Part 4
Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram á mãe o passeio, a gente da rua, as outras creanças que olhavam para elles com inveja, uma que mettia o dedo na bôca, outro no nariz, e as moças que estavam ás janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam, porque cada um delles tomava para si só as admirações; mas a mãe interveiu:
--Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que não podia ser senão para ambos. E sabem porque é que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda menos sendo irmãos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem rusga nem nada. Estão entendendo?
Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse a pergunta, e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraçaram-se, mas foi um abraçar sem gosto, sem força, quasi sem braços; encostaram-se um ao outro, estenderam as mãos ás costas do irmão, e deixaram-n'as cair.
De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir á cara um do outro, na primeira occasião. Isto que devia ser um laço armado á ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfação de um desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrança da rua, ate que o somno entrou com os seus pés de lã e bico calado, e tomou conta da alcova inteira.
CAPITULO XIX
Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa
Um dos meus proposrtos neste livro é não lhe pôr lagrimas. Entretanto, não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fôram morrer-lhe aos cantos da bôca. Tão depressa as verteu como as engoliu, renovando ás avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias de creanças: «entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei nosso senhor que nos conte outra.» E a segunda creança contava segunda historia, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes historias affirmam que creanças não punham naquella formula nenhuma monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar o seu _Decameron_ dellas, herdado do velho reino portuguez, quando os reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem.
Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. Não se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em particular; mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso. Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.
Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram mais frequentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da grandeza e da prosperidade,--cousas futuras!--e esta esperança era como um lenço que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas não terão dito só do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente delle.
Com esse lenço verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenços, se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde como a esperança, mas azul, como a alma della. Ainda lhes não disse que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a noite escurecia.
Não, leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. Não importa; o céu é mais velho e não trocou de côr. Uma vez que lhe não attribuas ao azul da alma nenhuma significação romantica, estás na conta. Quando muito, no dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que passára? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda uma questão de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavra _quarenta_, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao marido, agradecendo o mimo do anniversario: «Estou velha, Agostinho!» Santos quiz esganal-a brincando.
Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as fôrmas do tempo anterior á concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miuda e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo.
Ha dessas regiões em que o verão se confunde com o outono, como se dá na nossa terra, onde as duas estações só differem pela temperatura. Nella nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ella, aos quarenta annos, era a mesma senhora verde, com a mesmissima alma azul.
Esta côr vinha-lhe do pae e do avô, mas o pae morreu cedo, antes do avô, que chegara aos oitenta e quatro. Nessa edade cria sinceramente que todas as delicias deste mundo, desde o café de manhã até os somnos socegados haviam sido inventados sómente para elle. O melhor cozinheiro da terra nascera na China, para o unico fim de deixar familia, patria, lingua, religião, tudo, e vir assar-lhe as costelletas e fazer-lhe o chá. As estrellas davam ás _suas_ noites una aspecto esplendido, o luar tambem, e a chuva, se chovia, era para que elle descançasse do sol. Lá está agora no cemiterio de S. Francisco Xavier; se alguem pudesse ouvir a voz dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a delle, bradando que é tempo de fechar a porta ao cemiterio e não deixar entrar ninguem, uma vez que elle já lá descança para todo sempre. Morreu azul; se chegasse aos cem annos, nao teria outra côr.
Ora, se a natureza queria poupar esta senhora, a riqueza dava a mão á natureza, e de uma e de outra saía a mais bella côr que alma de gente póde ter. Tudo concorria assim para lhe seccarem os olhos depressa, como vimos atraz. Se ella bebeu aquellas duas lagrimas solitarias, pudera ter bebido outras pela edade adeante, e isto é ainda uma prova daquelle matiz espiritual; mostrará assim que as tem poucas, e engole-as para poupal-as.
Mas ha ainda uma terceira causa que dava a esta senhora o sentimento da côr azul, causa tão particular que merecia ir em capitulo seu, mas não vae, por economia. Era a isenção, era o ter atravessado a vida intacta e pura. O cabo das Tormentas converteu-se em cabo da Boa Esperança, e ella venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos lhe derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. Não negaria que alguma lufada mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso de João de Mello, ou ainda peor, no de Ayres, mas fôram bocejos de Adamastor. Concertou a vela depressa e o gigante ficou atraz cercado de Thetis, emquanto ella seguiu o caminho da India. Agora lembrava-se da viagem prospera. Honrava-se dos ventos inuteis e perdidos. A memoria trazia-lhe o sabor do perigo passado. Eis aqui a terra encoberta, os dous filhos nados, criados e amados da fortuna.
