Part 7
Todavia bastará uma caixa de phosphoros para proseguir na sua recreação; e, para ella, os phosphoros são tão baratos, que qualquer pessoasinha, por mais pequena que seja, valendo dois tostões, vale vinte caixas de phosphoros.
E nós, meu caro Julio,--olhe que differença!--valemos tão pouco, que sahindo de casa com a nossa caixa de phosphoros, levamos apenas comnosco a vigesima parte d'uma _Giganta_.
* * * * *
O ALBUM DO GYMNASIO
(POR OCCASIÃO DA ESTADA DA COMPANHIA DO THEATRO DO GYMNASIO, DE LISBOA, NO PORTO)
Oiço dizer que vamos ter muita coisa: as campanas dos _niños_ que estão actualmente na Corunha, o violoncello do snr. Casella, o reportorio do Santos, as tragedias da Ristori, e as guitarras dos fadistas.
Seria opportunidade de me dispender em pontos d'admiração, n'este conjuncto de surprezas que medeiam entre a campainha e a guitarra, entre o campanologo de poucos annos e o fadista de muitos, mas reservo esse luxo ortographico para depois que vir e ouvir os artistas cuja chegada se annuncia para breve.
E isto por duas rasões: por que me será mais facil copiar do cartaz, e porque não quero servir gratuitamente as empresas fazendo os cartazes... eu mesmo.
Portanto, na espectativa do que virá, volto-me para o que providencialmente já temos, e digo providencialmente, porque não... tinhamos.
Quero fallar-lhes do Gymnasio, perdão, quero fallar-lhes unicamente do album do Gymnasio, que tenho presente n'este momento, e cujas photographias estou passando entre os dedos, suppondo que a minha cadeira de braços é um camarote, e que a minha jardineira é o palco.
Estou vendo-os, a elles e a ellas, sem a interposição do binoculo, que é muitas vezes mentiroso, e que realmente tem um terrivel e perigoso rival na photographia.
Elle é a illusão, o cosmetico, a cabelleira; ella é o nariz defeituoso, a bocca desgraciosa, as rugas da velhice.
Elle tem o prestigio da mentira; ella a eloquencia da verdade.
Quando um admirador se apresenta a uma actriz por este modo:
--Minha senhora, eu já tive hontem a felicidade de a conhecer por intermedio do meu binoculo,
ella, que está para entrar em scena, segreda á sua alma:
--Bem; então não me viu.
Quando porém lhe diz:
--Minha senhora, eu já tinha a felicidade de a conhecer em photographia,
a actriz fica desgostosa e menos _coquette_, porque seria inutil simular.
Ora sendo a photographia a verdade, optemos por ella.
Bem. Aqui temos o album: folheemos e conversemos.
Na primeira pagina... Taborda.
A gente tem vontade de gritar logo, como se encontrasse em Paris uma gravura representando a proeza da padeira d'Aljubarrota:
--Bem sei: é uma lenda da minha patria,--a lenda do Homem-Gargalhada.
D'uma valentona que em vez de espancar o homem pretende espancar a humanidade, costuma dizer-se: «Que Brites d'Almeida!» D'um sujeito que é a alegria em pessoa, que faz rir todos os grupos, não quero já n'uma visita de pesames, que é justamente onde tudo dá vontade de rir, mas n'um casamento, que é a coisa mais seria que eu conheço, costuma dizer-se: «Que Taborda!»
Este é conhecido e está definido: é a legenda do Homem-Gargalhada.
Na segunda pagina... Izidoro.
Parece um commerciante que vae á praça com o seu bengalorio e com a sua gordura,--a gordura passou a ser tão desejada que é prudente defendel-a com um bengalorio--e é um actor distinctissimo, que só negoceia á noite com as palmas e com os bravos.
Tão conhecido é, que já Julio Cesar Machado, o primeiro photographo portuguez do folhetim, o retratou na sua pequena galeria dos grandes actores nacionaes.
