Part 16
Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedaço da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um _Principio de casa._ Era umas dessas casas, que alguem começou muitos annos antes, e ninguem acabou, ficando só duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso á janella. Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a intenção da obra suppria a perfeição, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim, a moça atou os cordões á pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse.
--É um esboço, não vale a pena.
--Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe ver.
--Não vale a pena...
Ayres insistiu; ella não pôde recusar mais tempo, abriu a pasta, e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas cabeças juntas e eguaes. Não teriam a perfeição desejada por ella; não obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas não ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeças, e pousou o desenho entre os papeis.
--Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora, a ver se lhe arrancava uma palavra.
Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar quasi extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolação da ausencia, tão viva que bastava a memoria, sem presença dos modelos. As duas cabeças estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora, vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e deu-lh'o. Não lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra. Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho a que ella não pôz assignatura. Deu-lh'o como se fôra um penhor de arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaços no bolso. Flora ficou por um instante parada, bôca entre-aberta, mas logo lhe apertou a mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caissem duas pequeninas lagrimas,--como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta do passado.
A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro, andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a no _Memorial_, depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos definitiva: «Talvez seja uma lagrima para cada gemeo.»
--Póde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis. Não importa; é um caso embrulhado.
CAPITULO CI
O caso embrulhado
Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente, tinham noticias da moça, sem que lhes déssem certeza do regresso. O tempo andava; não tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos.
A rigor, não contavam as semanas de interrupção, uma vez que a escolha se não dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da inclinação definitiva da moça. Reflexão justa, posto que interessada. Cada um delles não queria mais que prolongar a batalha, esperando vencel-a. Entretanto, não confiavam um do outro este pensamento gemeo, como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeição tinha agora o seu pudor e necessidade de calar. Já não falavam de Flora.
Nem só de Flora. Crescendo a opposição, recorriam ao silencio. Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos; se comiam juntos, diziam pouco ou nada. Às vezes, falavam para tirar aos criados qualquer suspeita, mas não advertiam que falavam mal e forçadamente, e que os criados iam commentar as palavras e a expressão delles na copa. A satisfação com que estes communicavam os seus achados e conclusões é das poucas que adoçam o serviço domestico, geralmente rude. Não chegavam, porém, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia da mãe. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade, Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi dormir mal em outro não menos quente que o primeiro.
CAPITULO CII
Visão pede meia sombra
Entretanto, a bella moça não os tirava da mesma alcova sua, por mais que buscasse devéras fugir-lhes. A memoria os trazia pela mão, elles entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si mesmos, ou empurrados por ella. Quando tornavam, era de sorpresa. Um dia, Flora aproveitou a presença para fazer um desenho egual ao que dera ao conselheiro, mais perfeito agora, muito mais acabado.
Tambem cançava. Então saía do quarto e ia para o piano. Elles iam com ella, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte, em pé, e ouviam com attenção religiosa, ora um nocturno, ora uma tarantella. Flora tocava ao sabor de ambos, sem deliberação; os dedos é que obedeciam á mecanica da alma. Para os não ver, inclinava a cabeça sobre o teclado; mas o campo da visão os guardava, se não era a respiração que se fazia sentir defronte ou dos lados. Tal era a subtileza dos seus sentidos.
Se fechava o piano e descia ao jardim, succedia muita vez que os ia achar alli, passeando, e a comprimentavam com tão boa sombra, que ella esquecia por instantes a impaciencia. Depois, sem que os mandasse, iam embora. Nos primeiros tempos. Flora tinha medo que a houvessem abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo, tão doceis, que ella acabou de se convencer que a fuga não era fuga. nem elles sentiam desprezo, e não os evocou mais. No jardim era mais rapido o desapparecimento, talvez pela extrema claridade do logar. Visão pede meia sombra.
CAPITULO CIII
O quarto
Sei, sei, trez vezes sei que ha muitas visões dessas nas paginas que lá ficam. Ulysses confessa a Alcinoos que lhe é enfadonho contar as mesmas cousas. Tambem a mim. Sou, porém, obrigado a ellas, porque sem ellas a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que não conheci. Conheci esta, com as suas obsessões ou como quer que lhes chames.
Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento e nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda, e ter mais de um namorado incognito, que suspirava por ella. Não faltava quem a admirasse de passagem, e fosse vel-a, quando menos, no banco verde, á porta do jardim, ao pé da irmã de Ayres. Póde ser que conhecesse algum, Gouvêa, por exemplo; em verdade, era como se os não visse.
Um delles valia mais que todos pela carruagem,--tirada por uma bella parelha de cavallos,--capitalista do bairro. A casa delle era um palacete, os moveis feitos na Europa, estylo imperio, apparelhos de Sèvres e de prata, tapetes de Smyrna, e uma vasta camara com dous leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa.
