Esau e Jacob

Part 3

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--Você é exquisita. Vá lá, prometto. Que tem que falasse, assim, por acaso?

--Não quero. Jure!

--Pois isto é cousa de juramento?

--Sem isso, não confio, disse ella sorrindo.

--Juro.

--Jure por Deus Nosso Senhor!

--Juro por Deus Nosso Senhor.

CAPITULO XI

Um caso unico!

Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas emfim cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento não lhe saiu mais da briga uterina dos filhos. Quiz esquecel-a. Jogou essa noite, como de costume; na seguinte, foi ao theatro; na outra a uma visita; e tornou ao voltarete do costume, e a briga sempre com elle. Era um mysterio. Talvez fosse um caso unico... Unico! Um caso unico! A singularidade do caso fel-o aggarrar-se mais á ideia, ou a ideia a elle; não posso explicar melhor este phenomeno intimo, passado lá onde não entra olho de homem, nem bastam reflexões ou conjecturas. Nem por isso durou muito tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi á casa do doutor Placido, rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de trez janellas, com muito terreno para o lado do mar. Creio que já não existe: datava do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para differençar do Caminho Novo.

Perdoa estas minucias. A acção podia ir sem ellas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo que alli havia uma especie de club, templo ou o que quer que era spirita. Placido fazia de sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma vara na mão, e fica um magico, mas, em verdade, as barbas e a camisola não as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrario de Santos, que teria trocado dez vezes a cara, se não fôra a opposição da mulher, Placido usava as barbas inteiras desde moço e a camisola ha dez annos.

--Venha, venha, disse elle, ande ajudar-me a converter o nosso amigo Ayres; ha meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas elle resiste.

--Não, não, não resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta annos, estendendo a mão ao recem-chegado.

CAPITULO XII

Esse Ayres

Esse Ayres que ahi apparece conserva ainda agora algumas das virtudes d'aquelle tempo, e quasi nenhum vicio. Não attribuas tal estado a qualquer proposito. Nem creias que vae nisto um pouco de homenagem á modestia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural effeito. Apesar dos quarenta annos, ou quarenta e dous, e talvez por isso mesmo, era um bello typo de homem. Diplomata de carreira, chegára dias antes do Pacifico, com uma licença de seis mezes.

Não me demoro em descrevel-o. Imagina só que trazia o callo do officio, o sorriso approvador, a fala branda e cautelosa, o ar da occasião, a expressão adequada, tudo tão bem distribuido que era um gosto ouvil-o e vel-o. Talvez a pelle da cara rapada estivesse prestes a mostrar os primeiros signaes do tempo. Ainda assim o bigode, que era moço na côr e no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura ao rosto, quando o meio seculo chegasse. O mesmo faria o cabello, vagamente grisalho, apartado ao centro. No alto da cabeça havia um inicio de calva. Na botoeira uma flor eterna.

Tempo houve,--foi por occasião da anterior licença, sendo elle apenas secretario de legação,--tempo houve em que tambem elle gostou de Nativividade. Não foi propriamente paixão; não era homem disso. Gostou della, como de outras joias e raridades, mas tão depressa viu que não era acceito, trocou de conversação. Não era frouxidão ou frieza. Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questão para elle é que nem as queria á força, nem curava de as persuadir. Não era general para escala á vista, nem para assedios demorados; contentava-se de simples passeios militares,--longos ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em summa, extremamente cordato.

Coincidencia interessante; foi por esse tempo que Santos pensou em casal-o com a cunhada, recentemente viuva. Esta parece que queria. Natividade oppoz se, nunca se soube porquê. Não eram ciumes; invejas não creio que fossem. O simples desejo de o não ver entrar na familia pela porta lateral é apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras hypotheses negadas. O desgosto de cedel-o a outra, ou tel-os felizes ao pé de si, não podia ser, posto que o coração seja o abysmo dos abysmos. Supponhamos que era com o fim de o punir por havel-a amado.

Póde ser; em todo caso, o maior obstaculo viria delle mesmo. Posto que viuvo, Ayres não foi propriamente casado. Não amava o casamento. Casou por necessidade do officio; cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu destino. Enganou-se: a differença de temperamento e de espirito era tal que elle, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse só. Não se affligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão.

Era cordato, repito, embora esta palavra não exprima exactamente o que quero dizer. Tinha o coração disposto a acceitar tudo, não por inclinação á harmonia, senão por tedio á controversia. Para conhecer esta aversão, bastava tel-o visto entrar, antes, em visita ao casal Santos. Pessoas de fóra e da familia conversavam da cabocla do Castello.

