Part 6
_Ardina_ é um provincianismo; tanto vale como ardil. Deitavam-se os dez reis á caixa, corria-se a cortina, e que se via? Um burro velho preso á mangedoura pela cauda. Era o ardil. Ninguem se queixava do annunciante porque elle tinha prevenido no annuncio. E depois ninguem queria dizer o que tinha visto para não confessar que fôra enganado. Ia toda a gente vêr a _ardina_; sahia a rir, e não dizia nada.
Quando acabou a feira, o cavalheiro d'industria tinha os seus vintens. E a quem os deveu? A elle proprio, que soube ser mysterioso.
Supponhamos que o snr. Costa Braga, fundador da chapelaria a vapor, fornecedor da casa imperial do Brazil e da casa real de Portugal, precisava de annunciar os seus excellentes chapéos. Se dissesse simplesmente que vendia chapéos finos, lustruosos como setim, ninguem recordaria que o snr. Costa Braga gastara cem contos de reis para montar a sua fabrica. Se, porém, annunciasse:
«Delicadas estufas de feltro para os pensamentos, redomas de sêda e cartão para perseverar das intemperies as mais mimosas ideias»
o snr. Costa Braga teria de fechar as suas portas por não ter tempo de vender a todos os compradores chapéos altos e chapéos baixos, artisticamente annunciados.
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INDUSTRIA DAS RUAS
Industria das ruas é a arqueta do belfurinheiro, o urso que maneja um pau, o macaco que toca pratos, o garrano que conta as horas, a harpa, o realejo, a gaita de foles, o sabonete que tira as nodoas, o cosmorama, a loteria, o arranca-dentes, o arlequim, o compõe-louça, o _pick-pocket_, e mais ainda.
Todos os homens são como os passaros: teem seu ninho. Voar voam ás vezes, e para longe, mas é no seu ninho que descançam, é no seu ninho que dormem. Os negociantes da rua, que constituem para assim dizer uma humanidade á parte, são como as borboletas; voar, sempre voar! E assim como os naturalistas atravessam com um alfinete o corpo das borboletas para as fixarem n'um cartão, usam alguns escriptores fazer da penna alfinete para apresentarem á humanidade das salas, em livros e jornaes, a humanidade das ruas.
Em França os typos populares teem tido por photographos habilissimos talentos. Bastará citar dois ou tres livros, porque são numerosos os que tractam do assumpto. Eu conheço o _Ce qu'on voit dans les rues de Paris_ e _Les espectacles populaires et les artistes des rues_ por Victor Fournel; _Enigmes des rues de Paris_ por Eduardo Fournier e _Célébrités de la rue_ de Charles Yriarte. Em Portugal apenas um ou outro escriptor se tem occupado em artigos de jornal--lembro-me agora do snr. Alexandre Herculano e de Julio Cesar Machado--dos typos populares. E todavia esse immenso mundo das ruas tem, como todos os mundos, seus mysterios, suas lagrimas, seus sorrisos, seus romances,--o que lhe dava direito a ter tambem a sua litteratura. Estude-o porém quem se julgar com forças para o fazer; eu limitar-me-hei hoje a pregar n'este cartão volante duas ou tres borboletas, das que se andam espanejando nas ruas, á luz do sol de Deus, e que podem constituir, quando muito, outras tantas paginas da epopêa do povo.
O leitor perfeitamente conhece os meus typos, de os vêr todos os dias, de manhã, em frente da igreja dos Congregados,--um com o seu cosmorama, o outro com os seus canarios. O do cosmorama estava fazendo fortuna, mórmente em dias de feira, mas vae senão quando apparece-lhe um rival temivel na feira de S. Lazaro, com um cosmorama muito mais variado, porque tem vistas sacras e profanas, e com o que é mais, com um voseirão capaz de suffocar a voz de todos os expositores de cosmoramas.
Occupemo-nos em primeiro logar do _parvenu_ da feira de S. Lazaro, e do seu cosmorama mixto. Typo de cigano, olhar e linhas de invencivel velhacaria;--jaqueta, chapéo de lavrador e calças d'almocreve. A mulher, um pouco gibosa, e zombeteira como todos os gibosos, está sentada, emquanto o homem falla, n'uma das travessas do X de pau, que sustenta o cosmorama,--sempre a rir um risinho... Eu não pude averiguar se ella se ri da velhacaria do homem, se da credulidade dos espectadores. O certo é que ri sempre. O homem ronca de pé, com a precipitação d'um jorro d'agua, dando ao pescoço o geito d'um cysne que levanta a cabeça. Começa a funcção, e a mulher a rir, alapada entre o cosmorama e o chão, como um satyro feminino n'uma gruta...
