Part 5
E tu, ó parasita, que andas sempre encostado aos outros, que te vaes mettendo á viva força por entre os que teem um vintem de seu, que nos vaes perseguindo á medida que te vamos enxotando, tu bem sabes o que serias, ó parietaria social, tu serias--hera.
E tu, que és anguloso, que trazes sempre o casaco a dançar nas protuberancias osseas e os joanetes a luctar com as botas, tu, que és uma pessima figura e talvez uma boa alma,--tu nascerias pêra de sete cotovellos.
E tu, ó languido Romeu, que estás sempre doente, que não pensas em ganhar a vida porque teu pae tem bom emprego, que precisas de muito resguardo, segundo diz a mamã, e que passas quasi todo o anno mettido no mar, a conselho do medico, tu és para a sociedade o que a alface é para a mesa,--uma coisa molle e transparente, que não fortalece o estomago e que se come por luxo--portanto tu serias--alface.
E tu, ó aborrecido grosseirão, que nos deixas sempre indigestos da tua presença, que só és supportavel quando estás ao pé de tua irmã, que são uns bons trinta annos, e de tua filha, que são uns bons vinte contos, tu serias pepino, sim, tu serias pepino, fructo que só se póde tolerar, em salada, com azeite e vinagre á mistura.
E tu, ó pequenina graciosa, que pareces contar eternamente vinte annos, que dás á gente vontade de te passear ao collo em vez de te passear pelo braço, que tens não obstante a elegancia da tua pequenez, tu serias forçosamente, pequenina e gentil como és,--tu serias--avellã.
E tu, ó conductor de mala-posta, queimado e musculoso como um athleta, tu, que atravessas serras e serras ao pino do meio dia, e estás sempre apto para o serviço, tu és a uva da humanidade, porque a uva tambem vive entre fragas, e recebe côr do sol que apanha, e tem o prestimo que tu lhe costumas utilisar muitas vezes ao dia,--e por isso, ó conductor de mala-posta, tu, a seres vegetal, serias--uva!
E tu, ó menino que cursaste sete annos o lyceu, e incommodaste os professores com grandes empenhos e teus paes com grandes despezas, para ao cabo de sete annos de luctas e dispendios alcançares unicamente certidão de exame de francez, tu, ó inutilsinho, ó pedantesinho, que te dás a importancia da tua ignorancia, sabes como se chamaria teu pae, se fosse arvore, e como te chamarias tu, a seres filho de teu pae? Pois bem, eu t'o digo, para que o fiques sabendo, d'uma vez para sempre, entende bem,--d'uma vez para sempre,--elle chamar-se-ia _Carvalho_ e tu serias--bugalho.
E tu, ó eterno pretendente, que vives aos pés dos ministros, que te dás bem na humidade das secretarias, que encaras como modo de vida o ser pretendente, que não serves senão para seres o que és,--que te parece que serias se a philosophia de Lamartine não fosse apenas um devaneio poetico? Tu serias tortulho.
E tu, ó agiota, ó fraca figura que tens a força do dinheiro, que és preciso para tudo, que tens o que dá luz ao homem e sabor á vida, que tens na tua algibeira o azeite com que se tempéra e allumia a existencia, tu nascerias--azeitona.
E tu, ó irascivel, ó atrevido, ó petulante, que pareces arder e fazes arder a gente, que te dás a conhecer em toda a parte pela rudeza agreste de teus gestos e palavras, tu, a não seres o petulante, o atrevido, o irascivel que és,--tu serias malagueta.
E tu, ó espirito lucido e malicioso, que tens graça, que tens alegria, que dás colorido e relevo ás mais relamborias semsaborias, tu que és a animação e a vida, que desembotas o paladar e abres o apetite, tu nascerias--pimento.
E tu, ó alma angelica, ó pallida enfermeira do filho moribundo, ó nobre coração que enthesouras todas as riquezas n'esse cofre em que se torna o coração da mulher quando chega a ser mãe, ó santa, ó mãe, tu serias o que de mais delicado póde haver entre as flores,--tu serias--lyrio.
E tu, ó irmã carinhosa, formosa e boa, terna e gentil, mixto de innocencia e formosura, ó pura amiga, ó doce amparo, que te escondes do mundo se nós soffremos, e que lhe sorris se o sol da felicidade nos doira a vida, tu serias, porque o és,--sensitiva.
