Part 9
Aqui está o meu pobre amigo, tão esquecido por mim em horas de felicidade, e tão esquecido por todos os homens. Não tenho mais leal conselheiro, companheiro mais dedicado. É uma especie de consciencia que metti no bolço. Quando ella falla, é preciso attendel-a. E todavia, se uma nuvem de desgosto me enoitece o horisonte da vida, se um cuidado me preoccupa, se um sobresalto me traz perplexo, esqueço-te, pobre amigo, não chego a lembrar-me de que te trago conchegado a mim, e de que, obrigando-te ao silencio para que tu não foste feito, sou cruel para ti, porque te condemno a ouvir as palpitações vertiginosas do meu coração inquieto!
Não te dou movimento, porque inteiramente te esqueço. Condemno-te á ociosidade, e, privando-te de trabalho, não reparo que é sobremodo doloroso estar a gente triste e calada! Que queres? É o egoismo dos homens; somos todos assim!
Temos de partir para uma viagem. Nossa mãe está doente, e chamou-nos pelo telegrapho, porque não quer morrer sem nos abençoar e beijar. Estamos sós, n'um quarto d'hospedaria. Os criados, que não comprehendem o que é a ancia de receber o ultimo beijo materno, deitaram-se, extenuados de trabalho, e nem siquer estão sonhando que teem ordem para nos chamar ao alvorejar da manhã. Nós estamos deitados sobre a coberta, já com o nosso fato de jornada, fumando, fumando, inquietos, rememorando os dias saudosos da infancia, em que nossa mãe, áquella mesma hora, nos ensinava a resar ao anjo da guarda, ou as noites em que acordavamos sobresaltados, e acudia ella a limpar-nos o suor da fronte, e a conchegar-nos a roupa aos hombros. Sobre a commoda arde tristemente a vela que ha já duas horas precisava de ser espevitada. A um canto está a nossa mala, com o chapéo de chuva em cima. Reina um silencio funebre no quarto. Nem ao menos se sente o palpitar do relogio no bolço. Todavia trabalha, mas parece que intencionalmente se reprime para nos não perturbar. N'aquella casa de gente desconhecida, o nosso unico amigo é o relogio. Está vigiando, trabalhando para nós. Consultamol-o. Ainda é cedo... Parece dizer-nos que estejamos tranquillos porque elle não adormecerá. Continuamos pensando. Agora nos lembra a pallidez orvalhada de lagrimas com que nossa mãe se despediu ao partirmos. E ella, estamol-a vendo na heroica resignação das mulheres que sabem sacrificar o coração ao dever; é ella, que do topo das escadas de pedra, anciada, fazendo um esforço supremo, nos diz ainda:
--Parte, filho, é preciso!
Depois recolheu-se de golpe, porque já lhe faltou a coragem de nos advertir de que eram horas, muito horas...
No seu coração de mãe, relogio que só a morte póde emmudecer, havia soado a hora fatal da despedida. E nós partimos, sósinhos, guiados pelo rustico almocreve, sósinhos--com o nosso relogio. Não havia sol. Não poderiamos conhecer as horas pelas sombras das arvores. O almocreve, que se não podia orientar do curso do tempo, porque o céo estava escuro como o nosso coração, ia-nos perguntando de legua em legua que horas eram. Consultavamos então o relogio. «É meio dia»: «Pois olhe, volvia o almocreve, quando é meio dia, e o ar está claro, bate o sol n'aquelle cabeço.»
Meio dia! A hora em que nossa mãe se levantava da sua costura para resar comnosco emquanto se não extinguia o echo da ultima badalada no campanario da aldeia! Quem nos disse isto tudo? Foi a memoria? Não foi. Nós iamos entorpecidos pela dôr, não ouviamos horas que nos evocassem recordações, a solidão era immensa, ao longe serras, ainda mais ao longe serras... Foi o relogio, o pequenino coração que ia sentindo por nós. Se até o almocreve, que vive sempre só, no medonho deserto das estradas, faz do cabeço das montanhas relogio, para que o caminho lhe vá fallando e dizendo: «Ante-hontem passaste aqui mais cedo! D'uma vez, á mesma hora, encontraste aqui aquella pegureira, espavorida com medo dos lobos»!
Até elle, aquella alma rude, precisa da companhia do relogio! Por isso o vae pendurando de serra em serra, fazendo do granito mostrador, e dos raios do sol ponteiros...
