Part 15
Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia, emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente; nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados, alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes, que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega, e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta da minha infancia.
Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou que podia ser brincadeira dos dous.
--Ou dos trez, accrescentou outra veranista.
Iam de passeio á Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e não dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era capaz de supportar aquella situação. Ayres respirou, como quem vem de longe, e declarou que aos pés de um padre seria obrigado a mentir, taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse trazia sete mortes ás costas, com varias armas. As senhoras riam; elle falava soturno. Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos annos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um bandido, seu amigo, quando lhe provou que completára na vespera o seu vigesimo nono assassinato.
--Aqui está para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma.
Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.
--Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.
As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversação de Flora e seus namorados.
CAPITULO XCIII
Não ata nem desata
Emquanto indagavam della em Petropolis, a situação moral de Flora era a mesma,--o mesmo conflicto de affinidades, o mesmo equilibrio de preferencias. Cessado o conflicto, roto o equilibrio, a solução viria de prompto, e, por mais que doesse a um dos namorados, venceria o outro, a menos que interviesse o punhal da anecdota de Ayres.
Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando Ayres vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vel-a a S. Clemente, onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora, pedindo-lhe desculpa da desattenção, se a houve, e mandando-lhe saudades. «Mamãe pede que a recommende tambem ao senhor e á familia da baroneza.» Esta recommendação exprimia o consentimento obtido da mãe para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S. Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra manhã. Todavia, não era espontanea nem constante; tinha seus cochilos de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração dos ultimos dias.
Talvez a causa daquellas syncopes da conversação fosse a viagem que o espirito da moça fazia á casa da gente Santos. Uma das vezes, o espirito voltou para dizer estas palavras ao coração: «Quem és tu, que não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difficil a acção, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, além das particulas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao olho humano. Anda, esquece-os; se os não pódes esquecer, faze por não os ver mais; o tempo e a distancia farão o resto.»
Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do espirito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a mão tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas, mas salteadamente, até que o musculo as lançou de si. No valor e no impeto podia comparar o coração ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum tempo, e com isso explicou o inexplicavel.
Apesar de tudo, não acabava de entender a situação, e resolveu acabar com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora pensou em ir ao theatro para que os gemeos não a achassem á noite. Iria cedo, antes da hora da visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pae approvou a diversão, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dôr de cabeça, e o camarote ficou perdido.
--Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista.
D. Claudia oppôz-see guardou o camarote. A razão era de mãe; posto lhe tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo, falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha. Baptista não entendeu logo nem depois; mas para não desagradar á esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasião tão boa! Não era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o obsequio estava na lembrança, e tambem na cartinha que lhes escreveria, mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabeça, apesar de já inutil. A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão. Redigia a cartinha, punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lançava-lhe este sobrescripto gemeo: «Aos jovens apostolos Pedro e Paulo.» O trabalho intellectual tornou mais dura a opposiçâo de D. Claudia. Uma cartinha tão bonita!
CAPITULO XCIV
Gestos oppostos
Como póde um só tecto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é tambem este céu claro ou brusco,--outro tecto vastissimo que os cobre com o mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esqueça o proprio craneo do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão oppostos.
Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem camarotes; tambem não acudia á dôr de cabeça, que não tinha. Se falou nella foi por ser uma razão proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade da occasião. Não supponhas que está rezando, embora tenha alli um oratorio e um crucifixo. Não viria pedir a Jesus que lhe livrasse a alma daquella inclinação desencontrada. Posta á beira da cama, os olhos no chão, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se não era nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu os beiços sem raiva; metteu a cabeça entre as mãos, como se quizesse concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes.
Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. Não queria gaz. Queria uma claridade branda que désse pouca vida ao quarto e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade. O espelho, se fosse a elle, não lhe repetiria a belleza de todos os dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia. Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia, é verdade, mas a nossa amiguinha não se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha na tristeza desvairada daquella occasião uma pontinha de abatimento.
Como tudo isso se combinava, não sei, nem ella mesma. Ao contrario, Flora parecia, ás vezes, tomada de um espanto, outras de uma inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balanço, era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrança de ir dizer á mãe que a não mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia não durou o que me custa escrevel-a, e aliás já lá vae na outra linha. Recuou a tempo.
--É um desproposito, disse comsigo; basta não apparecer. Mamãe dirá que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui, digo-lhe que não posso apparecer...
