Estrellas Funestas

Chapter 1

Chapter 13,915 wordsPublic domain

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OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

L

ESTRELLAS FUNESTAS

VOLUMES PUBLICADOS

N.º 1--Coisas espantosas. N.º 2--As tres irmans. N.º 3--A engeitada. N.º 4--Doze casamentos felizes. N.º 5--O esqueleto. N.º 6--O bem e o mal. N.º 7--O senhor do Paço de Ninães. N.º 8--Anathema. N.º 9--A mulher fatal. N.º 10--Cavar em ruinas. N.os 11 e 12--Correspondencia epistolar N.º 13--Divindade de Jesus. N.º 14--A doida do Candal. N.º 15--Duas horas de leitura. N.º 16--Fanny. N.os 17, 18 e 19--Novellas do Minho. N.os 20 e 21--Horas de paz. N.º 22--Agulha em palheiro. N.º 23--O olho de vidro. N.º 24--Annos de prosa. N.º 25--Os brilhantes do brasileiro. N.º 26--A bruxa do Monte-Cordova. N.º 27--Carlota Angela. N.º 28--Quatro horas innocentes. N.º 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico! N.º 30--A filha do Doutor Negro. N.º 31--Estrellas propicias. N.º 32--A filha do regicida. N.os 33 e 34--O demonio do ouro. N.º 35--O regicida. N.º 36--A filha do arcediago. N.º 37--A neta do arcediago. N.º 38--Delictos da Mocidade. N.º 39--Onde está a felicidade? N.º 40--Um homem de brios. N.º 41--Memorias de Guilherme do Amaral. N.os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. N.os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. N.os 47 e 48--O judeu. N.º 49--Duas épocas da vida. N.º 50--Estrellas funestas.

ESTRELLAS

FUNESTAS

QUINTA EDIÇÃO

1906 PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação Movidas a electricidade _Rua Augusta--44 a 54_ LISBOA

1906 OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO Movidas a electricidade *Da Parceria Antonio Maria Pereira* _Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º andar_ LISBOA

A QUEM LER

Venho já a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas não é esta a primeira vez que meus actos, invenções e palavras me desgostam, embora extranhos applaudam uns e outras.

Tem uma certa graça, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que não tem é verdade, verdade moral, acommodada á minha philosophia.

No romance que publiquei, intitulado AS TRES IRMÃS, rematei dizendo que não ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem é o responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas acções, das quaes lhe advém o socego ou a inquietação, a dita ou a desdita, a publica estima ou a desprezadora abominação.

Quem tal crê e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou funestas, como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar superstição.

O titulo, pois, tem muito com a fórma, e pouquissimo ou nada com a substancia d'esta novella. Quem não quizer chamar-lhe ESTRELLAS FUNESTAS, emende para os MAUS CAMINHOS DA DESGRAÇA, ou outro titulo de seu sabor, que eu de tudo me contento, se o não denominarem INVENÇÕES DO AUCTOR.

Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais, estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para onde os afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam em si, outras, menos em si, e muito em seus antepassados.

Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera as notas, a dar á estampa successos, que a bem merecem, por serem de lição a infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mãos abertos. Para me expôr á somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo não poder mudar localidades, que então lá se ia abaixo, na rampa das chamadas conveniencias, o timbre da verdade historica, a côr, a essencia, o melhor das obras de arte.

Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem o sendal com que lhes quiz encobrir algumas feições da verdade, e as divulgarem a seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro, offensor de cinzas illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os fecha para não ver os peccados de seus avós, contentando-se com ve'-los retratados na lona, e ennobrecidos nos bens herdados.

Dou-me pressa em destruir prevenções. Varram de sua idéa a perspectiva de que eu vá quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas, chamando a juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram esperando a volta do espirito para o supremo dia. Longe d'isso. Tenho escassamente uma pobre penna de historiador; são leveiras de mais as minhas mãos para sustentarem a balança dos julgamentos, cujo fiel, para obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na cenosidade dos vicios.

Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis á religião dos tumulos. Hão de ir comigo ao longo de um salão, em cujas paredes, sob profundos tectos de castanho armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos como a philaucía, outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa contemplação. As arrogantes effigies, ao cabo de contas, ficarão rindo; e nós bem póde ser que passemos chorando, porque somos de uma geração que não póde, nem quer, fazer riso da desgraça.

