Part 8
Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario. Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado. Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres. Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia; chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito, admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara, uma commissão, a vice-presidencia do Rio...
CAPITULO XLVIII
Terpsichore
Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os officiaes chilenos. Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. Esta opinião é um dos effeitos daquelle mau costume de envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins, nenhum peor, este é o pessimo. Deixa lá dizerem philosophos que a velhice é um estado util pela experiencia e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a primavera; quando muito, acceita o estio. O estio é bom, callido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu apparece logo azul. Assim dançarás sempre.
Bem sei que ha gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem as bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem eu, se é licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dança é antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos annos longos e grisalhos, mas tambem outra que não digo, por não valer a pena. Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas não se perde nada em repetil-o.
Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal, sem a menor ideia de dançar, nem a razão esthetica da outra. Para ella, o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma presidencia. Via-se já com a familia imperial. Ouvia a princeza:
--Como vae, D. Claudia?
--Perfeitamente bem, Serenissima senhora.
E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o dialogo, á força de os fitarem de longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; póde ser que traduzissem esse acto por meia conversão. Não é que só fossem liberaes ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de D. Claudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
Santos é que não precisava de ideias para dançar. Não dançaria sequer. Em moço dançou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada e a valsa pulada, como diziam então, sem que eu possa definir melhor a differença; presumo que na primeira os pés não saiam de chão, e na segunda não caiam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco annos. Então os negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradança, em que nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se sáe delle. Santos saiu e já sabemos onde está. UItimamente teve a fantasia de ser deputado. Natividade abanou a cabeça, por mais que elle explicasse que não queria ser orador nem ministro, mas tão sómente fazer da camara um degrau para o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.
--Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado.
--Vitalicio, quero dizer.
Natividade teimou que não, que a posição delle era commercial e bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra. Santos replicou, citando o barão de Mauá, que as fundiu ambas. Então a mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem começa a ser deputado.
--Mas é de passagem; os senadores são edosos.
--Não, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo.
Não conto Ayres, que provavelmente dançaria, a despeito dos annos; tambem não falo de D. Perpetua, que nem iria lá. Pedro iria, e é natural que dançasse, e muito, não obstante o afinco e paixão dos seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de dormir, além do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada, peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijões, cousas todas que a mãe, por seu gosto mandaria deitar fóra, mas era a sciencia do filho, e bastava. Contentava-se de não olhar para os quadros.
Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto era o menos; o mais era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo para casa, ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse o mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria tambem que a noite escura tolheria a consolação. Que multidão de dependencias na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.
Mas donde viria o tedio a Flora, se viesse? Com Pedro no baile, não; este era, como sabes, um dos dous que lhe queriam bem. Salvo se ella queria principalmente ao que estava em S. Paulo. Conclusão duvidosa, pois não é certo que preferisse um a outro. Se já a vimos falar a ambos com a mesma sympathia, o que fazia agora a Pedro na ausencia de Paulo, e faria a Paulo na ausencia de Pedro, não me faltará leitora que presuma um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que não fosse ao baile, algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca que o coração verde e quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem terceiro, nem quarto, nem quinto, ninguem mais. Uma exquisitona, como lhe chamava a mãe.
Não importa; a exquisitona foi ao baile da ilha Fiscal com a mãe e o pae. Assim tambem Natividade, o marido e Pedro, assim Ayres, assim a demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bella ideia do governo, leitor. Dentro e fóra, do mar e de terra, era como ura sonho veneziano; toda aquella sociedade viveu algumas horas sumptuosas, novas para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,--ou, quando menos, para a nossa amiga Natividade--e para o conservador Baptista.
Aquella considerava o destino dos filhos,--cousas futuras! Pedro bem podia inaugurar, como ministro, o século XX e o terceiro reinado. Natividade imaginava outro e maior baile naquella mesma ilha. Compunha a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna que entraria na historia. Tambem ella alli estaria, sentada a um canto, sem se lhe dar do peso dos annos, uma vez que visse a grandeza e a prosperidade dos filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo adiante, descontando no presente a felicidade futura, caso viesse a morrer antes das prophecias, Tinha a mesma sensação que ora lhe dava aquella cesta de luzes no meio da escuridão tranquilla do mar.