CAPITULO XX
A joia
Os quarenta e um annos não lhe trouxeram arrepio. Já estava acostumada á casa dos quarenta. Sentiu sim, um grande espanto; acordou e não viu o presente do costume, a «sorpreza» do marido ao pé da cama. Não a achou no toucador; abriu gavetas, espiou, nada. Creu que o marido esquecera a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando; nada. No gabinete estava o marido, calado, mettido comsigo, a ler jornaes, mal lhe estendeu a mão. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A mãe ainda relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um painel, um vestido, foi tudo vão. Embaixo de uma das folhas do dia que estava na cadeira fronteira á do marido podia ser que... Nada. Então sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo comsigo: «Será possivel que não se lembre do dia de hoje? Será possivel?» Os olhos entraram a ler á toa, saltando as noticias, tornando atraz...
Defronte o marido espreitava a mulher, sem absolutamente importar-lhe o que parecia ler. Assim se passaram alguns minutos. De repente, Santos viu uma expressão nova no rosto de Natividade; os olhos della pareciam crescer, a bôca entre-abriu-se, a cabeça ergueu-se, a delle tambem, ambos deixaram a cadeira, deram dous passos e cairam nos braços um do outro, como dous namorados desesperados de amor. Um, dous, trez, muitos beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de pé. O pae, quando pôde falar, disse-lhes:
--Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos.
Não entenderam logo. Natividade não sabia que fizesse; dava a mão aos filhos, ao marido, e tornava ao jornal para ler e reler que no despacho imperial da vespera o Sr. Agostinho José dos Santos fôra agraciado com o titulo de Barão de Santos. Comprehendeu tudo. O presente do dia era aquelle; o ourives desta vez foi o imperador.
--Vão, vão, agora podem ir brincar, disse o pae aos filhos.
E os rapazes sairam a espalhar a noticia pela casa. Os criados ficaram felizes com a mudança dos amos. Os proprios escravos pareciam receber uma parcella de liberdade e condecoravam-se com ella: «Nhã Baroneza!» exclamavam saltando. E João puxava Maria, batendo castanholas com os dedos: «Gente, quem é esta creoula? Sou escrava de Nhã Baroneza!»
Mas o imperador não foi o unico ourives. Santos tirou do bolso uma caixinha, com um broche em que a corôa nova rutilava de brilhantes. Natividade agradeceu-lhe a joia e consentiu em pol-a, para que o marido a visse. Santos sentia-se autor da joia, inventor da fórma e das pedras; mas deixou logo que ella a tirasse e guardasse, e pegou das gazetas, para lhe mostrar que em todas vinha a noticia, algumas com adjectivo, _conceituado_ aqui, alli _distincto_, etc.
Quando Perpetua entrou no gabinete, achou-os andando de um lado para outro, com os braços passados pela cintura, conversando, calando, mirando os pés. Tambem ella deu e recebeu abraços.
Toda a casa estava alegre. Na chacara as arvores pareciam mais verdes que nunca, os botões do jardim explicavam as folhas, e o sol cobria a terra de uma claridade infinita. O céu, para collaborar com o resto, ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir cartões e cartas de parabens. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do commercio, homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambem, vieram ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram continuar o esquecimento. Nomes houve que elles só puderam reconhecer á força de grande pesquiza e muito almanaque.
CAPITULO XXI
Um ponto escuro
Sei que ha um ponto escuro no capitulo que passou; escrevo este para esclarecel-o.
Quando a esposa inquiriu dos antecendentes e circumstancias do despacho, Santos deu as explicações pedidas. Nem todas seriam estrictamente exactas; o tempo é um rato roedor das cousas, que as diminue ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a materia era tão propicia ao alvoroço que facilmente traria confusão á memoria. Ha, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para supprir os perdidos, e nem por isso a historia morre.
Resta saber (é o ponto escuro) como é que Santos pôde calar por longos dias um negocio tão importante para elle e para a esposa. Em verdade, esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por gesto, se achasse algum, aquelle segredo de poucos; mas, sempre havia uma força maior que lhe tapava a bôca. Ao que parece, foi a expectação de uma alegria nova e inesperada que lhe deu a alma de pacientar.
