Part 8
--Que se me dá de cadeias! Sempre um élo é menos forte... Cadeias que se não quebram São as do amor e da morte.
Chegam os mascarados.
Irrompe a vozeria:
--É elle!
--É ella!
--Não é elle nem ella: é outro!
Sempre me ha de lembrar o caso da menina do Pedregal, que tinha amores contrariados.
Na noite da esfolhada obteve licença para ir dançar na festa vestida de camponeza.
Foi, e disse falseando a voz:
--O primeiro abraço é meu!
Respondeu um camponez:
--Pertence-me!
Era senha. E depois? Depois a menina do Pedregal não voltou a casa, e o capitão-mór, apesar de vêr a filha radiosa da felicidade do casamento, nunca mais deixou andar mascarados nas esfolhadas.
* * * * *
S. BARTHOLOMEU
_Per signum crucis..._
Sempre é bom acautelar n'este dia!
Vamos lá para a Foz, com toda a gente, depois de persignados.
Encontramo-nos uns com os outros pela rua de Ferreira Borges abaixo:
--Para a Foz?
--Pois!
--Almoçar?
--E jantar!
--Mais um copito por minha conta!
--Mais dous por minha!
--A D. Rosalia não vem?
--Foi de vespera; dormiu lá!
--Que soffreguidão!
--A D. Rosalia não quer perder uma festa!
--Então é como as esposas ciumentas...
--Maganão!
No caminho de ferro americano. Dous gordos:
--Esta romaria mette muita gente!
--O poder do mundo!
--Você passa o dia?
--Eu vou almoçar a casa do cunhado.
--Mas você vae de palito na bocca?
--Isto foi para experimentar os dentes.
Duas magras, que valem por seis tagarellas:
--De ponto em branco!
--Sim... a _polonaise_ é nova...
--Catita d'uma vez!
--O mesmo posso dizer de ti!
--Ah sim... o chapéo.
--Está muito fresquinho! Eu gosto dos chapéos arranjados com pouca coisa...
--Não disse isso a Ravoux, que me pediu oito mil e quinhentos...
--Ellas pedem sempre muito.
--Tu lá sabes quanto te pediram pela _polonaise_...
Um sujeito, pondo a cabeça fóra da carruagem, para outro que desce a rua de Ferreira Borges:
--Ó Bernardo! Ó Bernardo! Anda p'r'aqui!
O outro agitando os braços:
--Olé! Ahi vou!
Uma velha rabugenta:
--Que gordura d'homem! Vamos aqui morrer de calor! Por isso é que eu gostava dos carroções...
O gordo, atravancando a portinhola, e produzindo um breve eclypse no interior da carruagem:
--Vamos lá a esse _S. Barthalameu_!
O que o chamava:
--Ora o Bernardo! O Bernardo!
Um _petit-crevé_ para um _crevé-petit_, atravez do fumo do charuto:
--Palpita-me que vamos ter _bernardices_.
Uma creança esmagada pelo Bernardo, que se sentou:
--Ai!
O Bernardo, cuja sensibilidade está embotada pelo habito de trilhar pessoas:
--Não é nada!... Ora coitadinha! Isto fez-me lembrar a anecdota da melancia e da avellã...
Abala o trem.
A velha, estremecendo:
--Nos carroções não havia isto!
Lá vae aquella fluctuante colonia de romeiros povoar a Foz durante vinte e quatro horas. Vão á romaria! disseram elles. Pois que vão. Chegarão lá, percorrerão todas as cangostas, todas as ruas, irão ao adro, á praia, a Carreiros, procurando, sempre procurando, e não encontrarão a... romaria.
O que elles encontrarão será:
_Na igreja_--Duas cortinas vermelhas e seis velas acesas, no altar de S. Bartholomeu. Um homem sentado a uma mesa, a vender registos e a receber esmolas. Algumas mulheres, que se ajoelham deante da mesa para beijar a imagem e beijam o diabo, que a imagem tem aos pés...
_No adro_--Quatro mesas com bonecada. Um grupo d'homens de guarda-soes abertos.
_Na praia_--Muita gente sentada e muita gente de pé.
_Em Carreiros_--Algumas pessoas que vão á procura dos lavradores, os quaes lavradores não apparecem.
_Pelas ruas_--Muita gente que vae e que vem.
