Esau e Jacob

Part 2

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Quanto á contradicção de que se trata aqui, é de ver que naquelle recanto de um larguinho modesto, nenhum conhecido daria com elles, ao passo que elles gozariam o assombro local; tal foi a reflexão de Santos, se se póde dar semelhante nome a um movimento interior que leva a gente a fazer antes uma cousa que outra. Resta a missa; a missa em si mesma bastava que fosse sabida no céu e em Maricá. Propriamente vestiram-se para o céu. O luxo do casal temperava a pobreza da oração; era uma especie de homenagem ao finado. Se a alma de João de Mello os visse de cima, alegrar-se-hia do apuro em que elles fôram rezar por um pobre escrivão. Não sou eu que o digo; Santos é que o pensou.

CAPITULO VI

Maternidade

A principio, vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da egreja, que lhe sujára o vestido.

--Venho cheia de pulgas, continuou ella: porque não fômos a S. Francisco de Paula ou á Gloria, que estão mais perto, e são limpas?

Santos trocou as mãos á conversa, e falou das ruas mal calçadas, que faziam dar solavancos ao carro. Com certeza, quebravam-lhe as molas.

Natividade não replicou, mergulhou no silencio, como naquelle outro capitulo, vinte mezes depois, quando tornava do Castello com a irmã. Os olhos não tinham a nota de deslumbramento que trariam então; iam parados e sombrios, como de manhã e na vespera. Santos, que já reparára nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ella não sei se lhe respondeu de palavra; se alguma disse, foi tão breve e surda que inteiramente se perdeu. Talvez não passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro, ou cousa assim. Fosse o que fosse, quando o _coupé_ chegou ao meio do Cattete, os dous levavam as mãos presas, e a expressão do rosto era de abençoados. Não davam sequer pela gente das ruas; não davam talvez por si mesmos.

Leitor, não é muito que percebas a causa daquella expressão e desses dedos abotoados. Já lá ficou dita atraz, quando era melhor deixar que a adivinhasses; mas provavelmente não a adivinharias, não que tenhas o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem varia do homem, e tu talvez ficasses com egual expressão, simplesmente por saber que ias dançar sabbado. Santos não dançava; preferia o voltarete, como distracção. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava gravida, acabava de o dizer ao marido.

Aos trinta annos não era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos sentiu mais que ella o prazer da vida nova. Eis ahi vinha a realidade do sonho de dez annos, uma creatura tirada da coxa de Abrahão, como diziam aquelles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta generosamente o seu dinheiro ás companhias e ás nações. Levam juro por elle; mas os hebraismos são dados de graça. Aquelle é desses. Santos, que só conhecia a parte do emprestimo, sentia inconscientemente a do hebraismo, e deleitava-se com elle. A emoção atava-lhe a lingua; os olhos que estendia á esposa e a cobriam eram de patriarcha; o sorriso parecia chover luz sobre a pessoa amada, abençoada e formosa entre as formosas.

Natividade não foi logo, logo, assim; a pouco e pouco é que veiu sendo vencida e tinha já a expressão da esperança e da maternidade. Nos primeiros dias, os symptomas desconcertaram a nossa amiga. É duro dizel-o, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e a folga. Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de entrar por ella, com tal arte que parecia haver alli nascido. Carteava-se com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha só esta casa de Botafogo, mas tambem outra em Petropolis; nem só carro, mas tambem camarote no Theatro-Lyrico, não contando os bailes do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertorio, em summa, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia áquella duzia de nomes planetarios que figuram no meio da plebe de estrellas. O marido era capitalista e director de um banco.

No meio disso, a que vinha agora uma creança deformal-a por mezes, obrigal-a a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro impeto foi esmagar o germen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor. A maternidade, chegando ao meio dia, era como uma aurora nova e fresca. Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chacara ou no regaço da aia, com trez annos de edade, e este quadro daria aos trinta e quatro annos que teria então um aspecto de vinte e poucos...