Ó insipida menina, que dizes _não meu senhor, sim meu senhor_, que não sabes sorrir, que não sabes fallar, que não sabes viver--tu serias--lima.
Mas teu primo, aquelle azougado rapaz, que é a alegria da tua casa, que está sempre a metter-te á bulha, e que parece ter sido dado á luz por tua tia para compensar o disparate que tua mãe fez gerando-te, teu primo, que deve ter um appellido similhante ao teu, teu primo seria--limão.
E tu, ó filha do burguez, que não vaes ao theatro, porque teu pae só gostava da _Degolação dos innocentes_, e acha estes dramas modernos _pataratas_, tu, que não és gentil, mas que pezas cincoenta contos de reis, tu, que tens muito que comer em... dinheiro, tu, ó invejavel burgueza!--tu serias melancia.
* * * * *
Á ACADEMIA DE COIMBRA
Se no organismo das nações, como no organismo do homem, é indispensavel um coração que alimente a vida publica, deve o sangue portuguez jogar em systole e diastole, ahi, onde vós estaes, nos paços da Universidade.
Coimbra é o coração de Portugal.
Para ahi confluem as veias cavas cujo sangue negro da mocidade inculta ahi vae ser purificado no pulmão da eloquencia, e d'ahi é que nasce a aorta que revigora os vasos capillares d'este grande homem collectivo chamado Portugal.
E digo _grande_, porque sois vós que fazeis mover as valvulas do coração portuguez, vós, a intelligencia de quatrocentos homens, garantia de existencia futura, vós o futuro mesmo.
Ahi aprendeis a deletrear o passado da vossa patria nos traços architectonicos do paço das Alcaçovas, na contemplação dos retratos dos illustres varões que revestem as paredes da sala dos _actos grandes_, e d'alli aprendeis a amar o futuro embalados nas santas aspirações que mutuaes no desenfadado conversar da _via latina_ ou no suave bordejar do vosso Mondego.
Sois, vós todos os que passaes por esse grande chrysol, duas vezes portuguezes: portuguezes pelo passado, portuguezes pelo futuro.
E para ser nobre, e generoso, e digno, basta haver nascido portuguez.
Mas vós quereis mais, deixaes os vossos lares, a vossa familia e a vossa aldeia para vos irdes juramentar no exercito do futuro, cuja cazerna se levanta como reducto venerando a dominar a vossa Coimbra, a praça do militarismo intellectual, onde a intelligencia faz sentinella, e se aprende a manejar armas nos combates incruentos do espirito.
Tinheis a serenidade lareira das vossas arvores, e ides procurar a sombra menos consoladora dos claustros do vosso annoso baluarte. Tinheis a aldeia e os seus remanços, e quereis a lucta e os seus alvoroços. Tinheis a familia que é o ocio, e procuraes a patria que é a grande batalha, onde todos combatem.
Vós sois os defensores e a causa, os soldados e a bandeira.
Defensores, porque ahi estaes retemperando as armas do combate; a causa, porque sois a geração nova, e a geração nova é o _amanhã_, e a patria depende do _amanhã_.
Soldados, porque tendes a vossa bandeira; bandeira, porque combateis por vós mesmos.
Hoje sois a academia; amanhã sereis a sociedade.
Hoje vestis a batina; amanhã cingireis a toga do magistrado, os talares do sacerdote, a opa do tribuno, a banda do militar, os arminhos do ministro.
Hoje sois a nau do futuro; amanhã sereis o leme.
Hoje ides na tolda cantando ao luar os poemas das vossas navegações amorosas; amanhã estudareis á luz da bitacola os contornos coloridos do atlas.
Hoje sois a almenara do acampamento; amanhã sereis o pharol da sociedade.
Hoje ouve-vos o Mondego; amanhã ouvir-vos-ha o mundo.
D'ahi sahireis apostolos e soldados: apostolos da religião do bello e do bem; soldados das tradições gloriosas da patria.
A vossa palavra fecundará o solo portuguez, e vossos filhos recolherão no celleiro nunca exhaurido das memorias gloriosas a colheita que vós lhes preparardes em cinco annos de suado e ininterrompido agricultar nos campos do pensamento.
A charrua é o instrumento da fecundação, e vós conduzireis a charrua, que é a mãe da abundancia universal.
