Esau e Jacob

Part 18

Chapter 182,135 wordsPublic domain

Natividade confirmou a noticia; fôram eleitos em opposição um ao outro. Ambos apoiavam a Republica, mas Paulo queria mais do que ella era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se sinceros, ardentes, ambiciosos; eram bem acceitos dos amigos, estudiosos, instruidos...

--Amam-se finalmente?

--Amam-se em mim, respondeu ella depois de formular essa phrase na cabeça.

--Pois basta esse terreno amigo.

--Amigo, mas caduco; amanhã posso faltar-lhes.

--Não falta; a senhora tem muitos e muitos annos de vida. Faça uma viagem á Europa com elles, e verá que regressa ainda mais robusta. Eu sinto-me duplicado, por mais que me custe á modestia, mas a modestia perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens...

--Porque é que a politica os ha de separar?

--Sim, podiam ser grandes na sciencia, um grande medico, um grande jurisconsulto...

Natividade não quiz confessar que a sciencia não bastava. A gloria scientifica parecia-lhe comparativamente obscura; era calada, de gabinete, entendida de poucos. Politica, não. Quizera só a politica, mas que não brigassem, que se amassem, que subissem de mãos dadas... Assim ia pensando comsigo, emquanto Ayres, abrindo mão da sciencia, acabou declarando que, sem amor, não se faria nada.

--Paixão, disse elle, é meio caminho andado.

--A politica é a paixão delles; paixão e ambição. Talvez já pensem na presidencia da Republica.

--Já?

--Não... isto é, sim; guarde segredo. Interroguei-os separadamente; confessaram-me que este era o seu sonho imperial. Resta saber o que fará um, se o outro subir primeiro.

--Derrubal-o-ha, naturalmente.

--Não graceje, conselheiro.

--Não é gracejo, baroneza. A senhora cuida que a politica os desune; francamente, não. A politica é um incidente, como a moça Flora foi outro...

--Ainda se lembram della.

--Ainda?

--Foram á missa anniversaria, e desconfio que fôram tambem ao cemiterio, não juntos, nem á mesma hora. Se fôram, é que verdadeiramente gostavam della; logo, não foi um incidente.

Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Ayres não insistiu na opinião, antes deu mais relevo á della, com o proprio facto da visita ao cemiterio.

--Não sei se fôram, emendou Natividade; desconfio.

--Devem ter ido; elles gostavam realmente da pequena. Tambem ella gostava delles; a differença é que, não alcançando unifical-os, como os via em si, preferiu fechar os olhos. Não lhe importe o mysterio. Ha outros mais escuros.

--Parece que vae entrar a ceremonia, disse Perpetua que olhava para o recinto.

--Chegue-se para a frente, conselheiro.

A ceremonia era a do costume. Natividade cuidou que ia vel-os entrar juntos e affirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar separadamente, Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes cá de cima repetira formula com voz clara e segura. A ceremonia foi curiosa para as galerias, graças á semelhança dos dous; para a mãe foi commovedora.

--Estão legisladores, disse Ayres no fim.

Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo que as acompanhasse á carruagem. No corredor acharam os dous recentes deputados, que vinham ter com a mãe Não consta qual delles a beijou primeiro; não havendo regimento interno nesta outra camara, póde ser que fossem ambos a um tempo, mettendo-lhes ella a cara entre as bocas, uma face para cada um. A verdade é que o fizeram com egual ternura. Depois voltaram ao recinto.

CAPITULO CXVIII

Cousas passadas, cousas futuras

Indo a entrar na carruagem, Natividade deu com a egreja de S. José, ao lado, e um pedaço do morro do Castello, a distancia. Estacou.

--Que é? perguntou Ayres.

--Nada, respondeu ella entrando e estendendo-lhe a mão. Até logo?

--Até logo.

A vista da egreja e do morro despertou nella todas as scenas e palavras que lá ficaram transcriptas nos dous ou trez primeiros capitulos. Não esqueceste que foi ao pé da egreja, entre esta e a camara, que o _coupé_ esperou então por ella e pela irmã.

--Você lembra-se, Perpetua? disse Natividade, quando o carro começou a andar.

--De que?

--Não se lembra que foi alli que ficou o carro, quando fômos á cabocla do Castello?

Perpetua lembrava-se. Natividade advertiu ques devia ser alli perto a ladeira por onde subiram com difficuldade e curiosidade, até á casa da cabocla, no meio da outra gente, que descia ou subia tambem. A casa era á direita, tinha a escada de pedra...