Foi o que a reconciliou com o marido. Não exagero; tambem não quero mal a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior parte amor. A conclusão é que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade, o que o embryão quer é entrar na vida. Cesar ou João Fernandes, tudo é viver, assegurar a dynastia e sair do mundo o mais tarde que puder.

O casal ia calado. Ao desembocar na praia de Botafogo, a enseada trouxe o gosto de costume. A casa descobria-se a distancia, magnifica; Santos deleitou-se de a ver, mirou-se nella, cresceu com ella, subiu por ella. A estatueta de Narciso no meio do jardim, sorriu á entrada delles, a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo, figurando no ar a alegria de ambos. A mesma ceremonia á descida. Santos ainda parou alguns instantes para ver o _coupé_ dar a volta, sair e tornar á cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguão.

CAPITULO VII

Gestação

Em cima, esperava por elles Perpetua, aquella irmã de Natividade, que a acompanhou ao Castello, e lá ficou no carro, onde as deixei para narrar os antecedentes dos meninos.

--Então? Houve muita gente?

--Não, ninguem; pulgas.

Perpetua tambem não entendera a escolha da egreja. Quanto á concurrencia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ella calou o resto. Era pessoa circumspecta, que não se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe impossivel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar á mulher um abraço longo e terno, abrochado por um beijo.

--Que é isso? exclamou espantada.

Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abraço á cunhada, e ia a dar-lhe um beijo tambem, se ella não recuasse a tempo e com força.

--Mas que é isso? Você tirou a sorte grande de Hespanha?

--Não, cousa melhor, gente nova.

Santos conservára alguns gestos e modos de dizer dos primeiros annos, taes que o leitor não chamará propriamente familiares; tambem não é preciso chamar-lhes nada. Perpetua, affeita a elles, acabou sorrindo e dando-lhe parabens. Já então Natividade os deixára para se ir despir. Santos, meio arrependido da expansão, fez-se serio e conversou da missa e da egreja. Concordou que esta era decrepita e mettida a um canto, mas allegou razões espirituaes. Que a oração era sempre oração, onde quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, não precisava estrictamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrificio. Talvez essas razões não fossem propriamente delle, mas ouvidas a alguem, decoradas sem esforço e repetidas com convicção. A cunhada opinou de cabeça que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram piamente que era um asno;--não disseram este nome, mas a totalidade das apreciações vinha a dar nelle, accrescentado de honesto e honestissimo.

--Era uma perola, concluiu Santos.

Foi a ultima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dalli em deante, vingou a soberania da creança que alvorecia. Não alteraram os habitos, nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como d'antes, até que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em casa. As amigas iam vel-a. Os amigos iam visital-os ou jogar cartas com o marido.

Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua escolha com tão boas razões, que acabavam trocando de parecer. Então ella ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias, emquanto elle enfiava uma beca no joven advogado, dava-lhe um logar no parlamento, outro no ministerio. tambem lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajudal-o-hia começando por uma caderneta na Caixa Economica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um annos. Alguma vez, ás noites, se estavam sós, Santos pegava de um lapis e desenhava a figura do filho, com bigodes,--ou então riscava uma menina vaporosa.

--Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; você sempre ha de ser creança.

E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho ou filha, e ambos escolhiam a côr dos olhos, os cabellos, a tez, a estatura. Vês que tambem ella era creança. A maternidade tem dessas incoherencias, a felicidade tambem, e porfim a esperança, que é a meninice do mundo.

A perfeição seria nascer um casal. Assim os desejos do pae e da mãe ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer sobre isso uma consulta spirita. Começava a ser iniciado nessa religião, e tinha a fé noviça e firme. Mas a mulher oppoz-se; a consultar alguem, antes a cabocla do Castello, a adivinha celebre do tempo, que descobria as cousas perdidas e predizia as futuras. Entretanto, recusava tambem, por desnecessario. A que vinha consultar sobre uma duvida, que dalli a mezes estaria esclarecida? Santos achou, em relação á cabocla, que seria imitar as crendices da gente réles; mas a cunhada acudiu que não, e citou um caso recente de pessoa distincta, um juiz municipal, cuja nomeação foi annunciada pela cabocla.

