Entre o caffé e o cognac

Part 4

Chapter 43,953 wordsPublic domain

Ellas tambem atravessam todos os regimens, a republica, a monarchia, a propria tyrannia, cantando, sempre cantando, sem que o imperador Guilherme recuse ouvil-as por haverem cantado na presença de Grant ou de Thiers. Constituem ellas mesmas a unica realeza perduravel, porque lá está a Sass em Madrid sendo rainha, victoriada, festejada, acclamada, e todavia a Hespanha acaba de emergir a fronte do baptismo republicano. O certo é que a nobreza lhes é instinctiva, que se habituam a reinar, a viver baloiçadas nos seus briskas, deslisando sobre tapetes, roçagando sedas, colhendo flores e joias, revendo-se em espelhos, e admirando-se tanto de receber o _bouquet_ d'um burguez como um bracelete que lhes envia um monarcha. Uma rainha parece haver alienado a delicada sensibilidade dos seus nervos quando atravessa as multidões que se precipitam sobre o coche saudando-a doidamente; a cantora domina com um sorriso a tempestade dos applausos, sem chorar de commoção, sem tremer d'alegria, sem se desvairar d'orgulho. Rasão de sobra tinha madame de Pompadour quando disse depois de ouvir cantar Sophia Arnauld:

--D'aqui havia com que fazer-se uma princeza.

Parece que é de todas ellas a legenda das pastoras que ao depois foram czarinas. Nascera da obscuridade, o destino atira-as aos braços da gloria,--é por via de regra um empresario que as ouve cantar uma tonadilha e as aggremia logo á sua _troupe_--chegam a ser muito ricas, como se houvessem encontrado thesouros encantados, e já fiam tanto da sorte, que esperam encontrar collares e braceletes por toda a parte sem se darem o incommodo de procural-os.

Ainda outro dia, na Russia, na noite em que a Nilson se despedia cantando o _Fausto_, lhe fizeram a surpreza de encher de preciosos brindes o cofre que devia abrir ao cantar a _aria das joias_, e ella, sem se admirar, sem se agitar de commoção, foi examinando-as e cantando, cantando sempre, até chegar a repetir toda a _aria_, porque uma cantora de verdadeiro talento bem sabe que a sua voz é a vara de condão que faz surgir os thesouros. No quarto acto, depois da scena da igreja, deram-lhe um annel todo liso, do qual pendia uma grossa _lagrima_, formada d'um só diamante. Felizes mulheres, para as quaes a saudade do publico se desentranha em lagrimas de... diamantes! Quando acabou o espectaculo, tiraram-n'a nos braços para a carruagem, que rodou vagarosamente, escoltada por gentis cavalleiros, á luz de fachos, cujos reflexos vivissimos permittiam vêr a diva. Ás vezes, como as pastoras da legenda, chegam a ser esposadas por titulares, como a Patti, hoje marqueza, e ainda algumas vezes chegam a enamorar os principes. Frederico II quiz a todo o custo reter na Prussia a Mara, e, quando ella tentou fugir das algemas da admiração real, expediu emissarios para lhe tomarem o passo e reconduzil-a á capital.

A poesia desde muito tempo que reconhece a realeza das italianas. Depois que no Porto se introduziu o costume de espalhar versos no theatro lyrico, em todos elles encontro eu, revolvendo as collecções, alguma coisa que denuncia vassallagem. Ha quarenta e oito annos dizia um poeta anonymo á Varesi:

Harmonia, ó Deidade encantadora, Da naturesa magico thesouro, Legisla aos corações teu sceptro d'ouro, Incenso universal teu throno escora.

Ha vinte e nove annos outro poeta anonymo cantava á Rossi Caccia:

Rainha das canções! ó nobre filha Do portentoso Lacio, onde inda ovante, Em mil padrões de fabrica pujante, A gloria dos Heroes avulta e brilha.

