Chapter 2
Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava a esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonçalo:
--Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella é o ornamento da côrte e o modélo das fidalgas.
--Deixa'-la ser...--atalhou Maria--Que tenho eu com isso? Eu cá, visto, e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo; se o faz melhor, seu proveito. Por que não casaste com ella, primo?
--Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não casaste com o Magalhães de Amarante?
Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.
Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:
--Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?
A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de corrida ao encontro das senhoras que traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu friamente a graça.
Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda. Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer? Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa, reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?
A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel brandura o semblante do algoz.
E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas; mas o coração é livre»--n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar com ellas as dos deveres.
II
Casaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias. Era numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a felicitar os noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas familias, que continuavam uma varonia ininterrupta de cinco seculos. Diriam mais que já não havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco illustre dos Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam á sala dos retratos, e affirmavam que o bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abbadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro, e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade; porque o bispo fora um virtuoso prelado: a abbadessa morrera em cheiro de santidade; e o governador de Mombaça, se não morreu santo--que o governar na India era pouco azado molde para santos--era pelo menos esperto, consoante as chronicas o descrevem.
Não se persuada o leitor que lhe está imminente uma trovoada de escandalos e offensas á moral. O infortunio da vida intima de dois casados existe sem delictos, sem vergonhas nem aggravos, que resaltam em injurias ou insultos á dignidade humana, das janellas para a rua. O marido póde ser desditoso, sem deslustre de sua honra; a mulher póde ser má e intoleravel, sem enlamear sua fama para sacudir o stigma á face do marido.
Ha umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosa CARTA DE GUIA DE CASADOS, denomina _bravas_. É este o termo que friza a primor em D. Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim o citado philosopho:
«Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como ellas guardem a lei devida á honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem elles de soffrer quanto ellas quizerem que lhes soffram.»
E accrescenta:
«É este um mero engano, por duas razões; a primeira porque nada se lhes deve ás honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo e o medo as tem posto... A segunda...»
A segunda razão desconcerta com o nosso proposito. Abaste-nos saber que Maria das Dôres, ou porque não sentia o coração, ou porque lhe comprimia os impetos com a sua indole soberba, ou finalmente porque se revia e estimava na pureza de sua consciencia, é de todo o ponto averiguado que sobre sua memoria podem os panegyristas afoutamente encarecer-lhe a lealdade sem macula.
O mesmo quizera eu dizer de Gonçalo Malafaya; mas estão aqui ao meu lado os apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo certo que as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na historia.
Gonçalo era um homem amavel, cortezão, audacioso, e mestre em astucias, aprendidas «heroicamente» na côrte, que era ainda, com pequenas cambiantes, a mesma côrte de D. José I, successora da outra do nosso Luiz XIV. A piedade de D. Maria I influira nas festas de egreja, nas pompas do culto, e apenas se fizera reflectir na vida das salas. O impulso estava dado; a religiosidade da soberana seria inefficaz a empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinella inquisitorial não tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava de sangue.
Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em merito palaciano com Gonçalo Malafaya. Amavam-n'o as mulheres pelas graças e chistes da sua conversação, moldada sempre ás leis da cortezia e da elegante selecção das finezas. Prezavam-n'o os mancebos, dado que o invejassem, pelas lições de phrase, e de attitudes, e das mil insignificancias que n'uma sala completam o homem de primor. Os velhos fidalgos, que, em Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto seria assombro da côrte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de indole tão prestante, como a de Gonçalo, para se affeiçoar aos grandes e raros modelos, que, na capital, mantinham as tradições do bom seculo. O bom seculo dos velhos é sempre o seculo em que elles foram rapazes, amados e requestados das meninas coevas, as quaes, ao mesmo tempo, estão lamentando, do alto dos seus setenta annos, a baixa condição em que a humanidade se vae degenerando.
No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caçadas, bailes e folguedos, quem diria as amarguras escondidas n'aquella alma? Sobre a ferida da infinita saudade d'aquella filha do conde, suspirosa sempre d'elle e votada ao claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das Dôres lhe espremia! Hora de paz uma só lhe não dava em casa a esposa. Não era o coração alanceado por ciumes, que sacudia a farpa; era já a phantasia engrandecendo o ultrage para dar vulto ás queixas. Na vida intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas para materia da accusação tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse tristeza taciturna, quer se expandisse em simuladas alegrias. Se melancolico, era o fastio d'ella que o entristecia; se alegre, eram as noticias da filha do conde que tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspecto de tão má sombra, que, por contagio, diffundia tristeza em todas as physionomias, e mandava tirar a sege, quando o marido se mostrava mais empenhado no jogo, na dança ou na conversação. Em casa, compendiava os artigos do libello accusatorio, em que muitas vezes eram calumniadas senhoras innocentes, e intenções de mera cortezia. Explicações eram exasperar-lhe a sanha; o silencio era confirmação de suspeitas; um sorriso em resposta era redobrar o ultrage pelo escarneo; um gesto desabrido, uma ameaça á justiça do queixume. Quando os pretextos se demoravam na phantasia fatigada de crea'-los, Maria das Dôres lançava mão de creancices. Deixava cair de proposito uma porcellana, e gritava contra o marido que a tinha mudado do seu local costumado. Gonçalo tinha dois partidos a seguir; ou confirmava com o silencio a falsidade, e então o despeito recrescia com o supposto desprezo; ou a contestava com acrimonia, e então sobrevinham altercações, que por parte d'ella, terminavam em syncopes de raiva.