A imaginação de Baptista era menos longa que a de Natividade. Quero dizer que ia antes do principio do seculo, Deus sabe se antes do fim do anno. Ao som da musica, á vista das galas, ouvia umas feiticeiras cariocas, que se pareciam com as escossezas; pelo menos, as palavras eram analogas ás que saudaram Macbeth:--«Salve, Baptista, ex-presidente de provincia!»--«Salve, Baptista, proximo presidente de provincia!»-- «Salve, Baptista, tu serás ministro um dia!» A linguagem dessas prophecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade é que elle se arrependia de as escutar, e forcejava por traduzil-as no velho idioma conservador, mas já lhe iam faltando diccionarios. A primeira palavra ainda trazia o sotaque antigo: «Salve, Baptista, ex-presidente de provincia!» mas a segunda e a ultima eram ambas daquella outra lingua liberal, que sempre lhe pareceu lingua de preto. Emfim, a mulher, como lady Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela bôca, isto é, que já sentia em si aquellas futurações. O mesmo lhe repetiu na manhã seguinte, em casa. Baptista, com um sorriso disfarçado, descria das feiticeiras, mas a memoria guardava as palavras da ilha: «Salve, Baptista, proximo presidente!» Ao que elle respondia com um suspiro: Não, não, filhas do Diabo...
Ao contrario do que ficou dito atraz, Flora não se aborreceu na ilha. Conjecturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficara, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a visinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de gaz, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis ahi aspectos novos que a encantaram durante aquellas horas rapidas.
Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e propria. Toda ella compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, corria, esquecia-se do resto para se metter comsigo. Tambem invejava a princeza imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recondito do paço, fartando-se de contemplação ou de musica. Era assim que Flora definia o officio de governar. Taes ideias passavam e tornavam. De uma vez alguem lhe disse, como para lhe dar força: «Toda alma livre é imperatriz!»
Não foi outra voz, semelhante á das feiticeiras do pae nem ás que falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. Não; seria pôr aqui muitas vozes de mysterio, cousa que, além do fastio da repetição, mentiria á realidade dos factos. A voz que falou a Flora saiu da bôca do velho Ayres, que se fôra sentar ao pé d'ella e lhe perguntara:
--Em que é que está pensando?
--Em nada, respondeu Flora.
Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moça a expressão de alguma cousa e insistia por ella. Flora disse como pôde a inveja que lhe mettia a vista da princeza, não para brilhar um dia, mas para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quizesse ficar subdita de si mesma. Foi então que elle lhe murmurou, como acima:
--Toda alma livre é imperatriz.
A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposição ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo escreveu no _Memorial._ Com esta nota: «A meiga creatura agradeceu-me estas cinco palavras».
CAPITULO XLIX
Taboleta velha
Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu no _Memorial_ as impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou, leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas, e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e entrou-lhe em casa.
--Que suba, disse o conselheiro ao criado.
Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia.
--Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta.
--Que taboleta?
--Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o favor de ir á janella.
--Não vejo nada.
--Justamente, é isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A visinhança veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim. Já tinha falado a um pintor da rua da Assembléa; não ajustei o preço porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem, á tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui ás carreiras. Não pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e comida de bichos. Pois cá debaixo não se via. Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e não faria obra que se estragasse logo.
--Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da nossa vida.
--A outra tambem durava; bastava só avivar as letras.
Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada, serrada e pregada, pintado o fundo para então se desenhar e pintar o titulo. Custodio não disse que o artista lhe perguntára pela côr das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagára do preço de cada côr para escolher as mais baratas. Não interessa saber quaes fôram.