Mas emfim nossa mãe está agora doente, moribunda talvez. Que funda melancolia nos está dando a saudade! Facto inexplicavel! A ancia de partir foi vencida pela ancia de recordar. Iamo-nos esquecendo pelo muito que nos estavamos lembrando... Dormem todos no predio; melhor diriamos dorme tudo, porque os mesmos moveis parece conhecerem a noite... Engano! Não dorme tudo. Vela o relogio. Abrimol-o. «São horas de partir!» clama elle. Acreditamol-o como ao melhor amigo. Saltamos do leito. Gritamos pelos criados. Os criados dormiam. Só o relogio velava, é pois certo, porque nós mesmos estávamos atordoados pela somnolencia da saudade...
Mais um momento, e não chegariamos a tempo d'alcançar a diligencia. E ámanhã seria já tarde, talvez. Nossa mãe haveria morrido, quer dizer, a nossa falta havel-a-hia assassinado, mais cruel que... a doença.
Quando todos dormiam, foi o relogio que nos avisou...
É portanto elle que nos recorda os nossos deveres, que nos diz quando havemos de entrar para o nosso escriptorio, que sustenta em grande parte a nossa harmonia domestica, advertindo o criado de que é chegado o momento de ter lustrosas as botas, e a criada de que já vão sendo horas de jantar...
Só elle nos falla verdade n'esta epoca essencialmente insidiosa. Insidiosa, é o termo. Pois não está recebendo o principe de Bismark, todos os dias, cartas perfumadas de almiscar e outras essencias irritantes para o systema nervoso? Pois em Palermo, onde canta actualmente uma _prima-dona_ formosissima, não lhe arremessou outro dia aos pés certo admirador despeitado um _bouquet_ que, ao chofrar no palco, rebentou como metralhadora? Querem maior insidia? Chegaram a envenenar as duas coisas mais graciosas da creação, as flores e os aromas; não exijam portanto lealdade na mulher.
N'este cataclismo ainda se não afundou o relogio: é a unica tabua que resta aos naufragos da sociedade. O relogio, a despeito da corrupção geral, representa e representará o dever. É por isso que no _Memorial de familia_, de Emilio Souvestre, o avô lega ao neto o seu relogio, escrevendo no testamento esta clausula: «Deixo a Leão o meu relogio d'ouro que nunca se desconcertou durante vinte annos. Quando elle attentar nos ponteiros, que, sempre obedientes ao impulso da machina, marcam _fielmente_ as horas, recordará que a submissão e a observancia são a primeira condição do dever.»
O relogio é filho do egoismo do homem, e victima do mesmo egoismo que lhe deu vida. Nos tempos primitivos bastava o _quadrante solar_ para medir o tempo. Paulo e Virginia nem do gnomon se serviam. «São horas de jantar, dizia ella, porque as sombras das bananeiras já lhes dão pelo pé» ou então «É noite; os tamarindos fecham as folhas.»
As ampulhetas ou relogios d'areia remontam-se á mais nubelosa antiguidade egypcia. Na Grecia usavam-se os clepsydros, relogios d'agua. «Vós disputaes a minha agua» dizia Demosthenes, phrase que dá a entender que a duração dos seus discursos era marcada por um clepsydro.
Meado o terceiro seculo antes de Christo, Estésibius, d'Alexandria, construiu um clepsydro notavel por ser mais complicado que os primitivos, que se limitavam a um vaso com um orificio na parte inferior, por onde se coava a agua gotta a gotta. Depois o homem entrou de profundar os segredos da natureza, e de se querer apropriar de quanto n'ella havia de grandioso.
A ideia do relogio era innata á creação. Linneu comprehendeu-o organisando o relogio botanico pelas horas em que certas flores abriam e fechavam. Mas tanto isto é verdade, que os primeiros relogios eram construidos com os primitivos elementos da terra: com o sol, os gnomons; com a agua, os clepsydros; com a areia, as ampulhetas. Onde quer que faltassem recursos artisticos, ahi se podia medir o tempo: no mais alto da serra, com um raio de sol; nas solidões do deserto, com um punhado d'areia, e no deserto do mar com uma gotta d'agua.
O espirito humano progredia. Chegou a vez do homem dizer á terra: «Até agora creaste tu; agora quero eu crear;» E trabalhou, e empenhou-se em dispensar o sol, a agua, e a areia; inventou o _pendulo_, conseguindo que a força motora fosse constante. Galileu ou Huyghens, a historia designa-os a ambos, deu este grande passo.
