Esau e Jacob

Part 7

Chapter 73,950 wordsPublic domain

Mas então?... perguntarás tu. Ayres não perguntou nada. Ao cabo, havia um fundo de justiça naquella manifestação dupla e contradictoria; foi o que elle pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instincto de resistencia á autoridade. Advertiu que o homem, uma vez creado, desobedeceu logo ao Creador, que aliás lhe dera um paraiso para viver; mas não ha paraiso que valha o gosto da opposição. Que o homem se acostume ás leis, vá; que incline o collo á força e ao bel-prazer, vá tambem; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão. Ia assim cogitando o conselheiro Ayres.

Não lhe attribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse alto, á mesa ou na sala de alguem. Era um processo de critica mansa e delicada, tão convencida em apparencia, que algum ouvinte, á cata de ideias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...

Ia a descer pela rua Sete de Setembro, quando a lembrança da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.

CAPITULO XL

Recuerdos

Essa outra vozeria maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no chão e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de addido de legação. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda, pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes tumultuosas, vibrantes, crescentes...

--Que rumor é este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias.

--Não se assuste, amigo meu; é o governo que cae.

--Mas eu ouço acclamações...

--Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é tempo de ir comprimental-o.

Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de lembranças tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, á despedida, depois de rectificar as ligas, compôr as saias, e cravar o pente no cabello,--no momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:

Tienen las sevillanas, En la mantilla, Um letrero que dice: Viva Sevilla!

Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,--de um regimen que fosse,--com as suas ideias novas, os seus homens frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos quadris e cantarolando a trova andaluza:

Tienen las sevillanas En la mantilla...

CAPITULO XLI

Caso do burro

Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e a sua trova.

Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada, tirou a carroça do logar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel. Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar...

--Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo.

Depois ria de si para si, e foi andando. Inventára tanta cousa no serviço diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciencia, mas não se pôde ter que lhes não désse uma forma de palavra, com as suas regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve de eco ao silencio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e experiencia politica.

CAPITULO XLII

Uma hypothese

Visões e reminiscencias iam assim comendo o tempo e o espaço ao conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade; mas não o esqueceu de todo, e as palavras trocadas ha pouco surdiam-lhe das pedras da rua. Considerou que não perdia muito em estudar os rapazes. Chegou a apanhar uma hypothese, especie de andorinha, que avoaça entre arvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa alli, arranca de novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hypothese vaga e colorida, a saber, que se os gemeos tivessem nascido delle talvez não divergissem tanto nem nada, graças ao equilibrio do seu espirito. A alma do velho entrou a ramalhar não sei que desejos retrospectivos, e a rever essa hypothese, outra Caracas, outra Carmen, elle pae, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava n'um farfalhar calado de gestos.

CAPITULO XLIII

O discurso

Natividade é que não teve distracções de especie alguma. Toda ella estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso. Começou por não dar resposta ás effusões politicas de Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha esquecido a carta que escrevêra. O discurso é que elle não esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memoria os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O melhor dos remedios, no segundo caso, é suppol-os excellentes, e, se a razão não acceita esta imaginação, consultar pessoas que a acceitem, e crêr nellas. A opinião é um velho oleo incorruptivel.

Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade não se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.

--Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.

--Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano, explicou ella relendo a phrase que a affligira.

Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as supprimir.

--Pois não se transcreve o discurso.

--Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo; é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda melhor.

--Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador póde ser que não goste...

Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam em 1848.

--Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu elle depois de reler as palavras do irmão.

--Justamente! assentiu o pae.

Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente.

--Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal ardente...

--Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.

Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico. Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança, Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o lêra.

--Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de um liberal de 1848...

--Papae disse isso? perguntou Pedro.

--Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.

CAPITULO XLIV

O salmão

Pelas férias é que Paulo soube da interpretação que o pae dera á Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa; quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres pôz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel:

--Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha a suas ideias e se bata por ellas, até que ellas vençam. Agora que outros as interpretem mal é cousa que não deve affligir o autor.

--Affligir, sim, senhor; pôde parecer que é assim mesmo... Vou escrever um artigo a proposito de qualquer cousa, e não deixarei duvidas...

--Para que? inquiriu Ayres.

--Não quero que supponham...

--Mas quem duvida dos seus sentimentos?

--Podem duvidar.

--Ora, qual! Em todo caso, vá primeiro almoçar commigo um dia destes... Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro tambem. Seremos trez á meza, um almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da Allemanha...

No domingo fôram os dous ao Cattete, menos pelo almoço que pelo amphytrião. Ayres era amado dos dous; gostavam de ouvil-o, de interrogal-o, pediam-lhe anecdotas politicas de outro tempo, descripção de festas, noticias de sociedade.

--Vivam os meus dous jovens, disse o conselheiro, vivam os meus dous jovens que não esqueceram o amigo velho. Papae como está? E mamãe?

--Estão bons, disse Pedro.

Paulo accrescentou que ambos lhe mandavam lembranças.

--E tia Perpetua?

--Tambem está boa, disse Paulo.

--Sempre com a homoepathia e as suas historias do Paraguay, accrescentou Pedro.

Pedro estava alegre, Paulo preoccupado. Depois das primeiras saudações e noticias, Ayres notou essa differença, e achou que era bom para tirar a monotonia da semelhança; mas, emfim, não queria caras fechadas, e indagou do estudante de direito o que é que elle tinha.

--Nada.

--Não póde ser; acho-lhe um ar meio sorumbatico. Pois eu acordei disposto a rir, e desejo que ambos riam commigo.

Paulo rosnou uma palavra que nenhum delles entendeu e saccou do bolso um maço de folhas de de papel. Era um artigo...

