Part 13
Tinham ajustado que elle iria ter com o presidente da Republica explicar-lhe a commissão que exercera, toda reservada, e, sem embargo, imparcial. Diria o espirito de concordia com que andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da conveniencia de um governo que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalissimo; e uma phrase final bem estudada.
--Isso na occasião, disse Baptista.
--Não, é melhor leval-a feita. Eu lembrei-me desta: «Creia V. Ex. que Deus está com os fortes e os bons.»
--Sim, não é má.
--Você póde accrescentar um gesto que indique céu.
--Isso é que não. Você sabe que eu não dou para gestos, não sou actor. Eu, sem mexer um pé, inspiro respeito.
D. Claudia dispensou o gesto; não era essencial. Quiz que elle escrevesse a phrase, mas já estava de cór. Baptista tinha boa memoria.
Naquelle mesmo dia, Baptista foi ao marechal Floriano. Não disse nada ás pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Claudia tambem calou, era por pouco tempo; ficou esperando anciosa. Esperou duas mortaes horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por intrigas. Não era devota, mas o medo inspira devoção, e ella rezou comsigo. Emfim, chegou Baptista. Ella correu a recebel-o, alvoroçada, pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpetua (vêde o que são testemunhos pessoaes na historia!) exclamou enternecida:
--Parecem dous pombinhos!
Baptista contou que a recepção foi melhor do que esperava, comquanto o marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A phrase? A phrase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando certo se elle preferia _bons a fortes_, ou se _fortes a bons..._
--Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.
--Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: «Creia V. Ex. que Deus está com os dignos!»
Com effeito, a ultima palavra podia abranger as duas, e trazia esta vantagem de dar á phrase um arranjo pessoal delle.
--Mas o marechal que disse?
--Não disse nada; ouviu-me com attenção obsequiosa e chegou a sorrir,--um sorriso leve, um sorriso de accordo...
--Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, de certo. Commigo elle diria alguma cousa. Você expoz tudo, conforme tinhamos combinado?
--Tudo.
--Expoz as razões da commissão, o desempenho, a nossa moderação...?
--Tudo, Claudia.
--E o aperto de mão do marechal?
--Não estendeu a mão, a principio; fez um gesto de cabeça; eu é que estendi a minha, dizendo: Sempre ás ordens de V. Ex.
--E elle?
--Elle apertou-me a mão.
--Apertou bem?
--Você sabe, não podia ser um apertão de amigo, mas deve ter sido cordial.
--E nenhuma palavra? Um _passe bem_, ao menos?
--Não, nem era preciso. Cortejei-o e saí.
D. Claudia deixou-se estar pensando. A recepção não lhe pareceu que fosse má, mas podia ser melhor. Com ella, seria muito melhor.
CAPITULO LXXIX
Fusão, diffusão, confusão...
Atraz falei das allucinações de Flora. Realmente, eram extraordinarias.
Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gemeos separados e sós, cada um no seu _coupé_, scismou que os ouvia falar; primeira parte da allucinação. Segunda parte: as duas vozes confundiam-se, de tão eguaes que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação fez dos dous moços uma pessoa unica.
Este phenomeno não creio que possa ser commum. Ao contrario, não faltará quem absolutamente me não creia, e supponha invenção pura o que é verdade purissima. Ora, é de saber que, durante a commissão do pae, Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e mesma creatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o phenomeno. Quando ouvia os dous, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinarias.
Tudo isto não é menos extraordinario, concordo. Se eu consultasse o meu gosto, nem os dous rapazes fariam um só mancebo, nem a moça seria uma só donzella. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser assim, consinto na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse effeito de visão repetia-se ao pé delles, tal qual na ausencia, quando ella se deixava esquecer do logar, e soltava a redea a si mesma. Ao piano, á palestra, ao passeio na chacara, á mesa de jantar, tinha dessas visões repentinas e breves, e das quaes ella mesma sorria, a principio.
Se alguem quizer explicar este phenomeno pela lei da hereditariedade, suppondo que elle era a forma affectiva da variação politica da mãe de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em ninguem. São cousas diversas. Conheceis os motivos de D. Claudia; a filha teria outros que ella propria não sabia. O unico ponto de semelhança é que, tanto na mãe como na filha, o phenomeno era agora mais frequente, mas em relação á primeira vinha do atropello dos acontecimentos exteriores. Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de uma sala a outra; as mesmas revoluções chamadas de palacio trazem alguma agitação que fica por certo prazo, até que a agua volte ao nivel. D. Claudia cedia á inquietação dos tempos.
A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia descobrir logo, nem sequer entender. Era um espectaculo mysterioso, vago, obscuro, em que ás figuras visiveis se faziam impalpaveis, o dobrado ficava unico, o unico desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma diffusão...