As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da resolução. Projectou reclinar-se já na cama; depois achou melhor fazel-o quando ouvisse o passo da mãe no corredor. Todas essas alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, não é impossivel que fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranças aborreciveis. A moça temia ir atraz dellas.
CAPITULO XCV
O terceiro
Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se á grade e enfiou os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com luzes, uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada opposta, parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria saber quem fosse. A figura é que tão depressa a viu como estremeceu e não despegou mais os olhos della, nem os pés do chão.
Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro namorado á nossa amiguinha? «Um dos trez», disse ella. Pois aqui está o terceiro namorado, e póde ser que ainda appareça outro. Este mundo é dos namorados. Tudo se póde dispensar nelle; dia virá em que se dispensem até os governos, a anarchia se organisará de si mesma, como nos primeiros dias do paraiso. Quanto á comida, virá de Boston ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar. Os namorados é que serão perpetuos.
Aquelle era official de secretaria. Geralmente os empregados de secretaria casam cedo. Gouvêa era solteiro, andava ás moças. Um domingo, á missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da egreja tão apaixonado que não quiz outra promoção. Tinha gostado de muitas, acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu devéras. Pensava nella dia e noite. A rua de S. Clemente era o caminho que o levava e trazia da Repartição. Se a via, olhava muito para ella, detinha-se a distancia, á porta de uma casa, ou então fingia acompanhar com os olhos um carro que passava, e tirava-os do carro para a moça.
Quando amanuense, fizéra versos; nomeado official, perdeu o costume, mas um dos effeitos da paixão foi restituir-lh'o. Comsigo, em casa da mãe, gastava papel e tinta a metrificar as esperanças. Os versos escorriam da penna, a rima com elles, e as estrophes vinham seguindo direitas e alinhadas, como companhias de batalhão; o titulo seria o coronel, a epigraphe a musica, uma vez que regulava a marcha dos pensamentos. Bastaria essa força á conquista? Gouvêa imprimiu alguns em jornaes, com esta dedicatoria: _A alguem._ Nem assim a praça se rendia.
Uma vez deu-lhe na cabeça mandar uma declaração de amor. Paixão concebe despropositos. Escreveu duas cartas, sem o mesmo estylo, antes contrario. A primeira era de poeta; dava-lhe _tu_, como nos versos, adjectivava muito, chamava-lhe deusa por afiusão ao nome de Flora, e citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforço do official sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estylo das informações e dos officios, grave, respeitoso, com Excellencias. Comparando as duas cartas, não acabou de escolher nenhuma. Não foi só o texto diverso e contrario, foi principalmente a falta de autorisação que o levou a rasgar as cartas. Flora não o conhecia; quando menos, fugia de o conhecer. Os olhos della, se encontravam os delle, retiravam-se logo indifferentes. Uma só vez cuidou que traziam a intenção de perdoar. Que esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperança (começo a falar como a primeira carta) era possivel e até certo; tão certo que lhe fez perder o ponto na Repartição. Felizmente, era optimo empregado; o director ampliou o quarto de hora de tolerancia, e attendeu á dôr de cabeça, causa de triste insomnia.
--Dormi sobre a madrugada, acabou o official.
--Assigne.
Senão quando, morre-lhe o padrinho ao Gouvêa, e em testamento deixou ao afilhado trez contos de reis. Qualquer acharia nisso um beneficio, Gouvêa achou dous: o legado e a occasião de travar relações com o pae de Flora. Correu a pedir-lhe que acceitasse a procuração de legatario, ajustando logo os honorarios e as despezas. Com pouco, foi procural-o á casa, e para que o advogado désse a noticia do constituinte á familia, empregou muitos ditos subtis e graciosos, contou anecdotas do padrinho, expoz conceitos philosophicos e um programma de marido. Descreveu tambem a situação administrativa, a promoção eminente, os louvores recebidos, commissões e gratificações, tudo o que o distinguia de outros companheiros. De resto, ninguem na Repartição lhe queria mal. Aquelles mesmos que se creram prejudicados, acabavam confessando que era justa a preferencia dada ao Gouvêa. Não seria tudo exacto; elle o cria assim, ao menos, e, se não cria tudo, não desmentiu nada. Perdeu tempo e trabalho. Flora não soube da conversação.