--A esposa ha de ser esta, pensou elle um dia, ao ver Flora.
Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito das muitas aguas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e as maneiras não tinham graça nem naturalidade. Era o Nobrega, aquelle da nota de dous mil reis, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de dous mil contos de reis. Para as notas recentes, a avó perdia-se na noite dos tempos. Agora os tempos eram claros, a manhã doce e pura.
Quando viu a moça, e fez a reflexão que lá fica, extranhou-se a si proprio. Vira outras damas, e mais de uma com escriptos nos olhos, dizendo-lhe o vasio do coração. Esta era a primeira que veramente lhe prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a vêl-a; a gente visinha notou porv'entura a frequencia recente do capitalista. Emfim, Nobrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto dos seus habituados, que assim se viam esquecidos do amphytrião. Nobrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem todos servidos e agazalhados, como se elle estivesse presente.
A ausencia não lhe faria perder as loas dos amigos. Ao contrario, os servos podiam dar testemunho do que todos elles pensavam do «grande homem.» Tal era o nome que lhe applicara o secretario particular, e pegou. Nobrega sabia pouca orthographia, nenhuma syntaxe, licções uteis, de certo, mas que não valiam a moral, e a moral, diziam todos, acompanhando o secretario, era o seu principal e maior merito. O fiel escriba accrescentava, que sendo preciso despir a camisa e dal-a a um mendigo, Nobrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada.
Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em pouco tempo, aquelle gosto de relance passou a grande paixão, tão grande que elle não a pôde conter, e resolveu confessal-a. Hesitou se o faria á propria moça ou á dona da casa. Não tinha animo para uma nem outra. Uma carta suppria tudo, mas a carta pedia lingua, calor e respeito. Se, ao menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma cousa, ainda que pouca, vá; a carta seria então uma resposta. Mas não lhe dizia nada o gesto da moça. Era só cortez e gracioso; não ia além dessas duas expressões.
D. Rita percebeu a inclinação de Nobrega e achou que era a melhor solução da vida para a hospede. Todas as incertezas, angustias e melancolias vinham acabar nos braços de um ricasso, estimado, respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem ás ordens... Ella mesma punha em relevo este premio grande da loteria de Hespanha.
Emfim, o secretario de Nobrega redigiu com a melhor linguagem que possuia uma carta em que o capitalista pedia a D. Rita o favor de consultar a moça amada.
--Não escreva palavrinhas doces, recommendou elle ao secretario. Gósto dessa moça com um sentimento de protecção, antes que outra cousa. Não é carta de namorado. Estylo grave...
--Uma carta secca, concluiu o secretario.
--Totalmente secca, não, emendou Nobrega, uma carta lisongeira, sem esquecer que não sou creança.
Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nobrega achou que o estylo podia ser um tanto ameno; não fazia mal pôr duas ou trez palavras apropriadas ao objecto, _belleza, coração, sentimento..._ Assim se cumpriu fmalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou contentissima. Justamente o que ella queria. Tinha o plano feito de concluir, por acto seu, uma historia melancolica, a que daria, por derradeira pagina, conclusão deslumbrante. Não pensou em dizel-o primeiro ao irmão, pela razão de querer que elle recebesse a noticia completa, tudo feito e acabado. Releu a carta; dispoz-se a ir logo, mas ha pessoas para quem o adagio que diz que «o melhor da festa é esperar por ella», resume todo o prazer da vida. D. Rita tinha essa opinião. Todavia, entendeu que taes cartas não são das que se guardam largo tempo, nem aliás das que se communicam sem cautella. Esperou vinte e quatro horas. Na manhã seguinte, depois de almoçadas, leu a carta á moça. O natural é que Flora ficasse espantada. Ficou, mas não tardou que risse, de um riso franco e sonoro, como ainda não rira em Andarahy. D. Rita ficou espantadissima. Suppunha que, não a pessoa, mas as vantagens e circumstancias pleiteassem a favor do candidato. Esquecia os seus cabellos entregues á sepultura do marido. Deu conselhos á moça, poz em relevo a posição do pretendente, o presente e o futuro, a situação esplendida que lhe dava este casamento, e por fim as qualidades moraes de Nobrega. A moça escutou calada, e acabou rindo outra vez.
--A senhora sabe se serei feliz? perguntou.
--Creio que sim; agora, o futuro é que confirmará ou não.
--Esperemos que o futuro chegue, comquanto me pareça muito demorado. Não nego as qualidades daquelle homem, parece bom, e trata-me bem, mas eu não quero casar, D. Rita.
--Realmente, a edade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias?
