Esau e Jacob

Part 9

Chapter 93,968 wordsPublic domain

Flora teve um calefrio. Sem admittir a nomeação, tremeu ao nome da provincia. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará, Piauhy... Era o infinito, mormente se o pae fizesse boa administração, porque não voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos, achava possivel e abominavel, mas dizia isto para si, dentro do coração. De repente, Pedro, quasi estacando o passo:

--Se elle fôr, eu peço ao governo o logar de secretario e vou tambem.

A luz intermittente das lojas reflectindo no resto da moça, á medida que elles iam passando por ellas, ajudava a dos lampiões da rua, e mostrava a emoção daquella promessa. Sentia-se que o coração de Flora devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ella a pensar em outra cousa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante... Não podia ser. Pensou em algum escandalo. Que elle fugisse, embarcasse, fosse atraz della...

Tudo isto era visto ou pensado em silencio. Flora não se admirava de pensar tanto e tão atrevidamente; era como o peso do corpo, que não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não calculou sequer o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer ideias. Que isto lhe désse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé della, Pedro ia naturalmente cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não sabia que dissesse no meio de tão longo silencio. Entretanto, a solução parecia-lhe unica. Já não pensava na presidencia do Rio. Queria-se com ella, no ponto mais remoto do imperio, sem o irmão. A esperança de se desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo não iria tambem; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas ambos...

A quem quer que este final do monologo pareça egoista, peço-lhe pelas almas dos seus parentes amigos, que estão no céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz, a contiguidade da moça, as raizes e as flores da paixão, a propria edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais a vontade do céu, que vela por todas as creaturas que se querem, salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abysmo de iniquidades, e não lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquelle curto transito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de bôca.

Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assumpto da presidencia voltou. Flora notou então a cautelosa insistencia com que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da conversação. Sentia que não estivesse alli tambem, ouvindo e falando, finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia, sim,--era seu amigo e todos o tinham em grande conta,--podia intervir e destruir o projecto da presidencia.

Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso perguntar alguma cousa que Ayres não percebia e devia ser interessante. Póde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia dentro. Póde ser; a verdade é que Ayres começou a ficar curioso, e tão depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da mãe, deixou elle Natividade para ir falar á moça.

Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas que se não podem interromper sem dôr ou prurido, ao menos. Ayres perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.

--Não, senhor.

--Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.

Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que só adivinhára metade.

--A outra é...?

--A outra é pedir-lhe um obsequio de amizade.

--Peça.

--Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papae estão fazendo as despedidas. Só se fôr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente?

--Com o maior prazer.

CAPITULO LIII

De confidencias

Entenda-se que não. Não era com prazer maior nem menor. Era imposição de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente. Que a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, não serei eu que o negue, nem tu, nem elle mesmo. Ao cabo de alguns instantes, Ayres ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas, falhadas ou não nascidas, vozes de pae. Os gemeos não lhe deram um dia a mesma sensação, senão porque eram filhos de Natividade. Aqui não era a mãe, era a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e por ventura a sua fatalidade.

--Mas quer-me parecer que desta vez ella está presa; escolheu emfim, pensou Ayres.

Flora falou-lhe da presidencia, mas não lhe pediu segredo, como as outras pessoas; confessou-lhe que não queria ir daqui, fosse para onde fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos delle. Só elle podia despersuadir o pae de acceitar a presidencia. Ayres achou tão absurdo este pedido que esteve quasi a rir, mas susteve-se bem. A palavra de Flora era grave e triste. Ayres respondeu, com brandura, que não podia nada.

--Póde muito, todos attendem aos seus conselhos.

--Mas eu não dou conselhos a ninguem, acudiu Ayres. Conselheiro é um titulo que o imperador me conferiu, poi achar que o merecia, mas não obriga a dar conselhos; a elle mesmo só lh'os darei, se m'os pedir. Imagine agora se eu vou á casa de um homem ou mando chamal-o á minha para lhe dizer que não seja presidente de provincia. Que razão lhe daria?

Não tinha razões a moça; tinha necessidade. Appellou para os talentos do ex-ministro, que acharia uma razão boa. Nem se precisavam razões, bastava o falar delle, a arte que Deus lhe dera de agradar a toda a gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quizesse. Ayres viu que ella exagerava para o attrair, e não lhe pareceu mal. Não obstante, contestou taes meritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma, disse elle, mas a moça ia sempre affirmando, em tal maneira que Ayres suspendeu a contestação, e fez uma promessa.

