Esau e Jacob

Part 11

Chapter 114,100 wordsPublic domain

Que, em meio de tão graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e claridade para imaginar tal descoberta no visinho, só se póde explicar pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflicção de Custodio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma de suas maximas é que o homem vive para espalhar a primeira invenção de rua, e que tudo se fará crêr a cem pessoas juntas ou separadas. Só ás duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na queda do imperio.

--É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi as acclamações á republica. As lojas estão fechadas, os bancos tambem, e o peor é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem publica; é uma calamidade.

Ayres quiz aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regimen, sim, era possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio é preciso. Os bancos são indispensaveis. No sabbado, ou quando muito na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a constituição.

--Não sei, tenho medo, conselheiro.

--Não tenha medo. A baroneza já sabe o que ha?

--Quando eu sai de casa, não sabia, mas agora é provavel.

--Pois vá tranquillisal-a; naturalmente está afflicta.

Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror... Ayres tirou-lhe o Terror da cabeça. As occasiões fazem as revoluções, disse elle, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para dar fórma fixa á ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia. O imperador fôra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do espectaculo, o amigo, então moço, ouviu grande rumor do lado da egreja de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador não tirara o chapeo no momento em que este chegára á porta para entrar no coche; o homem accrescentou: «Eu sou _ré..._» Naquelle tempo os republicanos por brevidade eram assim chamados. «Eu sou _ré_, mas não consinto que faltem ao respeito a este menino!»

Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operações, ao receio de uma suspensão total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.

--Então, parece-lhe...?

--Que descance.

Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a apparencia era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia ser... Em todo caso, a paz é que era necessaria, e haveria paz? Ayres inclinava-se a crêr que sim, e novamente o convidou a descançar.

--Até logo, concluiu.

--Porque não vae lá jantar comnosco?

--Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pol-os em ordem.

--O senhor podia ajudar-me nisso. Vá lá de noite.

--Póde ser; se puder, vou. Amanhã com certeza.

Santos saiu; tinha o carro á espera, entrou e seguiu para Botafogo. Não levava a paz comsigo, não a poderia dar á mulher, nem á cunhada, nem aos filhos. Quizera chegar a casa, por medo da rua, mas quizera tambem ficar na rua, por não saber que palavras nem que conselhos daria aos seus.

O espaço do carro era pequeno e bastante para um homem; mas, emfim, não viviria alli a tarde inteira. Ao demais, a rua estava quieta. Via gente á porta das lojas. No largo do Machado viu outra que ria, alguma calada, havia espanto, mas não havia propriamente susto.

CAPITULO LXV

Entre os filhos

Quando Santos chegou a casa, Natividade estava inquieta, sem noticia exacta e definitiva dos acontecimentos. Não sabia da republica. Não sabia do marido nem dos filhos. Aquelle saira antes dos primeiros rumores, estes iam fazer a mesma cousa, logo que os boatos chegaram. O primeiro gesto da mãe foi para impedir que os filhos saissem, mas não pôde, era tarde. Não os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria, afim de que os poupasse, e esperou. A irmã fez o mesmo. Era perto de meio dia; foi então que os minutos entraram a parecer seculos.

A ancia da mãe era naturalmente maior que a da tia. Natividade via andar o tempo com ferros aos pés. Não havia alvoroço que atasse um par de azas áquellas horas longas do relogio da casa, nem aos do cinto, o della e o da irmã; todos elles coxeavam de ambos os ponteiros. Emfim, ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.

Natividade acudiu ao patamar da escada. Santos subiu, e as mãos de ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa vida conjunta acaba por fazer da ternura uma coisa grave e espiritual. Entretanto, parece que o gesto do marido não foi original, mas secundario, filho ou imitativo do da mulher. Póde ser que a corda da sensibilidade fosse menos vibrante na lira dele que na della, posto que muitos anos atraz, aquele outro gesto no _coupé_, quando voltavam da missa de S. Domingos, lembras-te?... Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que não ficariam mal, se as acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata das palavras riscadas. Menos vale supri-las.

Que nos bastam as quatro mãos apertadas. Natividade perguntou pelos filhos. Santos opinou que não tivesse medo. Não havia nada; tudo parecia estar como no dia anterior, as ruas socegadas, as caras mudas. Não correria sangue, o commercio ia continuar. Toda a animação de Ayres tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo estylo.

Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo que Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de outro destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expansão da segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar, falaram pouco. Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns co-religionarios e soube do que se passára á noite e de manhã, a marcha e a reunião dos batalhões no campo, as palavras de Ouro Preto ao marechal Floriano, a resposta deste, a aclamação da Republica. A familia ouvia e perguntava, não discutia, e esta moderação contrastava com a gloria de Paulo. O silencio de Pedro principalmente era como um desafio. Não sabia Paulo que a propria mãe é que o pedira ao irmão com muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do coração do rapaz.

O coração de Paulo, ao contrario, era livre, deixava circular o sangue, como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os principios se incrustavam viviam alli tão fortes e quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do jantar, bebeu á Republica, mas calado, sem ostentação, apenas olhando paaa o tecto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume. Ninguem replicou por outro gesto ou palavra.

Certamente, o moço Pedro quiz dizer alguma phrase de piedade relativamente ao regimen imperial e ás pessoas de Bragança, mas a mãe quasi que não tirava os olhos delle, como impondo ou pedindo silencio. De mais, elle não cria nada mudado; a despeito de decretos e proclamações, Pedro imaginava que tudo podia ficar como d'antes, alterado apenas o pessoal do governo. Custa pouco, dizia elle baixinho á mãe, ao deixarem a mesa; é só o imperador falar ao Deodoro.

Paulo saiu, logo depois do jantar, promettendo vir cedo. A mãe, receiosa de o ver mettido em barulhos, não queria que elle saisse; mas outro receio fel-a consentir, e este era que os dous irmãos brigassem finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o que negou. Não é menos certo que ella raciocinou alguns minutos antes de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pagina antes da que vou escrever agora; mas ambos nós, Natividade e eu, acabamos por deixar que os actos se praticassem, sem opposição della, nem commentario meu.

CAPITULO LXVI

O basto e a espadilha

Vieram amigos da casa, trazendo noticias e boatos. Variavam pouco e geralmente não havia opinião segura acerca do resultado. Ninguem sabia se a victoria do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que era um facto. Dalli a ingenuidade com que alguem propoz o voltarete do costume, e a boa vontade de outros em acceital-o. Santos, embora declarase que não jogava, mandou pôr as cartas e os tentos, mas os outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem elle, não havia graça. Quiz resistir; não era bonito que no proprio dia em que o regimen caira ou ia cair, entregasse o espirito a recreações de sociedade... Não pensou isto em voz alta nem baixa, mas comsigo, e talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto para resistir, se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada. Santos acabou acceitando. Provalmente era essa mesma a inclinação intima. Muitas ha que precisam ser attrahidas cá fora, como um favor ou concessão da pessoa. Emfim, o basto e a espadilha fizeram naquella noite o seu officio, como as mariposas e as ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrellas e o somno dos cidadãos.

CAPITULO LXVII

A noite inteira

Saindo de casa, Paulo foi á de um amigo, e os dous entraram a buscar outros da mesma edade e egual intimidade. Fôram aos jornaes, ao quartel do Campo, e passaram algum tempo deante da casa de Deodoro. Gostavam de ver os soldados, a pé ou a cavallo, pediam licença, falavam-lhes, offereciam cigarros. Era a unica concessão destes; nenhum lhes contou o que se passara, nem todos saberiam nada.

Não importa, iam cheios de si. Paulo era o mais enthusiasta e convicto. Aos outros valia só a mocidade, que é utn programma, mas o filho de Santos tinha frescas todas as ideias do novo regimen, e possuia ainda outras que não via acceitar; bater-se-ia por ellas. Trazia até a desejo de achar alguem na rua, que soltasse um grito, já agora sedicioso, para íhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se que esquecera ou perdera a bengala. Não deu por falta della; se désse, bastavam-lhe os braços e as mãos.

Propoz cantarem a _Marselheza_; os outros não quizeram ir tão longe, não por medo, senão de cançados. Paulo, que resistia mais que elles á fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.

--Vamos esperal-a do alto de um morro, ou da praia do Flamengo; teremos tempo de dormir amanhã.

--Eu não posso, disse um.

Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas. Era perto de duas horas. Paulo acompanhou-os a todos, e só depois de ver o ultimo recolhido foi sósinho para Botafogo.

Quando entrou, deu com a mãe que esperava por elle, inquieta e arrependida de o haver deixado sair. Paulo não achou desculpa e censurou a mãe por não dormir, á espera delle. Natividade confessou que não teria somno, antes de o saber em casa são e salvo. Falavam baixo e pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.

--Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado não lhe contes nem lhe perguntes nada; dorme, e amanhã saberemos tudo e o mais que se passar esta noite.