Começa o espectaculo e o discurso:
«Vamos, senhores, cheguem-se para vêr as grandes guerras da França e Prussia. Isto é baratinho, custa apenas 10 reis, ainda temos dois vidros. (_Para um espectador_: Dê cá 10 reis.)
«Passamos a vêr a primeira vista. Ahi tendes, senhores, a grande cidade do Rio de Janeiro, aquella grandiosissima cidade com a sua barra por onde entram e saem embarcações e grandes naus: olhae, senhores, para o vosso lado direito, e vereis o grande palacio do imperador de quatro andares. Olhae ao centro e vereis a grande ilha das Cobras; á esquerda lá se avista a grande torre da Candelaria onde o imperador vae á missa.
(O orador enxota com a vergasta um gatuno que tenta espreitar por cima do hombro d'um espectador.)
«Passamos agora, senhores, a vêr o grande exercito prussiano a bater o exercito francez: olhae ao centro que lá vereis já 12:000 francezes prisioneiros; á esquerda lá se vêem sahir os prussianos debaixo d'umas arvores. Pela direita...
(Um espectador, desorientado, volta subitamente os olhos para a esquerda, e, reconsiderando, vira logo o pescoço para a direita. O orador:)
«Pela direita lá chegam os carros dos feridos francezes; mais adiante lá se vê Napoleão III na batalha de Sedan com o seu braço esquerdo no cachaço do cavallo, dando o seu braço direito á Prussia.
«Lá vem Bismark a toda a brida; lá rebentam as metralhadoras, lá se vê ao centro a grande explosão de polvora.
«Passamos a vêr agora Paris. Olhae, senhores, á vossa esquerda e lá se verão as balas ardentes a sahir das boccas dos canhões; mais ao centro lá se vê o balão a fugir para fóra dos muros da cidade. Triste desgraça é esta, senhores!
«Agora vae apparecer o inferno. Lá estão as alminhas penando, lá está uma a levantar a cabeça, e o diabo a mergulhar-lhe a cabeça na lavareda.
«Vereis agora, senhores, o purgatorio: o lugar onde estão as almas antes de subir para o céo. Lá está o padre santo e seus companheiros, e todos os bispos e alcebispos.
«Passamos agora, senhores, a vêr a ultima vista, que é o inferno, onde os maus são castigados pelos crimes que fizeram cá n'este mundo.»
A velhacaria d'este homem attrae, mais talvez que o seu voseirão. Faz dinheiro, junta muita gente, mas ainda assim o seu rival dos Congregados, que tambem foi á feira, tem suas sympathias e sua clientella certa. Representa os seus quarenta annos; traz calças antigas, casaco velho e _bonnet_ decrepito; chama-se Joaquim de Almeida, e é natural de Villa Nova de Gaya.
Anda emparceirado com o homem dos canarios, que veste pelo mesmo theor, e que poderia ter a mesma cara, se não fosse trazer a barba crescida. Chama-se José Maria Alves, e é natural de Valença. O cosmorama está sempre collocado a par da gaiola, se bem que os espectaculos poucas vezes sejam simultaneos, porque o homem dos canarios toma a peito fazer a policia do recinto emquanto o cosmorama funcciona. Joaquim de Almeida falla em cima de uma cadeira. Estão as lentes todas occupadas: é uma enchente. Principia a explicação:
«Vamos a vêr, senhores, a paixão e morte de N. S. Jesus Christo.
