Esau e Jacob

Part 12

Chapter 124,069 wordsPublic domain

Creio que sim, mas dahi a saber o objecto especial e real, ia largo espaço. Tambem não se sabe como foi parar ás mãos de Baptista aquelle recado do governo. Sabe-se que elle não desprezou a escolha, quando um amigo intimo correu a chamal-o ao palacio do generalissimo. Viu que era reconhecer nelle muita finura e capacidade de trabalho. Não é menos certo, porém, que a commissão entrava a aborrecel-o, posto que na correspondencia official dissesse exactamente o contrario. Se taes papeis mostrassem sempre o coração da gente, Baptista, cujas instrucções eram, aliás, de concordia, parecia querer levar a concordia a ferro e fogo; mas o estylo não é o homem. O coração de Baptista fechava-se, quando elle escrevia, e deixava ir a mão adiante, com a chave do coração apertada... «Já é tempo, suspirava o musculo, já é tempo de um logar de governador.»

Quanto a D. Claudia, nao queria ver acabada a commissão, que restituia ao esposo a acção politica; faltava-lhe sómente uma cousa, opposição. Nenhum jornal dizia mal delle. Aquelle prazer de ler todas as manhãs as descomposturas dos adversarios, lel-as e relel-as com os seus nomes feios, como lategos de muitas pontas, que lhe rascavam as carnes e a excitavam ao mesmo tempo, esse prazer não lhe dava a commissão reservada. Ao contrario, havia uma especie de aposta em achar o commissario justo, equitativo e conciliador, digno de admiração, typo civico, caracter sem macula. Tudo isto ella conheceu outr'ora, mas para lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse entremeado de ralhos e calumnias. Sem elles, era agua ensossa. Tambem não tinha aquella parte de ceremonias a que obrigava o summo cargo, mas não lhe faltavam attenções, e era alguma cousa.

CAPITULO LXXII

O regresso

Quando o marechal Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de novembro, Baptista recordou o tempo dos manifestos liberaes, e quiz fazer um. Chegou a principial-o, em segredo, empregando as belIas phrases que trazia de cór, citações latinas, duas ou trez apostrophes. D. Claudia reteve-o á beira do abysmo, com razões claras e robustas. Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um beneficio. Serve-se muita vez a liberdade parecendo suffocal-a. Depois, era o mesmo homem que a havia proclamado que convidava agora a nação a dizer o que queria, e a emendar a constituição, salvo nas partes essenciaes. A palavra do generalissimo, como a sua espada, bastava a defender e consummar a obra principiada. D. Claudia não tinha estylo proprio, mas sabia communicar o calor do discurso ao coração de um homem de boa vontade. Baptista, depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no hombro imperativamente.

--Tens razão, filha.

Não rasgou o papel escripto; queria guardal-o como simples lembrança, e a prova é que ia escrever uma carta ao presidente. D. Claudia tambem lhe tirou esta ideia da cabeça. Não havia necessidade de lhe mandar o seu suffragio; bastava conservar-se na commissão.

--O governo não está satisfeito com você?

--Está.

--Vendo que você se conserva, conclue que approva tudo, e basta.

--Sim, Claudia, concordou elle após alguns instantes. Ao contrario, qualquer cousa que escrevesse contra a assembléa sediciosa que o presidente acaba de dissolver, pareceria falta de piedade. Paz aos mortos! Tens razão, filha.

Conservou-se calado, operando, fiel ás instrucções recebidas. Vinte dias depois, o marechal Deodoro passava o governo ás mãos do marechal Floriano, o congresso era restabelecido e todos os decretos do dia 3 annullados.

Ao saber de taes factos, Baptista pensou morrer. Ficou sem fala por alguns instantes, e D. Claudia não achou a menor parcella de animo que lhe désse. Nenhum contára com a marcha rapida dos acontecimentos, uns sobre outros, com tal atropello que parecia um bando de gente que fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força e socego, esperanças e grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.