Quaesquer que fossem as côres, eram tintas novas, táboas novas, uma reforma que elle, mais por economia que por affeição, não quizera fazer; mas a affeição valia muito. Agora que ia trocar de taboleta sentia perder algo do corpo,--cousa que outros do mesmo ou diverso ramo de negocio não comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e fazer crescer com ellas a nomeada. São naturezas. Ayres ia pensando em escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras observações, mas nunca deu começo a obra.
--V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe isto, mas V.-Ex. é sempre tão bom commigo, fala-me com tanta amizade, que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?
--Sim, homem de Deus.
--Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentirá commigo a separação da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu, nas noites de luminarias, por S. Sebastião e outras, fazia apparecer aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo logar em que a deixou por occasião de ser nomeado. E tive alma para me separar della!
--Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos.
Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.
CAPITULO L
O tinteiro de Evaristo
--...Este caso prova que tudo se póde amar muito bem, ainda um pedaço de madeira velha. Creiam que não era só a despeza que elle naturalmente sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto tão intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a taboleta não foi sequer arriada um dia. Custodio não teve occasião de ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede.
Era ao jantar, em Botafogo. Só quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e Ayres. Pedro fôra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista.
D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito, o tinteiro de Evaristo. A irmã sorriu para o marido, e este para a mulher, como se dissessem: «lá vem elle!» Era um tinteiro que servira ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples, feita de barro, egual aos tinteiros que a gente chã comprava nas lojas de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera em lembrança, tivera um da mesma edade, massa e feição.
--Veiu assim de mão em mão parar ás minhas. Não chega aos tinteiros do mano Agostinho nem de Natividade, que são luxuosos, mas tem grande valor para mim.
--Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico.
--Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos da _Aurora._ A falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe louvores que não acabavam mais...
Natividade buscou desviar a conversação para o baile da vespera. Tinham já falado delle, mas não achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro ainda ficou algum tempo. Não era só uma das lembranças de D. Perpetua, reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que tinha veneração aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar acabou, e elles passaram ao salão. Ayres, falando da enseada:
--Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a taboleta do Custodio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade, D. Perpetua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o effeito seria o mesmo. A enseada não differe de si. Talvez os homens venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de cavallos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos antes.
--Nao fale em morte, conselheiro.
--A morte é uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem morre de uma boa digestão, e os seus charutos são deliciosos.
--Estes são novos. Perecem-lhe bons?
--Deliciosos.
Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma intenção directa á sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome, á posição que tinha na sociedade, á casa, á chacara, ao Banco, aos colletes. É talvez muito; seria um modo emphatico de explicar a força da ligação delle aos charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differença que estes significavam só affeicção e veneração, e aquelles, valendo pelo sabor e pelo preço, tinham a superioridade do milagre, pela reproducção de todos os dias.
Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle olhava mansamente para o amphytrião. Ayres não podia negar a si mesmo a aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, de certo; podia até querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal.
CAPITULO LI
Aqui presente
Perto das nove horas, ou logo depois, chegou Pedro com o casal Baptista e Flora.
--Vimos trazer o seu menino, disse Baptista a Natividade.
--Obrigado, doutor, acudiu Santos, mas elle je não está em edade de se perder por essas ruas, e, se se perder, acha-se logo, accrescentou sorrindo.
Natividade não gostou da graça, tratando-se do filho e ao pé della. Era talvez excesso de pudor. Ha muito excesso nesse sentido, e o acertado é perdoal-o. Ha tambem excessos contrarios, condescendencias faceis, pessoas que entram com prazer na troca de allusões picantes. tambem se devem perdoar. Em summa, o perdão chega ao céu. Perdoai-vos uns aos outros, é a lei do Evangelho.