--Talvez o ministro da justiça goste da cabocla, explicou Santos.

As duas riram da graça, e assim se fechou uma vez o capitulo da adivinha, pura se abrir muis tarde. Por agora é deixar que o feto se desenvolva, a creança se agite e se atire, como impaciente de nascer. Em verdade, a mãe padeceu muito durante a gestação, e principalmente nas ultimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha da vida, a não ser um casal que aprendia a desamar de vespera.

CAPITULO VIII

Nem casal, nem general

Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veiu á luz um par de varões tão eguaes, que antes pareciam a sombra um do outro, se não era simplesmente a impressão do olho, que via dobrado.

Tudo esperavam, menos os dous gemeos, e nem por ser o espanto grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim como se entende que a mãe désse aos dous filhos aquelle pão inteiro e dividido do poeta; eu accrescento que o pae fazia a mesma cousa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a comparal-os, a medil-os, a pesal-os. Tinham o mesmo peso e cresciam por egual medida. A mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabellos castanhos, dedos finos e taes que, cruzados os da mão direita de um com os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter genio differente, mas por ora eram os mesmos extranhões. Começaram a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu baptizar.

Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pae ou da mãe, segundo fosse o sexo da creança. Sendo um par de rapazes, e não havendo a fórma masculina do nome materno, não quiz o pae que figurasse só o delle, e metteram-se a catar outros. A mãe propunha francezes ou inglezes, conforme os romances que lia. Algumas novellas russas em moda suggeriram nomes slavos. O pae acceitava uns e outros, mas consultava a terceiros, e não acertava com opinião definitiva. Geralmente, os consultados trariam outro nome, que não era acceito em casa. Tambem veiu a antiga onomastica luzitana, mas sem melhor fortuna. Um dia, estando Perpetua á missa, rezou o _Credo_, advertiu nas palavras: «....os santos apostolos S. Pedro e S. Paulo», e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gemeos. Os paes concordaram com ella e a pendencia acabou.

A alegria de Perpetua foi quasi tamanha como a do pae e da mãe, se não maior. Maior não foi, nem tão profunda, mas foi grande, ainda que rapida. O achado dos nomes valia quasi que pela feitura das creanças. Viuva, sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e era alguma cousa nomeal-os. Contava mais cinco ou seis annos que a irmã. Casara com um tenente de artilharia que morreu capitão na guerra do Paraguay. Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrario de Natividade que, sem ser magra, não tinha as mesmas carnes, e era alta e recta. Ambas vendiam saúde.

--Pedro e Paulo, disse Perpetua á irmã e ao cunhado, quando rezei estes dous nomes senti uma cousa no coração...

--Você será madrinha de um, disse a irmã.

Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de côr, passaram a receber medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S. Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal semelhança que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A mãe é que não precisou de grandes signaes externos para saber quem eram aquelles dous pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem entre si, não deixavam de querer mal uma á outra, pelo motivo da semelhança dos «seus filhos de criação». Cada uma affirmava que o seu era mais bonito. Natividade concordava com ambas.

Pedro seria medico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Tambem pensaram em dar um delles á engenharia. A marinha sorria á mãe, pela distincção particular da escola. Tinha só o inconveniente da primeira viagem remota; mas Natividade pensou em metter empenhos com o ministro. Santos falava em fazer um delles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias. Intimos da casa entravam nos calculos. Houve quem os fizesse ministros, dezembargadores, bispos, cardeaes...

--Não peço tanto, dizia o pae.

Natividade não dizia nada ao pé de extranhos, apenas sorria, como se tratasse de folguedo de São João, um lançar de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente ao numero. Não importa; lá dentro de si cobiçava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava, rezava ás noites, pedia ao céu que os fizesse grandes homens.

Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquellas ancias e conversas, perguntou a Natividade por que é que não ia consultar a cabocla do Castello. Affirmou que ella adivinhava tudo, o que era e o que viria a ser; conhecia o numero da sorte grande, não dizia qual era nem comprava bilhete para não roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece que era mandada de Deus.