--Chega a proposito, conselheiro, disse Perpetua. Que pensa o senhor da cabocla do Castello?

Ayres não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma cousa, e fez um gesto de dous sexos. Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, media, que contentou a ambos os lados, cousa rara em opiniões medias. Sabes que o destino dellas é serem desdenhadas. Mas este Ayres,--José da Costa Marcondes Ayres,--tinha que nas controversias uma opinião dubia ou media póde trazer a opportunidade de uma pilula, e compunha as suas de tal geito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pilulas. Não lhe queiras mal por isso; a droga amarga engole-se com assucar. Ayres opinou com pausa, delicadeza, circumloquios, limpando o monoculo ao lenço de seda, pingando as palavras graves e obscuras, fitando os olhos no ar, como quem busca uma lembrança, e achava a lembrança, e arredondava com ella o parecer. Um dos ouvintes acceitou-o logo, outro divergiu um pouco e acabou de accordo, assim terceiro, e quarto, e a sala toda.

Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava tambem guardar por escripto as descobertas, observações, reflexões, criticas e anecdotas, tendo para isso uma serie de cadernos, a que dava o nome de _Memorial._ Naquella noite escreveu estas linhas:

«Noite em casa da familia Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do Castello. Desconfio que Natividade ou a irmã quer consultal-a; não será de certo a meu respeito.

«Natividade e um padre Guedes que lá estava, gordo e maduro, eram as unicas pessoas interessantes da noite. O resto insipido, mas insipido por necessidade, não podendo ser outra cousa mais que insipido. Quando o padre e Natividade me deixavam entregue a insipidez dos outros, eu tentava fugir-lhe pela memoria, recordando sensações, revivendo quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi hoje pelas costas, na rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel de D. Pedro, lá vão annos. Era dançarina; eu mesmo já a tinha visto dançar em Veneza. Pobre Capponi! Andando, o pé esquerdo saia-lhe do sapato e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade.

«Afinal tornei á eterna insipidez dos outros. Não acabo de crêr como é que esta senhora, aliás tão fina, pôde organisar noites como a de hoje. Não é que os outros não buscassem ser interessantes, e, se intenções valessem, nenhum livro os valeria; mas não o eram, por mais que tentassem. Emfim, lá vão; esperemos outras noites que tragam melhores sujeitos sem esforço algum. O que o berço dá só a cova o tira, diz um velho adagio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever de taes insipidos:

Dico, che quando l'anima mal nata...

CAPITULO XIII

A epigraphe

Ora, alli está justamente a epigraphe do livro, se eu lhe quizesse pôr alguma, e não me occorresse outra. Não é sómente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que fôr menos claro ou totalmente escuro.

Por outro lado, ha proveito em irem as pessoas da minha historia collaborando nella, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, especie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos.

Se acceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavallo, sem que o cavallo possa fazer de torre, nem a torre de pião. Ha ainda a differença da côr, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vae o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando em quando, como nas publicações do jogo, um diagramma das posições bellas ou difficeis. Não havendo taboleiro, é um grande auxilio este processo para acompanhar os lances, mas tambem póde ser que tenhas visão bastante para reproduzir na memoria as situações diversas. Creio que sim. Fóra com diagrammas! Tudo irá como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo.

CAPITULO XIV

A licção do discipulo

--Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata. Aprenda as verdades eternas.

--Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o relogio.

Um tal Ayres não era facil de convencer. Placido falou-lhe de leis scientificas para excluir qualquer macula de seita, e Santos foi com elle. Toda a terminologia spirita saiu fóra, e mais os casos, phenomenos, mysterios, testemunhos, attestados verbaes e escriptos... Santos acudiu com um exemplo: dous espiritos podiam tornar juntos a este mundo; e, se brigassem antes de nascer?

--Antes de nascer, creanças não brigam, replicou Ayres, temperando o sentido affirmativo com a intonação dubitativa.

--Então nega que dous espiritos...? Essa cá me fica, conselheiro! Pois que impede que dous espiritos?...

Ayres viu o abysmo da controversia, e forrou- se á vertigem por uma concessão, dizendo:

--Esaú e Jacob brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflicto. Quanto a outros, dado que briguem tambem, tudo está em saber a causa do conflicto, e não a sabendo, porque a Providencia a esconde da noticia humana... Se fosse uma causa espiritual, por exemplo...

--Por exemplo?

