Estrellas Funestas

Chapter 11

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N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua ama, uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha.

Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia n'uma perna.

IV

A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio obrigatorio.

D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.

Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?

Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita.

Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas dilatar a prova com os estorvos, que a justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em ludibrio por sentinas douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a legalidade do matrimonio de sua filha allegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abbade, e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, por odio inveterado á familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima, fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua integridade.

Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando a piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das manchas. Os juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a legalidade canonica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventára a deshonra como remedio aos despeitos de um pae. Faltava o recurso de superiores instancias. Foram para a supplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentença final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos, para com os amigos dos cabedaes:--desculpem a safada elegancia d'este trocadilho.

Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á final sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na supplicação e baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde principiára. Assim se explica a premeditação de Maria das Dôres na fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da Foz.

Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e absolvido, com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia matando, pedaço a pedaço.

Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro, velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o berço da _civilisação dos costumes_, má civilisação, que é o synonymo de _extrema liberdade_, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante os ultimos trinta annos do seu antigo proprietario, se fizeram romances praticos de alta moralidade, os quaes é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das scenas lá passadas, a mais simples de todas é a seguinte:

Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incommodado do coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.

Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que era marido legitimo de D. Maria Henriqueta.

Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No doutor era susto; e o susto não deshonra ninguem, mórmente quando o assustado se defronta com os trinta annos de um homem de grandes barbas e possante estatura.

Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para o doutor.

--Quero ver minha mulher--disse Filippe.

--Parece-me que a lei se oppõe--disse o doutor--em quanto v. s.ª tiver pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu casamento.

--Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.

--Então queira requerer a juiz competente.

--Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do recolhimento por minha mulher.

--Isso é impossivel, senhor!

--Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo, affirmo-lhe que poucas cousas haverá tão faceis!...

Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O doutor abriu a bocca e regougou:

--Oh!

Mas este _oh_ foi surdo como um rugido intestinal.

Filippe cruzou os braços, e disse:

--No que fica?

O provedor refez-se de animo, e respondeu:

--Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?

--O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de maximas. Eu não posso demorar-me.

--E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?

--Veja esta certidão.

João Pedro leu attentamente, e disse:

--Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?

--Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa filha.

--Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe darei a resposta.

--Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. s.ª basta.

Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.

Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e esperou impaciente a resposta.

Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a filha, esperando-o. A esposa enfiou por entre as rêxas os braços, que difficilmente passavam.

--Que mudada estás!--exclamou Filippe.--Que maceração de rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!

Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica de sua mulher!

Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!

--Falta-me a filhinha!--dizia Filippe--Onde está o nosso anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios de Deus?

Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas, defronte, e em roda do carcere da esposa.

A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da primeira. Copiemos dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda a que os devo:

«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.[4]

«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e um sorriso de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»

Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.

Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:

«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de um punhal.

«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.

«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.

«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente ir pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.

--Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.--Que dirá o mundo?--Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por commiseração com a fugitiva.»

A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois creados de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e saltou para as andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois creados na terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu açodada a cavalgata, caminho de Villa do Conde.

D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica vingança, e disse:

--A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.

Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:

--Maldita sejas tu!

--O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre impenitente, homem tres vezes abominavel!

V

Na descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a felicidade é grande a penuria de phrases: parece que as linguas são pobres do que é tão pouco e passageiro na humanidade!

Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com receio de me perder em nevoentas chimeras; ou--di'-lo-hei com quanta sinceridade posso--o descostume de a sentir estragou-me a palheta com cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.

Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas condolentes cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára filhos. Abalaram de Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas leguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e d'alli passaram para a quinta, onde os attraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais tranquillo e desassustado.

Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-a _Rosalinda_. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do coração não podiam ser duradouras.

Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.

Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:

--Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.

Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e velados pela guarda de tantos amigos.

Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.

As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que elle denominava _D. Francisco de Athayde_, exclamando: _Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou!_ N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação da legitimidade do casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.

Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.

Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:

--Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção, d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrella.

Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal podia era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residencia temporaria em Segovia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem d'alli a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ella a sua inteira seguridade na Italia; era para lá que a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do marido. Tinha elle annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a traziam em permanente sobre-salto.

Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo ao alcaide, sem esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado fidalgo hespanhol as rigorosas vigilancias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inuteis foram todas no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.

Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e as averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.

Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta de Filippe Osorio: