Part 10
Como é que se matam saudades não é cousa que se explique de um modo claro. Elle não ha ferro nem fogo, corda nem veneno, e todavia as saudades expiram, para a resurreição, alguma vez antes do terceiro dia. Ha quem creia que, ainda mortas, são doces, mais que doces. Esse ponto, no nosso caso, não póde ser ventilado, nem eu quero desenvolvel-o, como aliás cumpria.
As saudades morreram, não todas, nem logo, logo, mas em parte e tão vagarosamente que Paulo acceitou o convite de lá jantar. Era o dia da chegada; Natividade quizera tel-o comsigo á mesa, ao pé de Pedro, para cimentar a pacificação começada pela distancia. Paulo nem se deu ao trabalho de lá mandar; deixou-se estar com a bella creatura, entre o pae e a mãe que pensavam em outra cousa, proxima no tempo e remota no espaço. Sabendo o que era, Flora passava do prazer ao tedio, e Paulo não entendia essa alternação de sentimentos. De quando em quando, vendo a mãe agitada e preoccupada, mas com outra expressão, Paulo interrogava a filha. Em vez de dar uma explicação qualquer, Flora passou uma vez a mão pelos olhos e ficou alguns instantes sem os descobrir. A acção do estudante de direito, devia ser arredar-lhe a mão, encaral-a de perto, mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que a eloquencia do gesto dispensasse a fala. Se tal ideia teve, não saiu cá fóra. Nem ella lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:
--Que é que tem?
--Nada, respondeu Flora.
--Tem alguma cousa, insistiu elle querendo pegar-lhe na mão.
Não acabou o gesto, não o começou sequer; abriu e fechou os dedos apenas, emquanto sorria para sacudir tristezas, e deixou-se estar a matar saudades.
CAPITULO LIX
Noite de 14
Tudo se explicou à noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente de provincia confessou as esperanças de uma investidura nova; a esposa affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco antes D. Claudia só dizia em segredo. Já não havia segredos que calar.
Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares, acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação proxima. A dôr os fez amigos por instantes; é uma das vantagens dessa grande e nobre sensação. Já me não lembra quem affirmava, ao contrario, que um odio commum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a outra, e ambas podem ser verdadeiras.
Demais, a dôr não era ainda o desespero. Havia até uma consolação para os dous gemeos; é que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum delles teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é util, muita vez indispensavel, alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar á amiguinha, em particular, para sondal-a ácerca daquella separação, já agora certa, mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia ser lepido, melancolico, ou indifferente, não vinha cá fóra. Em verdade, ella falava pouco. Os olhos tambem não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue á sua recepção, que era a ultima do anno, não acompanhou de perto as agitações moraes daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem.
Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita, e dominava a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou só a porção mais intima, trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e anecdotas. Não conversavam de politica, e aliás não faltaria materia. As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impressões do grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que só iria em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio ácerca do amor dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma longa separação de Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da esperança.
--É uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui, disse ella.
--Certamente, mas...
--Mas quê?
--Certamente a levará, mas a senhora póde não conhecer bem aquella menina.
--Penso que é boa.
--Tambem eu penso assim. A bondade, porém, não tem nada com o resto da pessoa. Flora é, como já lhe disse ha tempos, uma inexplicavel. Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois lhe direi. Note que gósto muito della; acho-lhe um sabor particular naquelle contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fóra do mundo, tão etherea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recondita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, concluiu elle, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explical-as.
--Explique-as agora, emquanto os outros parecem rir de algum dito engraçado.
Effectivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Ayres quiz falar, mas reteve a lingua, e desculpou-se. A explicação era longa e dificil, e não era urgente, disse elle.
--Eu mesmo não sei se me entendo, baroneza, nem se penso a verdade; póde ser. Em todo caso, minha boa amiga, até amanhã ou até Petropolis. Quando espera subir?
--Lá para o fim do anno.
--Então ainda nos veremos algumas vezes.
--Sim, e, se me não vir a mim, quero que veja os meus rapazes, que os receba e estime. Elles o têm em grande conta; não lhe fazem senão justiça. Pedro acha que o senhor é o espirito mais fino, e Paulo o mais rijo da nossa terra...
--Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado, disse Ayres sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo?
--O mais rijo e o mais fino.
Os ultimos habituados da casa vieram dar boa noite á dona. Dez minutos depois, Ayres despedia-se do casal Santos.
A noite era clara e tranquilla. Ayres recompoz uma parte do serão para escrevel-a no _Memorial._ Poucas linhas, mas interessantes, nas quaes Flora era a principal figura: «Que o Diabo a entenda, se puder; eu, que sou menos que elle, não acerto de a entender nunca. Hontem parecia querer a um, hoje quiz ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos. Encontrei outr'ora desses sentimentos alternos e simultaneos; eu mesmo fui uma e outra cousa, e sempre me entendi a mim. Mas aquella menina e moça... A condição dos gemeos explicará esta inclinação dupla; póde ser tambem que alguma qualidade falte a um que sóbre a outro, e vice-versa, e ella, pelo gosto de ambas, não acaba de escolher de vez. É phantastico, sei; menos phantastico é se elles, destinados á inimizade, acharem nesta mesma creatura um campo estreito de odio, mas isto os explicaria a elles, não a ella... Seja o que fôr, a nossa organisação politica é util; a presidencia de provincia, arredando Flora daqui, por algum tempo, tira esta moça da situação em que se acha, como a asna de Buridan. Quando voltar, a agua estará bebida e a cevada comida. Um decreto ajudará a natureza.»
Isto feito, Ayres metteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horacio e fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma pagina do seu Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente os olhos, até que dormiu. Pouco foi; ás cinco horas e quarenta minutos estava de pé. Era novembro, sabes que é dia.
CAPITULO LX
Manhã de 15
Quando lhe acontecia o que ficou contado, era costume de Ayres sair cedo, a espairecer. Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio Publico. Chegou ás sete horas e meia, entrou, subiu ao terraço e olhou para o mar. O mar estava crespo. Ayres começou a passear ao longo do terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se á borda, de quando em quando, para vel-as bater e recuar. Gostava dellas assim; achava-lhes uma especie de alma forte, que as movia para metter medo á terra. A agua, enroscando-se em si mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida, de pessoa tambem, a que não faltavam nervos nem musculos, nem a voz que bradava as suas coleras.
Emfim, cançou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo e passeou á toa, revivendo homens e cousas, até que se sentou em um banco. Notou que a pouca gente que havia alli não estava sentada, como de costume, olhando á toa, lendo gazetas ou cochilando a vigilia de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, _Deodoro, batalhões, campo, ministerio_, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para elle, a ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha ás noticias. Não juro que assim fosse, porque o dia vae longe, e as pessoas não eram conhecidas. O proprio Ayres, se tal cousa suspeitou, não a disse a ninguem; tambem não afiou o ouvido para alcançar o resto. Ao contrario, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lapis uma nota na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem, não sem algum epitheto de louvor, uns ao governo, outros ao exercito: podia ser amigo de um ou de outro.
Quando Ayres saiu do Passeio Publico, suspeitava alguma cousa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma noticia clara nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descripções da marcha e das pessoas, e noticias desencontradas. Voltou ao largo, onde trez tilburys o disputaram; elle entrou no que lhe ficou mais á mão, e mandou tocar para o Cattete. Não perguntou nada ao cocheiro; este é que lhe disse tudo e o resto. Falou de uma revolução, de dous ministros mortos, um fugido, os demais presos. O imperador, capturado em Petropolis, vinha descendo a serra.
Ayres olhava para o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa de novidade. Não lhe era desconhecida esta creatura. Já a vira, sem o tilbury, na rua ou na sala, á missa ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez mulher, vestida de seda ou do chita. Quiz saber mais, mostrou-se interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da rua dos Invalidos e levára ao largo da Gloria, por signal que estava assombrado, não podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o dobro; e pagou.
--Talvez fosse algum implicado no barulho, suggeriu Ayres.
--Tambem póde ser, porque elle levava o chapéo derrubado, e a principio pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei e vi que era barro; com certeza, vinha de descer algum muro. Mas, pensando bem, creio que era sangue; barro não tem aquella côr. A verdade é que elle pagou o dobro da viagem, e com razão, porque a cidade não está segura, e a gente corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...
Chegavam justamente á porta de Ayres; este mandou parar o vehiculo, pagou pela tabella e desceu. Subindo a escada, ia naturalmente pensando nos acontecimentos possiveis. No alto achou o criado que sabia tudo, e lhe perguntou se era certo...
--O que é que não é certo, José? É mais que certo.
--Que matáram trez ministros?
--Não; ha só um ferido.
--Eu ouvi que mais gente tambem, falaram em dez mortos...
--A morte é um phenomeno egual á vida; talvez os mortos vivam. Em todo caso, não lhes rezes por alma, porque não és bom catholico, José.
CAPITULO LXI
Lendo Xenophonte
Como é que, tendo ouvido falar da morte de dous e trez ministros, Ayres affirmou apenas o ferimento de um, ao rectificar a noticia do criado? Só se póde explicar de dous modos,--ou por um nobre sentimento de piedade, ou pela opinião de que toda a noticia publica cresce de dous terços, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do ferimento era a unica verdadeira. Pouco depois passava pela rua do Cattete a padiola que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e sãos e o imperador era esperado de Petropolis, não acreditou na mudança de regimen que ouvira ao cocheiro de tilbury e ao criado José. Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
--Temos gabinete novo, disse comsigo.
Almoçou tranquillo, lendo Xenophonte: «Considerava eu um dia quantas republicas tem sido derribadas por cidadãos que desejam outra especie de governo, e quantas monarchias e olygarchias são destruidas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por habeis e felizes...» Sabes a conclusão do autor, em prol da these de que o homem é difficil de governar; mas logo depois a pessoa de Cyro destróe aquella conclusão, mostrando um só homem que regeu milhões de outros, os quaes não só o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto em grego, e com tal pausa que elle chegou ao fim do almoço, sem chegar ao fim do primeiro capitulo.
CAPITULO LXII
«Pare no D.»
--Mas, S. Ex. está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a alguem que pedia para falar ao conselheiro.
Era falso, Ayres acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção. Agora estava no canapé e ouviu o dialogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha.
--Não póde ser.
--Bem, eu espero; logo que S. Ex. acabe...
--O melhor é voltar depois; não mora alli defronte? Pois volte daqui a uma hora ou duas...
A pessoa era o Custodio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que viesse. Custodio saiu, correu, subiu e entrou assombrado.
--Que é isso, Sr. Custodio? disse-lhe Ayres. O senhor anda a fazer revoluções?
--Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Ex. soubesse...
--Se soubesse o quê?
Custodio explicou-se. Vá, resumamos a explicação.
Na vespera, tendo de ir abaixo, Custodio foi á rua da Assembléa, onde se pintava a taboleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras ficaram pintadas,--a palavra _Confeitaria_ e a letra _d._ A letra _o_ e a palavra _imperio_ estavam só debuxadas a giz. Gostou da tinta e da côr, reconciliou-se com a fórma, e apenas perdoou a despeza. Recommendou pressa. Queria inaugurar a taboleta no domingo.
Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as noticias, viu passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que affirmavam a revolução e vagamente a republica. A principio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a taboleta. Quando se lembrou della, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu ás pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia só isto: «Pare no _D._» Com effeito, não era preciso pintar o resto, que seria perdido, nem perder o principio, que podia valer. Sempre haveria palavra que occupasse o logar das letras restantes. «Pare no D.»
Quando o portador voltou trouxe a noticia de que a taboleta estava prompta.
--Você viu-a prompta?
--Vi, patrão.
--Tinha escripto o nome antigo?
--Tinha, sim, senhor: «Confeitaria do imperio.»
Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou á rua da Assembléa. Lá estava a taboleta, por signal que coberta com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: «_Confeitaria do imperio._» Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a destruição agora; não podia conservar um dia a taboleta, ainda que fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete...
