Entre o caffé e o cognac

Part 3

Chapter 33,695 wordsPublic domain

Derivaram os primeiros annos de sua vida na eschola e na ourivesaria de seu pae, mas chegado a idade em que no espirito começam a desabrochar as tendencias, boas ou más, ao sabor das quaes havemos de fazer a peregrinação terrena, o snr. Moutinho, contados 24 annos, embarcou para o Rio de Janeiro, e foi escripturar-se no theatro do Gymnasio.

Os jornaes brasileiros de 1858 festivamente commemoram a brilhante apparição do snr. Moutinho no Gymnasio. Ha um periodo notavel do _Correio Mercantil_ que diz assim: «O primeiro passo da sua vida artistica como os dos antigos guerreiros da sua patria nas areas d'Africa a derrubarem nos campos da lucta os obstaculos que lhes impediam a victoria, foi grandioso e decisivo! Percorreu em um só dia o escabroso e longo estadio que conduz o talento ao perystilio do sanctuario das artes.» O ser actor revelou-lhe que tambem podia ser litterato,--dramatisou, folhetinisou e versejou agradavelmente, mas todos os lances solemnes da sua vida ao theatro os deveu.

Casou em primeiras nupcias com a actriz D. Ludovina Devecchy, e em segundas com a actriz D. Amelia Simões.

Parece que todo o seu fito foi escolher esposa que comprehendesse as tradições gloriosas do theatro e houvesse sacrificado no altar do bello.

Se o snr. Moutinho tivesse casado com certa dama que uma vez dissera ter ouvido _uma peça em cinco dramas_, o snr. Moutinho requereria immediatamente divorcio.

Como empresario tem o seu camarim. Podia ter simplesmente um escriptorio, mas o snr. Moutinho quer ter camarim para se enganar a si proprio. Passa as noites d'espectaculo a tomar café. É um velho habito theatral. Quer excitar os nervos para as luctas da scena, como se houvesse de representar.

Encontram-se n'elle todos os requisitos d'um empresario, e até, se attendermos unicamente ao homem, conheceremos que o snr. Moutinho está entre a gordura do empresario Palha e a gordura do empresario Price. Todavia affigura-se-nos que o snr. Moutinho poderá fazer um d'aquelles admiraveis prodigios que só se conseguem no theatro, e vem a ser--representar um papel de galan tendo proporções de empresario.

É preciso acabar, e sahirmos do Baquet.

Toda a gente sabe como se sae do Baquet: hombro com hombro, braço com braço. Tanto se aproximam os espectadores á sahida, que é talvez essa a rasão de se conhecerem todos uns aos outros. Um sujeito conhecemos nós que ao sahir uma noite do Baquet metteu a mão no bolço do _bournous_ para tirar a charuteira, e encontrou com grande surpresa uma caixa de prata. Só então reconheceu haver introdusido a mão no bolso do espectador que vinha a par. Passou angustias para se salvar com dignidade do equivoco... Ora são justamente estas peripecias, todas as circumstancias que ahi ficam amontoadas, que dão ao theatro Baquet uma individualidade caracteristica.

* * * * *

TELHUDOS HISTORICOS

A _telha_ é muito antiga.

Nos tempos heroicos vae o escalpello do historiador encontrar conspicuos _telhudos_ como Orestes, Athamas, e Alcmeon, posto se dissesse simplesmente que _viviam atormentados pelas Eumenides_. Nos tempos historicos tornam-se notaveis pela _telha_ Pythagoras, Socrates, Mahomet e Luthero. Em tempos menos remotos apparecem na historia uns celebrados _telhudos_ que se chamam Swedenborg, Pascal e Voltaire.

É uma consolação...

Encosta-se a gente com a sua _telha_ a estas cabeças-firmamentos da historia, que ora tinham relampagos de genio, ora negruras de sandice, e vae vivendo. Não se falla por ahi na historia a cada passo? Para se dizer que um sujeito é velho não se lhe chama Mathusalem? Nero para dizer que é mau? Job para dizer que é paciente? Pois muito bem. Desculpemo-nos da nossa _telha_ com a historia na mão, e vamos vivendo com o nosso mal, porque para mim é ponto de fé que, sendo _telhudos_ os maiores genios, cuja memoria assombra o mundo, não ha por ahi sujeito que não tenha a sua _telha_. Os que são mais robustamente organisados sabem que a teem e procuram modifical-a, como se combate uma enfermidade; os que nasceram peior acabados vão vivendo sem se lembrar um unico dia de que nasceram com _telha_ e com lombrigas.