Portanto é procurar a photographia na casa Moré. Não tem que saber: _atelier_ de Julio Cesar Machado, Lisboa, retrato do actor Izidoro, com biographia: preço 200 reis.
Terceira pagina... Maria das Dores.
Ah! um gentil talento, creado no theatro desde os quatro annos! Tão pequenina era quando appareceu em D. Maria na _Condessa de Sennecey_, que adormeceu em scena, e foi preciso acordal-a para completar o seu papelinho. Depois, estreiou-se a valer no mesmo theatro, no _Anjo da reconciliação_, no tempo em que a esplendida aurora do talento de Manuela Rey deslumbrava o publico lisbonense. Era sobremodo difficil fazer-se notar n'aquella epocha, pela simples rasão de que a intensidade da luz chega a cegar. E Manuela foi realmente um meteoro que só appareceu no céo do theatro portuguez para se amortalhar nos seus proprios esplendores, e deixar saudades. Maria das Dores estudou, luctou, fez magistralmente o _Gaiato de Lisboa_, substituiu Manoela Rey no papel de Bertha da _Mulher que deita cartas_, o que podia considerar-se uma incontestavel victoria, e hoje é essa grande actriz que todos temos admirado,--a Silvana da _Filha unica_, a _Valentina_, e a viscondessa do _Como se enganam mulheres_!
Quarta pagina... Rosa Junior.
Quando este rapaz nasceu (1844) já o pae estava farto de saber para o que elle nascia. Para pintor, dizia na sua boa fé o velho Rosa. N'esse proposito, foi o rapaz iniciar-se no curso de bellas-artes, e quando terminava o curso declarava ao pae que não queria ser pintor. É que realmente a gente nasce com a sua estrella, e, muitas vezes os paes tão cegos estão da sua amorosa ufania de serem pilotos da barca do nosso destino, que chegam a imaginar possivel a navegação sem olharem para o céo onde estão as estrellas...
Ha ainda alguns desenhos de Rosa Junior, ha, mas elle suppôz--e suppôz bem--por intervenção da sua estrella, que o maior _atelier_ do mundo, sem ser o mundo, era o theatro, e voltou-se para o desenho dos caracteres moraes, a que só um verdadeiro talento póde dar colorido.
Estreiou-se no Porto, em 1862, nas _Joias de familia_ e appareceu em Lisboa, um anno depois, no theatro de S. Carlos, no _Ricardo III_.
N'esse mesmo anno foi escripturado por Francisco Palha para D. Maria II, onde se estreiou na _Sophia Mopin_, versão de Rebello da Silva. Foi contando os triumphos pelos papeis: na _Nobreza_, nos _Fidalgos de Bois Doré_, nos _Nobres e plebeus_, na _Patria_ e na _Lucrecia Borgia_.
Se o publico se não se encarregasse de lhe dizer que a sua estrella tinha rasão, bastaria a corôar a sua resolução o silencio do pae que nunca se atreveu a dizer-lhe:
--Diabo! porque não foste tu pintor!
O seu maior elogio é o silencio do pae.
Quinta pagina... Cesar Polla.
Eu não sei realmente como elle chegou a ser actor! Foi empregado publico, e, o que é mais esterilisador ainda, metteu-se em politica. A burocracia teve-o nas garras até 1864, e deixou-o escapar! Chegou a saber o processo de fazer e desfazer deputados. Sondou as profundezas revoltas da urna eleitoral. E, caso raro! pôde salvar-se a si e á sua intelligencia, fugir á comedia dos homens, enganar o cerbéro da politica para que o deixasse passar e, quando muito, fazer deputados á bocca da scena, o que é mais glorioso do que fazel-os á bocca da urna.