Mas ainda não estava completamente resolvido o problema. Era preciso inventar mais.
Em viagem, quem, por obra do homem, havia de indicar ao homem o curso do dia ou da noite? O sol ou as estrellas. Todavia nem o sol nem as estrellas as fez elle. Pensou, luctou de novo, e descobriu a molla em spiral, que substitue o peso motor pela elasticidade que tem. Ficaram portanto descobertos os relogios d'algibeira. Podes partir, peregrino; já conseguirás saber nas solidões do teu caminho se a noite vae adiantada!
E és tu que o dizes a ti proprio...
Realisaste, finalmente, o teu sonho. Conseguiste roubar ao relogio a individualidade que a natureza lhe deu, e reflectir n'elle a tua propria individualidade.
Não é verdade que a estructura do coração é uma, e que não ha sentimentos, por mais similhantes que se affigurem, que sejam completamente irmãos? Tambem o relogio tem o seu coração, o seu machinismo, igual em todos, e abri quatro relogios ao mesmo tempo, que difficilmente combinarão na indicação dos minutos. Cada um tem a sua maneira de trabalhar; como cada homem tem a sua maneira d'escrever.
E o _estylo_; é a differente maneira de ser. Ahi temos a individualidade homem e a individualidade relogio fundidas n'uma só. É o relogio-homem, e o homem-relogio. O relogio mede as horas; o homem os annos. Eu tenho doze annos, diz a creança; é meia noite, diz o relogio. Um nasceu d'um pedaço de barro; outro d'uma gotta d'agua. A alma é o _pendulo_ do homem-relogio; o _pendulo_ é a alma do relogio-homem. O relogio é o coração que _sente_ o tempo; o coração é por sua vez o relogio que marca as horas solemnes da vida, como diz a trova:
A uma hora nasci, Ás duas fui baptisado; Ás tres andava d'amores, Ás quatro estava casado.
Pois apesar de tudo isto--do homem a tal ponto haver conseguido identificar-se com o relogio, sendo preciso mergulhar na onda escura da antiguidade para lhe ir buscar a origem, porque elle nada conserva da sua fórma primitiva, apesar d'esta camaradagem leal, que o relogio mantém como dedicado amigo, estamos habituados a tractal-o como escravo, exigindo-lhe a maxima fidelidade quando carecemos do seu auxilio, e despresando-o, obrigando-o ao silencio e á quietação, esquecendo-nos de lhe dar corda como nos esquecemos de calçar as luvas.
Por isso é que elle ás vezes, despeitado, adoece, sendo preciso mandal-o ao relojoeiro, porque emfim, como tambem diz a trova:
... amar sem ser amado Faz perder a paciencia.
* * * * *
ÁS SETE HORAS DA MANHÃ
Um d'estes dias aconteceu-me como á rainha Christina da _Joanna do Arco_: tive saudades da Aurora.
Levantei-me alvoroçado e resolvi ir procural-a, não aos reportorios, em que eu já vou perdendo muito a fé, mas nas ruas, onde uma pessoa já não póde perder a fé, porque, quando sae, a deixa em casa.
E sahi a procurar a aurora, ás sete horas da manhã.
Infelizmente não a encontrei senão nos cartazes que annunciavam a _Joanna do Arco_ e diziam:
_Aurora, filha do rei Faz-Tudo e da rainha Christina Amina--snr.ª Amelia Menezes._
Ora as auroras dos cartazes são como tudo o que é do theatro: só se vêem á noite.
E, como d'ahi até poder vêr amanhecer no palco do theatro Baquet medeavam muitas horas, decidi aproveitar o meu tempo o melhor possivel, vendo tudo quanto apparecia, ouvindo o que se dizia.
Vi e ouvi.
Na loja da primeira esquina poisava um gallego o seu copo d'aguardente sobre o balcão, com attitude de quem se despedia.
Mas, ao contrario dos olhos de quem se despede, que estão quasi sempre humidos, o copo estava enxuto.
Tambem podera! É que a aguardente é um combustivel para o carrejão. Quer armar-se pela manhã, porque o seu combate começa quasi logo com o dia.
Aquella é a sua polvora;--com ella fará fogo. Depois de abastecido o paiol, não receiará succumbir; e se ás vezes, durante o dia, houver suada refrega, irá beber tantos copinhos quantos cartuxos requisitaria um soldado em lance identico.