Paulo entrou no quarto pé ante pé. Era ainda aquelle vasto quarto em que os dous gemeos brigaram por causa de duas velhas gravuras, Robespierre e Luiz XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma revolução de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho da mãe, Paulo não quiz saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que não. Effectivamente, não. Pedro viu as cautellas de Paulo, e cumpriu tambem os conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até ahi os conselhos; mas um pouco de gloria fez com que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira estrophe da _Marselheza_ que os amigos tinham recusado fóra:

Allons, enfants de la patrie, Le jour de gloire est arrivé!

Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a intenção do outro era affligil-o. Não era, mas podia ser. Vacillou entre a réplica e o silencio, até que uma ideia fantastica lhe atravessou o cerebro, cantarolar, tambem baixinho, a segunda parte da estrophe: «_Entendez-vous dans vos campagnes..._», que allude ás tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido historico, para restringil-a ás tropas nacionaes. Era um desforço vago, a ideia passou depressa. Pedro contentou-se de simular a indifferença suprema do somno. Paulo não acabou a estrophe; despiu-se agitado, sem tirar o pensamento da victoria dos seus sonhos politicos. Não se metteu logo na cama; foi primeiro á do irmão, a ver se dormia. Pedro respirava tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve impeto de acordal-o, bradar-lhe que perdera tudo, se alguma cousa era a instituição derribada. Recuou a tempo e foi metter-se entre os lençóes.

Nenhum dormia. Emquanto o somno não chegava, iam pensando nos acontecimentos do dia, ambos espantados de como fôram faceis e rapidos. Depois cogitavam no dia seguinte e nos effeitos ulteriores. Não admira que não chegassem á mesma conclusão.

--Como diabo é que elles fizeram isto, sem que ninguem désse pela cousa? reflectia Paulo. Podia ter sido mais turbulento. Conspiração houve, de certo, mas uma barricada não faria mal. Seja como fôr, venceu-se a campanha. O que é preciso é não deixar esfriar o ferro, batel-o sempre, e renoval-o. Deodoro é uma bella figura. Dizem que a entrada do marechal no quartel, e a saida, puxando os batalhões, fôram esplendidas. Talvez faceis de mais; é que o regimen estava pôdre e caiu por si...

Emquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas ideias, a de Pedro ia pensando o contrario; chamava ao movimento um crime.

--Um crime e um disparate, além de ingratidão; o imperador devia ter pegado os principaes cabeças e mandal-os executar. Infelizmente, as tropas iam com elles. Mas nem tudo acabou. Isto é fogo de palha; daqui a pouco está apagado, e o que antes era torna a ser. Eu acharei duzentos rapazes bons e promptos, e desfaremos esta caranquejola. A apparencia é que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão de ver que o imperador não sae daqui, e, ainda que não queira, ha de governar; ou governará a filha, e, na falta della, o neto. Tambem elle ficou menino e governou. Amanhã é tempo; por ora tudo são flores. Ha ainda um punhado de homens...

A reticencia final dos discursos de ambos quer dizer que as ideias se iam tornando esgarçadas, nevoentas e repetidas, até que se perderam e elles dormiram. Durante o somno, cessou a rovolução e a contra-revolução, não houve monarchia nem republica, D. Pedro II nem marechal Deodoro, nada que cheirasse a politica. Um e outro sonharam com a bella enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e uma só pessoa: Flora.

CAPITULO LXVIII

De manhã

Flora abriu os olhos de ambos, e esvaiu-se tão depressa que elles mal puderam ver a harpa do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota. Olharam um para o outro, sem rancor apparente. O receio de um e a esperança de outro deram tregoas. Correram aos jornaes. Paulo, meio tonto, temia alguma traição sobre a madrugada. Pedro tinha uma ideia vaga de restauração, e contava ler nas folhas um decreto imperial da amnistia. Nem traição nem decreto, A esperança e o receio fugiram deste mundo.

CAPITULO LXIX

Ao piano

Emquanto elles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a republica. Teve uma daquellas noites em que a imaginação dorme tambem, sem olhos nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não posso dar melhor definição, nem ella é precisa; cada um de nós terá tido dessas noites mudas e apagadas.

Não sonhou sequer com musica; e, aliás tocára antes algumas das suas paginas queridas. Não as tocou somente por gostar dellas, senão por fugir á consternação dos paes, que era grande. Nenhum d'estes podia crêr que as instituições tivessem caido, outras nascido, tudo mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava ao marido se vira bem, e o que é que vira; elle mordia os beições, batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos, as noticias colladas ás portas dos jornaes, a prisão dos ministros, a situação, tudo extincto, extincto, extincto...