--Vou pensar; amanhã ou depois, se achar algum recurso, tentarei o negocio.

Era um palliativo. Era tambem um modo de fazer cessar a conversação, estando a casa proxima. Não contava com o pae de Flora, que á fina força lhe quiz mostrar, áquella hora, uma novidade, aliás uma velharia, um documento de valor diplomatico. «Venha, suba, cinco minutos apenas, conselheiro.»

Ayres suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino. Não se luta contra elle, dirás tu; o melhor é deixar que pegue pelos cabellos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos. Baptista nem lhe deu tempo de reflectir; era todo desculpas.

--Cinco minutos e está livre de mim, mas verá que lhe pago o sacrificio.

O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os moveis graves, um retrato de Baptista com a farda de presidente, um almanaque sobre a mesa, um mappa na parede, algumas lembranças do governo da provincia. Emquanto Ayres circulava os olhos, Baptista foi buscar o documento. Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento, que não estava só, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel velho, amarello, em partes roido. Era uma carta do conde de Oeyras, escripta ao ministro de Portugal na Hollanda.

--É o dia das antiquidades, pensou Ayres; a taboleta, o tinteiro, este autographo...

--A carta é importante, mas longa, disse Baptista, não podemos lel-a agora. Quer leval-a?

Não lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande e metteu dentro o manuscripto, com esta nota por fóra: «Ao meu excellentissimo amigo conselheiro Ayres.» Emquanto elle fazia isto, Ayres passava os olhos pela lombada de alguns livros. Entre elles havia dous _Relatorios_ da presidencia de Baptista, ricamente encadernados.

--Não me attribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um mimo da secretaria do Governo que nunca fez isto ninguem. Era um pessoal muito distincto.

E foi á estante e tirou um dos relatorios para ser melhor visto. Aberto, mostrou a impressão e as vinhetas; lido, podia mostrar o estylo por um lado, e, por outro, a prosperidade das finanças. Baptista limitou-se aos algarismos totaes: despeza, mil duzentos e noventa e quatro contos, setecentos e noventa mil reis; receita, mil, quinhentos quarenta e quatro contos duzentos e nove mil reis; saldo, duzentos e quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil reis. Verbalmente, explicou o saldo, que alcançou pela modificação de alguns serviços, e por um pequeno augmento de impostos. Reduziu a divida provincial, que achou em trezentos e oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e cincoenta contos. Fez obras novas e concertos importantes; iniciou uma ponte...

--A encadernação corresponde á materia, disse Ayres para concluir a visita.

Baptista fechou o livro, e redarguiu que já agora não iria sem lhe resolver uma consulta.

--Tudo ás avessas, concluiu; eu de manhã resolvo consultas, agora á noite sou eu que as faço.

Tal foi o introito, mas do introito ao Credo ha sempre um passo estirado, e o principal da missa para elle estava no Credo. Não achando o texto do missal, explicou-lhe um sinete, uma penna de ouro, um exemplar do Codigo Criminal. O Codigo, posto que velho, valia por trinta novos, não que tivesse melhor rosto, se não que trazia annotações manuscriptas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado longa parte da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor das notas, mas desde que ouviu chamar-lhe grande, assumiu a expressão adequada. Pegou do codigo com cuidado, leu algumas das notas com veneração.

Durante esse tempo, Baptista ia criando folego. Compoz uma phrase para iniciar a consulta, e só esperava que Ayres fechasse o livro para soltal-a; mas o outro ia demorando o exame do Codigo. Podia ser uma pontinha de malignidade, mas não era. Os olhos de Ayres tinham uma faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros a possuirão calados. Vinha a ser que elles não saíam da pagina, mas em verdade já lhe prestava menos attenção; o tempo, a gente, a vida, cousas passadas, surdiam a espial-o por detraz do livro com que tinham vivido, e Ayres ia tornando a ver um Rio de Janeiro que não era este, ou apenas o fazia lembrado. Nem cuides que eram só reos e juizes, era o passeio, a rua, a festa, velhos patuscos e mortos, rapazes frescos e agora enferrujados como elle. Baptista tossiu. Ayres voltou a si e leu alguma das notas que o outro devia trazer de cór, mas eram tão profundas! Emfim, mirou a encadernação, achou o livro bem conservado, fechou-o e restituiu-o á bibliotheca.