«A primeira estação representa Jesus preso deante de Pilatos para ser sentenciado á morte. Pilatos, não encontrando crime nem delicto em Jesus, mandou que sentenciasse Caifaz, e elle lavava as mãos do bem e do mal. Como Jesus caminha de casa de Pilatos para casa de Caifaz. A sentença que le deu Caifaz é que Jesus caminhasse com toda a brevidade ao monte Calvario com a cruz ás costas para n'ella ser crucificado. E a primeira cahida que deu Jesus. Jesus caminhando para o monte Calvario eram tantos os golpes que le davam os judeus, que Jesus cahiu rendido por terra com o peso da Cruz. Agora vamos a vêr o encontro que teve Jesus com sua mãe Maria Santissima pelas ruas da amargura. Sahiu Sua Mãe Maria Santissima ao encontro para se despedir de seu amado filho, mais Jesus não se podendo despedir de Sua Divina Mãe le disse: «Mãe, não choreis, pois por minha morte vos glorificarei». Ahi se vê como fica a Virgem triste chorando atraz de seu amado filho. Jesus caminha arrastado pelos algozes sem se poder despedir de Sua Divina Mãe. Agora vamos a vêr como Jesus foi ajudado do Cyreneu. Jesus caminhando para o monte Calvario, sem forças e sem alentos, pediu a Simão Cyreneu que le ajudasse a levar a cruz ao monte Calvario. Tambem se vê ao lado direito como está Simão Cyreneu ajudando a levantar a cruz ao Senhor, e ao lado esquerdo se vê como caminha o menino Isaac com a cesta dos pregos e com a escada deante de Jesus, mostrando o caminho do monte Calvario aonde Jesus ia a padecer e a ser crucificado. Agora o santo sudario. Jesus caminhando para o monte Calvario em agonias e suor de morte sahiu Santa Varonica ao encontro. Ao lado direito lá se vê como está a Santa Varonica com o lenço branco estendido e o santo sudario do Senhor escripto.»
Este discurso é expectorado com verdadeira rapidez de manivella, erguendo o orador o rosto para os espaços, e interrompendo-se, a cada vista nova, o tempo preciso para acompanhar com os olhos o movimento que a mão tem de executar para a mutação de scena, operação que se resume em puxar por um cordão.
«Agora a segunda cahida que deu Jesus caminhando para o monte Calvario. Eram tantos os golpes que le davam os judeus, que cahiu Jesus segunda vez por terra com o peso da cruz dizendo: «Os maus cargam meus hombros e meu corpo cae rendido de afflicções.» Jesus caminhando para o monte Calvario com o peso da cruz, sahiram as filhas de Jerusalem ao encontro com palmas e ramos para recebel-o, mas Jesus olhando para ellas le disse: «Filhas, não choreis sobre a minha morte; chorae sobre vós mesmas e sobre vossos filhos.» Agora é a terceira e ultima cahida. Jesus caminhando para o monte Calvario, eram tantos os golpes e a pressa que le davam os judeus, que Jesus cahiu desfallecido a terceira e ultima vez por terra. Caifaz vendo que Jesus não tinha forças nem alentos, se apresenta a cavallo dirigindo á guarda que apromptamente apressasse com Jesus para vir a ser crucificado.»
Nós paramos aqui;--o orador não pára, vae repetindo o seu discurso até á ultima scena. Annunciado o fim, os espectadores debandam, ordinariamente calados, rompendo a multidão com a sobranceria de quem acaba de vêr o que a muitas é defeso.
O homem dos canarios tem quatro, que se chamam: _Isabel_, _Dolores_, _Branca Flor_ e _Garibaldi_. Tres femeas e um macho, o que equivale a dizer que tem menos musica do que podia ter se fossem tres machos e uma femea.
Como se sabe, por excepção aos costumes do sexo feminino, as femeas dos canarios cantam menos que o macho. Foi por isso que já um poeta francez extranhou á natureza o
_... priver les meres des serins Du caquet si commum aux femmes des humains!_
Todavia elle não quer que lhe dêem musica,--quer que lhe dêem pão. Ha cinco annos que os possue. Não lhes dará commodidades, porque trabalham todo o dia, não lhes dará mesmo limpeza, porque, ou velhice ou falta d'esmero, a plumagem não está setinosa, mas com a sua ração d'agua e painço não lhes falta. Ainda assim, apesar do seu fadario, são alegres, teem nos olhos a vivacidade que os caracterisa e a delicadeza e graça de fórmas propria dos canarios, admiravelmente intelligentes.
Chega uma pessoa que quer tirar sorte. Aproximada da gaiola a caixa dos bilhetinhos coloridos, o homem dos canarios abre a porta d'arame, e chama por um:
--Vem cá, _Isabel_!
O canario dá duas voltas na gaiola antes de sahir.
--Tira uma sorte a este cavalheiro.
O canario tira com o bico um papelinho.
--Dá-lhe quatro voltas.