Descança, amigo, não repito as paginas. Ella é que não podia deixar de as evocar, nem impedir que viessem de si mesmas. Tudo reapparecia com a frescura antiga. Não esquecera a figurinha da cabocla, quando o pae a fez entrar na sala: entra, Barbara. A ideia de estar agora madura e longe, restituida ao Estado, que deixou Provincia, rica onde nasceu pobre, não acudiu á nossa amiga. Não, toda ella voltou áquella manhã de 1871. A caboclinha era esta mesma creatura leve e breve, com os cabellos atados no alto da cabeça, olhando, falando, dansando... Cousas passadas.

Quando a carruagem ia a dobrar a praia de Santa Luzia, ladeando a Santa Casa, Natividade teve ideia, mas só ideia, de voltar e ir ter á ladeira do Castello, subir por ella, a ver se achava a adivinha no mesmo logar. Contar-lhe-hia que os dous meninos de mama, que ella predisse seriam grandes, eram já deputados e acabavam de tomar assento na camara. Quando cumpririam elles o seu destino? Viveria o tempo de os ver grandes homens, ainda que muito velha?

A presidencia da Republica não podia ser para dous, mas um teria a vice-presidencia, e se este a achasse pouco, trocariam mais tarde os cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda se lembrava das palavras que ouviu á cabocla, quando lhe perguntou pela especie de grandeza que caberia aos filhos. Cousas futuras! respondeu a Pythia do Norte, com tal voz que nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas é illusão. Quando muito, são as rodas do carro que vão rolando e as patas dos cavallos que batem: Cousas futuras! cousas futuras!

CAPITULO CXIX

Que annuncia os seguintes

Todas as historias, se as cortam em fatias, acabam com um capitulo ultimo e outro penultimo, mas nenhum autor os confessa taes; todos preferem dar-lhes um titulo proprio. Eu adopto o methodo opposto; escrevo no alto de cada um dos capitulos seguintes os seus nomes de remate, e, sem dizer a materia particular de nenhum, indico o kilometro em que estamos da linha. Isto suppondo que a historia seja um trem de ferro. A minha não é propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe tivesse posto aguas e ventos, mas tu viste que só andamos por terra, a pé ou de carro, e mais cuidosos da gente que do chão. Não é trem nem barco; é uma historia simples, acontecida e por acontecer; o que poderás ver nos dous capitulos que faltam, e são curtos.

CAPITULO CXX

Penultimo

Este é ainda um obito. Ja lá ficou defunta a joven Flora, aqui vae morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque li a certidão de baptismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem os cabellos brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente á edade. A elegancia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal maneira que ella conservava, não digo a frescura, mas a graça antiga.

Não morreu sem ter uma conferencia particular com os dous filhos,--tão particular, que nem o marido assistiu a ella. Tambem não instou por isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos cantos; mal poderia reter as lagrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus finaes pedidos. Porquanto, os medicos já a haviam desenganado. Se eu não visse nesses officiaes da saúde os escrutadores da vida e da morte, podia torcer a penna, e, contra a predicção scientifica, fazer escapar Natividade. Commetteria uma acção facil e réles, além de mentirosa. Não, senhor, ella morreu sem falta, poucas semanas depois daquella sessão da camara. Morreu de typho.

Tão secreta foi a conferencia della e dos filhos que estes não quizeram contal-a a ninguem, salvo ao conselheiro Ayres, que a adivinhou em parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte, pedindo-lhe silencio.

--Não juraram calar?

--Positivamente, não, disse um.

--Juramos só o que ella nos pediu, explicou o outro.

--Pois então podem contal-o a mim. Eu serei discreto como um tumulo.

Ayres sabia que os tumulos não são discretos. Se não dizem nada, é porque diriam sempre a mesma historia; dahi a fama de discrição. Não é virtude, é falta de novidade.

Ora, o que a mãe fez, quando elles entraram e fecharam a porta do quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe estendessem a dextra. Juntou-as sem força e fechou-as nas suas mãos ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos accesos apenas de febre, pediu-lhes um favor grande e unico. Elles iam chorando e calando, porventura adivinhando o favor.

--Um favor derradeiro, insistiu ella.

--Diga, mamãe.

--Vocês vão ser amigos. Sua mãe padecerá no outro mundo, se os não vir amigos neste. Peço pouco; a vossa vida custou-me muito, a criação tambem, e a minha esperança era vel-os grandes homens. Deus não quer, paciencia. Eu é que quero saber que não deixo dous ingratos. Anda, Pedro, anda, Paulo, jurem que serão amigos.

Os moços choravam. Se não falavam, é porque a voz não lhes queria sair da garganta. Quando pôde, saiu tremula, mas clara e forte:

--Juro, mamãe!

--Juro, mamãe!

--Amigos para todo sempre?

--Sim.