--Está pensado.
D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora viesse a mudar de opinião, podia ser uma desgraça para esta. Uso os proprios termos della, comsigo, _grande desgraça, posição esplendida, sentimento profundo._ D. Rita ia aos extremos, deante daquelle rico-homem dos ultimos annos do seculo.
CAPITULO CIV
A resposta
Não querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que lhe respondeu simplesmente:
--Diga que não pretendo casar.
Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou assombrado. Não contava com recusa. Ao contrario, era tão certa a acceitação que elle tinha já um programma do noivado. Imaginava a moça, os olhos timidos, a bôca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em casa. Tinha já composto uma invocação á Mãe Santíssima, para que os fizesse felizes. «Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as melhores joias do mundo... » Nobrega não fazia ideia exacta do mundo; era uma expressão. «Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de seda, que eu mesmo lhe calçarei...» Estremecia de cór, ao calçar-lhe as meias. Beijava-lhe os pés e os joelhos.
Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar tão pasmada e agradecida, que nos primeiros instantes não pudera responder a D. Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração ás golfadas. «Sim, senhora, queria, acceitava; não pensara em outra cousa.» Escreveria logo ao pae e á mãe para lhes pedir licença; elles viriam correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita, não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella, apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem brincos, nunca lhe vira brincos ás orelhas, duas perolasinhas que fossem. E porque é que lhe furaram as orelhas, se não tinham brincos que lhe dar? Considerou que ás mais pobres meninas do mundo furam as orelhas para os brincos que lhes possam cair do céu. E vem esta, e recusa os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ella...
Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado. De noite, elle e o secretario sairam a pé. Nobrega buscou em si o gesto mais frio e indifferente que pôde, quasi alegre, e annunciou ao secretario que Flora não queria casar. Não se descreve a admiração do secretario, em seguida a consternação, finalmente a indignação. Nobrega respondia magnanimo:
--Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da fortuna. Creia que é boa moça. Póde ser tambem, quem sabe? Por ter sido um mau conselho do coração. Aquella moça é doente.
--Doente?
--Não affirmo; digo que póde ser.
O secretario affirmou.
--Só a doença, disse elle, explicará a ingratidão, por que o acto é de pura ingratidão.
Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como as outras. Nobrega gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preço do silencio, e ninguem soube de nada.
CAPITULO CV
A realidade
A molestia, dada por explicação á recusa do casamento, passou á realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para não alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois, mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez não foi boa, antes má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de avisar os paes da moça. Os paes viéram logo. Natividade tambem desceu de Petropolis, não de vez; em cima, tinham medo de algum movimento cá embaixo. Veiu a visitar a moça, e, a pedido desta, ficou alguns dias.--Só a senhora me póde curar, disse Flora; não creio nos remedios que me dão. As suas palavras é que são boas, e os seus carinhos... Mamãe tambem, e D. Rita, mas não sei, ha uma differença, uma cousa... Veja: parece-me que até já rio.
--Já, já; ria mais.
Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na bôca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fórça a seriedade propria da dôr. Natividade dizia-lhe palavras de animação; fel-a prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade começou a ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e lá ficou aposentada. Natividade ia á noite para Botafogo e voltava de manhã. Ayres descia de Petropolis um dia sim, um dia não.
Tambem os gemeos lá iam saber da enferma. Agora mais que d'antes, sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia á moça. Pedro, já medico, ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia melhor dos symptomas, mas as esperanças e os receios eram de ambos. Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A razão, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppõe que os cartões de visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes, para que soubessem logo da presença, da cortezia e da anciedade. Tal cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e recebia as lembranças que lhe deixavam.
Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé de si, pela razão que já deu, e por outra que não disse, nem porventura soube, mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abençoado que gerára os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular. Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa, não a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal crise, Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então uma com as mãos da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mãos quentes, mas sem perder a graça dos dias da saúde. As outras entravam no quarto, pé ante pé, esticavam os pescoços para vel-a dormir, falavam por gestos ou tão baixo que só o coração as adivinharia.
Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu. Uma das duas janellas foi então escancarada, e a enferma encheu-se de vida e riso. Não é que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de cançada, ou por obrigação imposta, cochilava a miudo, e longamente. Então a enferma sentia só o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si.
CAPITULO CVI
Ambos quaes?
Ficámos no ponto cm que uma das janellas do quarto augmentou a dóse do luz e de céu que Flora pediu, sem embargo da febre, aliás pouca. O mais que se passou valia a pena de um livro. Não foi logo, logo, gastou longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que entre a vida e Flora se fizesse a reconciliação ou a despedida. Uma e outra podiam ser extensas; tambem podiam ser curtas. Conheci um homem que adoeceu velho, se não de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quasi infinito. Já pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da derradeira amiga espiar da porta entre-aberta, voltava o seu para outro lado e engrolava uma cantiga da infancia, para enganal-a e viver.