Esta historia é innocente. Podem le'-la senhoras de imaginação impressionavel, e os moços descontentes da vida incolor e monotona que a sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, não enganou alguem escrevendo: ahi estão uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se alguem o argue de romancista corruptor. Agora, que está velho, dobrada obrigação lhe corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem da vida, e sacrificam os thesouros da paz ao pobre do coração, que tão mal os paga, por não ter cousa boa que dar por elles.

Crê o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o caminheiro as sabe ver com os olhos já cançados de perseguir as fugitivas visões. Nem podia deixar de ser assim, a menos que a verdade, filha do céo, não fosse um mal. E a verdade, para uns temporã, e serôdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol do Senhor, que primeiro doura a colmada choça do montanhez, e depois desce os flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do seu zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as unhas do leão.

Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida são hospedagem commum; todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos, são os mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram até lá o desfiladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do anjo, rebaptisados na agua de suas lagrimas.

Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas que a quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu lhe assevero que este e todos os meus romances, olham a prevenir o leitor contra os infortunios procedentes da mentira do coração.

ESTRELLAS FUNESTAS

PRIMEIRA PARTE

I

Alardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico morgado da provincia, Gonçalo Malafaya, primogenito e unico de uma das tres nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.

Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778 é que o fidalgo portuense dava invejas aos da côrte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a constancia das damas, e saíndo com a victoria, de que elle se lograva por mera ostentação, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.

Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco o desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonçalo Malafaya que elle rejeitasse allianças de bom partido, vistas as condições das donas. Respondia elle que, desde menino, estava o seu casamento pactuado com D. Maria das Dôres, sua prima carnal, tambem filha unica, e successora de grandes vinculos nas provincias do norte.

D. Maria das Dôres, menina de treze annos, saíra do convento de Arouca, onde fôra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da santa rainha Mafalda, costumeira já esquecida n'aquelle mosteiro, fundado por uma rainha portugueza d'aquelle nome.

A joven aia saíu do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados ao céo que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparação com as feias. Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.

Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do seu quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestações e querellas de suas tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes andavam como a amostra'-la de casa em casa, maravilhados do juizo da morgadinha. O juizo de Maria das Dôres, a olhos extranhos, teria antes nome de mau genio, pois não era mais que uma desmesurada vaidade de sua pessoa, e altivez com que tratava mordomos, caseiros, creados, e ainda pessoas independentes de sua casa, que a não hombreavam em fidalguia. Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que passavam por boas, e santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de perderem suas almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de linhagem com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da linguagem, edificativa de sua visionaria crença em milagres, ao vanglorioso discurso de sua arvore genealogica, em demerito de alguma illustre religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da philaucía das nossas velhas senhoras, a quem Deus terá perdoado a fragilidade, por ser a mais inoffensiva de quantas ha.

O maior mal, proveniente d'isso, foi a vaidade da sobrinha; se, porém, seus paes gostavam d'ella assim, póde dizer-se que a educação de Maria fôra perfeita, á vontade dos paes.

Soberba com os fidalgos, que a requestavam, é que ella não era, nem os seus quatorze annos extranhavam a linguagem galanteadora. Já lá no convento a aia de Santa Mafalda ouvira falar muito de coração ás religiosas que o traziam exteriormente amortalhado no habito; presenceára por lá muitas borrascas passageiras de ciumes; ouvia conversações pouco recatadas das freiras com as noviças ácerca de certos primos que alli vinham de longes terras a estiarem saudades nas grades, e banquetearem-se do refeitorio monastico. Era tudo ísto de si tão trivial n'aquelles tempos, que um pae, impondo a suas filhas a profissão, tacitamente lhes dava a partido poderem ellas violar o voto pela mesma razão que elles lhes violavam as propensões. E, portanto, nenhuma religiosa, em annos desculpaveis, se pejava de tratar questões de amor, quando ia para o côro, ou voltava do côro, mixturando os psalmos de penitencia com os alambicados conceitos em que, por via de regra, começavam e findavam aquelles amores. E como ninguem se escandalisava de tal, quer-me parecer que o peccado seria insignificante.