Nem soube da conversação, nem deu agora pelo vulto, como lá disse. tambem disse que a noite era escura. Accrescento que começou a pingar fino e a ventar fresco. Gouvêa trazia guarda-chuva e ia a abril-o, mas recuou. O que se passou na alma delle foi uma luta egual á dos dous textos da carta. O official queria abrigar-se da chuva, o amanuense queria apanhal-a, isto é, o poeta renascia contra as intemperies, sem medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos da cavallaria. Guarda-chuva era ridiculo; poupar-se á constipação desmentia a adoração. Tal foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense, emquanto a chuva ia pingando grosso, e outra gente passava abrigada e depressa. Flora entrou e fechou a janella. O amanuense esperou ainda algum tempo, até que o official abriu o guarda-chuva e fez como os outros. Em casa achou a triste consolação da mãe.
CAPITULO XCVI
Retraimento
Aquella noite acabou sem incidente. Os gemeos viéram, Flora não appareceu, e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Claudia como passára a filha. A mãe respondeu que bem. Nem por isso Flora os recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma cousa que a fazia falar pouco. Pediram-lhe musica, tocou; foi bom, porque era um meio de se metter comsigo. Não respondeu aos apertos de mão, como elles suppunham que fazia até ha pouco. Assim foi essa noite, assim fôram as outras. Ora um, ora outro chegava primeiro, imaginando que a presença do rival é que tolhia a moça; mas a precedencia não valia nada.
CAPITULO XCVII
Um Christo particular
Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo um logar de governador para o pae,--ou qualquer commissão fóra daqui. Jesus-Christo não distribue os governos deste mundo. O povo é que os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e multiplicadas. A commissão podia vir, isso sim; a questão era saber se Jesus-Christo acudirá a todos os que lhe pedem a mesma cousa. Os commissarios seriam infinitamente mais que as commissões. Esta objecção foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao seu Christo, um de marfim velho, deixa da avó, um Christo que nunca lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não vinham importunar com supplicas. A propria mãe tinha o seu particular, confidente de ambições, consolo de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé ingenua da moça.
Certarmente, já lhe havia pedido que a livrasse daquella complicação de sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitação cançativa, daquelle empuxar para ambos os lados. Não foi ouvida. A causa seria talvez por não haver dado ao pedido a fórma clara que aqui lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, não era facil pedir assim por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para que a imagem lêsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o favor do céu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora, e resolveu emendar a mão. Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que não dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia a contradicção, sem ousar encaral-a por muito tempo.
CAPITULO XCVIII
O medico Ayres
Um dia pareceu á mãe que a filha andava nervosa. Interrogou-a e apenas descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi justamente um dia em que Ayres lá appareceu de visita, com recados de Natividade. A mãe falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos. Pediu-lhe que a interrogasse tambem. Ayres fez de medico, e, quando a moça appareceu e a mãe os deixou na sala, cuidou de a interrogar cautelosamente.
Vão proposito, porque ella mesma iniciou a conversação, queixando-se de dôr de cabeça. Ayres observou que dôr de cabeça era molestia de moça bonita, e, tendo confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o motivo. Não queria perder a occasião de lhe dizer o que toda a gente sabia e dizia, não só aqui, como em Petropolis.
--Porque não vae a Petropolis? concluiu.
--Espero fazer outra viagem mais longa, muito longa...
--Para o outro mundo, aposto?
--Acertou.
--Já tem bilhete de passagem?
--Comprarei no dia do embarque.
--Talvez não ache. Ha grande concurrencia para aquellas paragens; melhor é comprar antes, e, se quer, eu me encarrego disso; comprarei outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando não ha conhecidos, deve ser fastidiosa; ás vezes, os proprios conhecidos aborrecem, como succede neste mundo. As saudades da vida é que são agradaveis. A gente de bordo é vulgar, mas o commandante impõe confiança. Não abre a bôca, dá as suas ordens por gestos, e não consta que haja naufragado.
--O senhor está caçoando commigo; eu creio até que estou com febre.
--Deixe ver.
Flora estendeu-lhe o pulso; elle, com ar profundo:
--Está; febre de quarenta e sete grãos, a mão está ardendo, mas isto mesmo prova que não é nada, porque aquellas viagens fazem-se com as mãos frias. Ha de ser constipação, fale a sua mãe.
--Mamãe não cura.
--Póde curar, ha remedios caseiros; em todo caso, peça-lhe, e ella póde mandar chamar um medico.
--Medico dá tizanas, e eu não gósto de tizanas.
