Part 14
--Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntára Pedro a Paulo, antes da queda do imperio.
--Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro.
Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu como o irmão, emendando o resto:
--Não sei; você póde vir a ser presidente da republica.
Já lá iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os moços nisto se parecem com velhos e varões de outra edade, que muita vez pensam mais em si que em todos. Ha excepções, nobres algumas, outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas, epicos e tragicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação.
Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais da constituição de 24 de fevereiro que da moça Baptista. Pensavam em ambas, é verdade, e a primeira já dera logar a alguma troca de palavras acerbas. A constituição, se fosse gente viva, e estivesse ao pé delles, ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto de a achar um poço de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida da cabeça de Jove. Falo por metaphora para não descair do estylo. Em verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de manifestações politicas era commum, e as noticias á porta dos jornaes frequente, tudo era occasião de debate.
Quando, porém, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginação, o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e até cresciam, sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro. Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça, se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituição, melhor que outra qualquer deste mundo.
CAPITULO LXXXVI
Antes que me esqueça
Uma cousa é preciso dizer antes que me esqueça. Sabes que os dous gemeos eram bellos e continuavam parecidos; por esse lado não suppunham ter motivo de inveja entre si. Ao contrario, um e outro achavam em si qualquer cousa que accentuava, senão melhorava, as graças communs. Não era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. Convence-te de uma ideia, e morrerás por ella, escreveu Ayres por esse tempo no _Memorial_, e accrescentou: «nem é outra a grandeza dos sacrificios, mas se a verdade acerta com a convicção, então nasce o sublime, e atraz delle o util...» Não acabou ou não explicou esta phrase.
CAPITULO LXXXVII
Entre Ayres e Flora
Aquella citação do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a moça Flora divergiam ainda mais que na edade. Já contei que ella, antes da commissão do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudança do regimen trouxe occasião de defender tambem monarchistas e republicanos, segundo ouvia as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliação ou de justiça, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: «Não diga isso... São patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...» Eram só phrases, sem impeto de paixão nem estimulo de principios; e o interlocutor concluia sempre:
--A senhora é boa.
Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradicção benigna. Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor, não por desdem da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto á gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar á sua um aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais quieto a si mesmo.
Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della, dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era inclinação natural defender os ausentes, que não podiam responder por nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois o outro.
--Tambem concordo.
--E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.
--Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu penso.
--Ja o tenho achado em contradicção.
--Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario.
--Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção que lhe acho é agradavel.
--Tambem concordo.
--Concorda com tudo.
--Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?
Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S. Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes. Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego puro, um meio termo.
Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem; mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro, onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles, se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade, ou, mais propriamente, de saudade della...
Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma palavra ácerca de Pedro ou Paulo.
CAPITULO LXXXVIII
Não, não, não
Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou não. A verdade é que, se nenhum consentia em deixar a moça, tambem nenhum contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham já combinado que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. Não chegando a victoria, não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria o mais facil, se a paixão não crescesse, mas a paixão crescia.
Talvez não fosse exactamente paixão, se dermos a esta palavra o sentido de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinação de amor, um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a mão da pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais de uma vez estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia. A ausencia era já insoffrivel, a presença necessaria. Se não fôra o que aconteceu e se contará por essas paginas adiante, haveria materia para não acabar mais o livro; era só dizer que sim e que não, e o que estes pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, até que o editor dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia começada ficaria sem fim. Não, não, não... Força é continual-a e acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si, poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moça Flora, á noite, no quarto.
CAPITULO LXXXIX
O dragão
Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia, expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi, nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o tempo, e os trez o deixaram estirado no chão.
Fôram dallí a um _restaurant._ Ayres disse-lhes que, antigamente, em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de Offenbach e dá opereta. Contou anecdotas, disse as peças, descreveu as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica e palavras. Pedro e Paulo ouviam com attenção, mas não sentiam nada do que espertava os écos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho café da rua Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O mundo começou vinte annos antes daquella noite, e não acabaria mais, como um viveiro de moços eternos que era.
Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, já velho, quando lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo a noção idealista que ora possuia, comprehendeu que tal dragão era juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. Não obstante, as recordações eram doces, e muitas dellas viviam ainda frescas, como se viessem da vespera.
A differença da edade era grande, não podia entrar em pormenores com elles. Ficou só em lembranças, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo, entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos, pediram-lhe informações, e elle deu as que podia, sem intimidade.
Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo, e a separação não custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripção das paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversação, e porfim o ajuste a que me referi no começo deste capitulo e pede outro.
CAPITULO XC
O ajuste
--Quanto a mim, um de vocês gosta della, senão ambos, disse Ayres.
Pedro mordeu os beiços, Paulo consultou o relogio; iam já na rua. Ayres concluiu o que sabia, que sim, que ambos, e não trepidou em dizel-o, accrescentando que a moça não era como a Republica, que um podia defender e outro atacar; cumpria ganhal-a ou perdel-a de vez. Que fariam elles, dada a escolha? Ou já estava feita a escolha, e o preterido teimava em a torcer para si?
Nenhum, falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar alguma cousa. Tinham que a escolha não era clara ou decisiva. Outrosim, que lhes cabia o direito de esperar a preferencia, e fariam o diabo para alcançal-a. Taes e outras ideias vagavam silenciosamente nelles, sem sair cá fóra. A razão percebe-se, e devia ser mais de uma,--primeiro, a materia da conversação,--depois, a gravidade do interlocutor. Por mais que Ayres abrisse as portas á franqueza dos rapazes, estes eram rapazes e elle velho. Mas o assumpto em si era tão seductor, o coração, apesar de tudo, tão indiscreto, que não houve remedio se não falar, mas falar negando.
--Não me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem é preciso adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam della.
Elles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento que mostravam o desgosto da rivalidade, aliás sabida delles. Tal rivalidade era tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situação lhes parecia agora mais complicada e fechada que d'antes.
Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da mãe, que buscava todas as occasiões e meios de os fazer andar juntos e familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e ficou á espera delles.
--Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para, trez: eu vou no banquinho da frente.
Entraram e partiram.
--Bem, continuou Ayres, é certo que vocês gostam della, e egualmente certo que ella ainda não escolheu entre os dous. Provavelmente, não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise porque vocês se consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. Não havendo terceiro, e não se podendo prolongar a situação, porque é que vocês não combinam alguma cousa?
--Combinar quê? perguntou Pedro sorrindo.
--Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este nó gordio. Cada um que siga a sua vocação. Você Pedro, tentará primeiro desatal-o; se elle não puder, Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe. Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os espera, com duas bellas creaturas, virá trazel-as pela mão a um e a outro, e tudo se compõe na terra como no céu.
Ayres disse mais cousas antes de se apear á porta da casa. Apeado, ainda lhes perguntou:
--Estamos de accordo?
Os dous responderam de cabeça affirmativamente, e, ficando sós, não disseram nada. Que fossem pensando, é natural, e porventura o tempo lhes pareceu curto entre o Cattete e Botafogo. Chegaram á casa, subiram a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro achava deliciosa e Paulo abominavel, mas não disseram assim para não irritar um ao outro. A esperança do ajuste é que os levava á moderação relativa e passageira. Vivam os fructos pendentes do dia seguinte!
Cá estava o quarto á espera delles, um brinco de arranjo e graça, de commodidade e repouso. Era a mãe que dava os últimos retoques todos os dias; ella cuidava das flôres que seriam postas nos vasinhos de porcellana, e ella mesma as ia tirar á noite e pôr fóra das janellas para que elles não as respirassem dormindo. Cá estavam as velas ao pé das duas camas, mettidas nos seus castiçaes de prata, um com o nome de Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mãos, laços dados por ella nos cortinados, finalmente o retrato della e o do marido pendurados á parede, entre as duas camas, naquelle mesmo logar em que estiveram os de Luiz XVI e Robespierre, comprados na rua da Carioca.
Ao pé de cada um dos castiçaes acharam um biIhetinho de Natividade. Aqui está o que ella dizia: «Algum de vocês quer ir commigo á missa, amanhã? Faz annos que seu avô morreu, e Perpetua está adoentada.» Natividade esquecera de lhes falar antes, e, aliás, andava bem sem elles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter comsigo.