Como disse, concorreram desde logo á mão da herdeira os mais nobres appellidos d'estas provincias, uns tendo-a visto, outros não a vendo nunca; uns amando-a de repente, outros aborrecendo-lhe as maneiras, e mesmo a boca defeituosa. Maria das Dôres lá tinha no seu patrimonio tempero com que adubar-se para todos os paladares; ella porém dizia a suas amigas, empenhadas a favor de irmãos ou parentes, que o seu casamento estava justo desde o berço com o primo Gonçalo Malafaya.

N'aquelle tempo, semelhantes contractos entre duas familias, cujos contrahentes eram dois meninos no berço, eram inquebrantaveis. As creanças, aos sete annos, já se conheciam como esposos futuros; e, conforme iam crescendo e ouvindo falar do casamento, não tinham mesmo tempo de córar um do outro, quando, aos quatorze annos nupciaes, a esposada arrumava as bonecas para cuidar do marido. Raras vezes acontecia rebellarem-se os filhos compromettidos, contra a vontade dos paes. Se se amavam, era uma fortuna, tambem rara; se não se amavam, o que fariam era mutilar o coração, atrophia'-lo á custa de lhe abafar as pulsações, e deixa'-lo para ahi estar no peito, em lethargia, cujo despertar, já fóra de tempo, trazia ás vezes grandes desgraças e inuteis lições.

A esta regra usual, quiz o acaso contrapôr uma excepção, incutindo no animo de Gonçalo Malafaya extraordinarios affectos a uma dama lisbonense, e no de Maria das Dôres imperiosa inclinação a um cavalheiro de Amarante.

Pediu Gonçalo aos paes licença para casar com a menina, mandando-lhes um traslado da arvore genealogica da sua amada. Os velhos responderam-lhe negativamente, com muitas razões, sendo a primeira razão do casamento evitar a demanda por causa dos vinculos de Freijoim e Aguas Santas; segunda razão, andarem ligadas as duas familias, através de nove gerações desde 1530; terceira razão, a palavra dada, entre fidalgos que a tinham em maior valia que a propria vida. Seguiam-se outras razões, rematadas por esta paternal caricia: _Se desobedeceres á honra, aos paes e aos deveres a que teus appellidos te obrigam, conta com a nossa maldição._

Gonçalo abafou os respiradouros do coração, e saíu de Lisboa, caminho de sua casa. Muito sizo teve elle em conhecer o nenhum remedio do seu mau destino, e fugir á presença da senhora, expediente unico de salvar-se, e salva'-la de maiores dôres. Salvaria?...

Alem de quê, o mancebo, para distrair saudades na jornada, ia pensando em sua prima, que elle vira galantinha, aos oito annos, e acompanhára a Arouca, tendo elle doze. Lembrava-se de lhe ter dado flores, e recebido, nas festas do anno, umas bocetas de murcellas muito enfeitadas, com trama de papel dourado, e as iniciaes da prima floreadas e entrelaçadas nas suas. Depois, uns versos, que ella lhe mandára para Lisboa, escriptos naturalmente pelo capellão de Arouca, frade bernardo, que apanhára as musas de surpresa.

Com estas e outras imaginações, conseguira Gonçalo empanar o retrato da fidalga da côrte, visão teimosa que ainda a revezes lhe apparecia n'algum relance poetico da jornada, onde assombreavam arvores, ou herveciam prados, ou murmuravam fontes. A saudade é a poesia de todo o homem. O que melhores poetas teem dito, melhor o teem sentido pessoas que nunca fizeram versos. Onde virdes um homem recolhido com a sua saudade, ahi está um poeta, porque a poesia não quer dizer senão «enlevo doloroso».