Naquella scena do gabinete tudo foi composto de antemão, o silencio, a indifferença, os filhos que elle poz alli, estudando ao domingo, só para o effeito daquella phrase: «Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos!»
CAPITULO XXII
Agora um salto
Que os dous gemeos participassem da lua de mel nobiliaria dos paes não é cousa que se precise escrever. O amor que lhes tinham bastava a explical-o, mas accresce que, havendo o titulo produzido em outros meninos dous sentimentos oppostos, um de estima, outro de inveja, Pedro e Paulo concluiram ter recebido com elle um merito especial. Quando, mais tarde, Paulo adoptou a opinião republicana nunca envolveu aquella distincção da familia na condemnação das instituições. Os estados de alma que daqui nasceram davam materia a um capitulo especial, se eu não preferisse agora um salto, e ir a 1886. O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisivel em que se póde bordar tudo, uma flor, um passaro, uma dama, um castello, um tumulo. Tambem se póde bordar nada. Nada em cima de invisivel é a mais subtil obra deste mundo, e acaso do outro.
CAPITULO XXIII
Quando tiverem barbas
Naquelle anno, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, succedeu que uma dellas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dous irmãos que edade tinham.
Paulo respondeu:
--Nasci no anniversario do dia em que Pedro I caiu do throno.
E Pedro:
--Nasci no anniversario do dia em que Sua Majestade subiu ao throno.
As respostas foram simultaneas, não successivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A mãe explicou:
--Nasceram no dia 7 de Abril de 1870.
Pedro repetiu vagarosamente:
--Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao throno.
E Paulo, em seguida:
--Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno.
Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria club, se a mãe não os accommodasse por esta maneira:
--Isto hão de ser grupos de collegio; vocês não estão em edade de falar em politica. Quando tiverem barbas.
As barbas não queriam vir, por mais que elles chamassem o buço com os dedos, mas as opiniões politicas e outras vinham e cresciam. Não eram propriamente opiniões, não tinham raizes grandes nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de côr particular, que elles atavam ao pescoço, á espera que a côr cançasse e viesse outra. Naturalmente cada um tinha a sua. Tambem se póde crêr que a de cada um era, mais ou menos, adequada á pessoa. Como recebiam as mesmas approvações e distincções nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambição os dividisse algum dia, não era por ora aguia nem condor, ou sequer filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes queriam bem.
As barbas é que não queriam vir. Que é que se lhes ha de fazer quando as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu pé, que appareçam, que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume dellas, salvo as que não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo isto é sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero, celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como não as entendemos então, as mais inexplicaveis barbas do mundo.
A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,--ninguem mais o conheceria,--mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio, expresso por estrellas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade. Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando uma cabeça mascula e formosa. A bôca era risonha, os olhos rutilos. Ria por ella e por elles, tão docemente que mettia a gente no coração. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O pé nú, atado á sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma pagina evangelica. A fé era viva, a affeição segura, a paciencia infinita.
Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio Janeiro, S. Paulo,--creio que ao Paraná tambem,--viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima e brilhantissima. Não explicou a mudança, nem ninguem lhe perguntou por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser correcção de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de crêr que o primeiro. Durou nove mezes esta côr; feita outra viagem por trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer mais branca.
Quanto á segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa lingua por esta maneira: «Paga o que deves, vê o que te _não_ fica.»
Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma edade, os sapatos não menor que ella. A barba é que não chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não haver quem lh'as pintasse na Santa Casa.
_Or, benè_, para falar como o meu capucho, porque é que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se póde: dou-lhe vinte capitulos para alcançal-o. Talvez eu, por essas alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro nada. Vá que malignos attribuam a frei *** alguma paixão profana; ainda assim não se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo. Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de trocar alguma vez o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade fugitiva, póde ser. O frade, lido na Escriptura, sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Póde ser, repito. Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus _habeas-corpus._
CAPITULO XXIV
Robespierre e Luiz XVI
Tanto cresceram as opiniões de Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela rua da Carioca. Havia alli uma loja de vidraceiro, com espelhos de vario tamanho, e, mais que espelhos, tambem tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem caixilho. Pararam alguns instantes, olhando á toa. Logo depois, Pedro viu pendurado um retrato de Luiz XVI, entrou e comprou-o por oitocentos reis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante. Paulo quiz ter egual fortuna, adequada ás suas opiniões, e descobriu um Robespierre. Como o logista pedisse por este mil e duzentos, Pedro exaltou-se um pouco.