O canario obedece. Esta operação é para que o vaticinio leve toda a virtude. Ás vezes, como se o papelinho, permittam-me a expressão, não estivesse ainda bem impregnado de futuro, diz o homem:
--_Izabel_, dá-lhe mais duas voltas. Uma por este cavalheiro...
O canario executa.
--Outra pela sua familia.
Obedece ainda.
Então é que o homem entrega o papelinho, e que a gente vae saber o seu destino por um vaticinio como este, influenciado pelo signo de _piscis_, que no papel apparece mudado em _pricis_:
«_Estás tranquillo por o temor de não sahirem bem de tuas emprezas._ Tranquillisa-te; os teus desejos se cumprirão dentro em pouco tempo, terás muito breve noticias que te darão alegria. A educação de teus filhos será a tua mais doce occupação. Alguns annos depois do teu casamento, encontrarás um thesouro e comprarás muitos terrenos, tens de fazer favores e a paga é a má recompensa; a ideia de cumprires tem de privar-te d'alguns prazeres; terás uma herança que te proporcionará um bem estar.»
Depois affastam-se as pessoas que tiraram a sorte, algumas rindo do disparate, outras pensando--as mais sonhadoras--que hão de achar algum dia um thesouro, ainda que não seja senão o _Thesouro de... meninos_.
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A GIGANTA
(CARTA A JULIO CESAR MACHADO)
MEU JULIO:
D'esta vez o assumpto é... grande.
E, quem como o Julio sabe o que é ter de dar um folhetim em determinado dia, comprehende que é muito mais raro encontrar um assumpto grande do que uma mulher grande. D'esta vez apparecem simultaneamente os dois phenomenos,--uma mulher que é um assumpto, e um assumpto que é uma mulher, ambos grandes. Ora este folhetim é nada mais e nada menos que a _Giganta_;--ella é a que ha-de encher estas seis columnas, talvez com os bicos dos pés ainda de fóra por não caber perfeitamente n'ellas. Esta notavel mademoiselle Rose tem passado de paiz em paiz, e de folhetim em folhetim. O Julio escreveu d'ella o brilhante folhetim que n'este jornal reproduzi quarta-feira; hoje escrevo eu, não com pretenções a desbancar o Julio, mas a desbancar a _Giganta_. Eu lhe explico. Sendo certo que nós todos devemos professar o mais profundo respeito pela tradição biblica, e ensinando ella que o pequeno David recebera o collossal Gollias com uma simples funda, eu quero tambem, segundo a santa lição, receber ao estylo apocalyptico esta illustre representante da familia gigantea: atirando-lhe com um folhetim.
Fui vel-a. Era á noite, á hora dos namorados, como o Julio disse. Desde que entrei a porta senti chilriar em francez, e eu mesmo, antes de procurar o dinheiro na algibeira, procurei no meu espirito recordações da grammatica do Albano e do diccionario do Fonseca. Comecei por ser francez, dando um franco pela entrada. Ainda quiz vêr se, como geralmente succede no commercio, me fariam o franco a 180. N'essa noite porém a sala estava cheia, sentia-se dentro a alegria franceza á mistura com umas ligeiras modulações no piano, e o cambio estava alto. Resignei-me a dar pela entrada o que até agora se dava por uma edição de Michel Levy. Em todo o caso sempre era um livro que eu ia lêr. Antes de correr a cortina vermelha, a tradicional cortina vermelha que empana todas as celebridades, disse para dentro, com voz que sobrelevou o murmurio, a _madame_ que recebia as entradas:
--_Il y a du monde._
Esta phrase, que visivelmente se referia a mim, fez-me estremecer d'orgulho. Está a gente, n'estas agrestes lides da imprensa, tão costumada a vêr-se depreciada em jornaes e opusculos, que já teria por grande elogio chamarem-lhe microcosmo. Vae a _madame_ da porta e chama-me _mundo_, como quem diz: Entra o snr. Cosmos. Estava eu quasi a deixar cahir a cortina, para deitar uma falla á _madame_ encarecendo-lhe a grandiosidade da sua lingua patria, quando me lembrei, por intervenção do José da Fonseca, que ella simplesmente quizera avisar para dentro de que entrava gente.
Era tarde para retroceder,--entrei.