Entretanto Maria das Dôres, sobejamente senhora de seus olhos e palavras, ia alimentando esperanças ao morgado de Amarante, e nutrindo as suas á sombra da ostensiva indifferença dos paes. Estes, porém, avisados ou surprehendidos, atalharam o pendor da filha, dizendo-lhe que bem sabiam que o seu galanteio era um brinquedo; mas convinha pôr-lhe termo, porque estava a chegar de Lisboa o primo Gonçalo. Maria, acostumada a dizer desassombradamente seus pensamentos, declarou que antes queria casar com o de Amarante, a quem amava. Rebateram-lhe os paes a frivola razão, com outras eguaes na substancia e na fórma ás que demoveram Gonçalo, mas Maria, menos reflexiva ou mais animada, replicou com um secco e desabrido «não quero», ousadia que deu em resultado ser a menina ameaçada de entrar outra vez no mosteiro de Arouca, e esperar lá que o juizo viesse.

Maria, mediante os carinhosos conselhos da mãe, cedeu á vontade do pae; e afastou-se do solarengo do Tamega, o qual, prezando-se de cavalheiro tambem se retirou aos seus senhorios, respeitando a convenção feita entre as duas familias sobre o consorcio dos seus representantes.

Chegou Gonçalo de Malafaya, no remate d'este episodio.

Viu sua prima, e reparou logo n'uma verruga que ella tinha a um canto da bocca, e no desaire que lhe dava aos beiços. Achou-a mal ageitada de corpo, desgraciosa nos meneios, rustica nas palavras, e com manifestas tendencias a medrar muito em largura, e a não espigar mais. Assim devera ser. Se elle vinha affeito ás gentilezas das damas da côrte, d'aquellas tantas que elle amára, todas bem fallantes, discretas, esbeltas, apertadas de cinta, arrastando soberanos donaires com muito garbo, dízendo tudo como quem canta, extendendo aquelles gemebundos _ans_, como cauda das palavras, geito tão antigo em Lisboa, que já, em 1650, D. Francisco Manuel, faz riso d'essas modulações esquisitas, de que o nosso fidalgo portuense tinha tantas saudades! Em summa, Gonçalo não gostou da prima.

Ora Maria das Dôres, á primeira vista, achou que o primo Gonçalo vestia uma casaca muito bonita de seda azul com bordados muito casquilhos nas portinholas, e que tinha um pé pequenissimo, quasi todo coberto por uma fivella de ouro rendilhado em galantes feitios. Ouviu-o falar com grande encarecimento das fidalgas de Lisboa, especialmente de uma que era filha do conde de Miranda, a qual, para ser amada, o falar era sobejo, que, mostrando-se, cego devia ser quem a não adorasse. O pobre mancebo parece que assim estava desabafando a sua paixão, ou refrigerando a saudade, que mais se assanhára, comparando a senhora de Lisboa com a prima do Porto. Naturalmente, Maria das Dôres, resentiu-se dos gabos indelicados ás meninas de Lisboa, e com intencional preferencia a uma filha do conde, cujo nome Gonçalo pronunciava, suspirando, como pessoas beatas suspiram proferindo o nome do santo ou santa de sua devoção. Desde ahi, a fidalguinha começou a amuar-se, e a metter á galhofa o primo, ora arremedando-lhe a cantoria do palavreado á lisboeta, ora tomando posturas comicas de pernas e de braços, imitando-lhe as attitudes palacianas, que bem póde ser Gonçalo as exaggerasse um pouco. O que certissimamente aconteceu foi Maria das Dôres não gostar de seu primo.

Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da esposada está prompto, e o palacete do moço se preparava, e os primos de longe teem já convite para dia designado.

Maria das Dôres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que aborrecia o primo Gonçalo.

--És tola!--disse-lhe o pae.

--És uma creança!--accrescentou a mãe.

E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes, excepto a alegria dos desposados. Gonçalo Malafaya ousou ainda contrariar a vontade paternal, dizendo a medo, que um casamento assim não promettia senão desgraças. O velho rebateu victoriosamente a frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu casamento, e do casamento de seu pae, e de seu avô. Eram tres historias, que o leitor dispensa saber, e tem razão. A moralidade de todas era que tanto elle, como seus illustres pae e avô, tinham casado com primas, sem amor nem vontade, e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido felizes, ou pelo menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o coração pouco tem que ver com o casamento, e casamento será tudo quanto ha mau, mas escravidão de certo não é. E a este proposito, discorreu o velho Malafaya alguns despropositos, que iam mal a seus cabellos brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador de um casamento. Porém, como estas causas, postas em balança com a indisposição matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel, o velho cuidou equilibrar os pratos lançando no mais leve os vinculos litigaveis de Freijoim e Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil cruzados, e estavam na casa com mui duvidosa legalidade.

Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas para segurança dos bens livres, foram de passeio, Douro acima, á Pedra Salgada, onde um dos contrahentes tinha uma quinta.

Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos as redadas da sua pescaria, Maria das Dôres entretinha-se a contemplar a labutação dos pescadores, e as rimas de peixe extendidas no areal. Aguilhoada pelo appetite, exclamou:

--Ó minha mãe! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu tenho vontade de savel assado!

Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonçalo que, em sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boçal a maneira de o exprimir. Então, para seu maior flagello, lhe acudiu á idéa a recordação de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha do conde; na qual merenda de indelevel saudade, a perfumada e espiritual menina escassamente comeu um terço da aza de pombo, um olho de alface, e dois gomos de laranja, e, ainda assim, a pedido do amantissimo Gonçalo; que, se elle não insta, áquella compleição angelica bastaria o cheiro da madresilva. Se ao menos, Maria das Dôres tivesse cobiça de savel, e o não comesse!... Seria um gosto pueril, sem o desagradavel espectaculo da deglutição, em que ella era de todo o ponto natural, sem ter na menor conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir tão subtilmente que nos não ouçam o rumor do mastigar. Maria das Dôres mastigava o savel com a presteza de mandibulas egual á impaciencia do seu appetite. Comeu, antes de jantar, na presença do noivo e dos numerosos parentes, duas grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em identicas circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas, recitadas pelo noivo á sombra dos arvoredos da sua Cintra.

Ora eu que, até certo ponto, não estabeleço estremas entre as mulheres, e as julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me á distincção, que Gonçalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer é que se Maria das Dôres amasse o primo, comeria apenas o terço da aza do pombo, e o olho da alface, e os dois gomos de laranja; e que a filha do conde, se não amasse Gonçalo, comeria as postas do savel fresco, se o tivesse em Cintra. A sciencia ha de andar sempre ás aranhas n'estes mysterios do coração relacionados com o funccionalismo do estomago.

Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o sável fôra um prologo curto de um grande livro, Gonçalo retirou-se com a sua dôr a um recanto da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, á sombra de copados chorões. Indo Maria das Dôres vêr rebanharem-se os seus patos, deu de rosto com o primo, que estava lendo umas cartas, já avincadas do muito uso.

--Estavas aqui?!--disse ella, em ar de retroceder.

--Vem cá, prima Maria das Dôres--disse elle emmassando as cartas na carteira de marroquim.--Senta-te ao pé de mim.

A menina foi sentar-se ao pé d'elle, atirando migalhas de cavacas de Arouca aos patos.

--Gosto tanto destas aves!--disse ella. Creei-as no convento, e trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...

--Hei-de mandar vir de Lisboa--disse Gonçalo--um casal de patos reaes, para te dar, prima, que são muito lindos.

--Eu gosto mais d'estes--atalhou ella.

--Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria das Dôres?

--Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros já de lá vem creados pela filha do conde provavelmente...

Fez Gonçalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais expressiva no rosto que nas palavras da prima.

--A que veiu aqui a filha do conde!?--disse elle com azedume.

--É que tu estás sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde ás voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto faz um rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um collar de granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima de Simães vem á cidade vestida de campo, como se vestem na França as damas da côrte, a filha do conde é que sabia vestir-se a preceito, quando cavalgava por Cintra, com admiração de toda a gente. É sempre a filha do conde para tudo! Por isso é que pensei que os patos reaes tambem eram da filha do conde.

Gonçalo Malafaya ficou atordoado, já pela affronta feita á mulher cujas cartas apaixonadas estivera lendo, já pela extranheza que lhe causou o desembaraço da menina, que, até áquella hora, simulára completa indifferença, ouvindo-o falar da filha do conde de Miranda. Fez-se, porém, uma instantanea mudança no espirito do noivo, saudavel mudança que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle que Maria o accusava de desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita ironia contra a lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na quietação de Gonçalo. O ciume da mulher, de quem se não espera nem pede amor, é uma revelação agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do coração.