--Por exemplo, se as duas creanças quizerem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Creador. Ahi está um caso de conflicto, mas de conflicto espiritual, cujos processos escapam á sagacidade humana. Tambem poderia ser um motivo temporal. Supponhamos a necessidade de se acotovellarem para ficar melhor accommodados; é uma hypothese que a sciencia acceitaria; isto é, não sei... Ha ainda o caso de quererem ambos a primogenitura.

--Para que? perguntou Placido.

--Com quanto este privilegio esteja hoje limitado ás familias regias, á camara dos Iords e não sei se mais, tem todavia um valor symbolico. O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou politica, póde dar-se por instincto, principalmente se as creanças se destinarem a galgar os altos deste mundo.

Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das «cousas futuras». Ayres disse ainda algumas palavras bonitas, e accrescentou outras feias, admittindo que a briga podia ser prenuncio de graves conflictos na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:

--Não importa; não esqueçamos o que dizia um antigo, que «a guerra é a mãe de todas as cousas». Nia minha opinião, Empedocles, referindo-se á guerra, não o fez só no sentido technico. O amor, que é a primeira das artes da paz, póde-se dizer que é um duello, não de morte, mas de vida,--concluiu Ayres sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.

CAPITULO XV

_Teste David cum Sibylla_

--E então? disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender, ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razões boas.

--Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido.

--Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o meu caso é com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes são as verdadeiras do mundo.

Placido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio, ao contrario; mas elle estava tão acostumado a ouvil-o que o sorriso era já agora um sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos.

--Trata-se...

--Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei é um facto real; succedeu com os meus filhos...

--Como?

--É o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que tal briga se deu, e que é um caso extraordinario.

Santos expoz então a consulta, gravemente, com um gesto particular que tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. Não esqueceu nem escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem, é verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando, voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se não unico, mas possivel. Já o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem.

--Perdão, mas o baptismo...

--Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados, tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por inspiração á tia dos meninos.

--Justamente.

--D. Perpetua é muito devota.

--Muito.

--Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que estão no Credo; advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasião que se lembrou delles.

--Exacto, exacto!

O doutor foi á estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Paulo _aos Galatas_, e leu a passagem do capitulo II, versículo 11, em que o apostolo conta que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, «resistiu-lhe na cara».

Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando são bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e bella. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando:

--Sem contar que este numero _onze_ do versiculo, composto de dous algarismos eguaes, 1 e 1, é um numero gemeo, não lhe parece?

--Justamente. E mais: o capitulo é o segundo, isto é, dous, que é o proprio numero dos irmãos gemeos.

Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial, escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gemeos, numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam, nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A fé transfigura; Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chamma da vida. Pae de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crêr tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S. Pedro e S. Paulo tinham chegado á perfeição; não tornariam cá. Não importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.

--Deixe ás senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se ellas tem fé na tal mulher do Castello, e acham que é um vehiculo de verdade, não as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu oraculo. _Teste David cum Sibylla._

--Digo, digo! escreva a phrase.

Placido foi á secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já então Santos advertira que mostral-o á mulher era confessar a consulta spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de Natividade e pediu que calassem tudo.

--Estando com ella, não lhe diga o que se passou entre nós.

Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da revelação. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esaú e Jacob. O ar da rua não espanou a poeira do mysterio; ao contrario, o céu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, facto raro ou unico, era uma distincção divina. Contrariamente á esposa, que cuidava sómente da grandeza futura dos filhos, Santos pensava no conflicto passado.

Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão estranha expressão, que a mãe desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era.

--Não é nada, respondeu elle rindo.

--É alguma cousa, anda, acaba.

--Que ha de ser?

--Seja o que fôr, Agostinho, acaba.

Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa, a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo tão espalhadamente, que ella mal pôde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes cerrados:

--Ah! você! você!

--Perdoa, amiguinha; estava tão ancioso de saber a verdade... E nota que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle até me escreveu isto em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho: _Teste David cum Sibylla._

CAPITULO XVI

Paternalismo

D'ahi a pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir á toa, sem apertar a delle; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga para só ficarem paes.

Já não era spiritismo, nem outra religião nova; era a mais velha de todas, fundada por Adão e Eva, á qual chama, se queres, paternalismo. Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos, uma especie de ceremonia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual delles era o padre, qual o sacristão, não sei, nem é preciso. A missa é que era a mesma, e o evangelho começava como o de S. João (emendado): «No principio era o amor, e o amor se fez carne». Mas venhamos aos nossos gemeos.

CAPITULO XVII

Tudo o que restrinjo

Os gemeos, não tendo que fazer, iam mamando. Nesse officio portavam-se sem rivalidade, a não ser quando as amas estavam ás boas, e elles mamavam ao pé um do outro; cada qual então parecia querer mostrar que mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e chupando com alma. Ellas, á sua parte tinham gloria dos peitos e os comparavam entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para ellas.