--Então o senhor vende mais barato um rei, e um rei martyr?
--Ha de perdoar, mas é que esta outra gravura custou-me mais caro, redarguiu o velho logista. Nós vendemos conforme o preço da compra. Veja; está mais nova.
--Lá isso, não, acudiu Paulo. São do mesmo tempo; mas é que este vale mais que aquelle.
--Ouvi dizer que tambem era rei...
--Qual, rei! responderam os dous.
--Ou quiz sel-o, não sei bem... Que eu de historias, apenas conheço a dos mouros que aprendi na minha terra com a avó, alguns bocados em verso. E elle ainda ha mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba ao marido!
Foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso turbante na cabeça. Ó effeito da belleza! Os rapazes esqueceram por um instante as opiniões politicas e ficaram a olhar longamente a figura de Corinna. O logista, apesar dos seus setenta annos, tinha os olhos babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a bôca um tanto grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quizesse compral-a, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas esse era «uma pouca vergonha,» phrase que os deuses lhe perdoariam, quando soubessem que elle não quiz mais que abrir o appetite aos freguezes. E foi a um armario, tirou de lá, e trouxe uma Diana, núa como vivia cá em baixo, outr'ora, nos mattos. Nem por isso a vendeu. Teve de contentar-se com os retratos politicos.
Quiz ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por não ter dinheiro disponivel, e Paulo disse que não daria um vintem pela «cara de traidores». Antes não dissesse nada! O logista, tão depressa lhe ouviu a resposta como despiu as fôrmas obsequiosas, vestiu outras indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moço tinha razão.
--Tem muita razão. Foi um traidor, mau filho. mau irmão, mau tudo. Fez todo o mal que pôde a este mundo; e no inferno, onde está, se a religião não mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moço falou ha pouco em rei martyr,--continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito,--este é que foi um verdadeiro martyr daquelle, que lhe roubou o throno, que não era seu, para dal-o a quem não pertencia; e foi morrer á mingua o meu pobre rei e senhor, dizem que na Allemanha, ou não sei onde. Ah! _malhados!_ Ah! filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquella canalha de liberaes. Liberaes! Liberaes do alheio!
--É tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo.
--Eu não sei se elles eram de farinha, sei que levaram muita pancada. Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei!
Pedro quiz responder ao remoque do irmão, e propoz comprar o retrato de Pedro I. Quando o logista tornou a si, começou a negociar a venda, mas não poderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava encaixilhado, e Luiz XVI não; além disso, era mais novo. E vinha á porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a attenção para o rosto, os olhos principalmente, que bella expressão que tinham! E o manto imperial...
--Que lhe custa dar dous mil reis?
--Dou-lhe dez tostões; serve?
--Não serve. Mais que isso me custou elle.
--Pois então...
--Veja sempre. Pois isto não vale até trez mil reis? 0 papel não está encardido; a gravura é fina.
--Dez tostões, já disse.
--Não, senhor. Olhe, por dez tostões leve este de D. Miguel; o papel está bem conservado, e, com pouco dinheiro, manda lhe pôr um caixilho. Vá; dez tostões.
--Se eu já estou arrependido... Dez tostões pelo imperador.
--Ah! isso não! Custou-me mil e setecentos, ha trez semanas; ganho uns trezentos reis, quasi nada. Ganho menos com o senhor D. Miguel, mas tambem concordo que é menos procurado. Este de D. Pedro I, se passar amanhã, talvez já o não ache. Vá, sim?
--Eu passo depois.
Paulo já ia andando e mirando Robespierre; Pedro alcançou-o.
--Olhe, leve por sete tostões o senhor D. Miguel!
Pedro abanou a cabeça.
--Seis tostões serve?
Pedro, ao lado do irmão, desenrolára a sua gravura. O velho logista quiz ainda bradar: «Cinco tostões!» mas iam já longe, e ficava mal negociar assim.
CAPITULO XXV
D. Miguel
--Assim como assim, ficou pensando o velho, não ha de ser enrolado e guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; põem-se-lhe aqui umas taboinhas velhas...