Agora é que Baptista comprehendeu o erro de haver dado ouvidos á esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4 ou 5, estaria com um documento de resistencia na mão para reivindicar um posto de honra qualquer,--ou só estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a pensar em imprimil-o, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como este; «O dia da oppressão é a vespera da liberdade.» Citava a bella Roland caminhando para a guilhotina; «Ó liberdade, quantos crimes em teu nome!» D. Claudia fez-lhe ver que era tarde, e elle concordou.

--Sim, é tarde. Naquelle dia é que não era tarde, vinha á hora propria, para o effeito certo.

Baptista amarrotou o papel distrahidaraente; depois alisou-o e guardou-o. Em seguida, fez um exame de consciencia, profundo e sincero. Não devia ter cedido; a resistencia era o melhor; se tem resistido ás palavras da mulher, a situação seria outra. Apalpou-se, achou que sim, que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e passado adiante. Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atraz o tempo, e mostraria como é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos. Não era preciso saber nada do que anteriormente succedeu; a consciencia dizia-lhe que, era situação identica á do dia 3, faria outra cousa... Oh! com certeza! faria cousa muito diversa, e mudaria o seu destino.

Um officio ou telegrarama veiu arrancar Baptista á commissão politica e reservada, A volta para o Rio de Janeiro foi breve e triste, sem os epithetos que o haviam regalado por alguns mezes, nem acompanhamento de amigos. Só uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas as noites pela terminação daquelle exilio.

--Parece que estás contente com o desastre de teu pae, disse-lhe a mãe já a bordo.

--Não, mamãe; alegro-me de ver que acabou esta canceira. Papae póde muito bem fazer politica no Rio de Janeiro, onde é muito apreciado, A senhora verá. Eu, se fosse papae, apenas desembarcasse, ia logo ao marechal explicar tudo, mostrar as instrucções e dizer o que tinha feito; dizia mais que a dispensa veiu muito a proposito, afim de não parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá mesmo...

D. Claudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver que a filha pensava e dava conselhos em politica. Não advertiu, como fez o leitor, que a alma do discurso da moça era não sair da capital, fazer aqui mesmo o seu congresso, que em breve seria uma só assembléa legislativa, como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cantaras, Pedro ou Paulo, caberia esse unico poder politico? Eis o que ella mesma não sabia.

Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no porto do Rio de Janeiro. Não fôram em duas lanchas, fôram na mesmo, e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam de cair ao mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim não acaba mal o capitulo, porque a razão da presteza com que elles saltaram para a escada foi a ambição de ser o primeiro que comprimentasse a moça; aposta de amor, que ainda uma vez os egualou na alma della. Emfim chegaram, e não consta qual effectivamente a cumprimentou primeiro; póde ser que ambos.

CAPITULO LXXIII

Um El-Dorado

No caes Pharoux esperavam por elles trez carruagens,--dous _coupés_ e um _landau_, com trez bellas parelhas de cavallos. A gente Baptista ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou no _landau._ Os gemeos foram cada um no seu _coupé._ A primeira carruagem tinha o seu cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botões de metal branco, em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das outras tinha apenas o cocheiro, com egual libré. E todas trez se puzeram a andar, estas atraz daquella, os animaes batendo rijo e compassado, a golpes certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquella recepção. De quando em quando, encontravam outros trens, outras librés, outras parelhas, a mesma belleza e o mesmo luxo.

A capital offerecia ainda aos recem-chegados um espectaculo magnifico. Vivia-se dos restos daquelle deslumbramento e agitação, epopeia de ouro da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra das emprezas e companhias de toda especie. Quem não viu aquillo não viu nada. Cascatas de ideias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de reis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de reis. Todos os papeis, aliás acções, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos, fabricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, importação, ensaques, emprestimos, todas as uniões, todas as regiões, tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava nas ruas e praças, com estatutos, organisadores e listas. Letras grandes enchiam as folhas publicas, os titulos succediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a principio nada era frouxo. Cada acção trazia a vida intensa e liberal, alguma vez immortal, que se multiplicava daquella outra vida com que a alma acolhe as religiões novas. Nasciam as acções a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.

Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caia do céu. Candido e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquelle indio que Basilio da Gama cantou no _Uruguay._ Voltaire pegou delle para o metter no seu livro, e a ironia do philosopho venceu a doçura do poeta. Pobre José Basilio! tinhas contra ti o assumpto estreito e a lingua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoya, felizmente, mas Cacambo é delle, mais delle que teu, patricio da minha alma.

Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no El-Dorado, conta Voltaire que viram creanças brincando na rua com rodelas de ouro, esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria em que comeram quizeram pagar o jantar com duas dellas. Sabes que o dono da casa riu ás bandeiras despregadas, já por quererem pagar-lhe com pedras do calçamento, já porque alli ninguem pagava o que comia; era o governo que pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade attribuida ao Estado, que fez crêr eguaes phenomenos entre nós, mas é tudo mentira.

O que parece ser verdade é que as nossas carruagens brotavam do chão. Ás tardes, quando uma centena dellas se ia enfileirar no largo de S. Francisco de Paula, á espera das pessoas, era um gosto subir a rua do Ouvidor, parar e contemplal-as. As parelhas arrancavam os olhos á gente; todas pareciam descer das rhapsodias de Homero, posto fossem corceis de paz. As carruagens tambem. Juno certamente as apparelhára com suas correias de ouro, freios de ouro, redeas de ouro, tudo de ouro incorruptivel. Mas nem ella nem Minerva entravam nos vehiculos de ouro para os fins da guerra contra Illion. Tudo alli respirava a paz. Cocheiros e lacaios, barbeados e graves, esperando tezos e compostos, davam uma bella ideia do officio. Nenhum aguardava o patrão, deitado no interior dos carros, com as pernas de fóra. A impressão que davam era de uma disciplina rigida e elegante, aprendida em alta escola e conservada pela dignidade do individuo.

«Casos ha,--escrevia o nosso Ayres--em que a impassibilidade do cocheiro na boléa contrasta com a agitação do dono no interior da carruagem, fazendo crêr que é o patrão que, por desfastio, trepou á boléa e leva o cocheiro a passear.»

CAPITULO LXXIV

A allusão do texto

Antes de continuar, é preciso dizer que o nosso Ayres não se referia vagamente ou de modo generico a algumas pessoas, mas a uma só pessoa particular. Chamava-se então Nobrega; outr'ora não se chamava nada, era aquelle simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpetua na rua de S. José, esquina da da Misericordia. Não esqueceste que a recente mãe deitou uma nota de dous mil reis á bacia do andador. A nota era nova e bella; passou da bacia á algibeira, no fundo de um corredor, não sem algum combate.

Poucos mezes depois, Nobrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a outros purgatorios, para os quaes achou outras opas, outras bacias e finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se sabe se tambem o paiz. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de reis, que a fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Emfim, alvoreceu a famosa quadra do «encilhamento». Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande esmola, o grande purgatorio. Quem já sabia do andador das almas? A antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Elle era outro; as feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veiu compondo e melhorando.

Se a grande bacia, ou qualqer das outras recebeu notas que tivessem o destino da primeira, é o que se não sabe, mas é possivel. Foi por esse tempo que Ayres o viu de carro, quasi a sair pela portinhola fóra, comprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio que eram escossezes) salvassem a dignidade pessoal da casa, Ayres fez a observação do fim do outro capitulo, sem nenhuma intenção geral.

Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nobrega tinha medo de tornar ao bairro, onde andára a pedir para as primeiras almas. Um dia, porém, taes fôram as saudades delle que pensou em affrontar o perigo e lá foi. Tinha cocegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde appareciam taes e taes moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou por outra parte. Só passava de carro; depois quiz ver tudo a pé, devagar, parando, se fosse possivel, e revivendo o extincto.

Lá se foi a pé; desceu pela rua de S. José, dobrou a da Misericordia, foi parar á praia de Santa Luzia, tornou pela rua de D. Manuel, enfiou de becco em becco. A principio olhava de esguelha, rapido, os olhos no chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e nenhuma era a mesma. Nobrega foi-se animando e. encarando. Talvez esta velha fosse moça, ha vinte annos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar a outra creança. Nobrega acabou parando e andando de vagar.

Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam reconhecel-o, e algumas quasi que lhe falavam. Não é poesia. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se admirar dellas, contar-lhes a vida, obrigal-as a comparar o modesto de outr'ora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras mudas: «Vejam, manas, é elle mesmo.» Passava por,ellas, fitava-as, interrogava-as, quasi ria, quasi as tocava para sacudil-as com força: «Falem, diabos, falem!»

Não confiaria de homem aquelle passado, mas ás paredes mudas, ás grades velhas, ás portas gretadas, aos lampiões antigos, se os havia ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quizera dar olhos, ouvidos e bôca, uma bôca que só elle escutasse, e que proclamasse a prosperidade daquelle velho andador.

Uma vez, viu a matriz de S. José aberta e entrou. A egreja era a mesma; aqui estão os altares, aqui está a solidão, aqui está o silencio. Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado e outro, andando na direcção do altar-mór. Tinha receio de ver apparecer o sacristão, podia ser o mesmo, e conhecel-o. Ouviu passos, recuou depressa e saiu.

Ao subir pela rua de S. José, encostou-se á parede, para deixar passar uma carroça. A carroça subiu a calçada, elle refugiou-se n'um corredor. O corredor podia ser qualquer; aquelle era o proprio em que elle fez a operação da nota de dous mil reis de Natividade. Olhou bem, era o mesmo. Ao fundo estavam os trez ou quatro degráos da primeira escada que dobrava á esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu por um instante aquella manhã, viu no ar a nota de dous mil reis. Outras lhe teriam vindo ás mãos por maneiras assim faceis, mas nunca lhe esqueceu aquella graciosa folha gravada com tantos symbolos, numeros, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe Deus se a propria Santa Rita de Cassia. Era a sua particular devoção. Sem duvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas não fôram senão levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as ouvissem crescer.

Por mais que elle olhasse pela vida dentro, não achava egual obsequio do céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma joia lhe levou os olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou ganhára com que o comprar. A nota de dous mil reis... Um dia, ousando mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.

Não, leitor, não me apanhas em contradicção. Eu bem sei que a principio o andador das almas attribuiu a nota ao prazer que a dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram as palavras delle: «Aquellas duas viram passarinho verde!» Mas se agora attribuia a nota á protecção da santa, não mentia então nem agora. Era difficil atinar com a verdade. A unica verdade certa eram os dous mil reis. Nem se póde dizer que era a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dous mil reis equivalia, pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não subia de uma gorgeta de cocheiro.

Tambem não ha contradicção em pôr a santa agora e a namorada outr'ora. Era mais natural o contrario, quando era maior a intimidade delle com egreja. Mas, leitor dos meus peccados, amava-se muito em 1871, como já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901. O seculo dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião do andador das almas ácerca de Natividade foi anterior ao gesto do corredor, quando elle agazalhou a nota na algibeira. É duvidoso que, depois do gesto, a opinião fosse a mesma.

CAPITULO LXXV

Proverbio errado

Pessoa a quem li confidencialmente o capitulo passado, escreve-me dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castello. Sem as suas predicções grandiosas, a esmola de Natividade seria minima ou nenhuma, e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. «A occasião faz o ladrão», conclue o meu correspondente.

Não conclue mal. Ha todavia alguma injustiça ou esquecimento porque as razões do gesto do corredor fôram todas pias. Além disso, o proverbio póde estar errado. Uma das affirmações de Ayres, que tambem gostava de estudar adagios, é que esse não estava certo.

--Não é a occasião que faz o ladrão, dizia elle a alguem; o proverbio está errado. A fórma exacta deve ser esta: «A occasião faz o furto; o ladrão nasce feito.»

CAPITULO LXXVI

Talvez fosse a mesma!

Nobrega saiu emfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mão:

--Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!