Cento e onze annos vão decorridos desde que o governador general João d'Almada e Mello inaugurou o theatro lyrico do Corpo da Guarda fazendo ouvir aos seus governados a primeira italiana, a Giuntini, na opera _Trascurato_. Desde então para cá quasi todas ellas têm atravessado o theatro do Porto calcando tapetes de flores, rompendo florestas de applausos, colhendo nos loureiraes da scena as corôas que para ellas pendem, e sentindo esvoaçar sobre a fronte o bando alado dos versos, muitas vezes com azas de setim, como aconteceu á Laura Geordano e á Luisa Ponti.

Depois, porque ellas são como as aves migrantes--deixam após si o rastro brilhante do seu talento, e vão levar a Italia aos gelos da Russia, aos nevoeiros da Inglaterra ou aos lagos da Suissa. Vão, algumas vezes desprotegidas, sós com a sua Italia, com a recordação dos explendidos horisontes da patria, das gondolas do seu Adriatico, da sua lingua pittoresca e harmoniosa, que não podem fallar em todo o longo caminho. Vão passando de festa em festa, de theatro em theatro, e ás vezes, depois do espectaculo, algumas d'ellas se sentirão tristes na sua pavorosa solidão, ainda ao pé das flores que lhes atiraram, e das joias que lhes offereceram. É por isso talvez que muitas casam com artistas, para terem um coração que as defenda e um braço que as proteja. Procuram talvez mais um coração que as defenda do que um braço que as proteja. A Schmoehling casou com o violoncellista Mara, cujas faces eram hediondas de variola, perdeu o appellido de seu pae para acceitar o appellido d'este homem, ella, a formosa captiva de Frederico II, só porque o Mara era musico e podia entender-lhe as tristezas sem causa, os desconfortos do triumpho...

Uma noite, ao entrar no camarim para poisar os seus _bouquets_ e as suas corôas, recebe uma d'ellas um telegramma de Napoles, porque os talentos mais doces são talvez os de Napoles. Até já um escriptor notou que em Italia parece haver um dialecto para cada classe de gente. O de Veneza convém á sensualidade das cortezãs, o de Florença á elegante nobreza dos grandes senhores, o da Sicilia ás graças simples e rusticas dos pastores de Teocrito, o de Roma á _bonhomia_ maliciosa dos burguezes, mas o dialecto de Napoles é o dos artistas, do povo-poeta, da população que nasce a cantar e que vive a cantar sem saber lêr nem escrever. O que era o pae da italiana? Por ventura um pescador ou então um _canta-storie_, um canta-historias, a quem os _lazzaroni_ faziam circulo, sempre que elle apparecia na praça.

A _diva_ tem ainda de cantar o final da opera, mas deseja mais partir para Napoles, porque o telegramma lhe diz que o pae está moribundo, do que subir ao proscenio. Não ha transigir com o dever. Vae cantar, a sua voz tem lagrimas, é admiravel, é sublime, e só o empresario sabe talvez que ella está cantando e sentindo dilacerar-se o coração fibra a fibra. E que se está lembrando de que na véspera da festa da Piedigrotta, reunidos na gruta de Pausilippe, o pae cantara para o povo a _Finestra bassa_, no seu pittoresco dialecto:

Finestra bassa e padrona crudele, Quanti sospiri m'hai falto gettare,

e de que ella mesma cantára com a sua voz infantil e vibrante aquella formosa aria napolitana _Te voglio ben'assage_, e de que os _guaglioni_ a applaudiram, os _guaglioni_ que em Paris, com o nome de _gamins_, lhe venderam algumas vezes jornaes á sahida do theatro.

Quem lhe dera a ella encontrar ainda vivo o pae, vel-o com a sua jaqueta azul e o seu collete vermelho, como na noite da Piedigrota, mas o publico chama-a, e acclama-a, e ella sente deslisar-lhe nas faces a chuva das petalas, algumas das quaes rolam humedecidas com uma lagrima! Finalmente a ovação extinguiu-se, é livre, e sae do theatro sosinha, cantando e suspirando ao mesmo tempo:

Finestra bassa e...

Quer chegar a tempo de receber a benção paterna, e vae chorando, chorando, porque se lembra de que se o pae a chamou para lhe assistir ao passamento, ella não terá por quem chamar no leito da morte...