--O senhor vae despintar tudo isto, disse elle.
--Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois, pinto outra cousa.
--Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A primeira póde ficar, e mesmo o _d..._ Não leu o meu bilhete?
--Chegou tarde.
--E porque pintou, depois de tão graves acontecimentos?
--O senhor tinha pressa, e eu accordei ás cinco e meia para servil-o. Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. Não me disse que queria pendural-a domingo? Tive de pôr muito seccante na tinta, e, além da tinta, gastei tempo e trabalho.
Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o numero da confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraças do Cattete. Não teve remedio se não capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,--uma casa tão conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revolução! Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a ouvil-o.
CAPITULO LXIII
Taboleta nova
Referido o que lá fica atraz, Custodio confessou tudo o que perdia no titulo e na despeza, o mal que lhe trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um abysmo, em summa. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espirito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha elle com politica? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguezado, respeitado, e principalmente respeitador da ordem publica...
--Mas o que é que ha? perguntou Ayres.
--A republica está proclamada.
--Já ha governo?
--Penso que já; mas diga-me V. Ex. ouviu alguem accusar-me jamais de attacar o governo? Ninguem. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu soccorro, Excellentissimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A taboleta está prompta, o nome todo pintado.--«Confeitaria do Imperio», a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de titulo, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex. crê que, se ficar «Imperio,» venham quebrar-me as as vidraças?
--Isso não sei.
--Realmente, não ha motivo: é o nome da casa, nome de trinta annos. ninguem a conhece de outro modo...
--Mas póde pôr «Confeitaria da Republica...»
--Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
--Tem razão... Sente-se.
--Estou bem.
--Sente-se e fume um charuto.
Custudio recusou o charuto, não fumava. Acceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a attenção, se não fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que iria com ambas as hypotheses,--«Confeitaria do governo».
--Tanto serve para um regimen como para outro.
--Não digo que não, e, a não ser a despeza perdida... Ha, porém, uma razão contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposição. As opposições, quando descerem á rua, podem implicar commigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos.
Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho não queria barulhos á porta, nem malquerenças gratuitas, nem odios de quem quer que fosse; mas, não o affligia menos a despeza que teria de fazer de quando em quando, se não achasse titulo definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma taboleta condemnada. Já era muito ter o nome e o titulo no _Almanack_ de Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o do que estava impresso desde o principio do anno...
--Isso não, interrompeu Ayres; o senhor não ha de recolher a edição de um almanaque.
E depois de alguns instantes:
--Olhe, dou-lhe uma ideia, que póde ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra á mão, e será a ultima. Mas eu creio que qualquer dellas serve. Deixe a taboleta pintada como está, e á direita, na ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam o titulo: «Fundada em 1860.» Não foi em 1860 que abriu a casa?
--Foi, respondeu Custodio.
--Pois...
Custodio reflectia. Não se lhe podia ler _sim_ nem _não_; attonito, a bôca entre-aberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse, elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar as duas.
--A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data á fundação da casa, tem só a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavra _imperio_ e accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que não precisam ser graúdas: _das leis._ Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se á secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.
Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente, com as de cima, e estas é que se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo e... A primeira ideia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe se não era peor que nada?
--Tudo é peor que nada.
--Procuremos.
Ayres achou outro titulo, o nome da rua, «Confeitaria do Cattete», sem advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir exclusivamente á do Custodio a designação local. Quando o visinho lhe fez tal ponderação, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum ás duas casas. Muita gente não atinaria com o titulo escripto, e compraria na primeira que lhe ficassse á mão, de maneira que só elle faria as despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber isto, Ayres não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despeza feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu proprio nome: «Confeitaria do Custodio.» Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o proprio nome do dono, não tinha significação politica ou figuração historica, odio nem amor, nada que chamasse a attenção dos dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados. Porque é que não adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, _Custodio_ em vez de _Imperio_, mas as revoluções trazem sempre despezas.
--Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi á janella para vel-o atravessar a rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem tudo são despezas na vida, e a gloria das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custodio atravessou a rua, sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o seu desespero.
CAPITULO LXIV
Paz!