De vós, que sois o futuro, provirão os destinos do futuro, e assim vos perpetuareis nas idades porvindoiras da patria.
Vós sois a madrugada do vosso dia; e se a aurora repontar rosada e loira, o vosso dia será ameno e tranquillo.
Se agricultardes a terra, a terra fructificará.
É preciso portanto que derrubeis os velhos preconceitos, as antigas usanças da vossa vida academica, nocivas a vós e á patria.
O agricultor, que, ao alvorejar da manhã, sae do tugurio, d'enxada ao hombro, primeiro derruba as parietarias que lhe comem o pomar do que desbrava os matagaes que lhe ensombram a sementeira.
Sêde como o agricultor, e primeiro extirpae as tradições anachronicas da academia do que as tradições anachronicas da sociedade.
A _troça_ é um velho habito da vida escholastica da Universidade.
Vós, que vos estaes preparando para defrontar os mais nublosos problemas do futuro, retrocedeis ao passado pelas chacotas truanescas da _troça_.
_Troçar_ é ridicularisar.
Fundi a estatua da humanidade, não traceis a caricatura do homem.
No _caloiro_ ha o embryão que póde ser flôr, a chrysalida que se volverá borboleta.
É uma recruta que vem procurar o vosso regimento.
Recebei-o, não o amedronteis.
Aquella alma não está tão vasia que não tenha uma aspiração.
Não é tão cega, que não procure a vossa luz.
Não é tão inerte, que não queira lidar comvosco.
Dentro dos muros da vossa praça d'armas todos devem de ser soldados; a divisa é una, e uno o exercito; una a bandeira, e uno o triumpho.
Hoje sois irmãos; amanhã sereis homens.
Hoje viveis na communidade da vossa aspiração; amanhã vos apartareis para os vossos destinos.
A vossa Universidade é o tabernaculo onde desde o reinado d'el-rei Diniz se archiva a taboa da lei.
Ahi aprendeis vós a respeitar o direito, a observar o dever.
A _troça_ é uma offensa ao direito primittivo; por tanto, vós, almas generosas e nobilissimas, extinguireis a velha tradição academica.
Conheceis, melhor que eu, o artigo 2383 do _Codigo_.
Breve sereis chamados a pedir nos tribunaes justa punição á violação dos direitos adquiridos. Breve tereis de sahir a propugnar pelos interesses materiaes externos dos vossos clientes.
Começae pois por defender os direitos primitivos de vós mesmos; por impôr respeito á personalidade physica e moral da vossa numerosa familia universitaria.
A _troça_ abriu recentemente, no seio da academia, a sepultura de Antonio de Barros Coelho de Campos.
Não caveis sepulturas entre vós.
A morte é a saudade, e vós sois a esperança.
A morte é o occaso e vós sois a aurora.
A morte é o passado e vós sois o porvir.
A morte é a quietação e o silencio; vós sois o movimento e a vida.
Sobre o vosso arraial não deve pairar a morte, porque as vossas lides são incruentas.
A ampulheta, que regula a vossa vida, deve medir o tempo; não deve descançar na eternidade.
Uma sepultura é uma coisa inutil entre vós.
Amaes os salgueiraes do Mondego, porque n'elles remurmura o ecco dos vossos cantares.
Amaes a onda limpida do vosso Pactolo, porque ella deslisa sobre a areia doirada do álveo.
A sepultura é muda a todas as interrogações.
O unico movimento que a sepultura permitte é o ondular das hervagens que a cobrem.
Onde havia uma intelligencia e um coração, ha agora um comoro e uma cruz.
A morte não admitte exforços: é o irreparavel.
Luctar com a morte é esgrimir com o silencio e com o pó.
A vossa rasão é lucidissima, para que queiraes luctar com o impossivel; o vosso animo valorosissimo para que tenteis bater-vos com phantasmas.
Vós deveis estar n'um polo, e a morte no outro.
Que a cinza esteja no cemiterio, e o fogo na Universidade.
Que o chorão abrigue a urna, e o loureiro ensombre o livro.
Que descance o _nada_, e que o germen elabore.
Tudo é festa em derredor de vós, e a saudade é inimiga da festa.
O lucto é triste: reservae-o para a velhice.
E todavia vós estaes de lucto.
Ha um cadaver e não houve assassinio.
Ha victima e não houve algoz.
Houve apenas uma grande fatalidade.
Correu sangue, e não raivou odio.