Gonçalo recolhia regularmente á meia noite, e achava a esposa a passear na antecamara, assoprando ás mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava. Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era um descomposto aranzel de invectivas contra elle e contra as familias que lhe tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir aos saraus. Maria das Dôres, á terceira noite de dolorosa abstenção, perguntou-lhe se elle ficava em casa para dormir ao fogão, e se casára com ella para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo aos habitos antigos, e conformou-se com a dura pena de adormecer embalado pelos convicios revelhos e repisados, os mesmos sempre na phrase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrivel de quantas ha!
Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.
N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espirito em algum ameno remanso.
Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta. Ácerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete mezes já tinham disputado, antes d'ella nascer. Claro é que argumentaram em hypothese até ao nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasse _Ruy_, á semelhança de seu vigesimo segundo avô; sendo menina, _Maria_, porque nos ultimos quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia se chamavam Marias. Gonçalo desejava que fosse _Heitor_, sendo rapaz, e _Beatriz_, ou _Mafalda_, na outra hypothese.
Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.
As formosuras que deu aos anjos a escola christã, vertendo á tela as côres e os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos oitos annos de edade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancolica e meiga, sem abrir nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava que, alguma hora, as azas de anjo lhe implumariam as espádoas, e ella as desferiria em vôo para Deus, que a mandára á terra a mostrar que bellezas povoam a bemaventurança, e como as almas lá andam vestidas.
Bem pudéra aquella pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo seria a magua de não ter o condão de conciliar seus paes. Póde ser que as caricias fossem poucas no berço, e á mingua d'ellas, a menina crescesse como orphanada de coração, e sedenta das meiguices, que ella andava mendigando a troco das suas.
Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e ás estrondosas disputações dos dois, em competencia de phrenesis! Quantas vezes a sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o somno, afugentado pelo medo dos berros e das visagens da mãe!
Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dôres, á falta de outros peguilhos, até das muitas caricias do pae á menina tirava assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de mais; outras, por atordoa'-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes, porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pae, afinal, largava de enfadado a creança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados, como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais innocentes gosos.
O amor de Maria das Dôres á filha tinha accessos de doudice. Acontecia arrancar-lh'a dos braços a ama, quando receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia do seio para o regaço, lhe tolhessem a creança. A menina ganhára á mãe uns medos taes, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos, algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a innocente cada vez mais assustadiça. Com o pae era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, corria-lhe aos braços, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar, e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céo! Se Deus te désse então as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes os reparos de Maria das Dôres, que desfechavam em disparates de louco ciume, e declamações contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a creança, talvez com malicioso prazer; mas cara lhe saía a malicia, que ouvia improperios sem conta nem medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.
Fez Maria nove annos, e já sobejavam luzes de razão para ver sua mãe, e compara'-la, sem poder confundi'-la, com as outras senhoras. Sentia já uns toques de compaixão, quando via o pae injustamente accusado, e devorado de impaciencias, tanto mais dilacerantes quanto a prudencia as afoga nas lagrimas intimas. Alguma vez ousou a menina pedir á mãe que cessasse de mortificar o pae e humildemente offerecia o rosto á bofetada que lhe vinha em retorno da supplica. E nem assim Maria se queixava ao extremoso pae. Escondia-se a chorar no seio da sua ama, a quem ella muito de alma chamava mãe e pedia amparo nas occasiões em que a irritabilidade de Maria das Dôres recrudescia contra quanto a rodeava, ou lhe fugia ás sanhas.
Avisado miudamente pela ama, que afinal fôra expulsa, determinou Gonçalo Malafaya mandar educar sua filha n'um collegio inglez em Lisboa, não tanto para prende'-la, como para subtrai'-la á mãe. Fôra plano d'elle chamar mestres a casa, uns nacionaes, e outros extrangeiros, que era esse o usual systema da fidalguia d'estes reinos; mas o pobre homem, levando a filha ao collegio, sobre aparta'-la dos rigores da mãe, poupava-se a augmentar em casa as testemunhas do seu desgraçado viver, que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes deviam ser muitos, se andassem á caprichosa escolha de sua mulher. Disse elle timidamente o seu intento a Maria das Dôres. Ocioso é dizer que foi contrariado com estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para querellas de algumas semanas. Gonçalo, feito o seu proposito, cogitou em machinar traças para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a saír-se bem com o seu louvavel intento. O que elle queria evitar era o ruido do facto, e a precisão de explicar, em abono seu, os precedentes que o motivaram.