Pois a gloria? Oh! a gloria é só para a vida, é a illusão, a embriaguez, o delirio, e a morte é a realidade, a pedra do sepulchro, o silencio do cemiterio, e o mysterio da eternidade...

A gloria deixou-a ella com as flores que ficaram no camarim, sobre as corôas de louros que dentro em pouco estarão ressequidas...

E todavia, á hora em que ella vae chorando sosinha pelo caminho, correm o mundo as italianas, e toda a gente diz--Chegaram!--Viu-as?--Eil-as! e ella vae já muito perto de Napoles, e só com vêr o céo da sua terra teve coragem para enxugar as lagrimas e soluçar:

Finestra bassa e padrona...

* * * * *

EMILIO CASTELAR

Sabeis o que é ir correndo mundo, com os olhos fitos n'uma esperança, vencendo todos os obstaculos, dormindo á sombra d'uma arvore á espera da aurora, que é o pharol dos que navegam no mar da vida, deixando-se bater dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e flores? Os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem ao peregrino que vae absorto no seu pensar, e logo desviam a vista a procurar horisonte, sem se importarem mais com a sombra que se afastou, d'olhos baixos, porque o horisonte que procura ainda está longe, porque o céo coberto de nuvens sinistras não côa ainda os fulgores iriados do sol...

A sombra que perpassou por vós, ó caminheiros da vida, levava uma ideia comsigo, um proposito, um desejo, uma esperança.

Vós ides com a vossa ideia; elle vae com a sua. Vós procuraes um horisonte; elle procura outro. Vós quereis aproveitar o dia; elle quer esperar a alvorada. Ris-vos! Pois se o sol desencadea das alturas torrentes de luz, dizeis vós, se tudo é azul e oiro no céo, elaboração e abundancia na terra, como é que o peregrino vae a procurar a aurora que se illumina apenas de palidos diluculos, e não aquece o mundo, e não fecunda a gleba, e não doira as aguas? Toda a gente vos dará rasão, porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da vida, para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da virtude, para as abelhas que volitam em inalteravel rotação em derredor da grande colmea do mundo, e não vos obrigam a suppôr o caso extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo. Ah! não riaes. É que o espirito d'elle não foi vasado nos moldes communs do vosso; é que a sua alma não se póde medir pela bitola que põe limites ao vulgar dos homens; é que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas que só a aguia com a sua vista audaz e penetrante logrará devassar. Ride pois.

Chamae-lhe devaneador, utopista, poeta, visionario... Notae porém que nobreza a sua! Vós não vos contentaes com o vosso riso banal, e chegaes ao insulto; elle vae com a sua ideia e com o seu silencio, á procura do seu sol. Vós transigis com todos os accidentes da jornada para vos dardes repouso e conforto; elle não entra ás pousadas, porque lá dentro ha rumor de vozes, e cada um dos convivas ha de ter uma opinião que póde não ser a sua. Senta-se pois á sombra de uma arvore, por entre cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulações do sol, porque a arvore póde dar sombra a todos, e porque sobranceiro á arvore fica o céo que é o abrigo universal... Alli tem as suas visões, as suas luctas, alli se retemperam as suas esperanças, e ainda o horisonte tão vasto e tão limpido, sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos sonhados na phantasia!

Não importa. Bastará uma hora de descanço physico para reanimal-o. Depois, lá irá pela estrada deserta, rompendo as trevas, expondo a fronte ao açoite dos vendavaes, á procura da sua luz. É o peregrinar continuo do sonhador que não encontra, dizeis vós, a realidade, porque o seu ideal não terá realidade. Ah! vós sabeis lêr no futuro, escrutar os segredos do amanhã, sondar o destino que é intangivel? E elle, o peregrino, tambem se podia rir de vós, porque elle bem sabe que muitas vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite.