--Um artigo?

--Um artigo em que tiro todas as duvidas a meu respeito, e peço ao senhor que me ouça, é pequeno. Escrevi-o a noite passada.

Ayres propoz ouvil-o depois do almoço, mas o rapaz pediu que fosse logo, e Pedro concordou com esto alvitre, allegando que, sobre o almoço, podia perturbar a digestão, como ruim droga que devia ser, naturalmente. Ayres metteu o caso á bulha e acceitou ouvir o artigo.

--É pequeno, sete tiras.

--Letra miuda?

--Não, senhor; assim, assim.

Paulo leu o artigo. Tinha por epigraphe isto de Amós: «Ouvi esta palavra, vaccas gordas que estaes no monte de Samaria...» As vaccas gordas eram o pessoal do regimen, explicou Paulo. Não atacava o imperador, por attenção á mãe, mas com o principio e o pessoal era violento e aspero. Ayres sentiu-lhe aquillo que, em tempo, se chamou «a bossa da combatividade». Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de mofa:

--Conheço tudo isso, são ideias paulistas.

--As tuas são ideias coloniaes, replicou Paulo.

Deste introito podiam nascer peores palavras, mas felizmente um criado chegou á porta annunciando que o almoço estava na mesa. Ayres ergueu-se e disse que á mesa daria a sua opinião.

--Primeiro o almoço, tanto mais que temos um salmão, cousa especial. Vamos a elle.

Ayres queria cumprir deveras o officio que acceitara de Natividade. Quem sabe se a ideia de pae espiritual dos gemeos, pae de desejo somente, pae que não foi, que teria sido, não lhe dava uma affeição particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem é fóra de proposito que elle buscasse sómente materia nova para as paginas nuas de seu _Memorial._

Ao almoço, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdem, Ayres sem uma nem outra cousa. O almoço ia fazendo o seu officio. Ayres estudava os dous rapazes e suas opiniões. Talvez estas não passassem de uma erupção de pelle da edade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, não acompanharam o ex-ministro. A politica veiu morrendo. Na verdade, Paulo ainda se declarou capaz de derribar a monarchia com dez homens, e Pedro de extirpar o germen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem mais decreto que uma caçarola, nem mais homens que o seu cozinheiro, envolveu os dous regimens no mesmo salmão delicioso.

CAPITULO XLV

Musa, canta...

No fim do almoço, Ayres deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente, Paulo no começo da _Illiada_:

--«Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos gregos, que precipitou á estancia de Plutão tantas almas válidas de heroes, entregues os corpos ás aves e aos cães...»

Pedro estava no começo da _Odyssea_:

--«Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos, depois de destruida a santa Illion...»

Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou a mal a applicação. Ao contrario, a citação poetica valia por um diploma particular. O facto é que ambos sorriram de fé, de acceitação, de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous gemeos sentiram-se ainda mais épicos, tão certo é que traducções não valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao que era applicavel ao irmão:

--Tem razão, Sr. conselheiro,--disse Paulo,--Pedro é um velhaco...

--E você é um furioso...

--Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa lingua e a prosa do nosso tempo.

CAPITULO XLVI

Entre um acto e outro

Aquelles almoços repetiram-se, os mezes passaram, vieram férias, acabaram-se férias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os no _Memorial_, onde se lê que a consulta ao velho Placido dizia respeito aos dous, e mais a ida á cabocla do Castello e a briga antes de nascer, casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou.

Emquanto os mezes passam, faze de conta que estás no theatro, entre um acto e outro, conversando. Lá dentro preparam a scena, e os artistas mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os seus amigos o que chorou cá fóra com os espectadores. Quanto ao jardim que se está fazendo, não te exponhas a vel-o pelas costas; é pura lona velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e flores. Deixa-te estar cá fóra no camarote desta senhora. Examina-lhe os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da peça. Fala-lhe da peça e dos artistas. Que é obscura. Que não sabem os papeis. Ou então que que é tudo sublime. Depois percorre os camarotes com o binoculo, distribue justiça, chama bellas ás bellas e feias ás feias, e não te esqueças de contar anecdotas que desfeiem as bellas, e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e as anecdotas engraçadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade na bôca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as lagrimas séccam inteiramente, e a realidade substitue a ficção. Falo por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro.

CAPITULO XLVII

S. Matheus, IV, 1-10

Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi enorme.

--Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher.

--De quê?

--Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar, mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros, mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou dous...

--Presidencia boa?

--Boa.

--Se você tivesse trabalhado bem...

--Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos agora a toque de caixa.

--Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.

Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando, sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota. Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:

--Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores?

Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:

--Espero que subam.

--Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você?

--Posso fundar um jornal.

--Deixe-se de jornaes. E se morrer?

--Morro no meu posto de honra.

D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as mãos abertas:

--Baptista, você nunca foi conservador!

O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe as palavras, e accrescentou.

--Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.

Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella inspirou-lhe uma refutação prompta.

--Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas.

--Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de apoiar os liberaes...

--Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar cartas.

--Qual moderação! Você é liberal.

--Eu liberal?

--Um liberalão, nunca foi outra cousa.

--Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi a espalhar...

--Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não procura?

Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia, pequena que seja, e...»

Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado, nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer aos dados da sorte, mas não podia.

E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.

A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não era propriamente conservador, mas _saquarema_, como os liberaes eram _luzias._ Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco, Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha. Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.

--Mas os conservadores não cairam?

--Cairam, sim, mas suppõe que...

--Ah! não, papae!

--Não, porquê?

--Não desejo sair do Rio de Janeiro.

Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D. Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a carinhosamente:

--Muito bem, muito bem, minha filha.

--Não é, papae?