Eram tudo irmãos, e morreu Abel sem haver Caim.
A logica dos acontecimentos é terrivel.
Foi ella, e só ella, que comprimiu a academia nos rostros d'este dilemma: Carcere e Sepultura.
Foi ella, e só ella, que abriu o carcere, a sepultura da vida, e lhe atirou para dentro um corpo vigoroso e uma alma innocente; que descerrou a sepultura, o carcere da eternidade e deixou cahir no fosso um corpo inanimado, viuvo d'uma alma sonhadora.
D'um lado o cemiterio; do outro a prisão.
Ambos frios, calados, tenebrosos, vastos, medonhos.
N'um o repouso dos vivos, n'outro o repouso dos mortos: em nenhum a liberdade.
E, sepultos na frialdade, no silencio e nas trevas,--dois corpos.
Sob a abobada um corpo que desejara a morte; sob a terra um corpo que tinha direito á vida.
Quem os matou a ambos?
Foi a _troça_.
A troça é homicida.
Dispensae a intervenção da policia academica.
Onde ha intelligencia, é a intelligencia que _governa_.
Pouco importa abolir de direito a _troça_; vós a abolireis de facto.
Fazei dos vossos peitos muralha para oppôr á logica terrivel dos acontecimentos.
A vossa poderosa vontade esmigalhará para sempre o fatal dilemma; não é preciso intervir a alabarda do archeiro.
Eu quizera vêr abolida a _troça_ não pela Universidade mas pela Academia.
E assim ha-de ser.
Sabereis vingar com a vossa provada grandeza o irmão que está no carcere e o irmão que está na sepultura.
A abolição da _troça_ ficará para sempre vinculada á memoria por igual pungente e sublime da catastrophe de 3 de maio.
Triste, porque foi uma dupla desgraça.
Sublime, porque se as lagrimas da academia inteira nobilitaram a memoria do morto, o perdão do pae inconsolavel, antecipando-se á decisão piedosa da justiça, nobilitou a desgraça do vivo.
Quando o coração de pae não achou culpa, Themis não achará peso na balança.
O coração de pae, ferido por tão excruciante dôr, é o verdadeiro ideal da justiça.
E a justiça do pae perdoou.
A justiça do tribunal perdoará tambem, esperemol-o.
Porque, vós o sabeis melhor que eu, a justiça é para a sociedade o que o pae é para a familia: o poder supremo.
A vara, que representa a auctoridade, é cajado e látego: o mesmo na familia que na sociedade.
E sendo esta dupla auctoridade uma personalidade moral, que póde symbolisar-se em Jano, o deus bifronte, não esperemos vêr umas faces illuminadas pela luz evangelica do perdão e outras avincadas pelas rugas sinistras da severidade.
E esta grandissima catastrophe ficará para sempre archivada na tradição de Coimbra, com justos applausos da historia, porque ella porá a descoberto a grandeza de muitas almas: da victima que morreu sem odio; do encarcerado que chora o arrependimento de culpa que não teve: do pae que perdoou; e de vós todos, que não consentireis mais que dentre vós saiam desgraçados para o carcere e cadaveres para o cemiterio.
* * * * *
OS ANNUNCIOS
O annuncio é o seculo.
Saber annunciar é saber viver. Quem melhor annuncia mais ganha. Dize-me se sabes annunciar, dir-te-hei quem tu és. Ha por ahi algumas raras pessoas a quem repugna a vaidade de se dizer no annuncio o que se não devia dizer, e mais do que se devia dizer. São os retrogrados, os que ficaram parados no caes quando o progresso partiu a explorar mundos desconhecidos, os pagãos da antiguidade que só conheciam como meio de publicidade a trombeta da fama, são finalmente os que vivem no seculo e não comprehendem o seculo. Suspiram ainda pelas epistolas do _Braz Tizana_, acendem a véla com lumes de pau, e preferem o mysterio do logogripho ao pregão do annuncio. Detestam todas as modernas manifestações do pensamento--o annuncio, a _reclame_, a abundancia de jornaes e a alluvião de lumes promptos de phosphoro. De lumes promptos de phosphoro! Sim, senhores.