--Nem eu, mas tolero-as. Porque não experimenta a homoeopathia, que não tem gosto, como a allopathia?
--Qual é a que lhe parece melhor?
--A melhor? Só Deus é grande.
Flora sorriu, de um sorriso pallido, e o conselheiro percebeu algo que não era tristeza de passagem ou de creança. Novamente lhe falou de Petropolis, mas não insistiu. Petropolis era a aggravação do momento actual.
--Petropolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse a senhora, saía desta casa e desta rua; vá para outro bairro, casa amiga, com sua mãe ou sem ella...
--Para onde? perguntou Flora anciosa.
E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não se lembrava, e queria que elle mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto mais longe, melhor. Foi o que elle leu nos olhos parados. É ler muito, mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrario. Ayres fôra diplomata excellente, apesar da aventura de Caracas, se não é que essa mesma lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dous verbos parentes.
CAPITULO XCIX
A titulo de ares novos...
--Vou arranjar-lhe uma casa boa, disse elle, á despedida.
Desde que estava em Petropolis, Ayres não ia jantar a Andarahy, com a irmã, ás quintas-feiras, segundo ajustára e consta do cap. XXXII. Agora foi lá, e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa della, a titulo de ares novos. D. Rita não consentiu que D. Claudia lhe levasse a filha, ella mesma a foi buscar a S. Clemente, e Ayres acompanhou as trez.
A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida ao pé de paredão velho. O paredão remoçou. A simples flôr, ainda que pallida, alegrou o barro gretado e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada; Flora pagava o agazalho da dona da casa com tanta ingenuidade e graça, que esta acabou por lhe dizer que a roubaria á mãe e ao pae, e foi ainda occasião de riso para as duas.
«Você me deu um lindo presente com esta moça, escrevia D. Rita ao irmão; foi uma alma nova, e veiu em boa occasião, porque a minha anda já caduca. É muito docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto, tem aqui tirado riscos de varias cousas, e eu saio com ella para lhe mostrar vistas apreciaveis. Às vezes, apresenta uma cara triste, olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se são saudades de S. Clemente, ella sorri e faz ura gesto de indifferença. Não lhe falo dos nervos, para não a affligir, mas creio que vae melhor...»
Flora tambem escreveu as conselheiro Ayres, e as duas cartas chegaram á mesma hora a Petropolis. A de Flora era um agradecimento grande e cordial, mal entremeado de alguma palavra saudosa; confirmava assim a carta da outra, posto não a houvesse lido. Ayres comparou-as, lendo duas vezes a da moça para ver se ella escondia mais do que transparencia do papel. Em summa, confiava no remedio.
--Não os vendo, esquece-os, pensou elle; e se na visinhança houver alguem que pense em gostar della, é possivel que acabe casando.
Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira iria almoçar com ellas. A D. Claudia escreveu mandando-lhe a carta da irmã, e foi passar a noite em casa de Natividade, a quem deu a ler as cinco cartas. Natividade approvou tudo. Notava só que os filhos não lhe escreviam, e deviam estar desesperados.
--A Santa Casa cura, e a Bibliotheca Nacional tambem, retorquiu Ayres.
Na quinta feira, Ayres desceu e foi almoçar a Andarahy. Achou-as como as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente para ouvir por bôca as confissões do papel; eram as mesmas. D. Rita parecia ainda mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidencia que fez a moça, na vespera. Como falassem de cabellos, D. Rita referiu o que tambem consta do cap. XXXII, isto é, que cortára os seus para os metter no caixão do marido, quando o levaram a enterrar. Flora não a deixou acabar; pegou-lhe das mãos e apertou-as muito.
--Nenhuma outra viuva faria isto, disse ella.
Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mãos, pôl-as sobre os seus hombros, e concluiu o gesto por um abraço. Todas as pessoas louvaram-lhe a abnegação do acto; esta era a primeira que a achou unica. E dahi outro abraço longo, mais longo...
CAPITULO C
Duas cabeças
Tão longo foi o abraço que tomou o resto ao capitulo. Este começa sem elle nem outro. O mesmo aperto de mão de Ayres e Flora, se foi demorado, tambem acabou. O almoço fez gastar algum tempo mais que de costume, porque Ayres, além de conversador emerito, não se fartava de ouvir as duas, principalmente a moça. Achava-lhe um toque de languidez, abatimento ou cousa proxima, que não encontro no meu vocabulario.