A outra ama confirmou as noticias e accrescentou novas. Conhecia pessoas que tinham perdido e achado joias e escravos. A policia mesma, quando não acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castello falar á cabocla e descia sabendo; por isso é que não a botava para fóra, como os invejosos andavam a pedir. Muita gente não embarcava sem subir primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de quebranto...

Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembrança das amas. Santos encolheu os hombros. Depois examinou rindo a sabedoria da cabocla; principalmente a sorte grande era incrivel que, conhecendo o numero, não comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais difficil de explicar, mas podia ser invenção do povo. _On ne prête qu'aux riches_, accrescentou rindo. O marido, que estivera na vespera com um dezembargador, repetiu as palavras delle que «emquanto a policia não puzesse côbro ao escandalo...» O dezembargador não concluira. Santos concluiu com um gesto vago.

--Mas você é spirita, ponderou a mulher.

--Perdão, não confundamos, replicou elle com gravidade.

Sim, podia consentir n'uma consulta spirita; já pensara nella. Algum espirito podia dizer-lhe a verdade em vez de uma adivinha de farça... Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade falavam della a serio. Não queria confessar ainda que tinha fé, mas tinha. Recusando ir outr'ora, foi naturalmente a insufficiencia do motivo que lhe deu a força negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o destino dos dous era mais imperioso e util. Velhas ideias que lhe incutiram em creança vinham agora emergindo do cerebro e descendo ao coração. Imaginava ir com os pequenos ao morro do Castello, a titulo de passeio... Para que? Para confirmal-a na esperança de que seriam grandes homens. Não lhe passara pela cabeça a predicção contraria. Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a leitora, além de não crêr (nem todos crêem) póde ser que não conte mais de vinte a vinte e dous annos de edade, e terá a paciencia de esperar. Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia não ver a grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tambem se morre velha, e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto?

Ao serão, a materia da palestra foi a cabocla do Castello, por iniciativa de Santos, que repetia as opiniões da vespera e do jantar. Das visitas algumas contavam o que ouviam della. Natividade não dormiu aquella noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irmã á cabocla. Não se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um pouco dos cabellos. As amas não saberiam nada da aventura.

No dia aprazado metteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas com pretexto de passeio, e lá se fôram para a rua da Misericordia. Sabes já que alli se apearam, entre a egreja de S. José e a Camara dos deputados, e subiram aquella até á rua do Carmo, onde esta pega com a ladeira do Castello. Indo a subir, hesitaram, mas a mãe era mãe, e já agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que desceram, deram os dous mil reis ás almas, entraram no carro e voltaram para Botafogo.

CAPITULO IX

Vista de palacio

No Cattete, o _coupé_ e uma victoria cruzaram-se e pararam a um tempo. Um homem saltou da victoria e caminhou para o _coupé._ Era o marido de Natividade, que ia agora para o escriptorio, um pouco mais tarde que de costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nella e nos negocios da praça, nos meninos e na lei Rio Branco, então discutida na Camara dos deputados; o banco era credor da lavoura. Tambem pensava na cabocla do Castello e no que teria dito á mulher...

Ao passar pelo palacio Nova-Friburgo, levantou os olhos para elle com o desejo do costume, uma cobiça de possuil-o, sem prever os altos destinos que o palacio viria a ter na Republica; mas quem então previa nada? Quem prevê cousa nenhuma? Para Santos a questão era só possuil-o, dar alli grandes festas unicas, celebradas nas gazetas, narradas na cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração, de rancor ou de inveja. Não pensava nas saudades que as matronas futura contariam ás suas netas, menos ainda nos livros de chronicas, escriptos e impressos neste outro seculo. Santos não tinha a imaginação da posteridade. Via o presente e suas maravilhas.