_N'uma encrusilhada_--Um sujeito da provincia perguntando a uma pequenita:
--Onde é a romagem, menina?
A rapariga com cara de lorpa conscienciosa:
--Cá não ha essa rua.
_Nas casas particulares_--Algumas meninas sentadas na sala das visitas. Ao centro, quatro velhos a jogar a bisca sueca. Tudo á espera do... jantar.
_Na cosinha_--A dona da casa a apressar a cosinheira. A cosinheira a dizer ao criado que se apertarem muito com ella deixa o jantar por fazer e vae-se embora.
_Nos hoteis_--A mesa redonda cheia. A mesa quadrada, idem. A mesa triangular, idem. Mais quatro familias a perguntar se não ha mais mesas.
_Á porta do castello_--Dois veteranos a comer melancia, e outro a dormir com o lenço vermelho estendido sobre a cara.
_Nos bilhares_--Dois caixeiros que jogam o bilhar toda a tarde, porque elles foram á Foz, não procurar a romaria, mas divertir-se.
_No pharol da Luz_--Um pae a explicar ao filho a espheroicidade da terra pela curva que vae descrevendo um vapor. O menino: Ó papá, mas se o mundo fosse redondo, aquelle vapor cahia agora! O pae: Cala-te, cala-te, tu não sabes o que dizes!
E a romaria?
Procuraram-n'a, rebuscaram, vascolejaram tudo, e não poderam encontral-a...
E os lavradores a tomar banho?
Os lavradores tomam banhos todos os dias, menos hoje. Teimavam em farpeal-os; elles teimam em não dar sorte.
Diz-se que costumavam tomar sete banhos na manhã de S. Bartholomeu.
Eu acho que tomarão sete, em qualquer dia, se tiverem muita pressa d'ir para a terra. Dois tomam elles todos os dias: um de madrugada outro de tarde. Acontece por lá a cada passo demorar-se um camponez quinze dias e retirar-se com trinta banhos. Já houve um, meu conhecido, de Castello de Paiva, que esteve quinze dias na Foz e tomou trinta e quatro banhos. Perguntou-me se eu queria alguma coisa para os seus sitios.
--Então já vaes?
--Esta noite.
--Quantos dias estiveste?
--Quinze.
--Quantos banhos tomaste?
--Trinta e quatro.
--Como fizeste isso?
--É que aos domingos tomava quatro.
Um anno por outro acontece que alguns d'elles tanta pressa teem de _acabar com o remedio_, que tomam um unico banho. Isto é, morrem depois do jantar, no mar, com uma apoplexia.
O pretexto d'ir vêr os lavradores é um mau pretexto, porque, ainda que elles se banhassem, como dizem que se banhavam antigamente, n'este dia,--não prestava aquillo para nada, de certo.
Eu vou explicar como os lavradores tomam banho na Foz.
Vão para as praias da Luz com a sua trouxa sobraçada, aos ranchos, por que um lençol chega para quatro. Elles entendem por um acertado instincto suino, que quanto mais salgados ficarem, melhor. Mettem-se entre os fragoedos. Homens e mulheres vão de branco, ligeiramente vestidos; a côr da roupa faz com que deixem no banho o _ligeiramente_ e saiam sem adverbio e sem decencia.
Esperam a onda, de bruços na areia, com a cabeça virada para a terra, e a parte opposta para o mar. Isto poderia offender os peixes, se os peixes tivessem brios. Mergulham sete vezes, porque, para elles, de sete em sete ondas, vem uma que traz grande virtude curativa.
Depois vão a correr para entre as fragas, cheios d'areia e d'agua, e limpam-se ao lençol a que já se limparam tres.
Isto é invariavel.
E o diabo, que anda ás soltas n'este dia?
A respeito d'este bicho eu sou exactamente da opinião do padre Antonio Vieira:
«O diabo já não tenta no povoado, nem é necessario, porque os homens lhe tomaram o officio, e o fazem muito melhor que elle.»
Ora é este mais um motivo, vista a substituição, para eu acabar como principiei:
--_Per signum crucis..._
* * * * *
O NATAL
Os chefes de familia, que logram contar vinte annos de praça conjugal, devem hoje chamar seus filhos á sala do jantar e dizer-lhes, indicando a meza:
--O Natal foi alli.
