Part 6
Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome.
CAPITULO XXXIII
A solidão tambem cança
Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva, extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas, á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas. Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade.
A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.»
Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.
CAPITULO XXXIV
Inexplicavel
Assim o deixámos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente Santos, em conversação com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora não despegava os olhos delle, anciosa de saber porque é que a achava inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar. Inexplicavel que era? Que se não explica, sabia; mas que se não explica porquê?
Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas não achou occasião, e elle saiu cedo. A primeira vez, porém, que Ayres foi a S. Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definição mais desenvolvida. Ayres sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé. Foi só o tempo de inventar esta resposta:
--Inexplicavel é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore é arvore, nem a choupana choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles não dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous olhos, outros matam-se de desespero.
Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso és mais velha e mais fina que ella, póde ser que a não aches mais clara. Elle é que não accrescentou nada, para não ficar incluido entre os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mão de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé delle, a mocinha confessou que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia de pôr tinta de mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria ficar só na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e o inglez.
--Pois só a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres.
--Mas o senhor promette que não me achará inexplicavel? pergunta ella com doçura.
Antes que elle respondesse, entrarám na sala os dous gemeos. Flora esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres não se demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.
CAPITULO XXXV
Em volta da moça
Já então os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S. Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito que saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes estão no homem.
Não era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem não eram taes as duas que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se combina sem quebra de essencia de cada cousa. Lá que viessem a amar a pequena com egual força é o que se podia admittir desde já, sem ser preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; póde ser até que nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava pelas férias, como que a achava mais cheia de graça. Era então que Pedro multiplicava as suas finezas para se não deixar vencer do irmão, que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto amigo.
Note-se--e este ponto deve ser tirado á luz,--note-se que os dous gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuia em cada um delles a feição pessoal. Demais, Flora simulava ás vezes confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro:
--Dr. Paulo!
E dizia a Paulo:
--Dr. Pedro!
Em vão elles mudávam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Flora mudava os nomes tambem, e os trez acabávam rindo. A familiaridade desculpava a acção e crescia com ella. Paulo gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o piano que com a conversa; Flora tocava. Ou então fazia ambas as cousas, e tocava falando, soltava a rédea aos dedos e á lingua.
Taes artes, postas ao serviço de taes graças, eram realmente de accender os gemeos, e foi o que succedeu pouco a pouco. A mãe della cuido que percebeu alguma cousa; mas a principio não lhe deu grande cuidado. Tambem ella foi menina e moça, tambem se dividiu a si sem se dar nada a ninguem. Póde ser até que, a seu parecer, fosse um exercicio necessario aos olhos do espirito e da cara. A questão é que estes se não corrompessem, nem se deixassem ir atraz de cantigas, como diz o povo, que assim exprime os feitiços de Orpheu. Ao contrario, Flora é que fazia de Orpheu, ella é que era a cantiga. Opportunamente, escolheria a um delles, pensava a mãe.
A intimidade tinha intervallos grandes, além das ausencias obrigadas de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não a buscava sempre, nem ella ia muita vez á casa da praia. Não se viam dias e dias. Que pensassem um no outro, é possivel; mas não possuo o menor documento disto. A verdade é que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua e de aventura, os partidos de theatro, os passeios á Tijuca e outros arrabaldes. Ao demais, os dous gemeos estavam ainda no ponto de falar della nas cartas, louval-a, descrevel-a, dizer mil cousas doces, sem ciume.
CAPITULO XXXVI
A discordia não é tão feia como se pinta
A discordia não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem esteril. Conta só os livros que tem produzido, desde Homero até cá, sem excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem só os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e digam-me se tamanhos effeitos não provam a grandeza da causa. Não, a discordia não é tão feia como se pinta.
Teimo nisto para que as almas sensiveis não comecem de tremer pela moça ou pelos rapazes. Não ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos dous começou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia, calados, pensando só, até que ambos, como se falassem para si, soltaram esta phrase unica:
--Está ficando bem bonita.
E voltando-se um para outro:
--Quem?
Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexão e da pergunta. Sei que este phenomeno é tal qual o do capitulo XXV, quando elles disseram da edade, mas não me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter o falar gemeo. O principal é que não se amofináram; não era ainda amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinião ácerca das graças da pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra, que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura; mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que não brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas que enamorados. Aliás, a mesma politica os deixou em paz essa noite: não brigaram por ella. Não é que não sentissem alguma cousa opposta, á vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote, segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.
A imaginação os levou então ao futuro, a um futuro brilhante, como elle é em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho dos dez, ou então um doge com outro titulo, um simples presidente, que se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou a alma do moço. Paulo viu-se á testa de uma republica, em que o antigo e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Convenção Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America.
Pedro, á sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as opiniões, arrancava um voto á Camara dos deputados ou então expedia um decreto de dissolução. É uma minucia, mas merece inseril-a aqui: Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de dissolução. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado, mandado aos jornaes e ás Camaras, lido pelos secretarios, archivado na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, outros irados. Só elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia.
Taes eram as grandes pinceladas da imaginação dos dous. As estrellas recebiam no céu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do costume. Voltaram a si ao pé de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir ácerca do tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago póde ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o silencio, mas o silencio era tão augusto que concordáram em respeital-o. E logo acháram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a temperatura divina.
CAPITULO XXXVII
Desaccordo no accordo
Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravissima os fez concordar tambem, ainda que por diversa razão. A data explica o facto: foi a emancipação dos escravos. Estavam então longe um do outro, mas a opinião uniu-os.