--Não quero outras saudades. Estas sómente, a amizade verdadeira, e que se não quebre nunca mais.

Natividade ainda conservou as mãos delles presas, sentiu-as tremulas de commoção, e esteve calada alguns instantes.

--Posso morrer tranquilla.

--Não, mamãe não morre, interromperam ambos. Parece que a mãe quiz sorrir a esta palavra de confiança, mas a bôca não respondeu á intenção, antes fez um tregeito que assustou os filhos. Paulo correu a pedir soccorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir á esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia começou logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas de agonia que tem havido no mundo, quantos seculos farão? Desses terão sido tenebrosos alguns, outros melancolicos, muitos desesperados, raros enfadonhos. Emflm, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silencio.

ÍNDICE

I -- Cousas futuras! II -- Melhor de descer que de subir III -- A esmola da felicidade IV -- A missa do _coupé_ V -- Ha contradicções explicaveis VI -- Maternidade VII -- Gestação VIII -- Nem casal, nem general IX -- Vista de palacio X -- O juramento XI -- Um caso unico! XII -- Esse Ayres XIII -- A epigraphe XIV -- A licção do discipulo XV -- _Teste David cum Sibylla_ XVI -- Paternalismo XVII -- Tudo o que restrinjo XVIII -- De como vieram crescendo XIX -- Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa XX -- A joia XXI -- Um ponto escuro XXII -- Agora um salto XXIII -- Quando tiverem barbas XXIV -- Robespierre e Luiz XVI XXV -- D. Miguel XXVI -- A luta dos retratos XXVII -- De uma reflexão intempestiva XXVIII -- O resto é certo XXIX -- A pessoa mais moça XXX -- A gente Baptista XXXI -- Flora XXXII -- O aposentado XXXIII -- A solidão tambem cança XXXIV -- Inexplicavel XXXV -- Em volta da moça XXXVI -- A discordia não é tão feia como se pinta XXXVII -- Desaccordo no accordo XXXVIII -- Chegada a proposito XXXIX -- Um gatuno XL -- Recuerdos XLI -- Caso do burro XLII -- Uma hypothese XLIII -- O discurso XLIV -- O salmão XLV -- Musa, canta... XLVI -- Entre um acto e outro XLVII -- S. Matheus, IV, 1-10 XLVIII -- Terpsichore XLIX -- Taboleta velha L -- O tinteiro de Evaristo LI -- Aqui presente LII -- Um segredo LIII -- De confidencias LIV -- Emfim, só! LV -- «A mulher é a desolação do homem» LVI -- O golpe LVII -- Das encommendas LVIII -- Matar saudades LIX -- Noite de 14 LX -- Manhã de 15 LXI -- Lendo Xenophonte LXII -- «Pare no D.» LXIII -- Taboleta nova LXIV -- Paz! LXV -- Entre os filhos LXVI -- O basto e a espadilha LXVII -- A noite inteira LXVIII -- De manhã LXIX -- Ao piano LXX -- De uma conclusão errada LXXI -- A commissão LXXII -- O regresso LXXIII -- Um El-Dorado LXXIV -- A allusão do texto LXXV -- Proverbio errado LXXVI -- Talvez fosse a mesma! LXXVII -- Hospedagem LXXVIII -- Visita ao marechal LXXIX -- Fusão, diffusão, confusão... LXXX -- Transfusão, emfim LXXXI -- Ai, duas almas... LXXXII -- Em S. Clemente LXXXIII -- A grande noite LXXXIV -- O velho segredo LXXXV -- Trez constituições LXXXVI -- Antes que me esqueça LXXXVII -- Entre Ayres e Flora LXXXVIII -- Não, não, não LXXXIX -- O dragão XC -- O ajuste XCI -- Nem só a verdade se deve ás mães XCII -- Segredo acordado XCIII -- Não ata nem desata XCIV -- Gestos oppostos XCV -- O terceiro XCVI -- Retraimento XCVII -- Um Christo particular XCVIII -- O medico Ayres XCIX -- A titulo de ares novos... C -- Duas cabeças CI -- O caso embrulhado CII -- Visão pede meia sombra CIII -- O quarto CIV -- A resposta CV -- A realidade CVI -- Ambos quaes? CVII -- Estado de sitio CVIII -- Velhas cerimonias CIX -- Ao pé da cova CX -- Que vôa CXI -- Um resumo de esperanças CXII -- O primeiro mez CXIII -- Uma Beatriz para dous CXIV -- Consultorio e banca CXV -- Troca de opiniões CXVI -- De regresso CXVII -- Posse das cadeiras CXVIII -- Cousas passadas, cousas futuras CXIX -- Que annuncia os seguintes CXX -- Penultimo