Ao fundo da sala, erguidas sobre estrado, e ambas sentadas, deslumbraram-me duas mulheres. Ao nivel do estrado ondulavam as cabeças dos admiradores. O fumo dos charutos, que caprichosamente se derramava no ar, fez-me lembrar a vaporação d'uma pyra. Insensivelmente tirei o chapéo. Das mulheres, a mais alta, mandou-me cobrir em francez. Eu cobri-me em portuguez. A mais gorda mandou-me sentar, e, a esse tempo, já eu estava tão enleiado, que não sei bem se me mandou sentar em francez, se em portuguez. Eu sentei-me universalmente,--como todos.
Sempre lhe quero dizer, meu querido Julio, a razão do meu enleio. O Julio fallava apenas da _Giganta_, e eu fui encontrar, na saleta da rua de Santo Antonio, duas mulheres: a _Giganta_ e a _outra_.
Foi uma agradavel surpreza o poder lêr dois livros pelo preço d'um só. Achei então que o Michel Levy estava sendo caro, vendendo o volume a duzentos e cincoenta. Esta litteratura viva, muito mais agradavel á vista, pareceu-me economica. Depois d'estas ponderações entrei de examinar as mulheres. Ergui o meu olhar á altura de dois metros e quinze centimetros, e encontrei a cabeça da _Giganta_--mademoiselle Rose. Depois desci com a vista até encontrar as quatorze arrobas da outra,--mademoiselle Claire. Estive hesitando entre as arrobas e os metros, e decidi-me pelo systema decimal. Eu só acredito que uma mulher é franceza, sendo alegre. Ora mademoiselle Rose estava cantarolando com _coquetterie_ o _Orpheu nos infernos_; e mademoiselle Claire desfolhava tristemente uma flôr. Esta circumstancia levou-me a perguntar-lhe se era franceza. Respondeu-me mademoiselle Rose que era sua irmã, e do mais que me disse deprehendi que eram ambas francezas, que tinham quinze irmãos, o mais novo dos quaes estava sentado ao piano.
Pedi logo para vêr os outros quatorze. Mademoiselle Rose sorriu do meu equivoco, e respondeu-me que eu teria de navegar o Atlantico para os ir vêr a França. Consultando o programma, que me deram á entrada, e o folhetim do Julio, vi que era verdade ser mademoiselle Rose uma mulher d'espirito. Depois, como mademoiselle Claire se zangasse com um admirador que lhe estava bulindo no pé, vi que o programma era tambem verdadeiro na parte que lhe dizia respeito: _tem bellas maneiras e todas as qualidades proprias do bello sexo_.
N'isto erguem-se ambas ao mesmo tempo, e annunciam explicação. Os espectadores da geral arregalaram os olhos. Mademoiselle Rose tomou a mão para fallar, e um espectador da superior atalhou do lado:
--_Parlez en français._
Ella sorriu, e disse em francez:
«Mrs. e M.mes, nous sommes françaises, nées à Paris; ma soeur (Claire) est agée de dixhuit ans et moi (Rose) de vingt ans.
«S'il y a parmi l'honorable societé une persone qui desire connaitre la différence de taille, elle peut s'approcher. Vous pouvez voir que nous avons la main et le pied petits por être ma soeur aussi grosse, moi aussi grande, et le molet proportionné.»
(Reproduzo fielmente o francez... d'ellas.)
Mademoiselle Claire limitou-se a mostrar a mão, o pé e a perna, porque, realmente, aquella linguagem plastica era eloquente de sobra.
Não obstante, eu continuei a optar pelo systema decimal.
Como porem o publico da geral désse mostras de não ter entendido nada, tornaram a levantar-se e a fazer uma explicação em portuguez. Quando mademoiselle Rose chegou ao ponto de dizer: _e a barrica da perna regular_, eu tive tentações de observar:
--_C'est vrai: barrica._
Calei-me, porque ella estava fallando.
N'este comenos um lavrador da geral começou a rir e a apontar para a _Giganta_, que lhe perguntou o que elle queria.
O lavrador, com o mesmo sorriso alvar, tartamudeou:
--É que eu queria perguntar se o paisinho da menina era do mesmo tamanho.
--Muito grande! muito grande! respondeu a _Giganta_ abrindo as mãos e sorrindo em francez para os que entendiam aquella lingua.
A mulher do lavrador benzeu-se, e disse para o homem:
--Olha que ainda é maior do que o castanheiro de Quintães!
