Chapter 10
Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso mesmo, das suas!
Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos phrenesis da sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedencia á vontade da mãe, e aos conselhos do esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia romove'-la, por que fôra elle quem apresentára ao senhor provedor o mandado do deposito.
Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse profunda aversão á regente.
Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a redempção.
Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!
O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.
Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!
Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.
Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a nossa filha.»
Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no recolhimento[1], dizem singelamente:
«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.--Falta-me um pedaço de minha alma!--gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e dissera:--Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»
Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado--dizia elle--a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»
E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava sepultada! Qual outro coração se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!
E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»
Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas horas a infausta nova.
Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.
Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa cedeu ao primeiro accesso de febre.
Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!
Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.
A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as ambas desabridamente.
Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, delirou em corridas de uma a outra extrema da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original n'aquella casa de humillimas victimas.
Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:
--Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.
A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:
--Por onde fugiremos nós, minha senhora?!
--Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?
--Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir d'estas paredes, que nem janellas teem.
Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta por extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo com ella.
Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás melhoradas novas.
De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado a _ministra_, por onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria respondia sempre vencedora.
Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo de Maria Henriqueta.
III
É parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o successo mais fielmente lhe dará as côres:
«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.
«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa impraticavel o poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pela _ministra_.
«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro, se ajuntava no refeitorio.
«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e do ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.
«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.
«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da egreja, e saíram.
«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio, e as portinholas da _ministra_ tambem abertas.
«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.
«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.
«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para deliberarem.
«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.
«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,[2] e reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.
«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, seriam onze horas...»
Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga, vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as menores.
Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho que descia da rua do Sol.
No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.
Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.
Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois nocturnos.
--Vocemecês--disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos das presas--hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que levam.
Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.
Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.
Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.
Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma carta de que foi portador o proprio funccionario.
Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.
Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado aspecto, e disse colerico:
--Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã. Eu me encarrego de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.
Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria Henriqueta um insulto de nervos.
--Foi entregar a carta ao algoz!--exclamava ella:--Agora é que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de meu pae!
--Não tem remedio senão espera'-las--Disse friamente o aguazil-mór.
--Não tenho remedio?!--bradou Maria--Tenho o remedio que dá a desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!
O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos pés da desgraça.
De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera o guarda-portão impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.
Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fóra do quarto.
Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a encontrar-se com a filha.
A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da fidalga era ter o _vil esbirro_ (amabilidade que muito offendeu o almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguçando.
Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé, pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.
D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á filha, exclamando:
--De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice, se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!
Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e vindicativa senhora.
Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:
«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.
«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas de populaça!
«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.
«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.
«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia.
«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o da caridade, foi a victima expiatoria, _para exemplo das outras_, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.
«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia; mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou estava morta.
«Deu signaes de vida.
«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de Castilho.[3] Foram estas duas irmãs lavadas em lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.
«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos passados, ella amava com o coração de um anjo.»
Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphãs, e de educação social e religiosa para pensionistas, convém que se descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia.
D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.