Estreiou-se em 1865, em D. Maria, nos _Diffamadores_, na noite do beneficio do Tasso. Esteve em D. Maria até 1870, e durante esses cinco annos revelou-se o grande artista que hoje é, mórmente quando, incumbido do papel de barão de Lambech, no _Anjo da meia noite_, ao tempo que José Carlos dos Santos o estava fazendo na rua dos Condes, logrou confirmar o enthusiasmo das primeiras saudações. O publico lisbonense festejou-o delirantemente no Pomerol da _Fernanda_, no Bevalan da _Vida d'um rapaz pobre_, no Mirabeau da _Maria Antonietta_, no Gil Paes de Lima da _Côrte n'aldeia_, no medico do _Juiz_...
Verdade é que se perdeu um burocrata! O orçamento não lucrou com isso, mas quem com certeza lucrou foi o theatro portuguez.
Sexta pagina... Emilia dos Anjos.
É uma discipula do Conservatorio, de faces morenas e olhar vivo, expedita e intelligente, já conhecida do publico portuense, que em mais d'uma época a tem festejado na comedia. Representou no Porto, com Pinto de Campos, a _Familia Benoiton_, e o nosso publico ficou estimando-a.
Voltemos folha: Pinto de Campos.
Filho d'uma familia de lavradores de Villa Franca, começou por ser typographo. Certo dia lembrou-se porém de que não conhecia ainda todos os typos--os do drama e da comedia--e fez-se actor. Estreiou-se no Gymnasio em 1855 e passou depois a D. Maria. Com estas andadas esqueceu-se da typographia, mas em compensação ficou conhecendo optimamente a topographia... do theatro.
Fez admiravelmente o Krig da _Cora_, o piloto dos _Homens do mar_ e, no Porto, os galans com Emilia das Neves.
Artista consciencioso e boa alma. Ouro sobre azul.
Temos na setima pagina... Maria Adelaide.
No theatro e na sociedade é uma _coquette_. Alguem, vendo-a no _Afilhado de Pompignac_, disse que ella tinha nascido para amazona. Diz com graça, e tem ás vezes a travessura d'um rapaz.
Ora, pela _coquetterie_, é bom passar a gente depressa.
Folheemos as paginas restantes.
Bayard, se não se póde considerar um artista de primeira ordem, é todavia um actor apreciavel, em que os outros podem ter confiança, porque não desmancha, como se diz em linguagem de theatro.
Luiza Candida tem uma especialidade--os typos populares,--em que vae muito bem, o que não quer dizer por modo algum que não tenha intelligencia para outras creações.
Jesuina é uma _soubrette_ engraçada e distincta.
Ora tambem não é bom demorar-se a gente onde ha graça e distincção...
Carlos d'Almeida é um actor comico, que se adivinha pelo seu casaco azul de botões amarellos, pela sua _badine_, e pelo seu chapéo.
No _Afilhado de Pompignac_ está constrangido, mas ainda outro dia, n'aquella bagatella _Entre casados_, fez rir a bom rir.
Na ultima pagina do album está Leopoldo, discipulo do Conservatorio, e ensaiador da companhia. Apparece pouco, mas em compensação todas as noites apresenta a sua obra.
É tempo de fecharmos o album do Gymnasio, e, como n'esta vida anda sempre a illusão a par da realidade, bom será que o publico, que viu a photographia, veja á noite pelo binoculo... a companhia.
* * * * *
ESBOÇO DE COMEDIA
O pessoal d'esta comediasinha é inferior ao de todas as secretarias, mas, ao contrario do que acontece nas secretarias, todo o pessoal faz alguma coisa. Declaro, para evitar pedidos d'empresarios, que ha de ser posta em scena por curiosos, evitando-se outrosim as tolices dos actores, e que se nomeará no cartaz:
HISTORIA D'UM COLLAR
PERSONAGENS
*Raymundo Savedra*--leão.
*Dolores*--leoa.
*Baroneza de Faiães*--ex-leoa.
Principia ás 9 horas para haver tempo de preparar a jaula.