A differença unica entre elles dizia respeito á significação da reforma, que para Pedro era um acto de justiça, e para Paulo era o inicio da revolução. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em S. Paulo, no dia 20 de maio: «A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.»
Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expressões de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar, inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. «Não, mamãe; as opiniões é que não.»
--As opiniões é que não, repetiu Natividade acabando de ler a carta.
Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ella que sacrificára as opiniões aos principios, como no caso de Ayres, e continuou a viver sem macula. Como então não sacrificar...? Não achava explicação. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande homem. «Emancipado o preto, resta emancipar o branco», era uma ameaça ao imperador e ao imperio.
Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a phrase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguem. alguem a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum.
Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, á semelhança das ideias. As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem orphãs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as como póde, e vae leval-as á feira, onde todos as têm por suas.
CAPITULO XXXVIII
Chegada a proposito
Quando, ás duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no bonde, para ir a não sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase comsigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava, nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com o seu aspecto e tom de ameaça. No Cattete, alguem entrou de salto, sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha tambem que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou para lá rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe offereceu. Depois dos primeiros comprimentos:
--Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres.
--Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.
--Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me cair, as rodam passam por cima...
--Fosse como fosse, chegou a proposito.
--Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?
Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario, sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. E concluiu:
--Mas, emfim, porque é que chego a proposito?
Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao marido.
--Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.
Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos.
--Então crê que Paulo será sempre isto?
--Sempre, não digo; tambem não digo o contrario. Baroneza, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que ha definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. Ha quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que não tenho apparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?
--Talvez.
--Só os solteirões podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta annos, como eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, não pense mais no discurso. tambem eu discursei em rapaz.
--Já cuidei em casal-os.
--Casar é bom, assentiu Ayres.
--Não digo casar já, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faça antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que uma viagem?...
--Acho que uma viagem...
--Acabe.
--As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o anno, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira, casados ou não, é util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de ir com elles?
--As mães...
--Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho. Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a affeição e todas as prendas grisalhas que a adornam compõem uma especie maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria orphão.
--Pois venha comnosco.
--Ah! baroneza, para mim ja não ha mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo começa aqui no caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. João Baptista. Ouço que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do Cajú, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco, e não acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir averigual-as, faltam-me pernas.
--Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta annos.
--Rita exagera. Mas, voltando á viagem, a senhora ainda não comprou os bilhetes?
--Não.
--Não os encommendou sequer?
--Tambem não.
--Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupação, quanto mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe lá o Paulo pedir a republica.
Natividade achou comsigo que elle tinha razão; depois, pensou em outra cousa, e esta foi a ideia do principio. Não disse logo o que era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difficil com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na banalidade nem subir ás nuvens; tinha um modo particular, que não sei se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal de ninguem, e aliás seria uma distracção. Quero crêr que não dissesse mal por indifferença ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade.
--Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do conselho. Ou não quer mais nada?
--Custa-me pedir-lhe.
--Peça sempre.
--Sabe que os meus dous gemeos não combinam em nada, ou só em pouco, por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia. Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido...
--Eu, em summa?
--Adivinhou.
--Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece que possa fazer?
--Póde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até proposito. Não discordam da côr da lua, por exemplo, mas aos onze annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei. Imagine em politica...
--Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para este caso...
--Oh! não!
--Para os outros é egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuido. Comtanto que me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha acção é inutil.
--Porque?
--É inutil.
--Uma pessoa de autoridade, como o senhor, póde muito, comtanto que os ame, por que elles são bons, creia. Conhece-os bem?
--Pouco.
--Conheça-os mais e verá.
Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova. Confiava na acção do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho diplomata. As cans não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem me lê nesta occasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é mulher creio que entenderá. Se ninguem entender, paciencia; baste saber que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a condição que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo.
CAPITULO XXXIX
Um gatuno
Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ella entrou pela rua Gonçalves Dias, elle enfiou pela da Carioca. No meio desta, Ayres encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em direcção ao largo. Ayres quiz arrepiar caminho, não de medo, mas de horror. Tinha horror á multidão. Viu que a gente era pouca, cincoenta ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. Entrou n'um corredor, á espera que o magote passasse. Duas praças de policia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este resistia, e então era preciso arrastal-o ou forçal-o por outro methodo. Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.
--Não furtei nada! bradava o preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto!
--Siga para a estação!
--Não sigo!
--Não siga! bradava a gente anonyma. Não siga! não siga!
Uma das praças quiz convencer a multidão que era verdade, que o sujeito furtara uma carteira, e o desassocego pareceu minorar um pouco; mas, indo a praça a andar com a outra e o preso,--cada uma pegando-lhe um dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a violencia. O preso sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora aggressivo, convidava a defeza. Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro. A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca do ninho ou do alimento, voou de atropello, pula aqui, pula alli, pula acolá, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu com as praças. Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo, desaffrontado, encheu a rua e a alma do preso. A multidão fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação policial. Ayres seguiu caminho.
A vozeria morreu pouco a pouco, e Ayres entrou na Secretaria do Imperio. Não achou o ministro, parece, ou a conferencia foi curta. Certo é que, saindo á praça, encontrou partes do magote que tornavam commentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno, fiando que era mais doce, e tanto bradavam ha pouco contra a acção das praças, como riam agora das lastimas do preso.
--Ora o sujeito!