O que reconheci é que todos pela manhã, quando saiem á rua, o mais que procuram é--a força.
Ora hoje a força já não está, como nos tempos pagãos, nos cabellos de Sansão.
Hoje a força é a aguardente, a revalesciére, o oleo de figados de bacalhau, o bife, e, apesar de se chamar frango a uma pessoa fraca, a força tambem está no frango.
Eu digo isto porque encontrei uma velhinha, tão curvada, que parecia ir procurando já a sepultura, a embrulhar no seu capote um frango que provavelmente fôra comprar ao mercado.
Elle, o franguito, ia muito quieto, como se conhecesse que era cobardia luctar com a velhice. Para que podia servir-lhe, sem mais nada, porque ella não levava realmente mais compra alguma?
Para deitar á panella, com uma pouca d'agua e sobre uma pouca de lenha, e para depois o comer, ella, que precisa de força para esperar pela morte, ou para o dar a um neto, que está provavelmente com variola, e precisa de força para resistir á morte.
Em todo o caso eu desconfio que fosse para o neto, pela pressa que a velhinha se dava.
Não olhava para ninguem, e ia encostada ás casas como se quizesse evitar encontros e demoras.
Provavelmente levava na algibeira a chave da casa, e a criança havia ficado fechada, em quanto ella fôra comprar ao mercado o franguito com uns restos de dinheiro abençoado que lhe esmolára o anonymo Y.
E ia com seu receio de que o neto precisasse d'alguma coisa, e desse pela sua falta, sem se lembrar de que, quando acabar de velhice, ninguem certamente dará pela falta d'ella.
Isso não lhe importa.
Morrer, morre ella se lhe faltar o neto. É um peso, é, mas a vida, que é tambem um relogio, precisa d'um peso para regular, como os relogios.
O peso de mais uma bocca é para ella uma consolação.
Naturalmente o rapasinho já ganhava o seu vintem a vender jornaes. Não era tanto pelo dinheiro, que a avó gostava do modo de vida, como pelas novidades, que o neto contava á noite...
Tudo isso estava provavelmente em risco d'acabar,--as novidades, a vida do neto e a alegria da avó. Por isso ella ia tão afadigada--coitadinha!--com a sua velhice e com a sua compra...
Agora começo eu a encontrar o rancho dos criados, com as amplas cestas enfiadas no braço.
De todas as cestas, a que mais me deu na vista foi uma que ia completamente cheia de alfaces.
--Familia de grilos! pensei eu.
E depois ratifiquei, porque o criado, referindo-se decerto a algum dos patrões, ia dizendo para o companheiro:
--E elle está-me sempre a _cantar_!
Uma criada dialogava com outra:
--Hoje prego-lh'a...
--Bem me fio eu n'isso!
--Ora tu verás.
--Então que fazes?
--Não me ha-de tornar a deixar fechada: hoje perco a chave da porta da rua.
Eu disse para os meus botões:
--Trabalho escusado, o de te fechar a porta! As criadas, como aves de rapina que são, em poucas gaiolas cabem, de modo que têem sempre a cabeça de fóra...
Á porta do Anjo cantavam dois cegos o _Noivado do sepulchro_; o povo fazia circulo:
Vai alta a lumha na mansão di a morte, Já meia noite com bagar zoou.
Não fui philosophando sobre a deturpação dos formosos versos do poeta portuense. Pensei mais nos cegos que no poeta, Deus me perdôe! Como são cegos, não podem vêr distinctamente a prosodia e a ortographia; isso já se sabe. No que eu pensei foi n'este continuo andar divertindo os outros, sem siquer terem tempo de se lembrar de que são cegos. Lá vão chorando na viola as suas maguas, mas tão disfarçadamente, que á gente parece-lhe que estão cantando, e elles estão talvez chorando. Passam no mundo sem vêr o mundo, e isso pouco lhes importa; o que lhes custa mais decerto é não verem o dinheiro...
N'uma barraca do mercado, um soldado da guarda municipal offerecia morangos a uma criada de servir.
Que delicado amor aquelle, que elles iam mettendo na massa do sangue! O morango é a fructa mais innocente, mais saborosa, talvez a mais agradavel, e este facto, que eu presenciei, depõe realmente muito a favor da educação do nosso exercito. Podiam amar-se com peixe frito, e amar-se-iam assim ha vinte annos; agora o exercito ama comendo morango, fructa que parece haver nascido para se comer de luvas, tão pequenina e rosada é!