Começou então a sahir o publico da geral, e a _madame_ da porta, que é cunhada da _Giganta_, a dizer de cada vez:
--_Il y a du monde._
D'uma vez olhei, e vi entrar um anão. Que _mundo_ tão pequeno! Reconheci que não me devera ter orgulhado da phrase, e entrei de admirar a coragem do anão que, voluntariamente, se expunha a ser vencido por uma mulher. E eu, interposto áquellas antitheses, lembrei-me de que a humanidade era a rethorica da creação, e de que da variedade das _figuras_ procedia o que no poema da vida ha de recreativo.
Em todo o caso achei muito melhor ser gigante, porque sempre se vae vivendo á custa dos... pequenos. E depois, aquelle estrado em fórma de solio dava a ideia de realeza. Realeza d'estatura, é certo;--com prós e contras, como todas.
Ella alli está, pensei eu, admirada, festejada, galanteada, recebendo flores e rebuçados, tão feliz, tão feliz, que tem sempre vinte annos! Mas tambem, horror! nascer uma mulher gentil, elegante, _coquette_, e viver sentada, entre os seus pannos vermelhos, sem poder espanejar-se ao sol no verão, sem poder molhar os pés no inverno! Molhar os pés, digo eu, porque isso mesmo, que é para nós um desastre, seria para mademoiselle Rose uma deliciosa surpreza! Tem corrido a Europa sentada, e dizem-me que tenciona ir agora sentar-se á America. O mundo é para ella uma cadeira. Se algum dia quizer fazer exercicio, a conselho dos medicos, e subir ao pico do Himalaya, para admirar o mundo, ella, que tem sido admirada pelo mundo, e vir ao sopé da montanha uma tribu do Indostão ou uns pastorsitos de Thibet, dirá logo voltando-se para o irmão:
--_La chaise, mon frére, il y a du monde._
As mulheres vão ao theatro, passeiam, dançam, e ella, tendo talento, como realmente tem, vive sentada, a repetir sempre a mesma coisa, victima da sua propria realeza! Como não póde passear ella mesma, vae passeando em photographia, e espalhando o seu retrato.
Um dia bem póde ser que se sinta incommodada a ponto de ter inveja da sua photographia, que tenha um ataque nervoso por querer sahir, e que o medico declare que precisa d'andar durante vinte e quatro horas. N'esse dia estará perdida na terra onde estiver, porque todos a verão de graça, que é justamente a maneira porque ella não quer ser vista. A sua cadeira perderá todo o prestigio, e desde então a cadeira da _Giganta_ ficará valendo tão pouco como a _Giganta_. Uma e outra perderão todo o mysterio. Mysterio, digo eu, porque seguramente a _Giganta_ o tem.
Quando é que ella chegou? Quem a viu descer das Devezas, atravessar a ponte, passar na rua de S. João, das Flores, subir finalmente a rua de Santo Antonio? Como é que ella entrou por aquella porta tão pequena,--tão pequena, que muita gente cuido eu que dará de vontade os dois tostões, não tanto para vêr a _Giganta_, como para averiguar o modo porque ella entraria? Quando partirá? Quem a verá? Não se sabe. Ella tambem pouco sabe do mundo, a não ser que no mundo ha dois tostões, e que o mundo gosta das photographias, e dos originaes tambem.
Recebe dinheiro e nunca viu um Banco. Recebe flores, e nunca viu os jardins.
Não obstante, a realeza de estatura tem suas vantagens para uma mulher. Quanto o marido lastima, se é casado, ter de vestil-a, folga ella com a certeza de não poder queimar as suas tranças. Eu vou, meu caro Julio, fazer-me perceber melhor. Sabe o Julio, sabe toda a gente, como as mulheres estimam as suas tranças, pretas ou loiras, avelludadas como a noite ou radiosas como o sol; com que fé não lhes prendem uma flôr, que sempre lhes fica bem, porque emfim as flores tanto são do dia como da noite. Pois bem, supponha o Julio que uma mulher está lendo o seu poeta favorito, á luz de stearina, muito curvada, tão curvada sobre o livro, que chega a crestar os cabellos! Sendo o cabello a força, a mulher perdeu muito da sua individualidade. É um cataclismo. Mas a _Giganta_, com os seus dois metros e quinze centimetros, por mais febril que seja a leitura, tão superior hade ficar sempre á luz, que póde viver inteiramente tranquilla ácerca da inviolabilidade das suas tranças. Quando muito, poderá acontecer-lhe apagar a luz com a respiração, e ficar ás escuras.