Estrellas Funestas

Chapter 12

Chapter 123,927 wordsPublic domain

«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha dias com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da terra, cujo avô foi creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo pae pirateou na Africa, se não mentem as chronicas dos visinhos. Não me parece que caiba odio em coração tão cheio de amor á bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas descuidado. Aquella cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem existir

Ferro, veneno, vibora traidora Cartas da mão de Machivello escriptas,

como diz o Tolentino no soneto.

«Precavém-te sempre, meu Filippe.»

Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as cautelas, afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.

Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo, jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.

No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do leito.

Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»

Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime, comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida pelo doente.

Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos desditosos de Hespanha.

Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. Era abril, e queria vêr as _Rosas-lindas_, o florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as serras, quando Maria disse:--Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.

Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.

Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta distancia.

Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da cidade.

--Este sitio--disse Filippe--tem uma belleza terrivel. Eu gostei sempre muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com que se póde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.

--Vamos depressa, Filippe, dá de esporas ao cavallo--disse ella vibrando a chibata na anca de ambos os cavallos.

--Assustei-te com as minha apprehensões?--accudiu Filippe--Tolinha, vai devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os rouxinoes como cantam lá em baixo nas margens do rio... São acções de graças Deus. Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...

Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de arvores. Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.

Filippe inclinou o peito sobre o pescoço do cavallo que se ergueu de frente, espavorido pelo estrondo.

--Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois passos para o marido, que fincára os braços no pescoço do cavallo. Extendeu-lhe ella os seus, invocando-o com uma voz que era já um como derradeiro grito. Caíu fulminada a tempo que o cadaver de Filippe resvalava aos braços do lacaio.

Oh! não vos dizia eu, leitores?

_Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da leitora, que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes de lançar de mim com asco estes apontamentos._

E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:

«Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.

O desgraçado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de passeio com sua mulher».

Quão pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S. Lazaro! outras informações de mais recordados amigos de Filippe, e papeis que se desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o meu espirito até á catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.

A catastrophe? Ainda não. A justiça de Deus é uma a justiça do mundo é outra.

VI

O cadaver de Filippe foi n'uma maca para Segovia. O quasi cadaver de Maria Henriqueta foi transportado em braços.

A viuva não ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clerigos ao levantarem o esquife, nem os responsos na egreja proxima.

Onde estava a alma d'aquella mulher, que não se assignalava nos sentidos externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no céo, ou voltaria ao supplicio do corpo?

Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ella se recordava que tivera um marido, um marido amado, um esteio unico, e para sempre quebrado, na sua vida, alli assassinado ao fechar de um dia que ella dissera o mais completamente feliz da sua vida!

Viram-n'a, ao fim de tres dias, saltar do leito aos braços das senhoras, e exclamar:

--Filippe! Filippe! o seu corpo ao menos, deixem-me ve'-lo uma só vez.

Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providencia lhe não destina alguma missão espantosa, vesti esse cadaver d'uma mortalha, e dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias ditosas do tumulo, piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o ardor de vossos beijos e de vossos prantos!

Deixae-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braços, que ella de per si se erguerá e clamará:

--Estou viva: deixae passar a viuva do assassinado! O sangue que elle derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no coração. Deixae-me e vereis se eu era digna d'elle!

Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As idéas embaralhavam-se desconcertadas; mas eram idéas do passado, do presente e do futuro. Pediu, instantemente, com as mãos erguidas, que a levassem á campa de seu marido.

--Deixem-n'a ir--disse o alcaide--e seja já. Vamos com ella. Quanto mais cedo rebentarem as lagrimas, mais depressa nos voltará a razão da infeliz.

Foi aberta a egreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe indicaram. Debruçou-se até collar os labios na lagem. Disse uma palavra, uma só, e nenhuma lagrima verteu.

Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.

--Mas não chorou!--disseram as consternadas senhoras.

--Ha de chorar--respondeu o pae.

N'essa mesma noite, disse Maria:

--Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.

As senhoras encararam-se indecisas, e o pae murmurou:

--Mostrem-lh'a.

Junto com o casaco de castorina amellada, vinha uma camisa cortada de laivos de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:

--É minha: guarda'la-hei.

E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de demencia.

--Mas não chora!--diziam as meninas, em segredo, a seu pae.

--Se não chora, morre.

No dia seguinte, chegou D. Maria das Dôres, chamada a Segovia por um creado do alcaide, que partira horas depois do assassinio.

A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da mãe; viu-a chorar e soluçar; ouviu-lhe as exclamações ora piedosas, ora colericas; tudo viu e ouviu impassivel.

--Iremos ámanhã--disse ella á mãe.

--Se pódes, vamos, minha filha!--respondeu Maria das Dôres, pensando que o afasta'-la d'alli era um passo para salva'-la.

Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:

--Até á eternidade!

Entrou n'uma liteira, com sua mãe.

Perguntou-lhe Maria das Dôres que levava ella enrolado debaixo do braço.