Quando recolhia, vinham adeante de mim dois pequenitos, com os seus livros sobraçados.
Pelo que diziam, deprehendi que entravam n'aquelle dia o exame d'instrucção primaria.
--Levas medo? perguntava um.
--Eu não. E tu?
--Eu! nenhum!
E, coitadinhos, iam tremulos como passarinhos quando a gente péga n'elles.
--Infelizes! pensei eu, lá vos espera o visco.
Sabeis a _origem da palavra districto_? Sabeis _qual a fórma geometrica do reino de Portugal_?
Não sabeis? Pobresinhos de vós, que lá ficareis a esvoaçar infructifera e desastradamente no visco da reprovação! Pois então ides fazer exame d'instrucção primaria, ó pequenos scelerados, e não sabeis tudo!
Estive capaz de dizer que retrocedessem.
Todavia deixei-os ir, entregues ao seu destino, e ás orações das mães, que em sua extrema bondade pensam que hão de vencer todas as difficuldades com padre-nossos.
Santas creaturas--as mães!
Coitaditos! os pequenos lá foram andando...
Subo finalmente, com a cruz da minha ociosidade, a ladeira da rua de Santo Antonio. Ociosidade digo, se bem que o meu animo não ande nunca tão despreoccupado, que não chegue a lembrar-se de que o domingo é o dia do folhetim. Por conseguinte, eu, jornaleiro do jornalismo, descanço do labor quotidiano procurando... assumpto. E sabendo eu que ha pessoas tão felizes que ás vezes encontram dinheiro pelas ruas, reputo-me tão infeliz que, sem achar dinheiro, poucas vezes encontro assumpto.
Todavia d'esta vez até na rua de Santo Antonio o encontrei! Já agora quero ser verdadeiro até ao fim, e fallar-lhes d'um quadro que estava em exposição na loja dos snrs. Martins & Peres, e que havia sido comprado por um cavalheiro de Villa Nova de Gaya.
Imaginem o mais formoso idyllio d'este mundo, o verdadeiro consorcio da poesia com a pintura, e terão o quadro que se intitulava a Morte d'um passarinho, copia de Eugene Lejeune.
É n'aldeia, e suppõe-se provavelmente que n'um largosito, onde ás crianças costumam brincar.
Qualquer d'ellas havia engaiolado, no tempo, um ninho de melros, de que só escapara um. Vivia á principesca o melro, tractado pelos pequenos, que muitas vezes se esqueciam do velho cão, para encherem os comedouros á ave. Mas, pois que até os principes morrem, o melro morreu. Era preciso fazer um enterro condigno, e tractou-se d'isso. Emquanto uma criança abre a cova e outra sustenta uma cruz de pau, formam as restantes o funebre cortejo do passarinho.
O feretro vae deposto n'um carrosito de pau, o melhor que se póde arranjar. Umas pequenitas tiram pelo carro, em direcção á cova, que se está abrindo. Apoz o feretro vae um rapasinho lacrimoso, suspendendo a gaiola vasia, e a par do rapasinho o cão, tão triste como qualquer das crianças.
O quadro é isto,--e o mais que se não póde dizer e constitue a alma da pintura.--Ainda não vi assumpto tão ligeiro mais habilmente tractado, d'onde se infere que, se Eugene Lejeune tivesse visto os meus dois rapasinhos, que iam fazer exame, com os seus livros, o seu medo e a sua esperança tambem, haveria desenhado um quadro digno de figurar a par da _Morte d'um passarinho_.
* * * * *
Á MEZA DO CHÁ
(POR OCCASIÃO DA VISITA DO SHAH DA PERSIA Á EUROPA)
--Estou summamente aborrecida, primo!
--Confesse, o que não é nada lisonjeiro para mim!
--O primo não me julga divindade para me fazer o sacrificio das suas palavras... d'oiro!
--Perdão, é que eu estava provando o chá.
--Cuidado. Então não escalde a eloquencia. Ainda se não póde tomar.
--N'esse caso...
--N'esse caso?
--Esperemos que o chá arrefeça.
--Agora é impossivel!
--Impossivel?
--Sim, porque o shah já não está na Russia.
--Bravo! A prima faz espirito! Repta-me; atira-me a sua delicada luva _gris-perle_. Está aceite. Conversemos.
--Pois conversemos.
--Dizia eu...
--O que dizia o primo?