Scena I
_Boudoir_ de Dolores.--Tapetes de Susa, espelhos de Veneza, e uma bilha d'Extremoz. Raymundo e Dolores.
RAYMUNDO--Amo-a!
DOLORES (_despeitada_)--O senhor ama todas as mulheres!
R.--Não confunda os fogos-fatuos d'uma noite canicular, estiva, apopletica com a chamma do sol, intensa, continua, deslumbrante, esplendida.
D. (_bocejando_)--Que estylo!
R.--Não faço estylo. Eu fallo assim.
D.--Oh! então o nosso amor é impossivel, atroz. O senhor, se alguma coisa ama, é... os adjectivos.
R. (_carinhoso_)--Perdão, Dolores, a minha eloquencia é filha do meu amor. O rouxinol da balseira só descanta quando a primavera enflora os prados. O carneirinho...
D.--Não sabe que embirro tanto com os carneirinhos como com os bachareis! Que está o senhor a bacharelar!
R.--Perdão. Entre bacharelar e ser bacharel medeia a distancia da reprovação. Eu não tenho cartas.
D.--Com que então não joga! Virtuoso moço!
R.--É implacavel, Dolores!
D.--N'esse caso peça treguas.
R.--Pedirei.
D.--Com a condição de me satisfazer um capricho, uma velleidade. Preciso dum collar. Estou doidamente namorada d'um que vi esta manhã em casa do meu ourives. Vá comprar-m'o.
R. (_pegando no chapéo_)--Voltarei em breve. O collar será seu, e a felicidade será minha. (_Sae._)
Scena II
DOLORES (_cahindo no sophá_)--Puff! Que xarope de morphina o estylo d'este homem! Como elle me aborrece, me adormenta! Me adormenta, é phrase d'elle! E não se lembrar este doido de que é casado, de que tem filhos...
UM CRIADO, que podia ser de papelão, se alguem fallasse por elle entre scenas:--A snr.ª baroneza de Faiães.
Scena III
BARONEZA--Minha senhora!
D. (_erguendo-se_)--Senhora baroneza!
B. (_sentando-se a convite de Dolores_)--Eu espero que a justiça da minha causa me absolverá da ousadia da visita.
D. (_para a frisa do lado direito_)--Que quererá ella? Não sei que me adivinha o coração!
B.--Ha realmente assumptos tão melindrosos, que eu não sei se deva...
D.--Minha senhora!
B.--Peço toda a sua benevolencia para a justa defensa dos direitos de minha cunhada...
D.--Mas...
B.--Sim, eu sei que ama delirantemente meu irmão, que o verdadeiro amor é cego para todas as conveniencias sociaes, mas é ao coração doente que eu venho trazer o cauterio da piedade. Lembre-se, Dolores, de que meu irmão é casado com uma senhora nova e extremosa, e pae de cinco filhos.
D.--Mas... eu queria dizer a v. ex.ª que não amo seu irmão.
B. (_admirada_)--Como!
D.--Que o não amo.
B.--Pois será possivel! Meu irmão suppõe-n'o, acredita-o, jural-o-ia.
D.--Eu creio que o snr. Raymundo Savedra é facil em acreditar tudo: o espirito simples é, por via de regra, credulo. Agora lhe pedi eu um collar de preço fabuloso para vêr se conseguia que o sacrificio lhe fosse lição.
B. (_áparte_)--Piedosa lição! Esta mulher! (_para Dolores_)--Muito bem! Está, pois, concluida a minha missão. Saio d'aqui com a felicidade na alma, e creia que jámais me esquecerei da nobre franqueza que encontrei nas suas palavras (_comprimentando_).
D. (_correspondendo_)--Senhora baroneza!
Scena IV
RAYMUNDO (_entrando açodado_)--Que veio aqui fazer minha irmã? Ouvi-a fallar n'esta sala, e escondi-me no corredor. Que disse ella?
DOLORES (_com indifferença_)--Perdão! E o meu collar?