Lá disse Moleschott que sem phosphoro não ha pensamento; Couerbe que a ausencia de phosphoro no encephalo, reduz o homem ao estado de bruto, e Paulo Janet que o phosphoro se tornou o grande agente da intelligencia, o estimulante universal, a propria alma. O annuncio progrediu com o jornal, como o lume-prompto progrediu com o phosphoro. Jornal e phosphoro são irmãos: o jornal é a ideia; o phosphoro é a luz.
As tribus selvagens, que não conhecem o phosphoro, desconhecem o jornal. Á descoberta da imprensa andam ligados dois nomes: Guttemberg e Fust; á descoberta do phosphoro outros dois: Brandt e Kunckel.
Estes quatro homens, irmãos pelo genio, descobriram a luz que a todos nos alumia e aquece.
Uma caixa de phosphoros é um pequeno jornal illustrado: as caixas do snr. Melchior Sola fazem circular os retratos de Bismark, de Castelar e D. Amadeu; os phosphoros inglezes, conhecidos pela designação de _flamns_, espalham os retratos de Gladstone, do marquez de Lorne e do doutor Livingstone. Os mesmos vendilhões que pregoam de manhã os jornaes populares vendem de tarde caixas de phosphoros.
O annuncio desenvolveu-se com o jornal, e o lume-prompto completou-se pelo phosphoro. O annuncio começou por ser laconico, serio, conciso. Tinha a principio uma pollegada de capacidade. Depois dilatou-se e desenvolveu-se. Hoje o annuncio póde ter um palmo de largura e é-lhe permittido alargar-se até occupar uma pagina inteira do jornal. Traz vinhetas, medalhas, tarjas, e muitas vezes--versos. O antigo lume-prompto era uma esquirola de pau com as extremidades empapadas em enxofre derretido. Para inflammal-o urgia pôl-o em contacto com um corpo já em ignição.
O annuncio teve um periodo similhante, quando precisava de que o espalhassem; hoje espalha-se elle per si mesmo. Vieram depois os lumes-promptos chamados _chimicos_ que appareceram em 1809. Para acendel-os era preciso mergulhal-os em acido sulfurico. Havia tanta demora em annunciar como em fazer luz.
Em 1832 foram substituidos os lumes oxygenados pelos lumes de fricção. Só um anno mais tarde se completou o lume prompto juntando-se-lhe o phosphoro.
Começou então o pensamento a invadir o mundo; o annuncio a espalhar as invenções modernas; o phosphoro a derramar a luz e a divulgar os retratos dos grandes homens; o jornal a contar dia a dia os passos e as proezas dos homens cujo retrato nos havia custado dez réis. Por toda a parte nos persegue o annuncio, o phosphoro e o jornal.
Em Madrid, no Prado, andam enxames de rapazes, á hora do passeio, a espalhar tudo isso: atiram os annuncios para dentro das carruagens, mettem-os no bolso do _paletot_ de quem vae andando, e em vez de gritarem como antigamente--_La candêla, señoritas_, esbofam-se a apregoar--_Cirillos, señoritas._
É a febre da publicidade.
Está a gente no theatro a assistir a um espectaculo; de repente sente um papel nas mãos: é já o annuncio d'outro espectaculo.
Vae a gente pela rua e parece cahir das nuvens sobre o chapéo o annuncio d'um perfumista, d'um luveiro ou de um domador de féras. Annuncios de todas as côres, de todos os feitios, de todas as fórmas geometricas. Deixem negar Paulo Janet que o pensamento seja um movimento. Que elle pergunte se já se viu um pensamento em spiral, um pensamento circular ou um pensamento rectilineo. A nós compete respondermos que já temos visto pensamentos circulares nas etiquetas das garrafas, e que a quarta pagina do nosso jornal nos traz todos os dias pensamentos rectos, pensamentos curvos, e pensamentos quebrados. O annuncio espalha a litteratura, a gravura e a geometria. O annuncio é uma philosophia, e a synthese do annuncio está no _Almanach da Agencia Primitiva_. Do alto d'aquelle livro vê-se o mundo todo. O snr. Braun Peixoto é o Atlante dos tempos modernos. Sustenta sobre os hombros a machina gigantesca dos homens e das coisas.