Nobrega metteu a mão no bolso do collete e pegou um nickel, entre dous que lá havia, um de tostão, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a darlh'o, mudou de ideia; não deu o nickel; disse á velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão na algibeira das calças e saccou um maço de dinheiro; procurou e achou uma nota de dous mil reis, não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a velhice.

--Tome lá, murmurou elle.

Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o maço á algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veiu entremeado de lagrimas:

--Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santissima...

E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico, uma especie de melodia do céu, um côro de anjos, e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão tremula, segurando a nota. Nobrega não esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as bençãos da mulher atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando não se sabe em quê.

Atravessou a praça, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita ou para esquerda,--em todo caso para longe,--e acabou murmurando esta phrase, que tanto podia referir-se á nota. como á mendiga, mas provavelmente era á nota:

--Talvez fosse a mesma!

Nenhum obsequio, por infimo que seja, esquece ao beneficiado. Ha excepções. tambem ha casos em que a memoria dos obsequios afflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é guardal-os na memoria, como as joias nos seus escrinios; comparação justa, porque o obsequio é muita vez alguma joia, que o obsequiado esqueceu de restituir.

CAPITULO LXXVII

Hospedagem

A família Baptista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não pôde ir a bordo, e o marido estava occupado em «lançar uma companhia»; mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha já os quartos preparados. Desde que o carro se poz a andar, Baptista confessou que ia ficar constrangido por alguns dias.

--N'uma casa de pensão era melhor, até que nos despejassem a de S. Clemente.

--Que queria você? Não havia remedio senão acceitar, ponderou a mulher.

Flora não disse nada, mas sentia o contrario do pae e da mãe. Pensar não pensou; ia tão atordoada com a vista dos rapazes que as ideias não se enfileiraram naquella forma logica do pensamento. A propria sensação não era nitida. Era uma mistura de oppressivo e delicioso, de turvo e claro, uma felicidade truncada, uma afflicção consoladora, e o mais que puderes achar no capitulo das contradicções. Eu nada mais lhe ponho. Nem ella saberia dizer o que sentia. Teve allucinações extraordinarias.

Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos dous jovens doutores. Que elles eram já doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de medico. Viviam do amor da mãe e da bolsa do pae, inexgotaveis ambos. O pae abanou as orelhas á lembrança, mas os gemeos insistiram pelo obsequio, a tal ponto que a mãe, contente de os ver de accordo, saiu do silencio e concordou com elles. A ideia de ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e discernir qual era o melhor acceito, e o que devéras a amava, póde ser que tambem influisse na adopção do voto, mas não affirmo nada a tal respeito. Tambem não asseguro que tivesse grande gosto em agazalhar a mãe e o pae de Flora. Não obstante, o encontro foi cordial de parte a parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra côr, outro ar. Flora era um encanto para Natividade e Perpetua; nenhuma destas sabia aonde iria parar aquella moça tão senhoril, tão esbelta, tão...

--Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo; eu tenho a mesma opinião.

Santos recebeu-os, á tarde, com a mesma cordialidade,--talvez menos apparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negocios.

--Uma ideia sublime, disse elle ao pae de Flora; a que lancei hoje foi das melhores, e as acções valem já ouro. Trata-se de lã de carneiro, e começa pela criação deste mammifero nos campos do Paraná. Em cinco annos poderemos vestir a America e a Europa. Viu o programma nos jornaes?

--Não, não leio jornaes daquir desde que embarquei.

--Pois verá!

No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hospede o programma e os estatutos. As acções eram maços e maços, e Santos ia dizendo o valor de cada um. Baptista sommava mal, em regra; daquella vez, peor. Mas os algarismos cresciam á vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço, desde o chão até ás janellas, e precipitavam-se por ellas abaixo, com um rumor de ouro que ensurdecia. Baptista saiu d'alli fascinado, e foi repetir tudo á mulher.

CAPITULO LXXVIII

Visita ao marechal

D. Claudia, quando elle acabou, perguntou-lhe com simplicidade:

--Você vae hoje ao marechal?

Baptista, caindo em si:

--Naturalmente.