R.--Oh! O seu ourives só sabe propôr negocios leoninos! Pede uma quantia fabulosa!
D. (_no mesmo tom_)--Quanto?
R.--Um conto de reis!
D.--Ah! Acha muito!
R.--É que realmente eu tenho dispendido comsigo, Dolores, loucamente, e receio que um dia a pobreza vá encontrar meus filhos amaldiçoando o tumulo do seu pae.
D. (_tocando a campainha_)--Que entranhas paternaes as suas! (_Ao criado_) Diga a este senhor que estou incommodada. (_Sae._)
R. (_fulo de colera_)--Eu me vingarei, infame! Ficará sem collar! (_Sae._)
Scena V
DOLORES (_entrando pela mesma porta porque saira_)--Não ficarei sem collar, não. Eu serei infame, mas tu és... parvo. (_Escrevendo_) Duas linhas ao meu ourives: «Snr.: Queira aceitar a offerta, qualquer que seja, feita pelo snr. Raymundo Savedra. Eu completarei o preço da compra do collar. Exijo absoluto segredo.» (_Tocando a campainha; ao criado_) Leve esta carta ao meu ourives. (_Erguendo-se_) É preciso que elle fique inteiramente derrotado. É uma fonte de receita que se vae eliminar do meu orçamento, e convém não prescindir da ultima verba. Tu receberás a correcção devida a todos os parvos.
Scena VI
Raymundo entra timidamente. DOLORES (_sentindo-lhe os passos_)--Que amor o d'aquelle homem, que recua deante d'uma velleidade! Vão lá fiar-se no amor! (RAYMUNDO _avançando_)--Não faça esse conceito de mim, Dolores, bem sabe se a amo, doidamente, perdidamente, mas é que...
D.--É que talvez nem mesmo agora saiba ser cavalheiro. O meu ourives acaba de avisar-me de que resolvera acceder á offerta do senhor.
R.--N'esse caso...
D.--Quanto offereceu o senhor?
R.--Quinhentos mil reis.
D.--(_á parte_) É muito! Tenho de dar outros quinhentos. (_Alto_) Não lhe convém ainda? Acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil reis! Que largueza d'animo a sua!
R. (_apaixonado_)--Não, vou já, Dolores. Á noite fulgirá o collar no seu seio, e as estrellas desmaiarão no céo. Não será mais formosa a huri quando as exhalações calidas da noite...
D. (_com aborrecimento_)--Quer que lhe faculte o _adresse_ do meu ourives? É de suppôr que a imaginação lhe anniquille a memoria.
R.--Até já, Dolores. Vou buscar as estrellas para completar o meu céo de felicidade. (_Sae._).
Scena VII
DOLORES (_olhando para a porta_)--Bonita figura... a do homem! O amor dá azas. Voará. Dentro em pouco estará aqui. O collar será meu. Deital-o-hei ao pescoço. Mirar-me-hei ao espelho, e intimarei o snr. Raymundo Savedra a que saia para nunca mais voltar. E depois um collar d'um conto de reis não é caro por metade do preço. (_Chegando á janella_) Já desappareceu. Não tardará. O caso é que estou impaciente pelo desfecho d'esta pequena comedia. (_Tocando a campainha; ao criado_) Já vieste ha muito? Ficou entregue? (_O criado bole affirmativamente a cabeça_) Está bem; vae-te. Mal persintas o snr. Raymundo Savedra, avisa-me. Não sei o que hei-de fazer! Ah! o meu piano! (_Senta-se arpejando e monologando_) E dizerem que a felicidade é isto! Quantas vezes m'o não teem dito! Se soubessem como estou aborrecida agora! E as minhas canções! Vamos, Marcó, desafia-te a ti mesma; vence o teu proprio fastio. Póde ser que venhas a amar um dia; entôa o teu cantico d'esperança! Não, não posso! Que demora!