Não se ri, não vos insulta: caminha. Mas sabei, porém, que o sonhador que vós chasqueaes é o audaz Colombo que vae á procura d'um mundo novo; o velho Noé que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se ha de salvar no diluvio sonhado; o inquebrantavel Demosthenes que erra de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a revolta eloquencia com que ha de oppôr uma enorme barreira ás hostes conquistadoras de Philippe. Todos tres pareciam devaneadores, e todavia a visão de Colombo abrange um hemispherio, e a arca de Noé depõe nas faldas do Arará a familia que ha de ser humanidade, e Demosthenes com um só decreto lucta contra os exercitos de Philippe.

Se o visseis, tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos dos fragoedos para _domar as rebeldias da palavra_, que devia de ser a primeira espada hellenica. E todavia o devaneador solitario das montanhas mereceu aos athenienses seus irmãos este epitaphio: «Ó Demosthenes, se a tua força fosse igual á tua eloquencia, jámais o Marte da Macedonia haveria submettido a Grecia!»

Demosthenes dos tempos modernos, Emilio Castelar, o sonhador da republica hespanhola, errava desde os primeiros annos na indefessa peregrinação do seu ideial. Quando mais brilhavam de clarões festivos os paços de Castella, e o throno de S. Fernando se recamava de custosos brocados, ia elle mundo alem, de capital em capital, ouvindo os homens e estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do sonhador que só vive do seu phantasiar.

Quem no caminho o encontrava, ficava-se dizendo aos companheiros: Visionario! E os companheiros repetiam: Visionario!

E elle caminhava, caminhava, medindo-se com a voz da tempestade, como Demosthenes, e expondo a ampla fronte ao turbilhão que arrastava na passagem o sceptro de Napoleão III, a corôa d'Izabel, o manto de Maximiliano, folhas soltas da arvore da realeza...

Corria o mundo, visitava Paris, estudava Roma, e a peregrinação não tinha ainda acabado, e havia tantos annos que partira! D'onde partira elle, o visionario? Da praia do seu pensamento, das regiões da liberdade, da _sancta sanctorum_ onde guardava este evangelho da sua religião politica:

«A liberdade, a igualdade, prégadas no Golgotha, selladas com o sangue de Christo, verdades religiosas no Evangelho, vieram a ser na austera Suissa, n'esses Estados Unidos que se sacrificam pelo escravo, grandes verdades sociaes. O mundo moderno, a civilisação moderna, não farão mais que estender essas verdades e applical-as á vida. São como a lei definitiva da historia. Passarão ás gerações arrastadas pela corrente dos seculos, e não darão de si ideal superior ao ideal da liberdade.»[2]

Para onde ia elle, o sonhador das Hespanhas? Ia para o futuro que devia chegar fatalmente, para a realisação do seu ideal, para as paragens sonhadas que o seu espirito procurava. Acabava de vibrar o seu grito de liberdade no Atheneu de Madrid e ia para a Republica de Hespanha. E, nem por affrontado do caminho, levava o coração cheio d'odio contra os reis. Amava os principes, quando fossem magnanimos; o que elle não queria era a corôa, o throno e o sceptro, porque a corôa averga a fronte, porque o throno eleva o homem e o homem é uno, e porque o sceptro fatiga o braço que o sustenta. Queria liberdade, e até para os principes a queria. Por isso, quando a generosa alma do filho de Victor Manoel, espavorida dos horrores da grandeza, quiz sacudir de si os arminhos da magestade, e aspirou á liberdade do seu principado, do seu lar, da sua patria, Emilio Castelar, redigindo a resposta á mensagem d'el-rei Amadeu, generosa como a renuncia do monarcha, fez votos porque a liberdade, que o principe deixára nos seus jardins de Italia, voltasse a sorrir-lhe de novo, deposta a corôa que comprime a fronte...

Quando elle viu descer do throno o ultimo rei d'Hespanha, não parou para dizer--Emfim!--mas antes o ficou abençoando, porque comprehendeu a alma do principe, que não tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram e o desampararam, e porque o julgava tão feliz como elle proprio, porque para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinação, a de um pelas regiões do poder, a do outro pelos dominios da phantasia.

E a visão convertera-se em realidade, e a Hespanha, o paiz das tradições monarchicas, patria de reis que chegariam para occupar muitos solios, a Hespanha, dizia eu, deixava vazio o unico throno que tinha, e sem dar tempo a que resfolegasse a ambição dos pretendentes á realeza, arvorava a bandeira da republica sem havêr derramado uma gota de sangue nos despojos da magestade...