Que ss. ss.as os moços pennujentos oiçam reverentemente a voz de seus paes, e desçam olhos de commovido respeito ás mudas tabuas onde o Natal vaporou as mais succolentas iguarias, e caldeou a mais serena embriaguez do genero humano nas garrafas scintillantes de vinho e luz.
O Natal foi alli.
Tudo quanto de indigestamente pesado póde haver para o mais vigoroso estomago, aqueceu as loiças que se deixaram cahir de maguadas das mãos dos criados, quando souberam que certo dia o menino mais velho tivera uma gastrite por haver comido uma gemma d'ovo depois da meia noite. E tiveram rasão. A espada de D. Pedro IV prefere a inactividade do Museu de S. Lazaro a lampejar ao reflexo do sol em dia de solemne patuscada militar no Campo de Santo Ovidio.
Viram o throno deserto dos cortezãos do seu tempo e não quizeram sobreviver á ruina do estomago portuguez. Os homens contemporaneos d'aquellas loiças comiam uma gallinha em dia de natal, e um perú em dia d'anno novo. Os filhos, que simplesmente herdaram o nome paterno, sentem-se affrontados com a digestão d'um ovo, e estão adoptando á meza os legumes porque a teia de aranha onde caiem os alimentos não consente mais que uma folha d'alface, e uma vagem de conserva.
Por isso se suicidaram as amplas terrinas de ha vinte annos, e não resta da primeira festa portugueza mais que este epitaphio na bocca dos velhos:
--O Natal foi alli.
Era alli. A mesa deslumbrava de candelabros e garrafas. Em derredor estavam as largas cadeiras de couro tauxiado. N'aquelles alterosos espaldares podia recostar-se uma cabeça impassivel á fermentação dos liquidos. Sabia-se que nenhum dos convivas cabecearia a ponto de fracturar o craneo na pregaria amarella. Aproveitava-se o encosto unicamente para se estar aprumado, de modo a facilitar a descida dos alimentos ao longo do esophago. Os criados entravam e sahiam para pôr os pratos; hoje o principal cuidado dos criados é dispol-os. N'aquelle tempo não havia symetria; a symetria foi creada e é observada exclusivamente por nós, que somos a geração mais artificial que tem vindo ao mundo.
A abundancia era a condição unica a attender. Ha vinte annos dizia-se de uma mesa: Estava cheia; hoje diz-se apenas: Estava bonita. Dispensavam-se as flores. Para recrear os olhos bastava a variedade dos pratos; para deliciar o olfato era sufficiente o perfume dos cosinhados. Baralhavam-se as terrinas, as travessas e as taças. A luz passava d'umas ás outras como o reflexo de luar que atravessa as ondas. Era um mar agitado, amplo e alegre. De espaço a espaço, como ilha deleitosa, erguia-se a garrafa; já se sabia que se tinha de parar alli para fazer aguada. A prudencia do marinheiro está em não se demorar nos portos onde toca, de modo a atrazar a viagem. Assim observavam nossos paes á mesa. Faziam escala por todos os archipelagos de crystal, por ser vergonhoso a um maritimo não conhecer a mais insignificante ilhota. Saudavam na passagem o promontorio da gallinha, a bahia do arroz, a cordilheira dos paios, o isthmo do pernil, o cabo dos mexidos, os escolhos das rabanadas, e a frescura oleosa dos verdejantes oasis de grêlos que ensombravam os pequenos desertos das travessas.
Iam conhecendo o mappa palmo a palmo, vendo o mundo retalho a retalho, n'aquella noite. Corria a ceia na doce intimidade de bordo. Ria-se serenamente; fallavam todos e ouvia-se cada um. Á cabeceira da mesa estava o pae com os seus cabellos nevados, radeante d'alegria. Parecia o piloto á cana do leme. Dilatava-se n'aquelle suavissimo conchego a alma dos convivas como se dilata a alma dos passageiros na contemplação do infinito. Quando a tripulação saltava em terra, quer dizer, quando pouco antes da meia noite se levantavam da mesa, iam em rancho á missa do gallo, com aquella religiosa solicitude de muitos marinheiros que vão orar á Senhora da Boa Viagem mal que descem a escada de portaló. Era uma festa! N'aquelle tempo o vinho não embriagava nem as comidas affrontavam. O estomago dilatava-se tanto como o coração... O somno fugia amedrontado da alegre voz do gallo. Estava-se bem toda a noite e ninguem pedia amoniaco nem soda Watter. O livro da felicissima gastronomia d'aquelle tempo era digno do prologo, e levava quinze dias a lêr-se. Só no dia de Reis se virava a ultima folha. E no dia 7 de janeiro ninguem se queixava de dyspepsia!