Flora não recorria a taes cantigas, aliás tão proximas. Quando via o céu e um pedaço de sol no muro, deleitava-se naturalmente, e uma vez quiz desenhar, mas não lh'o consentiram. Se a morte a espiava da porta, tinha um calefrio, é verdade, e fechava os olhos. Ao abril-os fitava a triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ella.
--Você amanhã está prompta, e de hoje a oito dias, ou antes, vamos para Petropolis, disse Natividade disfarçando as lagrimas, mas a voz fazia o officio dos olhos.
--Petropolis? suspirou a doente.
--Lá terá muito que desenhar.
Eram sete horas da manhã. Na vespera, quando os gemeos sairam de lá, já tarde, os receios da morte cresciam; mas não bastam receios, é preciso que a realidade venha atraz delles; dahi as esperanças. Tambem não bastam esperanças, a realidade é sempre urgente. A madrugada trouxe algum socego; ás sete horas, depois daquellas palavras de Natividade, Flora pôde dormir.
Quando Pedro e Paulo voltaram a Andarahy, a enferma estava acordada, e o medico, sem dar grandes esperanças, mandou fazer applicações, que declarou energicas. Todos tinham signaes de lagrimas. De noite, Ayres appareceu trazendo noticias de agitação na cidade.
--Que é?
--Não sei; uns falam de manifestações ao marechal Deodoro, outros de conspiração contra o marechal Floriano. Ha alguma cousa.
Natividade pediu aos filhos que se não mettessem em barulhos; ambos prometteram e cumpriram. Ao ver o aspecto de algumas ruas, grupos, patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamaraty illuminado, tiveram a curiosidade de saber o que houve e havia; vaga suggestão, que não durou dous minutos. Correram a metter-se em casa, e a dormir mal a noite. Na manhã seguinte os criados levaram os jornaes com as noticias da vespera.
--Veiu algum recado de Andarahy? perguntou um.
--Não, senhor.
Ainda quizeram ler, por alto, alguma cousa. Não puderam; estavam anciosos de sair de casa e saber noticias da noite. Posto levassem os jornaes comsigo, não leram claramente nem seguidamente. Viram nomes de pessoas prezas, um decreto, movimento de gente e de tropas, tão confuso tudo, que deram por si na casa de D. Rita, antes de entender o que houvera. Flora ainda vivia.
--Mamãe, a senhora está mais triste hoje que estes dias.
--Não fales tanto, minha filha, acudiu D. Claudia. Triste estou sempre que adoeces. Fica boa e verás.
--Fica, fica boa, interveiu Natividade. Eu em moça, tive uma doença egual que me prostrou por duas semanas, até que me levantei, quando já ninguem esperava.
--Então já não esperam que me levante?
Natividade quiz rir da conclusão tão prompta, com o fim de a animar. A doente fechou os olhos, abriu-os dahi a pouco, e pediu que vissem se estava com febre. Viram; tinha, tinha muita.
--Abram-me a janella toda.
--Não sei se fará bem, ponderou D. Rita.
--Mal não faz, disse Natividade.
E foi abrir, não toda, mas metade da janella. Flora, posto que já mui caida, fez esforço e voltou-se para o lado da luz. Nessa posição ficou sem dar de si; os olhos, a principio vagos, entraram a parar, até que ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando os passos, trazendo recados e levando-os; fóra, espreitavam o medico.
--Demora-se; já devia cá estar, dizia Baptista.
Pedro era medico, propoz-se a ir ver a enferma; Paulo, não podendo entrar tambem, ponderou que seria desagradavel ao medico assistente; além disso, faltava-lhe pratica. Um e outro queriam assistir ao passamento de Flora, se tinha de vir. A mãe, que os ouviu, saiu á sala, e, sabendo o que era, respondeu negativamente. Não podiam entrar; era melhor que fossem chamar o medico.
--Quem é? perguntou Flora, ao vel-a tornar ao quarto.
--São os meus filhos que queriam entrar ambos.
--Ambos quaes? perguntou Flora.
Esta palavra fez crêr que era o delirio que começava, se não é que acabava, porque, em verdade, Flora não proferiu mais nada. Natividade ia pelo delirio. Ayres, quando lhe repetiram o dialogo, rejeitou o delirio.
A morte não tardou. Veiu mais depressa do que se receiava agora. Todas e o pae acudiram a rodear o leito, onde os signaes da agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rapidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de esculptura. As janellas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu.
CAPITULO CVII
Estado de sitio