A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonçalo; e este por vaidade ou por interesse de cousas menos louvaveis da sua vida exterior punha todo o seu cuidado em desmentir ou affrouxar a curiosidade publica, sempre em ancias de escandalos, para dessedentar-se das sequidões da vida quotidiana.
Um successo, apparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de Gonçalo. Os paes de Maria das Dôres tinham ido a vindimas ao Alto-Douro, e ali adoeceu mortalmente a mãe. Vieram apressados portadores com liteira a buscar a filha, por quem a moribunda chamava com incessantes brados. A tempo isto foi que Maria Henriqueta estava de cama com leve mas febril doença. Sua mãe ainda tentou leva'-la, se bem que não desconfiada da alegria occulta no animo do marido; mas os medicos contravieram ao desarrasoado desejo. Saíu Maria das Dôres a assistir á agonia de sua mãe, que foi demorada, e por lá se deteve até ás honras da sepultura, uns trinta dias.
Entretanto, a menina convalesceu, parece que só da alegria de se ver convalescer nos braços do pae, com a ama querida ao seu lado. Gonçalo fizera chamar a ama para ser no collegio a aia da filha. Deu-se pressa na partida para Lisboa, e deixou aos paes o encargo de aquietar as iras da esposa, quando ella voltasse do Douro.
Então contou Gonçalo a seu pae as miudas scenas de sua desgraça. Carecia este de sensibilidade para receber a revelação como castigo. Chegada a sua vez de falar, o velho contou ao filho a longa historia de seus proprios infortunios, soffridos uns com desprezo, outros com paciencia, e todos na certeza de que não ha ninguem feliz. Caíu-lhe a proposito contar uma arrastada historia de um rei poderoso da Asia que mandára chamar ao fim do mundo um philosopho para que este lhe resuscitasse um amigo, e que o philosopho promettera dar vida ao morto, tirando a concerto que o rei mandaria escrever no tumulo o nome de um homem de trinta annos que nunca soffresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal homem em todo o mundo; e como o não achassem os enviados, o morto continuou a dormir o seu somno eterno, e o rei mandou o philosopho para a sua terra.
Ouviu Gonçalo o conto, e despediu-se do pae, promettendo dar a sua filha a felicidade que perdera por obediencia, podendo ser ditoso com a mulher, que a sua alma escolhera.
--E os vinculos de Freijoim e Aguas Santas!--replicou triumphantemente o velho.
III
Estava ainda no Douro Maria das Dôres, quando recebeu o inesperado golpe em uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e outra, não menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então comprehendeu ella o silencio de Gonçalo, tendo-lhe ella escripto para o Porto duas cartas, uma queixando-se de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os paroxismos; outra, raivosa, por ter escripto duas, sem receber, sequer, resposta da primeira. Aquelle _sequer_ denota que a snr.ª D. Maria das Dôres queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde póde chegar o mau genio!
Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a despeito da vontade d'ella, a casára com o primo. O velho ouviu os clamores, e disse:--«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me soffreu a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando n'este mundo!... Eu casei por honra da familia, e para me forrar a questões de vinculos e direitos de successão, que meu sogro podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem é que não soffre n'este valle de lagrimas, Maria?»
Não sei se Christovão Azinheiro tambem sabia a historia do rei que mandou chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e esta, sem lhe dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciencia tinha limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe disse afinal:--«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na familia, o snr. bispo de Leiria, e a snr.ª dona abbadessa de Lorvão.»
Maria das Dôres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu a estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas das conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que tinham apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.
Abriram-se as portarias á bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.
--Vieste ver-nos, pomba;--disseram as tias, convulsivas de jubilo e de velhice.
--Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.
--Como assim? Tu queres tornar para o convento?
--Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e morrer n'elle, se me deixarem. Meu marido fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha n'este mundo. Casaram-me á força, e agora querem á força matar-me. Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde vivi os annos felizes da minha infancia, e á sombra de minhas tias, que me não tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da minha riqueza tirarei sómente os alimentos necessarios. Sou rica do que é meu; se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.
--Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas--Isto não sei o que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de ciume!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos Pita-Rellas?
--Foi minha mãe que morreu--atalhou Maria das Dôres limpando uma lagrima espremida pela raiva no afôgo declamatorio.
Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro. Confluiram todas as religiosas á cella, e cada uma garganteou o mais plangente que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de solla, a receber os pesames e as visitas nocturnas.