Hoje tudo é differente.
Os convivas introduziram os vinhos francezes porque são espuma que desce ao estomago, e que dá uma falsa alegria de momento. Todavia querem mostrar que são valentes, e arremettem contra uma garrafa de champagne, que durante meia hora os descompõe, a ponto de se supporem a ceiar com _cocottes_. Esquecem-se de que estão á mesa com suas irmãs e com sua mãe. Até para ellas precisam de pedir emprestada a alegria ás bebidas! Á meia noite ninguem os encontra em casa; estão no botiquim a tomar caffé, porque se sentem incommodados do estomago. Á ceia o unico que está sinceramente risonho é o pae, porque se alegra das suas recordações. Os filhos começam a fallar depois que salta a primeira rolha de champagne. Não distinguem aquella ceia das ceias ordinarias: não se lembram do irmão que está no Brazil ou do irmão que está no cemiterio. Antigamente, se estava ausente uma pessoa da familia, punha-se-lhe o retrato na mesa.
Era para que não faltasse ninguem á ceia. Hoje não se colloca o quadro para não desmanchar a symetria. Mettemos a arte em tudo; até nos lembramos de a metter entre os pratos! Para tudo ha preceitos, tudo se faz por medida. Os criados andam collocando a loiça com a _Arte de servir á mesa_, do snr. João Matta, no bolço. Como se põe a mesa? O snr. Matta dil-o:
«A toalha convém que seja adamascada. Quando se estende, deve ficar bem posta, repartida com egualdade para todos os lados e sem rugas. A peça principal, para ornato ou serviço, colloca-se ao centro. Em torno d'ella, põem-se serpentinas com vellas; vasos de flores; grupos de figuras; pratos de doce de copa: pratos montados de porcelana, crystal, ou prata, com pastilhas, amendoas torradas, doces de ovos e de côco, foguetes e algumas flores artificiaes para embelezamento d'esses pratos. Se houver _plateaus_ com grandes vazos de bronze dourado, devem collocar-se symetricamente na mesa, tendo cada vaso sua garrafa de vinho de Champagne rodeada de gelo, para contentamento da vista e ostentação da grandeza do dono da casa.»
Antigamente os criados não tinham compendio. O que se punha na mesa não era para se vêr mas para se comer. Em dezembro o que se queria na mesa _para contentamento da vista e ostentação da grandeza do dono da casa_ era o vinho. O gêlo, por ser frio, deixavam-n'o á vontade no topo do Marão e da Estrella. Hoje, para aquecer os convivas e os vinhos, põe-se gelo na mesa. Se uns e outros não hão-de estar frios! Ha vinte annos o que _ostentava a grandeza do dono da casa_ era o diametro da vazilha. O vinho mais desejado era o _quente_; hoje querem o champagne bem nevado, _frappé_, como dizem os francezes. É tudo como os francezes dizem. O caso é que se lhes obedece, e que já se deixa passar a noite de Natal _á franceza_. Não sei como se chama em francez ás _rabanadas_ e aos _mexidos_, que se fazem ainda em attenção á velhice de nossos paes. Hão-de ter um nome exquisito, para não parecerem portuguezes. Tudo nos tem levado a França,--até o feijão branco! (Já não é feijão branco: diz-se _flageolets_.) Deu-nos a arte, e podemos dizer que nos levou o Natal. Pois apezar de estar casquilha a mesa, cheia de insignificancias bonitas, de pastilhas, de amendoas torradas e de rosetas de gêlo, podeis dizer a vossos filhos, indicando a mesa, ó celeberrimos valentões da guarda velha:
--O Natal foi alli.
* * * * *
OS BOHEMIOS
O fallatorio é este:
--Quando chegam?
--Quantos são?
--Devem vir muito moidos!
--Rijas pernas!
As donas de casa:
--Não sei como podem dispensar a loiça!
Os paes de familia:
--Prescindirem do sophá para dormir a sesta!
As meninas umas ás outras:
--Eu se fosse namoro d'algum não consentia!