Já lhe não bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bella, não era um palacio, e depois, não estava tão exposta como aqui no Cattete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes janellas, as grandes portas, as grandes aguias no alto, de azas abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palacio, os jardins e os lagos... Oh! goso infinito! Santos imaginava os bronzes, marmores, luzes, flores, danças, carruagens, musicas, ceias... Tudo isso foi pensado depressa, porque a victoria, embora não corresse (os cavallos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, não atrazava as rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de chegar á praça da Gloria, a victoria avistou o _coupé_ da familia, e as duas carragens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito.

CAPITULO X

O juramento

Tambem ficou dito que o marido saiu da victoria e caminhou para o _coupé_, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que elle vinha ter com ellas, sorriam de ante-mão.

--Não lhe digas nada, aconselhou Perpetua.

A cabeça de Santos appareceu logo, com as suissas curtas, o cabello rente, o bigode rapado. Era homem sympathico. Quieto, não ficava mal. A agitação com que chegou, parou e falou tirou-lhe a gravidade com que ia no carro, as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala, e a bengala entre os joelhos.

--Então? então? perguntou.

--Logo digo.

--Mas que foi?

--Logo.

--Bem ou mal? Dize só se bem.

--Bem. Cousas futuras.

--É pessoa séria?

--Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.

Mas o marido não podia despegar-se do _coupé_; queria saber alli mesmo tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá estava á espera, e se era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso foi escripto como aqui vae, devagar, para que a ruim letra do autor não faça mal á sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos sairam de atropello, umas sobre outras, embrulhadas, sem principio ou sem fim. A bella esposa tinha já as orelhas tão affeitas ao falar do marido, mórmente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não teve remedio e despediu-se.

Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso instar pela predicção. Era mais; era dar razão á mulher. Prometteu não indagar nada quando voltasse. Não prometteu esquecer, e dahi a teima com que pensou muitas vezes no oraculo. De resto, ellas lhe diriam tudo sem que elle perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.

Não concluas daqui que os freguezes do banco padecessem alguma desattenção aos seus negocios. Tudo correu bem, como se elle não tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castello nem cabocla. Não era só a mão que fazia o seu officio, assignando; a bôca ia falando, mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ancia existia e as figuras passavam e repassavam deante delle; no intervallo de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se não eram ambas a um tempo. Entrando no carro, á tarde, agarrou-se inteiramente ao oraculo. Trazia as mãos sobre o castão, a bengala entre os joelhos, como de manhã, mas vinha pensando os destino dos filhos.

Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistencia com que ella os procurava desde manhã. Não era só fital-os, ou perder os olhos no espaço e no tempo; era beijal-os tambem e apertal-os ao coração. Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpetua mudou primeiro de roupa que a irmã e foi achal-a deante dos berços, vestida como viera do Castello.

--Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ella.

--Estou, mas não sei em que é que elles serão grandes.

--Seja em que fôr, vamos almoçar.

Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predicção. Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulação nos olhos. Quiz calar e esperar, mas estava tão anciosa de lhe dizer tudo, e era tão boa, que resolveu o contrario. Unicamente não teve o tempo de cumpril-o; antes mesmo de começar, já elle acabava de perguntar o que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto; descreveu a cabocla e o pae.

--Mas então grandes destinos?

--Cousas futuras, repetiu ella.

--Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que não entendo. Brigar porquê? E brigar como? E teriam deveras brigado?

Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação, confessando que não falou mais delles para o não affligir; naturalmente é o que a outra adivinhou que fosse briga.

--Mas briga porquê?

--Isso não sei, nem creio que fosse nada mau.

--Vou consultar...

--Consultar a quem?

--Uma pessoa.

--Já sei, o seu amigo Placido.

--Se fosse só amigo não consultava, mas elle é o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida, dada pelo céu... Consulto só por hypothese, não digo os nossos nomes...

--Não! não! não!

--Só por hypothese.

--Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue ninguem a meu respeito, ouviu? Ande, prometta que não falará disto a ninguem, spiritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que terão sorte feliz. Grandes homens, cousas futuras... Jure, Agostinho.

--Mas você não foi em pessoa á cabocla?

--Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não me tornará a ver. Ande, jure!