gonçalo acordava com a imagem de Beatriz dos Anjos a esvaecer-se nos vapores de um sonho. Moribunda a tinha elle visto, e vozes de perdão lhe colhera dos labios balbuciantes em crispações da agonia; mas agonia de santa fôra a sua.

Deu-se pressa no caminho de Odivellas, e parou indeciso no pateo do convento, remirando as janellas onde entreviu rostos mimosos de buliçosas noviças, enquadrados na touca do habito. A madre porteira chamou o estarrecido cavalheiro, e perguntou-lhe se procurava alguem.

--Alguem desejava ver, minha senhora.

--Quem?

--Uma religiosa... Beatriz dos Anjos.

--Com os anjos está--disse a porteira.

--Morta?!--exclamou Gonçalo.

--Viva, eternamente viva para Deus... Era sua parenta, senhor?

Gonçalo apoiára-se no rebordo da parede, contiguo á roda, e, encostando a testa á pedra, chorou.

A freira compadecida aventurou-se a espreitar por uma fresta da meia-porta, e disse-lhe:

--Se quer descançar, eu peço ao sr. capellão que lhe dê um quarto na residencia.

--Agradecido, minha senhora. Eu vou-me já embora. Queira dizer-me: Beatriz morreu ha muitos mezes?

--Ha dezoito.

--Eu vi-a ha dois annos, e pareceu-me saudavel.

--Seria o senhor um cavalheiro que aqui veio ha dois annos?

--Fui, minha senhora.

--É do Porto?

--Sou do Porto.

--Pois vá com a Virgem; e peça a Deus que lhe perdôe o mal que veiu fazer á nossa desgraçada menina. Com sua licença.

A madre fechou hermeticamente as portadas, e Gonçalo, a passo incerto e vagaroso, saíu da alameda.

A dor era sincera, porque necessitava confessar-se, e carpir-se.

Lembrou-se da filha. Ai d'aquelles que soffrem e dizem: «Não ha quem me veja as lagrimas!»

Esporeou o cavallo, e descavalgou no collegio. Ia subindo as escadas, e ouviu grande alarido de vozes. Parou no primeiro patamar, encostado ao mainel. A mais aspera e aguda d'aquellas vozes era a de D. Maria das Dôres.

--Em que momento, meu Deus!--exclamou Gonçalo, com tamanha dor, como se o peito se abrisse para romper fóra o brado.

Em que momento! digamos nós. Ei'-lo a buscar um coração que lhe entenda as lagrimas vertidas por outro coração que a dor matára. E a mão terrivel da mysteriosa Providencia, conduz-lhe aos olhos, tumidos de lagrimas, a mulher que, n'aquelle instante, mais odiosa devia ser-lhe!

VI

Se bem que desalentado para a lucta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando á porta de uma sala, onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito silencio. Do grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em transporte de jubilo, aos braços do pae. Maria das Dôres tremia de ira como de frio, e mudou de côres até permanecer n'um amarello de greda, que era a sua usual expressão de extremo phrenesi.

--Que vem a ser isto?--disse Gonçalo serenamente.

A directora respondeu:

--Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dôres quer levar a menina, e a menina recusa ir. Eu disse á senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me não prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me opporia, ainda mesmo que a menina quizesse saír. A senhora irritou-se contra mim, dizendo-me insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que fidalgas os soubessem dizer. Estava agora s. ex.ª dizendo que ia buscar uma ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe que sem aqui vir o pae, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais nada. Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.

--Tenho resolvido--disse Gonçalo.--Minha filha continúa a estar aqui. A prima Maria das Dôres é uma creatura sem alma, nem sombra de juizo. Envergonhe-me e envergonhe-se á sua vontade; mas saiba que Maria Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens regias.

--Visto isto, eu nada valho?--disse Maria das Dôres em tom commovente.--Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas, a final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é verdade? Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz. Primo Gonçalo, folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar nem sequer a imagem de minha filha. É forçoso que eu viva em odio de todo o mundo, e que todo o mundo me seja odioso. Faça-se a vontade de Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria Henriqueta: ha de custar-me muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo que é mau e infame se consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha. Deixa-me olhar bem para ti; que é esta a ultima vez que te vejo. Tu amarás a minha memoria, quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguem houvesse misericordia das dores que lhe causa.

Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a mão, commovida. Apertou-a ao ceio com insolito estremecimento a mãe, e teve-a assim, até que as lagrimas saíram aos olhos de ambas. Quebraram-se os animos das senhoras hostis a Maria das Dôres. Movia o trance d'aquelle adeus. Era mãe e filha; e o só titulo de mãe quer-se respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratissimo d'elle foi delido com execrandas torpezas, que só de pensa'-las se doe e peja o coração. Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a creatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em abominações, que desconhecem feras, não fosse a ultima, a espantosa hediondez da materia, desaçamada em sua estupida fereza! Oh! quão triste é então o dizer-se «aquella mulher é mãe! Aquella innocente menina foi levada ao eterno desdouro, e eterno perdimento por aquell'outra mulher, que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania, que emancipas tua filha, quando lhe sondaste a força das garras, e da tua prêa já lhe fortaleceste as unhas frageis, quão mais benigna tu és!...

Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido do pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe compadecimento para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão. Tirava por elle com impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando á beira da mãe a esposa consternada, com mansas palavras, com perdões e amor.

Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento, mas resoluto. Compreendeu-o Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa a scena, menos de suspiros e soluços, que durez de alma seria se os circumstantes não se enternecessem.

--Prima Maria das Dôres--disse Gonçalo--seja este anjo que nos reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós pódes gosar?

Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.

Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria. Aos olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitavel. A reconciliação rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na dignidade de sua mulher.

Saíu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha, e estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa, resolveu residir na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido da Persini, que, áquella hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de um amante, cujos traços physionomicos, a custo, distinguia das feições dos successores. Chamava-lhe tragica a opinião publica; e a pobre Persini não era senão a comedia humana real e pessoalissima.

Pelo que respeita a Maria das Dôres, o seu esquivo anjo de condição benigna voltára a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em passeio ás suas inflammadas cavernas a pedir conselho ao chefe das legiões, infernaes, que enxameavam d'antes nas varas dos cevados da Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no seio das familias.

Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca monta. Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto seu natural lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas em educação. Muito lhe valeu isto para passatempo, e diversão de cuidados. O grande mal da sua condição estava no scismar sósinha, e devanear por desconfianças e zelos, quasi nunca injustos, diga-se a verdade secca e breve.

Gonçalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes, estava melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu em Odivellas. Sangrára pelas lagrimas o orgão que lhe era um aleijão sensivel, e a causa efficiente dos seus maiores desgostos domesticos. Quero pensar que Malafaya teria sido menos trabalhado de angustias, se fosse mais fiel marido, e menos insoffrido nos acommettimentos da ciosa esposa.

Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil taboa da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance especial, que eu vou dar pela summa.

Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O fidalgo ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o portuense; lembrou-se, porém, d'este galhardo despique, a tempo que Malafaya vinha em jornada para o Porto.

Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou em merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se já com um coração alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.

Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixão, a saude, e por ventura a esperança. A pertinacia de Athayde era digna de premio; mas, em geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita importunamente, são umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento dos logrados, e se lastimam do assedio que soffrem.

A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!--attrahi'-lo a confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de professar, se Gonçalo não voltasse.

E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão allucinada n'uma hora designára.

Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya, Beatriz entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.

Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas vezes resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos, e quasi extinctos os fogos sob o gêlo dos quarenta e dois annos, voltou á patria o fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando sempre a chaga de saudade como quem não queria morrer de outra.

Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de Beatriz dos Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da concentração, quer de velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o encarregava de vinga'-la. N'este presupposto, saíu á luz do dia o encanecido homem, que raros amigos tinham visto. Indagou da residencia do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as escadas em busca do inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno da edade média! Relance de melodrama, que seria muito de vêr no palco! Em 1799 era ja um desconcerto de juizo a tragica façanha!

Gonçalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D. Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de barbas brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.

--Francisco de Athayde, justamente--replicou o vingador ás delicadas duvidas do portuense.--Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778 vinte e tres annos.

--Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade--redarguiu Gonçalo.

--Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade dizer.

--Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto v. ex.ª me não disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho odio.

--Matou Beatriz dos Anjos.

Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de uma arvore de Cintra.

--O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?

Gonçalo balbuciou:

--Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como conforto a desgraçadas, o exemplo que ella dera.

--Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido por expiação d'aquella morte?

--Muito, sr. D. Francisco de Athayde.

--Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava paixões que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si, para sua esposa, para sua filha, para as glorias do tempo e para uma velhice agradavel e tranquilla.

--Erra v. ex.ª o seu juizo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e se'-lo-hei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer extranha a intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos, saber a sua missão?

--Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte. Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação das suas armas, e um braço, que póde com ellas.

--Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?

--Sim, senhor.

--É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite tres dias.

--Medito-a ha vinte e dois annos.

--E crê que o derramamento do nosso sangue será agradavel á doce alma de Beatriz dos Anjos?

--É.

--V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos perdoou-me.

--Eu não perdôo. A mim me vingo, se ella não quer vingar-se.

--Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso duello serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou indigno d'ella?

--Mostrará o que fôr de sua vontade.

--Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe enviar os meus juizes e testemunhas.

--Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a arma de sua escolha.

--Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do seu juizo.

--Ultraja-me?--bradou o Athayde em tremuras.

--Não quero ultraja'-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicidio a occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade. Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex.ª, na causa do desafio, e nas condições propostas.

--Em summa, não quer bater-se.

--Entenda-o assim, se lhe apraz.

--E sabe que desforra me fica?

--A do insulto publico.

--Estamos entendidos. Ver-nos-emos.

--Quando v. ex.ª queira.

Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha certeira ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no ataque. Gonçalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado de povo, que se acotovellava para escutar as razões da extranha briga de dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, ás reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a ventura passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.

Este successo turvou profundamente a paz que o pae de Maria Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as caricias da filha.