--Nem eu!
--Porque?
--Porque não queria um marido com habitos de recoveiro...
Os leitores do _Primeiro de Janeiro_:
--Elles... quem são?
--De quem está fallando?
--A quem se refere?
N'uma palavra,--todas as explicações. Estamos fallando dos cinco intrepidos cavalheiros lisbonenses, que se propozeram fazer a pé, em verdadeiras condições de bohemios, uma insignificante jornada de Lisboa a Braga,--resolução que importa o sacrificio de dar apenas alguns passos como quem vae da Praça Nova ao Palacio de Crystal para aproveitar a companhia de dois amigos que lembraram um duello a cerveja.
Mas, sendo um pouco mais profundo,--porque o folhetinista tem obrigação de fazer a anatomia das intenções--vejamos se não haverá porventura n'este caso, que denota á primeira vista bons pulmões, bom sangue e boas pernas, algum proposito recondito, algum plano philosophico, que revele, em segunda leitura, que os cavalheiros de Lisboa são tão intrepidos de espirito como de corpo.
Leriam ha pouco tempo o _Roman comique_ de Scarron, o _Diable à Paris_ de Eduardo Ourliac, _L'Angleterre et la vie anglaise_ de Affonso Esquiros, o _Grand homme de province á Paris_, de Balzac, e enthusiasmar-se-iam com as comicas aventuras dos actores ambulantes e dos musicos das ruas?
Não é de suppôr que rapazes que se encostam ás _vitrines_ do Chiado, que frequentam o Gremio, que vão a S. Carlos, que não faltam á espera dos touros, que costumam passar o verão em Cintra, que calçam bota de polimento, que se frisam no Baron, que se vestem no Keil, se aguentem, por mero capricho, n'uma caminhada de sul a norte, que os obriga a viver entre montes, durante dois mezes, n'uma barraquinha de campanha, onde mal se póde lêr a _Correspondencia de Portugal_ e onde seria impossivel desdobrar o _Times_.
E tanto isto não é provavel, que dois dos peregrinos do rancho desanimaram a meio da jornada com saudades do _robe-de-chambre_ e do Martinho.
Se o intento fosse um simples devaneio d'espiritos moços, uma extravagancia dos vinte annos, haveriam retrocedido todos, e affogariam o seu desalento n'um copo de champagne, que é como os rapazes costumam enterrar ruidosamente qualquer ideia que lhes morre...
Mas tres d'elles, os snrs. A. C. da Silva Castro, Estevão Ribeiro da Silva e Pedro de Campos Menezes, avançaram sempre, chegaram ás Caldas da Rainha, demoraram-se em Coimbra, acampando no rocio de Santa Clara, e devem ter já partido do Bussaco.
Segue-os uma carroça, puxada por um macho. Na carroça vae o _chalet_ ambulante, dobrado em fórma de biombo, e sentado em cima da lombada do _chalet_ o cosinheiro, que, precisando de trabalhar com os braços, se dispensa de trabalhar com as pernas. É o Sancho Pança da aventura, que se presume a assistir áquelle acto da _Cora_ em que vae passando em frente do espectador o panorama do Mississipi, porque vae vendo regaladamente as margens do caminho mettido dentro da sua mitra d'algodão branco, do seu avental de linho e dos seus oculos de metal amarello.
Elle é o unico do rancho que se sente despreoccupado, porque apenas tem uma ideia: a cosinha. Os patrões vem andando e pensando, porque esta viajata representa para elles uma lucta entre as velhas tradições e as ideias modernas, entre as forças do homem e as forças da machina, entre os artelhos e os _rails_, entre a vontade que manda mover e a locomotora que faz andar.
O empenho d'estes cavalheiros é naturalmente mostrar que o homem é mais completo do que o suppõem; que o progresso é uma simples mistificação de preguiçosos que querem viver na indolencia, e viajar sentados; que os caminhos de ferro são uma patarata engendrada para negocio d'uma companhia, e finalmente, que a raça latina tem ainda sangue rico, alma arrojada, altura de pensamentos, colorido nas creações, valentia nas empresas.
Querem pois supplantar as invenções modernas, dispensando-as, e tanto o conseguiram, que de Lisboa até Coimbra entretiveram-se a ensinar a andar o caminho de ferro.