E os que tinham gritado: Visionario! ficaram olhando estupefactos para o horisonte que no céo da peninsula apparecia refulgente dos clarões matinaes da ideia nova.

E o peregrino despia a esclavina do caminho e lançava ao povo hespanhol, da tribuna do poder, construida pelo povo, as primeiras palavras do crédo republicano, porque, como disse Fenelon d'um periodo analogo da historia grega, «tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra».

Se a eloquencia é chamada a representar um papel activo nos destinos d'um paiz, se ella tem necessidade de ser uma instituição do estado e um meio de governo, é de certo quando se desencadeam todas as forças vivas d'uma raça que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu poder. Então á torrente infrene da vontade popular, da seiva que rebenta em cachões do coração do povo, é preciso oppôr a torrente da eloquencia reflectida, a luz d'um grande espirito, que desempenhe a missão do sol, e aqueça a seiva, para que possa fructificar e revigorar todas as sinuosidades do organismo nacional.

A Grecia, no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras médicas, quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de Pisistrato, teve Pericles que appareceu ao mundo como a mais completa encarnação da força nova, dirigindo com a palavra, durante vinte annos, os destinos do paiz. «Pericles, fallando, diz um historiador francez, tinha a força e a serenidade do Jupiter homerico, tal como o cinzel de Phidias acabava de creal-o. O que dominava no orador era um sentimento profundo da gloria de Athenas e do papel que ella lhe havia confiado.»

A Hespanha d'este que póde ser periodo fecundo, á similhança da Grecia, tem tambem o seu Pericles, digno como elle do cognome de Olympiano, cuja palavra alternadamente poderá servir de barreira e de leme, de sol e de tufão, de correcção e de guia.

O mundo antigo costumava vencer com a espada; o mundo moderno deve convencer com a palavra. Convencer é vencer duas vezes: vencer-se a si e vencer aos outros.

Esta dupla missão pertence ao nosso seculo; seja pois a palavra que derrube, a palavra que construa, a palavra que persuada, que arraste, que conquiste. E a Hespanha, no por emquanto breve periodo da sua fórma republicana, já por mais d'uma vez tem carecido da força e da serenidade do Jupiter homerico, já comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma pungente: _Ou rei ou dictador_, já serenando as facciosas tempestades parlamentares, como na sessão do dia 14 de março, com o seu verbo incisivo, pensado e ardente.

Elle tem, como Pericles, o sentimento profundo da gloria d'Hespanha, e é sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de Moysés apontando a liberdade nascente.

Trabalhará, fallará, persuadirá. O que elle pede é a liberdade collectiva, a felicidade da sua patria, mas se o destino lhe fôr adverso, contentar-se-ha com a liberdade individual, volverá á modesta posição de escriptor, aos seus jornaes americanos, á sua velha propaganda até que resurja de novo a aurora, porque Emilio Castelar morrerá republicano, sorrindo á liberdade.

* * * * *

ANIMAES E VEGETAES

Outro dia ia eu passeando ao longo d'aquella extensa avenida do Prado do Repouso, quasi ao anoitecer, á hora em que os visitantes saem e o coveiro entra.

Fui andando, andando, com os vagos pensamentos que dá o estar entre tumulos, e mais d'uma vez me pareceu ouvir murmurar as grandes arvores que ladeiam a avenida pendidas aos sarcophagos.

E insensivelmente me occorreram os versos de Lamartine:

Tout parle. Et maintenant, homme, sais tu pourquoi Tout parle? Ecoute bien. C'est que vents, ondes, flammes, Arbres, roseaux, rochers, tout vit! Tout est plein d'ames.

E entrei de contemplar pensativamente as arvores a vêr se lhes encontrava coisa que fosse vestigio d'alma. Murmurar, murmuravam ellas; ora se a gente falla porque pensa, claro está que os vegetaes teem sensibilidade e intelligencia.