Baptista não perdeu um instante, correu inmediato ao assumpto, com medo de o ver pegar em outro livro.

--Confesso-lhe que tenho o temperamento conservador.

--Tambem eu guardo presentes antigos.

--Não é isso: refiro-me ao temperamento politico. Verdadeiramente ha opiniões e temperamentos. Um homem póde muito bem ter o temperamento opposto ás suas ideias. As minhas ideias, se as cotejarmos com os programmas politicos do mundo, são antes liberaes e algumas liberrimas O suffragio universal por exemplo, é para mim a pedra augular de um bom regimen representativo. Ao contrario, os liberaes pediram e fizeram o voto censitario. Hoje estou mais adiantado que elles; acceito o que está, por ora. mas antes do fim do seculo é preciso rever alguns artigos da Constituição, dous ou trez.

Ayres escondia o espanto... Convidado assim áquella hora... Uma profissão de fé politica... Baptista insistia na distincção do temperamento e das ideias. Alguns amigos velhos, que conheciam esta dualidade moral e mental, é que teimavam em querer que elle acceitasse uma presidencia; elle não queria. Francamente, que lhe parecia ao conselheiro?

--Francamente, acho que não tem razão.

--Que não tenho razão em quê?

--Em recusar.

--Propriamente, não recusei nada; ha um grande trabalho neste sentido, e o meu desejo,--accrescentou com mais clareza,--é que os bons amigos sagazes me digam se tal cousa é acertada; não me parece que seja...

--Eu penso que é.

--De maneira que, se o caso fosse com o senhor...

--Commigo não podia ser. Sabe que eu já não sou deste mundo, e politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este effeito que separa o funccionario dos partidos e o deixa tão alheio a elles, que fica impossivel de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza.

--Mas não me disse que acha...

--Acho.

--... Que posso acceitar uma presidencia, se me offerecerem?

--Póde; uma presidencia acceita-se.

--Pois então saiba tudo; é a unica pessoa de sociedade com quem me abro assim francamente. A presidencia foi-me offerecida.

--Acceite, acceite.

--Está acceita.

--Já?

--O decreto assigna-se sabbado.

--Então acceite tambem os meus parabens.

--Propriamente, a lembrança não foi do ministerio; ao contrario, o ministerio não se resolveu antes de saber se effectivamente fiz uma eleição contra os liberaes, ha annos; mas logo que soube que por não os perseguir é que fui demittido, acceitou a indicação de chefes politicos, e recebi pouco depois este bilhete.

O bilhete estava no bolso, dentro da carteira. Qualquer outro, alvoroçado com a nomeação proxima, levaria tempo a achar o bilhete no meio dos papeis; mas Baptista possuia o tacto dos textos. Tirou a carteira, abriu-a descançado e com os dedos saccou o bilhete do ministro convidando-o a uma conversação. Na conversação ficou tudo assentado.

CAPITULO LIV

Emfim, só!

Emfim, só! Quando Ayres se achou na rua, só, livre, solto, entregue a si mesmo, sem grilhões nem considerações, respirou largo. Fez um monologo, que d'ahi a pouco interrompeu por se lembrar de Flora. Tudo o que ella não quizera ia acontecer; lá ia o pae a uma presidencia, e ella com elle, e a recente inclinação ao joven Pedro vinha parar a meio caminho. Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos do que não dissera. Os dados estavam lançados. Agora era cuidar de outra cousa.

CAPITULO LV

«A mulher é a desolação do homem»

Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII) deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação, nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher. «A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que consentir e casar tambem.

Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.

--Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você mesmo...

--Sim, eu... suspirou Baptista.

D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado, caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça, nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a autoria de que se investiu e acabou confessando.

Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê no _Memorial._ Tal será a do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.

CAPITULO LVI

O golpe

O dia seguinte trouxe á menina Flora a grande novidade. Sabbado seria assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia não lhe viu a pallidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a falar do caso e do futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A mãe acudiu-lhe:

--Que é? Que tens?

--Nada, mamãe não é nada.

A mãe fel-a sentar-se.

--Foi uma tonteira, passou.

D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os pulsos; Flora sorriu.

--Este sabbado? perguntou.

--O decreto? Sim, este sabbado. Mas não digas por ora a ninguem; são segredos de gabinete. É cousa certa; emfim, alguem nos fez justiça; provavelmente o imperador. Amanhã irás commigo a algumas encommendas. Faze uma lista do que precisas.

Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez que o decreto estava prestes a ser assignado, não havia já desaconselhar a nomeação; restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos são proprios ao somno de uma creança. Não era facil, mas não seria impossivel. Flora cria tudo; não tirava o pensamento de Ayres, e já agora de Natividade tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples acção de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanças vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça, emquanto a mãe, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.

--Faze uma lista do que precisas, repetiu á filha.

--Não, mamãe, eu não preciso nada.

--Precisas, sim, eu sei o que precisas.

CAPITULO LVII

Das encommendas

Não escreveria este capitulo, se elle fosse propriamente das encommendas, mas não é. Tudo são instrumentos nas mãos da Vida. As duas sairam de casa, urna lepida, a outra melancolica, e lá fôram a escolher uma quantidade de objectos de viagem e de uso pessoal. D. Claudia pensava nos vestidos da primeira recepção e de visitas; tambem ideou o do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os chapeos, entretanto, fôram o principal artigo da lista. Ao parecer de D. Claudia, o chapeo da mulher é que dava a nota verdadeira do gosto, das maneiras e da cultura de uma sociedade. Não valia a pena acceitar uma presidencia para levar chapeos sem graça, dizia ella sem convicção, porque intimamente pensava que a presidencia dá graça a tudo.

Estavam justamente na loja de chapeos, rua do Ouvidor, sentadas, os olhos fóra e longe, quando a verdadeira materia deste capitulo appareceu. Era o gemeo Paulo, que chegara pelo trem nocturno, e sabendo que ellas andavam a compras, viera procural-as.

--O senhor! exclamaram.

--Cheguei esta manhã.

Flora tinha-se levantado, com o alvoroço que lhe deu a vista inesperada de Paulo. Elle correu a ellas, apertou-lhes as mãos, indagou da saúde, e reconheceu que pareciam vender saúde e alegria. A impressão era exacta; Flora tinha agora uma agitação, que contrastava cora o abatimento daquella triste manhã, e um riso que a fazia alegre.

--Tive sempre noticias das senhoras, que mamãe me dava, e Pedro tambem, ás vezes. Da senhora, continuou elle falando a D. Claudia, recebi duas cartas. Como vae o doutor?

--Bem.

--Ora, em fim, cá estou!

E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia natural mente para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D. Claudia voltára á escolha dos chapeos, e Flora, que até então opinava de cabeça, perdeu este ultimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira que um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moça; falavam de cousas minimas, alheias ou proprias, tudo o que bastasse para os reter disfarçadamente na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que fôra, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que ella não podia achar claramente, menos ainda definir. Era um mysterio; Pedro teria o seu.

D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha; mas, tudo acaba, até a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos. Paulo, não sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas, eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores. A rua ajudava aquella absorpção reciproca; as pessoas que iam ou vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de partida a alguma digressão. As digressões entraram a dar as mãos ao silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta, elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia começava a espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.

Na rua Gonçalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros. Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a ultima vez que os vira ia já a alguma distancia.

--Conhecem? perguntou ás duas.

Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que o não comprára, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos, com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no rosto da moça. Aquellas encommendas tinham já um ar de bilhetes de passagem, não tardava o paquete, iam correr ás malas, aos arranjos, ás despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e áquelle outro de mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas, algumas novas, outras velhas, recordações anteriores á partida daqui para S. Paulo.

Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles. No meio daquella conversação truncada, mais entretida por elle que por ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se pensára nelle, ou, ao menos, sonhára com elle algumas noites. Ouvindo que não, daria espansão á colera, dizendo-lhe os ultimos improperios; se ella corresse, correria tambem, até pegal-a pelas fitas do chapeo ou pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ella uma valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios, porque, a despeito da melancolia da moça, os olhos que ella erguia para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez gastaram nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações, não ha memoria delle, nem necessidade. Tempo é propriamente officio de relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia.

CAPITULO LVIII

Matar saudades

Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro; tal qual recebia o irmão de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:

--A senhora enfeitou muito.

Flora julgava a mesma cousa, relativamente ao estudante de direito; calou a impressão. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer outra sensação particular, fel-a acanhada, a principio. Não tardou, porém, que achasse outra vez o gemeo no gemeo, e que elle e ella matassem saudades.