Flora não era avessa á piedade, nem á esperança, como sabeis; mas não ia com a agitação dos paes, e metteu-se com o seu piano e as suas musicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de não ser presente, passado ou futuro; era uma cousa fóra do tempo e do espaço, uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma phrase solta do pae ou da mãe: «...Mas como foi que...?»--«Tudo ás escondidas...»--«Ha sangue?» Às vezes um delles fazia algum gesto, e ella não via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e incoherente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe succedia calar por instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando, coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o tecto com o punho.

--_Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá_, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos homens e suas dissensões.

Tambem se póde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo da tarde,--como queiras,--em que nada é tão claro ou tão escuro que convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver um governo provisorio. Flora não entendia de fórmas nem de nomes. A sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarchia da innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e unica. Não haverá então progresso nem regresso, mas estabilidade. O seio de Abrahão agazalhará todas as cousas e pessoas, e a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras, _ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó..._

CAPITULO LXX

De uma conclusão errada

Os successos vieram vindo, á medida que as flores iam nascendo. Destas houve que serviram ao ultimo baile do anno. Outras morreram na vespera. Poetas de um e outro regimen tiraram imagem do facto para cantarem a alegria e a melancolia do mundo. A differença é que a segunda abafava os seus suspiros, em quanto a primeira levava longe os seus tripudios. O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores é que continuavam a nascer e morrer, egual e regularmente.

D. Claudia colheu as rosas do ultimo baile do anno, primeiro da Republica, e adornou a filha com ellas. Flora obedeceu e acceitou-as. Pae de familia antes de tudo, Baptista acompanhou a esposa e a filha ao baile. Tambem lá foi Paulo, pela moça e pelo regimen. Se, em conversa com o ex-presidente de provincia, disse todo o bem que pensava do Governo Provisorio, não lhe ouviu palavras de accordo nem de contestação. Não entrou mais fundo na confissão do homem, porque a moça o attraia, e elle gostava mais della que do pae.

Flora viu uma semelhança entre o baile da ilha Fiscal e este, apesar de particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha dos tempos da propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda que só meia hora. Dahi a ausencia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro, como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhança das duas festas. Ambas traziam a ausencia de um gemeo.

--Porque é que seu irmão não veiu? perguntou ella.

Paulo enfiou; depois de alguns instantes:

--Pedro é teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Crê naturalmente que a monarchia levou a arte de dançar. Não faça caso; é um lunatico.

--Não diga isso.

--Acha tambem que a dança se foi com o imperio?

--Não, a prova é que estamos dançando. Não; digo que lhe não chame nomes feios.

--Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juizo?

--Certamente, como o senhor.

--Mas...

Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então ella falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se só cedesse á vista, era tambem capaz de acceitar todas as opiniões de Paulo, para ir com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante, olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno é que haviam feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo á moça, e ella escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto de o escutar. Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça da moça, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no coração de Flora, como as suas gemeas que eram.

O baile acabou. O capitulo é que não acaba sem que deixe um pouco de espaço a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem mãe podiam entendel-a, os rapazes tambem não, e provavelmente Santos e Natividade menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pôr o nome do officio. Se não fosse a obrigação de contar a historia com as proprias palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual é elle, e aqui fica. Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal.

Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo. Flora não conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira de officio. A namoradeira de officio é a planta das esperanças, e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a occasião o permitte. Tambem é preciso ter em lembrança aquillo de um publicista, filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra os ministros adversarios: «Pitangueira não dá manga.» Não, Flora não dava para namorados.

A prova disto é que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o pae e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguem alcançou o menor dos seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as côres, os gestos e os vidros, sem obter outra cousa que a attenção cortez e acaso uma palavra sem valor.

Flora só se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella não os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a mesma intenção duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem.

Taes eram de longe, ella e elles. A rixa velha, que os desunia na vida, continuava a desunil-os no amor. Podiam amar cada um a sua moça, casar com ella e ter os seus filhos, mas preferiam amar a mesma, e não ver o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem diversa musica, antes, durante e depois da commissão do Baptista.

CAPITULO LXXI

A commissão

Lá me escapou a palavra. Sim, foi uma commissão dada ao pae, e da qual não sei nada, nem ella. Negocio reservado. Flora chamava-lhe commissão do inferno. O pae, sem ir tão fundo, concordava mentalmente com ella; verbalmente, desmentia a definição.

--Não digas isso, Flora; é commissão de confiança para fins nobremente politicos.