Por um esforço pouco vulgar chegaram a dominar a propria curiosidade: ha um mez que não recebem cartas nem jornaes. Não sabem nada do que se passa no seu paiz, porque a direcção do correio é tão pouco intelligente que os não manda procurar onde estão. Mais um triumpho para elles! Então o correio foi feito para entregar as cartas a quem lh'as pede ou para as ir entregar a quem as deve receber? Nada sabem do que ha trinta dias acontece em Lisboa, nem siquer teem tido noticias da cotação dos fundos hespanhoes. E fallar-se sempre da rapida transmissão do pensamento, de telegraphos electricos, de cabos submarinos, de paquetes a vapor! Ha um mez que inteiramente ignoram o que se pensa no Chiado, e, visto que já os incendios começavam quando partiram, não sabem ao certo se Lisboa ardeu, e se já se encommendou algum marquez de Pombal para reedifical-a.
Diz-se que o progresso tem levado commodidades a toda a parte, desbravando florestas, povoando desertos. No Cartaxo desejaram sorvetes e não os obtiveram; em Chão de Maçãs pediram toicinho do céo e alcançaram a certeza de que o céo em Chão de Maçãs era mahometano.
Apregoa-se a diffusão da instrucção publica, a creação de cadeiras primarias, e na Pampilhosa, querendo sentar-se a tomar a fresca, offereceram-lhes uma cadeira em tão mau estado, que de nenhum modo se podia considerar primaria. Em Alfarellos quizeram passar a noite a lêr, e estando Alfarellos a dois passos de Coimbra, e sendo Coimbra, segundo o pensamento de Heitor Pinto, a cidade d'onde irradiam as virtudes e as lettras para todo o reino, como do centro da esphera sahem as linhas para a circumferencia, apenas conseguiram haver em Alfarellos um reportorio de 1872.
Pois então, n'este seculo de extrema e assombrosa mobilidade, ha no mappa de Portugal uma terra que em agosto de 1873 se governava pela chronologia de 1872, dormindo um anno inteiro!
Um dos nossos guapos viajantes sentiu-se no caminho um pouco embaraçado com um calo no dedo minimo do pé direito. Então ainda ha calos! E os jornaes a assoalharem que a pomada Galopeau é o verdadeiro pedicuro descoberto até hoje! Um pouco crestados pelo sol, desejaram refrigerar a pelle. Onde estava esse famoso Charles Fay, inventor do pó de arroz preparado com bismutho? Banharam as faces n'uma fonte, que serpejava por entre rochas, e saudaram enthusiasticamente mais uma vez o passado, porque a agua é tão antiga, que já o diluvio foi... d'agua! A frescura do liquido constipou-lhes os dentes. Reclamaram a presença do snr. de Vitry, _chirurgien dentiste de leurs majestés trés fideles_, e o snr. de Vitry não os ouviu chamar na sua casa da rua do Ouro em Lisboa! Pois se o pensamento se transmitte com a apregoada rapidez parecia que... Em Souzellas viram á porta de uma tenda, invadida por dous meirinhos, o pobre do logista que se lamentava da desgraça a que o ia redusir a penhora.
Perguntaram:
--O que tem aquelle homem?
--Quebrou.
E os jornaes de Lisboa a dizerem que o snr. Carvalho Junior inventou um efficaz emplastro para soldar as pessoas quebradas!
Ó suprema irrisão! Ó verdadeiro triumpho ganho pelo passado sobre o presente! indubitavel victoria do homem sobre a machina! E vós, illustres bohemios d'uma crusada santa, que ides dilatando a fé e o imperio, dizei-me, sinceramente, intimamente, se este não é o verdadeiro fim da vossa rude jornada! Podeis, ao longo do caminho, ir cantando a velha canção dos actores ambulantes:
Veut-on savoir d'ou nous venons, La chose est trés-facile; Mais, pour savoir où nous irons, Il faudrait être habile. Sans nous inquiéter, enfin, Usons, ma foi, jusqu'à la fin De la bonté céleste! Il est certain que nous mourrons; Mais il est sur que nous vivons: Rions, buvons! Et moquons--nous du reste!
e eu guardarei ufano o diploma de--_être habile_--porque descortinei a vossa intenção recondita.
Até á vista, e felicidade!
* * * * *
O RELOGIO...
É o meu relogio que me dá assumpto para este folhetim...