Elle, o rapaz, é que não ouviu nada; interrompera a conversa que trazia com Flora, e trocadas algumas palavras, os dous fôram reatar o fio a um canto. Ayres reparou na attitude de ambos; ninguem mais lhes prestava attenção. Ao cabo, a conversa era em voz surda; não os poderiam ouvir. Ella escutava, elle falava; depois era o contrario, ella é que falava, elle é que ouvia, tão absortos que pareciam não attender a ninguem, mas attendiam. Possuiam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados. Que conversassem de amores, é possivel; mas que conspiravam, é certo. Quanto á materia da conspiração, podereis sabel-a depois, brevemente, daqui a um capitulo. O proprio Ayres não descobriu nada, por mais que quizesse fartar os olhos naquelle dialogo de mysterios. Persuadiu-se que não era grave, porque elles sorriam com frequencia; mas podia ser intimo, escondido, pessoal, e acaso extranho. Suppõe um fio de anecdotas ou uma historia comprida, cousa alheia; ainda assim podia ser delles sómente, porque ha estados da alma em que a materia da narração é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo. Tambem podia ser isto.
Vêde, porém, como a natureza encaminha as cousas minimas ou maximas, mormente se a fortuna a ajuda. A conversação tão doce, ao que parecia, começou por um enfado. A causa foi uma carta de Paulo, escripta ao irmão, e que este se lembrou de mostrar a Flora, dizendo-lhe que tambem a mostrára á mãe, e a mãe se zangára muito.
--Com o senhor?
--Com Paulo.
--Mas que dizia a carta?
Pedro leu-lhe o ponto principal, que era quasi toda a carta; falava da questão militar. Já havia a «questão militar», um conflicto de generaes e ministros, e a linguagem de Paulo era contra os ministros.
--Mas porque é que o senhor foi mostrar essa carta a sua mãe?
--Mamãe quiz saber o que é que elle me dizia.
--E sua mãe zangou-se, ahi está; vae talvez reprehendel-o.
--Tanto melhor; Paulo precisa ser emendado; mas, diga-me, porque é que a senhora defende sempre a meu irmão?
--Para ter o direito de defender tambem ao senhor.
--Então elle já lhe tem falado mal de mim?
Flora quiz dizer que sim, depois que não, afinal calou. Desconversou, perguntando porque elles se davam mal. Pedro negou que se dessem mal. Ao contrario, viviam bem. Não teriam as mesmas opiniões, e tambem podia ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que ambos a amavam era uma virgula; Pedro pingou o ponto final. Esse astuto era tambem timido. Mais tarde, comprehendeu que, calando, andou melhor, e deu a si mesmo o applauso da escolha; mas era falso, não escolhera nada. Não digo isto para fazel-o desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e é mister deixar aqui esta reflexão.
Veiu a zanga. Flora não replicou mais nada, e, por seu gosto, não teria jantado, a tal ponto sentia piedade do outro. Felizmente, o outro era este mesmo, aqui presente, com os olhos presentes, as mãos presentes, as palavras presentes. Não tardou que a zanga fugisse deante da graça, da brandura e da adoração. Bem-aventurados os que ficam, porque elles serão compensados.
CAPITULO LII
Um segredo
Eis agora a materia da conspiração. Na rua, ao virem de S. Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pôde revelar á moça um segredo:
--Titia disse lá em casa que D. Claudia lhe contára em segredo (não diga nada) que seu pae vae ser nomeado presidente de provincia.
--Não sei nada disso, mas não creio, porque papae é conservador.
--D. Claudia disse a titia que elle é liberal, quasi radical. Parece que a presidencia é certa; ella pediu segredo, e titia, quando nos contou, tambem pediu segredo. Eu tambem lhe peço que não diga nada, mas é verdade.
--Verdade como? Papae não vae com liberaes; o senhor não sabe como papae é conservador. Se elle defende os liberaes é porque é tolerante.
--Se a provincia fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque não era preciso ir morar na Praia Grande, e se elle fosse, a viagem é só de meia hora, eu podia ir lá todos os dias.
--Era capaz?
--Apostemos.
Flora, depois de um instante:
--Para que, se não ha presidencia?
--Supponha que ha.
--É preciso suppôr muito,--que ha presidencia e que a provincia é a do Rio. Não, não ha nada.
--Então supponha só metade,--que ha presidencia e que é Matto-Grosso.