Se não fosse a necessidade de pôr os meninos em pé, crescidos e homens, espraiava este capitulo. Realmente, o espectaculo, posto que commum, era bello. Os peraltas nutriam-se ao contrario dos paes, sem as artes do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas postas em crystaes e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de comer. A elles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito não deixava apparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso ou pelo somno. Quando era o somno, cada uma levava o seu menino ao berço, e ia cuidar de outra cousa. Este cotejo dar-me-ia trez ou quatro paginas solidas.

Uma pagina bastava para os chocalhos que embellezavam os pequenos, como se fosse a propria musica do céu. Elles sorriam, estendiam as mãos, alguma vez zangavam-se com as negaças, mas tanto que lh'os davam, calavam-se, e se não podiam tocar não se zangavam por isso. A proposito de chocalhos, diria que esses instrumentos não deixam memoria de si; alguem que os veja em mãos de creanças, se parecer que lhe lembram os seus, cae logo no engano, e adverte que a recordação ha de ser mais recente, alguma arenga do anno passado, se não foi a vacca de leite da vespera.

A operação de desmamar podia fazer-se em meia linha, mas as lástimas das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a mãe deu a cada uma dellas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa pagina ou mais. Poucas linhas bastariam para as amas seccas, porquanto não diria se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do officio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavallinhos de pau, bandeirolas, theatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a quinquilharia da infancia occuparia muito mais que o logar de seus nomes.

Tudo isso restrinjo só para não enfadar a leitora curiosa de ver os meus meninos homens e acabados. Vamos vel-os, querida. Com pouco, estão crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si mesmos; elles que abram a ferro ou lingua, ou simples cotovellos, o caminho da vida e do mundo.

CAPITULO XVIII

De como vieram crescendo

Eil -os que vem crescendo. A semelhança, sem os confundir já, continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e attentos, a mesma bôca cheia de graça, as mãos finas, e uma côr viva nas faces que as fazia crêr pintadas de sangue. Eram sadios; exceptuada a crise dos dentes, não tiveram molestia alguma, porque eu não conto uma ou outra indigestão de doces, que os paes lhes davam, ou elles tiravam ás escondidas. Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que ninguem.

Aos sete annos eram duas obras-primas, ou antes uma só em dous volumes, como quizeres. Em verdade, não havia por toda aquella praia, nem por Flamengos ou Glorias, Cajus e outras redondezas, não havia uma, quanto mais duas creanças tão graciosas. Nota que eram tambem robustos. Pedro com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo com um ponta-pé deitava Pedro ao chão. Corriam muito na chacara por aposta. Alguma vez quizeram trepar ás arvores, mas a mãe não consentia; não era bonito. Contentavam-se de espiar cá de baixo a fructa.

Paulo era mais aggressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fructa das arvores, era um moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre, e ás vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um e outro dos gemeos não soubessem aggredir e dissimular; a differença é que cada um sabia melhor o seu gosto, cousa tão obvia que custa escrever.

Obedeciam aos paes sem grande esforço, posto fossem teimosos. Nem mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira é alguma vez meia virtude. Assim é que, quando elles disseram não ter visto furtar um relogio da mãe, presente do pae, quando eram noivos, mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por elles em plena acção de furto. Mas era tão amiga delles! e com taes lagrimas lhes pediu que não dissessem a ninguem, que os gemeos negaram absolutamente ter visto nada. Contavam sete annos. Aos nove, quando já a moça ia longe, é que descobriram, não sei a que proposito, o caso escondido. A mãe quiz saber porque é que elles calaram outrora; não souberam explicar-se, mas é claro que o silencio de 1878 foi obra da affeição e da piedade, e dahi a meia-virtude, porque é alguma cousa pagar amor com amor. Quanto á revelação de 1880 só se póde explicar pela distancia do tempo. Já não estava presente a boa Miquelina; talvez ja estivesse morta. Demais, veiu tão naturalmente a referencia...

--Mas, porque é que vocês até agora não me disseram? teimava a mãe.

Não sabendo mais que razão déssem, um delles, creio que Pedro, resolveu accusar o irmão:

--Foi elle, mamãe!

--Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mamãe, elle é que não disse nada.

--Foi você!

--Foi você! não minta!

--Mentiroso é elle!

Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não tanto que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braços a tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaçar, beijou-os com tamanha ternura que elles não acharam melhor occasião de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio, á tarde, no carrinho do pae.