Eu acho tão indispensavel o snr. Braun Peixoto como mr. Du Barry; tão indispensavel o annuncio como a Revalescière. Ella restitue a saude do corpo, elle restitue a saude do espirito. Ou illustra ou diverte. Uma pessoa está triste, e não se póde alegrar com _champagne_, porque tem mau estomago. Procura no jornal um annuncio tolo, e consegue rir-se. Ahi vão trez _specimens_ d'annuncios, que fazem cocegas:
RUA TAL, NUMERO TANTOS
_Continua a ir pentear senhoras, assim como pentea caracoes._
* * * * *
_Vende-se um piano de manivella por pouco dinheiro. O motivo da venda é o proprietario não entender da materia._
PROGRAMMA
_1.º Symphonia._
_2.º Jogos Icarios por mr. Bergonsini e sua familia._
_3.º Variados trabalhos por outros cães intelligentes._
* * * * *
VENDE-SE
_Uma cabra e um violão, e algumas missas n'esta redacção._
Este annuncio mereceu as honras de segunda edição, e sahiu de novo com as seguintes correcções e emendas:
ATTENÇÃO
_Diz-se n'esta redacção quem vende uma cabra, algumas missas, e um violão._
Ou finalmente este:
_Quem nas immediações de Lamego perdesse um albardão pela romagem dos Remedios de 1867, etc., etc._
Annuncios ha, porém, que se impõem pela extensão, pela gravidade, pela elegancia, e até pela pureza do dizer, acrescendo a tudo isto, que já não é pouco, serem verdadeiros. Haja vista o annuncio da frasqueira dos snrs. Castro & Leão, publicado n'este jornal e em outros.
Por traz d'aquelle annuncio enxergam-se dois rapazes elegantes, que principiam a negociar em vinhos tambem elegantemente, e que para redigirem o annuncio calçaram luvas do Sertori. Escrevem para o publico como escreveriam para um amigo, por exemplo: «Não se especialisam mais vinhos como branco do Porto, Carcavellos, Chably, Mansanilha, Madeira e muitos outros para não tornar a lista mais longa, e por isso talvez fastidiosa.» Isto é delicado. Annunciantes ha que fatigam o publico, porque entendem que o publico só afflue quando se vê impertinentemente rodeado d'annuncios e _reclames_.
Tudo quanto se diz alli, é verdade. Vae a gente em bacchica peregrinação á frasqueira da rua do Rosario e encontra abundancia, riqueza, bom gosto e, digamol-o, bom tom. Plantas, crystaes, candelabros e porcelanas. O _Baron Latour_ sorri amavelmente; o _Chateau d'Yquem_ cumprimenta; o _Sparkling_ atira-nos um beijo d'espuma iriada e, ó tentação, venha a taça, Evohé! e em derredor o _Bourgogne_, o _Hochheimer_, o _Forestier_, o _Venoge_ e o _Medoc_ começam a bailar nas prateleiras e a entoar ruidosamente um dythirambo.
Quem nos levou lá? Foi o annuncio. O annuncio falla, o annuncio chama, o annuncio fascina. Rasões tinha o meu querido Julio Machado para dizer: «Annunciae, annunciae! Sempre d'ahi se tira alguma coisa!» Annunciar é armar o barco para sahir á pescaria. Convém que seja bonito o batel, e que vá alegre o pescador, cantando uma barcarola, para que o fundo do mar o oiça e de terra o vejam.
Eu conheço annunciantes tristes, que fazem annuncios tristes, com dizeres tristes, e que muitas vezes vendem objectos tristes. O resultado é que as pessoas de temperamento nervoso, e hoje é o predominante, não lêem segunda vez o annuncio, nem vão á loja, nem compram os objectos. E o annunciante, se annuncia tristemente, tristemente vive e tristemente morre. Um homem póde vender sapatos de defunto com tanto que se saiba annunciar. Se elle disser:
«Fulano tem grande sortimento de sapatos de defunto para cadaveres de todas as idades»
diz mal, e a gente não lhe quer passar pela porta com receio de que lhe cheire a cemiterio. Mas caso annuncie:
«Quem esperar que eu lhe dê o que costumo vender, toda a vida andará descalço»
diz bem, é mysterioso, tem novidade, e faz espirito com a coisa mais triste d'este mundo, perdão, com as duas coisas mais tristes, porque o annunciante não venderá um sapato só.
Quando se não poder ser elegante no annuncio, seja-se ao menos mysterioso. E fazer como aquelle cavalheiro d'industria que chegou a uma feira, armou barraca, e pregou á porta este distico:
Quem quizer vêr a ardina, Deite dez reis e corra a cortina.