Pedro e Paulo riram do convite e da fórma, e um delles propoz que, para agradar á mãe, fossem ambos á missa. A acceitação da proposta veiu prompta; já não era harmonia, era uma especie de dialogo na mesma pessoa. O céu parecia escrever o tratado de paz que ambos teriam de assignar; ou, se preferes, a natureza corrigia as indoles, e os dous rixosos começavam a ajustar o ser e o parecer. Tambem não juro isto, digo o que se póde crêr só pelo aspecto das cousas.
--Vamos á missa, repetiram.
Seguiu-se um grande silencio. Cada um ruminava o ajuste e o modo de o propor. Emfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia melhor, propuzeram, discutiram, emendaram e concluiram sem escriptura de tabellião, apenas por acceitação de palavra. Poucas clausulas. Confessando que não podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em esperar por ella durante um prazo curto; trez mezes. Dada a escolha, o rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada. Como tivessem a certeza final da escolha, o accordo era facil; cada um não faria mais que excluir o outro. Não obstante, se ao fim do prazo, nenhuma escolha houvesse, cumpria adoptar uma clausula ultima. A primeira que acudiu foi deixarem ambos o campo, mas não os seduziu. Lembrou-lhes recorrer á sorte, e aquelle que fosse designado por ella, deixaria o campo ao rival. Assim passou uma hora de conversação, após a qual, cuidaram de dormir.
CAPITULO XCI
Nem só a verdade se deve ás mães
Às nove horas da manhã seguinte, Natividade estava prompta para ir á missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe apresentou.
--Parece que dormem.
E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi até á porta do quarto a ver se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu que teriam entrado tarde. Só não atinou que dormissem sobre o ajuste, nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fôfa, tudo ia bem. Emfim, acabou de calçar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a egreja.
A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e parentes outras. Não lhe esqueciam datas obituarias, como não lhe esqueciam natalicias, quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cór. Doce memoria! Ha pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar comsigo e com outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares.
Voltando á casa, viu Natividade os dous filhos no jardim, á espera della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta. Tinham resolvido ir ambos, mas o somno...
--O somno e a preguiça, concluiu a mãe rindo.
--Foi só o somno, disse Pedro.
--Accordamos agora mesmo, acabou Paulo.
Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando um braço a cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differença. Assim que, não foi por ciume, mas para os trazer a outras seducções e separal-os da guerra ante a bella Flora, que a mãe teimou em levar os filhos para Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estação seria excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis era a cidade da paz. O governo póde mudar cá embaixo e nas provincias...
--Que provincias, mamãe? atalhou Paulo.
Natividade sorriu e emendou.
--Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua mãe. Bem sei que são Estados; não são como as provindas antigas, não esperam que o presidente lhes vá aqui da Côrte...
--Que Côrte, baroneza?
Agora os dous riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade continuou:
--Petropolis é a cidade da paz; é, como dizia outro dia o conselheiro Ayres, é a cidade neutra, é a cidade das nações. Se a capital do Estado fosse alli, não haveria deposição de governo. Petropolis,--vejam vocês que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,--é de todos. A estação dizem que vae ser encantadora...
--Eu não sei se posso ir já, disse Paulo.
--Nem eu, acudiu Pedro.
Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia provavelmente o divorcio, reflectiu a mãe, e o prazer que lhe deram aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum delles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ella e o marido...
--Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa, respondeu Pedro.
Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava de consultar certos documentos do século XVII na Bibliotheca Nacional; ia escrever uma historia das terras possuidas.
Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer ás mães. Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas barças de Petropolis; desciam, almoçavam, trabalhavam, e ás quatro horas subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica, bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhãs, a temperatura e os domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas seguidas.
Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.
Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala. Natividade contava com o costume e as attracções.
Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima? Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças.
A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça. As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru, mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.
CAPITULO XCII
Segredo acordado
Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos cançam de calar,--calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que imputamos á indiscrição alheia.