--Nada. Eu ia dizer que esta chavena é do tamanho da Europa.
--Que disparate, primo!
--Perdão, é que tem dentro o shah...
*
As mães dos primos, exportando maledicencia e importando fatias pela bocca:
--Lá estavam hontem no theatro!
--Estavam. Elle e Ella. É gente da primeira sociedade...
--Ora o que tu quizeres, Gertrudes! Fidalguia que sahiu da quinquilheria e do fundo d'um chapéo. Elle tolo: ella filha de criada!
--Mas fazem figura...
O filho mais novo, que estuda geometria no lyceu:
--Figura de... cylindro.
As mães:
--Cala-te, Luizinho!
--Deixa fallar o rapaz. Eu não entendi o que elle disse, mas póde ser que tivesse graça...
--Pois eu estou pelo meu dito. Parecem da primeira sociedade.
--Parecem, começando pelo fim.
*
Um dos pequenos:
--Ó mamã, então sempre vamos para a Foz?
--O papá vae amanhã alugar casa.
O pequeno sahindo da sala a correr:
--Ó Jucá! o papá vae amanhã alugar casa!
As mães:
--Não ha remedio, Leocadia, eu tenho uma filha. É preciso vêr se tractamos de casal-a.
--Que pressa!
--Tenho cá uma rasão; não digo bem, temos cá uma rasão.
--Aquillo em Hespanha está mau...
--Que tem a Hespanha com tua filha?
--É que meu marido anda com a mania de comprar fundos hespanhoes, e, se a Hespanha fizer bancarota...
--Percebo. O marido que se aguente, e fique com a mulher sem dote...
--Tal e qual. Nós cá... pensamos assim.
*
O pae da menina lendo o _Jornal do Commercio_, e interrompendo-se para chamar o sobrinho;
--Ó Arthur?
--Meu tio!
--Tu já leste esta biographia do shah da Persia?
--Eu não, meu tio.
--Pois olha que tem sua graça! Lendo pausadamente: «Mal subiu ao throno reformou o shah os costumes do palacio, redusindo as despesas do serralho a limites mais equitativos. Seu tio, a quem succedeu, como já indicamos, tinha nada menos de quinhentas mulheres, das quaes houve cento e um filhos e cento e sessenta filhas, o que constitue regular prole.
«O monarcha actual tem unicamente quinze esposas e é pae só d'uma duzia de filhos. Na sua viagem levou algumas d'aquellas até S. Petersburgo; faziam parte da criadagem e costumavam alojar-se com os cavallos e os palafreneiros; na capital da Russia, o shah mandou-as embora, obrigando-as a voltar para Téhéran.»
As mães poisam as chavenas e dão attenção.
O pae poisando o jornal:
--Pois, senhores, sempre é um shah muito forte!
As mães:
--Ah! ah!
A menina:
--Ó primo, vamos fazer _paciencias_ depois do chá?
--Como a prima quizer.
O pae:
--Deixem a paciencia para o shah: com quinze mulheres!
*
O primo, levantando-se da mesa, abre a carteira e começa a escrever para evitar que a prima o force a ir fazer paciencias.
A mãe do primo:
--Lá está o rapaz a tombos com os versos!
--Aquillo não lhe faz mal nenhum!
--Sim, mas é que já tem impresso tres volumes á minha custa e estão para lá as aguas-furtadas cheias de livros.
A prima levantando-se surrateiramente:
--São para mim. Não dá o braço a torcer, mas ama-me com toda a certeza.
O primo fechando a carteira e erguendo-se:
--Com toda a metrificação.
--Que dizia, primo?
--Que fiz um milagre. Ha um mez que não faço versos, e escrevi tres quadras com toda a metrificação recommendada nas poeticas!
--Póde saber-se qual foi a inspiração?
--Oh! uma loucura, prima, uma extravagancia minha.
A menina, á parte:
--São a mim. Não se atreve a dizer-m'o!
Em voz alta:
--Diga sempre...
--Olhe que não valem nada...
--Mas porque não lê? São...
--A mr. Du Barry.
--A quem? O primo está-me enganando!
--Acredite. São a mr. Du Barry, author da _Revalescière_.
A prima ainda desconfiada de ser a inspiração;
--Ora leia!
--Ahi vão:
Meu Deus! eu vi suar os bons pedreiros A encastelar as pedras calcinadas Com que armaram alfim uns pardieiros, Pendurados de rochas empinadas.