Scena VIII
O CRIADO (_com uma carta_)--Da snr.ª baroneza de Faiães.
DOLORES (_impaciente, levantando-se do piano_)--Vejamos. Que terá a baroneza ainda que dizer-me! «Snr.ª Acabo de escrever a meu irmão desenganando-o. Antecipei-me, porque lhe seria menos doloroso o golpe vibrado por mim.» (_O criado_: Chega o snr. Raymundo Savedra) DOLORES: Ah! (_escondendo a carta_).
Scena IX
RAYMUNDO (_entrando de chapéo na cabeça, com uma caixa na mão esquerda e uma carta na mão direita. Ameaçador, tetrico_)--Sei tudo. Minha irmã teve a feliz ideia de me deixar esta carta em casa do seu ourives, minha senhora. Esteja tranquilla. Não será preciso que o sacrificio me seja lição. Esta carta desvendou-me; chamou-me á realidade. O sorriso da amante não vale o coração da esposa.
D.--O que?
R.--Oh! socegue! As pedras falsas inventou-as o homem para as falsas mulheres. Mas estas, as que são realmente preciosas, creou-as a natureza para as mulheres honestas. Adeus. Vou offerecer este collar a minha mulher. (_Sae._)
D. (_cahindo fulminada no sophá_)--E os meus quinhentos mil reis! Ó castigo! (_Cae o panno._)
* * * * *
AS COLHEITAS
Eia, ceifeiros! Começam a arroxear os pampanos e a loirejar as messes...
Vá de limpar a eira, e preparar a adega; de varrer o lagar e ventilar o celeiro.
Ri no campo a conta amarella do milho, na vide o bago roxo da uva.
Foi Deus que da primavera ao outomno os preparou no mysterioso laboratorio da terra.
A ambos deu côr, e fórma, e prestimo: no interior d'uma pôz o cereal que ha-de ser pão; no interior do outro a gota que ha-de ser vinho.
E d'estas pequenas coisas vae sair a fartura, a abundancia, a alegria, a festa, a riqueza!
Tão contingente é a felicidade do homem, que um sopro de vento póde prostrar os milheiraes, e um insecto, tão pequeno como a uva, inutilisar o cacho...
Mas se Deus vos protegeu o campo e o vinhedo, se loirejam n'um os cabellos de Daphne, e no outro vergam os sarmentos com os pêsos côr da amethista, vá de azafamar para a colheita, de afinar a viola do descante, de phantasiar as alegrias da esfolhada, de escolher corpo gentil onde caia o abraço do _milho-rei_.
Quem não conhece agora a aldeia, quando
Abre a romã, mostrando a rubicunda Côr com que tu, rubi, teu preço perdes;
quando
Entre os braços do ulmeiro está a jucunda Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
quando mais se amacia o velludo do
...pomo, que da patria Persa veio, Melhor tornado no terreno alheio
e
Mil arvores estão ao céo subindo Com pomos odoriferos e bellos
e
... a tapeçaria bella e fina Com que se cobre o rustico terreno, Faz ser a de Acheménia menos dina, Mas o sombrio valle mais ameno!
É agora que desce dos montes o pregão de festa, e que fogem da cidade para as sombras do bosque, como aves a procurar abrigo, as almas entediadas da vida ruidosa das cidades.
Borboletas, cuja vida irá queimar-se na chamma fatal, querem povoar os campos, cujos fulgores illuminam mas não matam, porque descem do céo, e ou são do sol ou do luar.
Á tarde, desencalmado o ar, vão os ranchos festivos ribeira abaixo, pela relvosa alea ladeada de arvores que vergam ao pezo dos pomos.
Vão charlando os moços, rindos os velhos, doidejando as crianças.
Haverá por ventura no enxame quem leve seu livro para meditação?
Qual será elle?
Livro puro e são, como as aguas, como o ar, como tudo alli.