--É o sangue de meu marido--respondeu.

Tinha dito o alcaide a D. Maria:

--Excite-lhe as lagrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo energico, seja qual fôr. Accenda-lhe o furor do odio ao assassino. Para esse eu lhe darei um espectaculo no caminho.

Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dôres ouviu ler as cartas, concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Monção.

--Eu já li essas cartas--disse Maria.--Sei tudo.

Entravam na provincia de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta n'uma chan, e parou a liteira, embargado o caminho.

Maria via tudo indifferente.

Chegou o alcaide á portinhola da liteira, e disse:

--Sr.ª D. Maria Henriqueta, eu vingo Filippe tanto quanto posso.

Approximou-se do commandante da escolta, e exclamou:

--Póde seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues á minha guarda. Maria olhava e parecia não compreender.

Os cavallarias ladearam a liteira e passaram ávante, dando o passo a soldados de pé, que alinharam em frente da liteira.

--Justiça de Hespanha!--disse o alcaide.--De joelhos, assassinos de Filippe Osorio! Ha-de pesar-vos na consciencia mais o ferro que o ouro do conde de Monção. Depressa, em quanto eu não ponho a tormentos estes infames; depressa, rapazes!

Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta; o vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos cadaveres passára com o fumo da polvora.

O alcaide avisinhou-se da liteira, e disse com risonho aspecto:

--É incompleta a vingança: mas não está mais em minha mão.

E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:

--O resto... eu!

Os liteireiros afastaram com o pé os cadaveres do caminho, e o prestito caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos aturdidos pelo incidente.

Ao decimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.

Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou por seu pae, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e sacramentado. Entrou na camara, que já espirava o fetido tábido da morte. Approximou-se do leito, ajoelhou, e disse:

--Venho a tempo de lhe pedir perdão, meu pae.

O velho fez um gesto de indignação.

Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.

--Em nome d'este sangue lhe peço perdão.

--Sangue!--exclamou o velho.

--Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era innocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.

Gonçalo quiz sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e balbuciou:

--Perdôa-me tu, perdôa-me tu, desgraçada!...

E continuava a querer aperta'-la entre os braços convulsos, quando a face, pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim instantes. Eram os ultimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e os dedos recurvaram-se um pouco.

Maria retirou a cabeça humida do sôro que corria dos cantos dos beiços do defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:

--Perdôo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu fôr á vossa presença!

No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes do palacio de Gonçalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas de D. Maria das Dôres poderam apenas saber que a viuva tinha saído á meia noite acompanhada de um lacaio.

Assim fôra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel creado de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram no Porto.

D. Maria das Dôres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a filha respondia-lhe:

--Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em signal de compaixão das minhas infernaes penas.

Só a violencia podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na á fidalga os familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.

Maria Henriqueta saíu.

E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte atravessou o Tejo, e foi caminho de Extremoz.

Correm rapidas estas scenas, porque Maria não murmurava mais palavras que as urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias eram os mesmos; brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos quando caíam de fadiga os outros. Os viandantes que a encontravam entre nuvens de pó, diziam: «Que extravagante mulher! É alguma fidalga, que não sabe como hade consumir o vigor dos annos, espicaçados pela riqueza!»

Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra auréola, e paravam a comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas estalagens, ou alugavam cavallos nas grandes povoações. Em algumas estalagens, os passageiros curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao lacaio: «Que tem sua ama, que soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»

A duas leguas áquem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que anoitecesse para entrar na cidade.

Ao caír da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:

«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber n'uma egreja um sr. conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da provincia. Estava muito povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na egreja. Saíram os casados já recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a noiva era mesmo um palmito, com tantos brilhantes como as estrellas do céo. E vae n'isto, quando o conde ia a dar a mão á noiva para entrar no coche, um homem que eu não cheguei a ver, mas que me disseram que era já avelhado, chega ao pé do conde cara a cara, diz-lhe não sei que, e enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!»

Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a attenção de todos, para o repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram. Movera-se o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella abriu a porta, e perguntou:

--E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?

--Ninguem lá soube dizer quem era, fidalga!

--Prenderam-no?

--Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quiz ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava á beira. Uns diziam que era mandado por outro que queria casar com a menina; outros contavam lá a cousa como queriam; o caso é que ao certo ninguem sabe dizer quem é. Ámanhã é que pelas perguntas se ha de saber.

Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar, soube que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Monção.

Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem curiosa de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a perguntas em casa do juiz de fóra. Foi Maria a casa do juiz de fóra, e conseguiu entrar até ao salão de espera. Era prohibido o accesso ao gabinete do ministro, onde estava o interrogado.

Esperou que elle saísse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o seu amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca para exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em gesto de silencio.

Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessára quem era, e a causa por que praticára o homicidio, mostrando suprema coragem para morrer, vingado o amo, que ás ordens do conde fôra assassinado.

Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa, alinhavada ao uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com o preso, que era seu irmão. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O preso, ao ve'-la, lançou-se-lhe a chorar aos pés, e disse:

--Perdôe-me v. ex.ª...

Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a voz, disse:

--Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?

--Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era espera'-la e guia'-la na sua vingança; mas n'aquelle momento em que o maldito saía da egreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé d'elle, e disse-lhe: «Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio» e matei-o a facadas. Estou contente, palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem quando tiverem occasião, que eu cá fiz trinta annos á justa ha mais de vinte. Não podia empregar melhor a vida!

--Não has-de ser enforcado, João--disse Maria.

Hei-de salvar-te; irás d'aqui para Hespanha.

--Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; não vale a pena andar a minha ama n'esses arranjos, sem geito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e deixe-me cá com a minha consciencia, que estamos de boas avenças, eu e mais ella, assim me Deus salve a minha alma.

--Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Vêr-me-has mais vezes.

Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, já tinha voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dôres. Resava assim o periodo final:

«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria para o resgate de sua filha. É a minha vida que salva da forca. As suas joias valiam mil cruzados: dê-m'as, que eu não quero mais nada da herança de meus paes, senão uma mortalha, e um tumulo para os ossos de meu marido e para os meus.»

Á quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com o carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que o sustentavam. N'um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural de senhora, e disse-lhe:

--Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com o preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fóra de Portugal. Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher que lhe dá, passados alguns dias, quinze mil cruzados.

O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:

--Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.

--Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento. Aceite a independencia onde a quizer gosar. Que responde?

--Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...

--Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que dará a ambos completa segurança, e passagem para o exercito francez, se a quizerem.

O carcereiro annuiu, sem grandes oscillações de consciencia. Esperava Maria a resposta de sua mãe com anciedade. Ao fim de sete dias chegou o mordomo, a quem D. Maria das Dôres confiára dinheiro excedente ao valor das joias.

O carcereiro foi chamado á sua presença, e viu o dinheiro.

--Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não serem conhecidos. Aqui recebe vocemecê o dinheiro, e elle uma carta. Depois, sigam o caminho mais seguro que tiverem.

--Eu sei os atalhos aos palmos até á fronteira--disse o carcereiro.

Ás onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro, dizendo que o juiz de fóra mandava remover da prisão commum o preso matador do conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o destino do infeliz.

Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das sentinellas, que o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.

Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o creado entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o vingador de seu marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu basto dinheiro ao amigo, e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo beijou-lhe as mãos, banhou-lh'as de lagrimas, e partiram.

--Não tenho mais que fazer aqui--disse Maria Henriqueta.

E, n'essa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.

O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a flamma da vingança, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No caminho, succumbira muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.

Entrou em casa de sua mãe, e disse:

--Agora venho pedir a mortalha.

Rodearam-na as consolações frivolas, e o maravilhoso da vingança que lhe attribuiam os já sabidos na morte tragica do conde.

--O creado fiel--dizia ella á mãe--não me deixou cumprir a promessa que fiz sobre a sepultura de meu marido. VINGAR-TE-HEI, disse eu; mas eram tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue do algoz! Agora, Deus que me julgue!

CONCLUSÃO

UMA CARTA

Fiz quanto pude em serviço do seu romance, e obtive o essencial da sua incumbencia, posto que o esquecimento de pessoas desgraçadas é uma das muitas corcundas do aleijado genero humano, se não é antes providencial o esquecimento para que cada homem, cada infeliz, digo, cuide egoistamente de si.

Passo sem mais preambulos, a dar-lhe conta do meu encargo.

Maria Henriqueta Osorio da Fonseca viveu cinco mezes em companhia de D. Maria das Dôres. Disse-me alguem que ella nunca saía do seu quarto, nem recebera n'elle pessoas, senão sua mãe e a ama, que a creára. N'este espaço de cinco mezes, quizera ella chamar ao Porto os ossos de seu marido; porém, o alcaide respondeu que as carnes vestiam ainda os ossos. Não alcancei a rasão por que Maria Henriqueta, no fim d'aquelle tempo, se recolheu a Arouca e ao quarto onde residia, quando Filippe Osorio a foi buscar. Soube que ella, emquanto as forças a deixaram, ia todos os dias ao muro, onde ficava a olhar largo tempo para o galho da arvore a que subira Filippe.

A final faleceram-lhe as forças para estas saidas, e pouco tempo desejou te'-las, porque morreu, dois mezes depois da sua entrada no mosteiro. Jaz enterrada na claustra de Arouca, sem epitaphio, nem data do nascimento ou morte.

D. Maria das Dôres viveu ainda doze annos, se não contente, com apparencias de resignada. Para o fim da vida foi muito devota e esmoler. Jaz no seu jazigo, em uma capellinha da cathedral.

Eugenia morreu em Arouca nos braços de Maria Henriqueta, a quem estava decretado que todos os golpes lhe acertassem no coração já moribundo.