CAPITULO LXXX
Transfusão, emfim
Uma transfusão, tudo o que puder definir melhor, pela repetição e graduação das fórmas e dos estados, aquelle particular phenomeno, pódes empregal-o no outro e neste capitulo.
Dito o phenomeno, é preciso dizer tambem que Flora, a principio, achava-lhe graça. Minto; nos primeiros tempos, como estava longe, não lhe achou nada; depois, sentiu uma especie de susto ou vertigem, mas logo que se acostumou a passar de dous a um e de um a dous, pareceu-lhe graciosa a alternação, e chegava a evocal-a com o proposito de divertir a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se de si mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantanea. Não eram tão frequentes que confinassem com o delirio. Emfim, ella se foi acostumando e deleitando.
Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o phenomeno, depois de muita resistencia da parte della, que não queria perder o somno. Mas o somno vinha, e o sonho completava a vigilia. Flora passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro, e ambos iam admirar estrellas e montanhas, ou então o mar, que suspirava ou tempestuava, e as flores e as ruinas. Não era raro ficarem os dous a sós, deante de uma nesga de céu, claro de luar, ou todo repregado de estrellas como um panno azul escuro. Era á janella, suppõe; vinha de fóra a cantiga dos ventos mansos, um espelho grande, pendente da parede, reproduzia as figuras della e delle, confirmando a imaginação della. Como era sonho, a imaginação trazia espectaculos desconhecidos, taes e tantos que mal se podia crêr bastasse o espaço de uma noite. E bastava. E sobrava. Succedia que Flora acordava de repente, perdia o quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo illusão, e raro então dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cançava-se, até adormecer novamente e sonhar outra cousa.
Outras vezes, a visão ficava sem o sonho, e diante della uma só figura esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto supplice. Uma noite, indo a deitar-lhe os braços sobre os hombros com o fim inconsciente de cruzar os dedos atraz do pescoço, a realidade, posto que ausente, clamou pelos seus fóros, e o unico moço se desdobrou na duas pessoas semelhantes.
A differença deu ás duas visões de acordada um tal cunho de fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.
CAPITULO LXXXI
Ai, duas almas...
Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do Fausto, adequado:
Ai, duas almas no meu seio moram!
A mãe dos gemeos, a bella Natividade podia havel-o citado tambem, antes delles nascerem, quando ella os sentia lutando dentro em si mesma:
Ai, duas almas no meu seio moram!
Nisto as duas se parecem,--uma os concebeu, outra os recolheu. Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de Flora, nem o proprio Mephistopheles nol-o explicaria de modo claro e certo. O verso basta:
Ai, duas almas no meu seio moram!
Talvez aquelle velho Placido, que lá deixamos nas primeiras paginas, chegasse a deslindar estas outras. Doutor em materias escuras e complicadas, sabia muito bem o valor dos numeros, a significação dos gestos não só visiveis como invisiveis, a estatistica da eternidade, a divisibilidade do infinito. Era já morto deste alguns annos. Has de lembrar-te que elle, consultado pelo pae de Pedro e Paulo, acerca da hostilidade original dos gemeos, explicou-a promptamente. Morreu no seu officio; expunha a trez discipulos novos a correspondencia das letras vogaes com os sentidos do homem, quando caiu de bruços e expirou.
Já então os adversarios de Placido,--que os tinha na propria seita,--affirmavam haver elle aberrado da doutrina, e, por natural effeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com esses divergentes da casa commum, que acabaram formando outra egrejinha em outro bairro, onde pregavam que a correspondencia exacta não era entre as vogaes e os sentidos, mas entre os sentidos e as vogaes. Esta outra formula, parecendo mais clara, fez com que muitos discipulos da primeira hora acompanhassem os da ultima, e proclamem agora, como conclusão final, que o homem é um alphabeto de sensações.
Venceram estes, ficando mui poucos fieis á doutrina do velho Placido. Evocado algum tempo depois de morto, confessou elle ainda uma vez a sua formula, como a unica das unicas, e excommungou a quantos prégassem o contrario. Aliás, os dissidentes já o haviam excommungado tambem, declarando abominavel a sua memoria, com aquelle odio rijo, que fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade.
Talvez o velho Placido deslindasse o problema em cinco minutos. Mas para isso era preciso evocal-o, e o discipulo Santos cuidava agora de umas liquidações ultimas e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas tambem de pão e seus compostos e similares.
CAPITULO LXXXII
Em S. Clemente
Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos, e tornou á rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades começaram antes da separação, mas a affeição, o costume, a estima,--a necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a poucos dias.
Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi lá nessa mesma noite com recado da mãe para saber se tinham chegado bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a visita, que estavam bastante cançados. Os olhos de Flora desmentiram esta affirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos tristes que alegres. A alegria vinha da promptidão de Paulo, a tristeza da ausencia de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas sensações se mostravam a um tempo, eis o que não entenderás bem nem mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez pareceu á moça ouvir rumor na escada; tudo illusão. Mas estes gestos, que Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado ao irmão, não eram taes que a fizessem esquecer o irmão presente.
Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro, mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação enchia os olhos da moça, até á hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que, se se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.
CAPITULO LXXXIII
A grande noite
Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar é contar de um até mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia não ceder logo. É remedio que ainda não fez dormir ninguem, ao que parece, mas não importa. Até agora, todas as applicações efficazes contra a tisica vão de par com a noção de que a tisica é incuravel. Convem que os homens affirmem o que não sabem, e, por officio, o contrario do que sabem; assim se fórma esta outra incuravel, a Esperança.
Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel, que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia. Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para dormir.
A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças, realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,--e portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por sua vez acabava em silencio e contemplação.
Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol, e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico.
--Paulo! meu querido Paulo!
Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem; foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita ternura...
Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra.
Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas. Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por darem a sensação de uma alma capaz de resistir.
Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.
Unicamente,--e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,--achou cá alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.
Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos, ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si, puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes apalpasse a differença, o _quid_, o algo, o indefinivel. A lamparina ia morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações, por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel. Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou aos ultimos arrancos.
Tudo se mistura, á meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crêr que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crêndo, mormente depois que esta unica pessoa solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nella o coração. Estava tão cançada de emoções que tentou erguer-se e ir fóra, mas não pôde; as pernas pareciam de chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, até que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se:
--Que é isto?
A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu então que estava sem um nem outro, sem dous nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir, e á imaginação creára tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe. Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinião, cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa.
--Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista.
Metteu-se na cama, e, se não dormiu logo, tambem não se demorou muito; não tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma carroça, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo. O artigo era de verdade. A mãe veiu acordal-a, ás dez horas da manhã, chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da manhã que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita; acabara a grande noite.
CAPITULO LXXXIV
O velho segredo
Natividade dormiu tranquilla, em Botafogo, mas acordou pensando nos filhos e na moça de S. Clemente. Viera reparando nos trez. Parecera-lhe antes que Flora não acceitava um nem outro, logo depois que os acceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu que ainda não sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Elles é que pareciam sentir egual inclinação e egual ciume. Dahi alguma possivel catastrophe. A separação não supprimiria tudo; mas, além de que, separadas as familias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas podiam ser menos frequentes e até raras. Tinha assim o que quizera.
Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petropolis; propriamente, chegára. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria lá no alto damas elegantes, diversões, alegria. Podia ser até que elles achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ella teria a liberdade de desposar Flora. Calculos de mãe; vieram outros que os modificaram, e outros que os restauraram. Quem fôr mãe que lhe atire a primeira pedra.
Nenhuma outra mãe atirou a primeira pedra á nossa amiga. Quero crêr que a razão disto não foi senão a propria discrição de Natividade. Suspeitas e calculos iam ficando no coração della. Calou tudo e esperou.
Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se ella fosse sua mãe, duplamente mãe, uma vez que não escolhera ainda nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas indoles se ajustassem melhor que entre Flora e D. Claudia. A principio, sentiu não sei que inveja amiga, antes desejo, quando via que as fórmas da outra, embora arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da esculptura antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o introito de uma belleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser grande...
Flora conhecia a predicção da cabocla do Castello, relativamente aos dous gemeos. A predicção não era já segredo para ninguem. Santos falara della em tempo, apenas occultando a subida de Natividade ao Castello; emendou a verdade, dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O resto foi revelado em confiança, como ao finado Placido, e ainda depois de alguma luta. Trez ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a lingua deu sete voltas na bôca, e o segredo saiu medroso e sussurrado, mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes. Emfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpetua, por isto ou aquillo, contou-o agora á moça Baptista, que a ouviu incredula. Que podia saber a cabocla do futuro?
--Sabia, e a prova é que adivinhou outras cousas, que não posso contar e eram verdadeiras. Você não imagina como o diacho da cabocla via longe. E tinha uns olhos de espetar o coração.
--Não acredito, D. Perpetua. Pois agora o futuro da gente... E grandes como?
--Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse só que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de Estado.
Perpetua parecia haver comprado os olhos á cabocla. Enfiava-os pela amiga abaixo, até o coração, que aliás não batia com força nem apressado, mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo impossivel que os dous rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora deixou de objectar e acceitou a predicção, sem outra palavra mais que um gesto,--sabes, creio,--um gesto de boca, fazendo descair os cantos della, levantando os hombros levemente, e espalmando as mãos, como se dissesse: Emfim, póde ser.
Perpetua accresceptou que, mudado o regimen, era natural que Paulo chegasse primeiro á grandeza,--e aqui espetou bem os olhos. Era um modo de de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevação de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a pessoa. Não achou nada. Flora continuou a não se deixar ler. Não lhe attribuas isto a calculo, não era calculo. Seriamente, não pensava em nada acima de si.
CAPITULO LXXXV
Trez constituições