Manon Lescaut e Margarida Gauthier não entram ao santuario d'aquellas sombras, porque as flores silvestres dos vallados lhes diriam:
--Aqui não ha camelias, peccadoras. Os vossos ramos banharam-se no champagne das ceias, e crestaram-se; nós florimos banhadas no orvalho da manhã, e perpetuamo-nos. Somos pequenas e singelas. Enchemos apenas o nosso canteirinho rustico; vós encheis o mundo com a cauda roçagante dos vossos ricos vestidos. Olhae bem e procurae camelias... Não as ha. Eu sou a madre-silva, aquella é a violeta branca, aquell'outra é o malmequer. Riquezas para a pastora, que vive para colher a laranjeira! É a sua ultima flor. Não lh'a venhaes empestar com as vossas camelias, que trazem veneno como os vossos labios.
Werther tambem lá não entra, porque lhe diz o camponez ancião, sentado á porta da cabana com o neto nos joelhos:
--Elá, poltrão! Os nossos lares são tranquillos e sagrados,--não se invadem. Eu sei que esta criança é filha de meu filho, e por isso a amo. Não conhecemos cá o desespero do amor illicito que leva á morte. Aqui vive cada um o tempo das arvores que plantou. Por isso eu tenho estes cabellos brancos, e é porque me não aborrece a vida, que os vês, ainda confundidos com os cabellos loiros d'esta criança.
O santo reitor, que serviu porventura de modelo ao evangelico personagem do primeiro livro de Julio Diniz, encontra no caminho a sombra de Voltaire, e entre sereno e austero lhe falla:
--Não ha quem te comprehenda aqui; vae-te, sabio peior que o rustico. São tudo camponezes. Nem a minha palavra rude e clara elles entendem, porque não precisam entendel-a. Deus conhecem-n'o de o vêr n'estes campos que ora fructificam, e que na primavera riem. Estão estas serranias tão habituadas ao silencio, que não encontrarias pelas quebradas echos para as tuas tempestades. Vae-te em paz, e adeus.
É preciso que os livros, na aldeia, tenham alguma coisa do chilriar dos passarinhos: que sejam candidos e bons.
Servem os _Contos do tio Joaquim_, porque na alma de Thomaz, o philosopho amoroso da estrella phantastica, não modilhavam só os passarinhos, a que do coração queria,--chilreava uma primavera perpetua.
Servem os _Serões da provincia_, que se diriam outras tantas flores perfumadas pela alma de Julio Diniz. Não teem mau feitiço os novellos da tia Philomena, nem os versos do doutor Jacob queimam como as estrophes de Byron...
Esses livros cabem á solidão, porque é no despovoado que se rememora, e ambos elles valem hoje duas saudades redivivas.
Do rancho urbano uns lêem, outros fallam, e nenhum está triste.
Vae descendo o sol.
Passam no caminho as ceifeiras, contentes do lidar d'um dia inteiro. Na voz d'algumas canta-lhes a alma; nas faces de todas alvoreja, áquella hora do entardecer, a alegria do descanco. Metade da noite, a seroam: outra metade, dormem-n'a.
Sol nado, toca a encastelar os cestos da ceifa e da vindima, e partem cantando. No palacete de gradarias de ferro acorda ao matinal concerto uma das formosas do rancho que na vespera estava lendo _A flôr d'entre o gelo_. E, lembrada de ter lido n'um poeta portuense esta quadra, sorri ao primeiro raio de sol que lhe brinca nas rendas do leito, e abençoa:
Ide ceifar! Deus vos encha Os açafates d'espigas. Deus vos dê boa colheita, Rapazes e raparigas.
E o serão!
As rumas de milho no meio da eira; raparigas d'um lado, rapazes do outro; a requinta a distancia. Ao longe, presentidos já pela turba, os mascarados.
Emquanto não chegam, o desafio:
--Não penses em ser esquiva, Que se eu estender os braços, Tu vaes ficar prisioneira N'uma cadeia d'abraços.