Depois fui-me lembrando de que Lamartine havia descoberto outrosim que tudo n'este mundo tinha, alem de voz e alma, modo de vida:

... l'abime est un prêtre et l'ombre est un poête

e completei os meus pensamentos pela ideia de que,--assim como os vegetaes possuiam alguma coisa de gente humana, bem podia a gente humana ter alguma coisa de vegetal.

E fortifiquei-me na philosophia de Lamartine tentando averiguar que casta de planta ou arvore seriam algumas pessoas, das que a phantasia me ia configurando alli mesmo.

Ah! bem sei, disse-me eu, tu, uma rapariguinha corada, muito aceiadinha, com dois signaes pretos nas duas faces, tu, que podes ser mestra de meninas ou _femme de comptoir_ nos bazares do Palacio, que nasceste mais para andar em cima d'um prato do que em cima dos tacões, tu, haverias nascido morango, sim, morango, d'aquelles de que se comem duas duzias, pela manhã, antes d'almoço.

E tu, ó rapariga que vendes os morangos, que nasceste na Magdalena, que tens a robustez das organisações retemperadas pelo mar e pelo acre salutar dos pinheiros, tu, que tens perna de varina, que vens á cidade por baixo d'um sol abrasador, de modo que chegas á Ribeira cheirando a saude e a sol, tu serias fatalmente, irremessivelmente,--maçã camoeza.

E tu, ó morena de faces tostadas e pennugentas, de boas cores carregadas, cheia, refeita, tu, que não nasceste á beira do mar, mas nasceste á beira da serra, tu nascerias, se teus paes fossem vegetaes, tu nascerias pêcego.

E tu, ó camponeza quarentona, com as tuas enormes argolas a cahirem nos refegos do pescoço, tu, que vens á cidade em dias de romaria com os teus pesados grilhões d'ouro e as tuas grandes soletas de verniz e setim, tu, que és talvez mãe de dez ou doze raparigas-pêcegos, tu serias uma rotunda bolina, não das que os lavradores vendem, mas das que dão de presente ao administrador ou ao juiz de direito.

E tu--ó contraste!--tu, menina esverdeada, que tens escrophulas ou soffres do figado, tu que pareces sahir d'um banho de verdete e que tens uma mamã com o mau gosto de te dar vestido verde, e brincos de esmeralda, tu, pendida do teu camarote, para melhor ouvires o Santos ou a Emilia Adelaide, tu, n'essa mesma inclinação em que te vejo, tu haverias nascido, ó desventurosa menina--como isto é triste!--tu haverias nascido--vagem.

E tu, ó borracho encartado, que tens o unico modo de vida de passar os dias nos armazens, que trazes a cara colorida dum vermelho-roxo que dá o abuso do vinho, tu, que és tão inutil para o mundo como o é a amora para o lavrador, tu apparecerias n'este mundo, se teu pae se chamasse _Silva_,--feito amora.

E tu, que nasceste fadado para seres caixeiro de teu pae, que poderias chegar a aperfeiçoar o artefacto com que elle se enriqueceu se não desses a escrever versos e a lêr poetas allemães, a pintar olheiras, a fazer-te triste, a andar com a cabeça pendida, a escrever o teu artigosinho para o jornal, tu, que andas curvado a procurar pelas ruas os pensamentos que os outros deixaram, tu, se não fosses o que és, meio litterato e meio negociante, tu serias o que devias ser--chorão.

E tu, que és alto, magro, escuro, que trazes bengalão e não bates em ninguem, que serves quando muito para fazer inflammar a gente, tu nascerias pinheiro, e darias pinhas, que são boas para atear o fogo.

E tu, ó calumniador insupportavel, que appareces entre os homens para aborrecel-os e para incommodal-os, tu, de quem todos fogem e que só serves para incommodar e aborrecer, tu, se nascesses n'um jardim, serias com toda a certeza--arruda.

E tu, ó feia de boas qualidades, mal feita de corpo e bem feita da alma, tu, que não tens graça propria e soccorres a desgraça alheia, tu nascerias marmello, fructo pouco sympathico, de que se faz a marmellada, que é realmente muito peitoral para os que soffrem.