A uns e outros desculpa a historia.

Pouco importa conhecer ou não conhecer a _telha_,--o caso é tel-a. Hyppocrates veio a dizer na sua que a _telha_ estava na cabeça; Lacaze e Bordeu que estava no diaphragma, e Bichat no coração. Esteja ella onde estiver; o certo é que está dentro de nós e da historia. Isto mesmo de querer dizer onde a _telha_ está, já é _telha_. O que estou vendo é que os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios dos tempos modernos.

Nos tempos heroicos, se um sujeito tinha a _telha_ de rinchar de cavallo, dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de Neptuno; se a _telha_ lhe dava para começar a cantar de passaro, era por alta vontade de Apollo. Agora a sciencia trata de enxotar a ideia do _espirito ruim_ o apregoa que se o sujeito tem _telha_ é porque nasceu tolo. Isto assim não vae bem. Em remotissimos tempos pagãos desculpava-se a _telha_ de pythonissas e sibyllas com influição divina; agora vem a sciencia e diz que a _telha_ procede de imperfeição do systema nervoso, chamando-lhe _monomania_. Ser _monomaniaco_ é não poder um homem andar e proceder por sua conta e risco. Tanto vale como matal-o. É preciso pois que façamos crusada e nos defendamos com a historia.

Os homens do passado constituem a historia que hoje lêmos, assim como nós constituiremos a historia de amanhã.

Pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa _telha_ ao abrigo de censuras, escondendo-nos agachados contra o pedestal de preclaros homens que o mundo festeja, e deixemos assim aberta uma valvula de segurança para respirar a _telha_ de nossos netos.

Comecemos.

O marquez Arouet de Voltaire...

Marmontel conta que fôra um dia, acompanhado pelo seu amigo Gaulard, visitar Voltaire. Encontrou-o na cama, recostado em travesseiras, de barrete de lã na cabeça.

--Encontram-me a morrer, disse com voz debil o philosopho. Venham receber o meu ultimo suspiro.

Mr. Gaulard commoveu-se, mas Marmontel, que já conhecia a _telha_, tregeitou a Gaulard para calmal-o.

Voltaire entrou de conversar e de animar-se progressivamente.

--Meu caro Marmontel, disse elle, folgo de vêl-o em occasião em que lhe posso apresentar um estimavel artista, mr. Ecluse! Como elle canta a canção de _Remouleur_.

E Voltaire começou a imitar Ecluse cantarolando;

Je ne sais oú la mettre Ma jeune fillette, Je ne sais oú la mettre Car on me la che...

Os hospedes riam estrepitosamente.

--Imito-o mal, bem sei, objectou Voltaire, é preciso ouvil-o a elle, ao proprio Ecluse. Oh! que voz aquella!

_Telhudo!_

La Fontaine, o meigo educador das creanças, pertence ao rol. Casou com Maria Hericard, uma formosa e intelligente mulher. Passados tempos, abalou para Paris esquecido de haver casado. Aconselharam-n'o porém alguns amigos a reconciliar-se com sua esposa. Partiu com esse intuito e, procurando madame La Fontaine em Chauteau-Thierry, disseram-lhe que estava na igreja. Recolheu-se a casa de um amigo, onde comeu e dormiu durante dois dias,--ao cabo dos quaes regressou a Paris.

--Então, reconcilias-te com tua mulher?

--Não a pude vêr: estava na igreja.

Certo militar convidou La Fontaine para banquete opiparo com o simples intento de o ouvir discretear á mesa. La Fontaine comeu, bebeu e apenas disse levantando-se:

--Tenho d'ir á Academia.

--É ainda muito cedo...

--Não importa. Irei por onde fôr mais longe.

_Telhudo!_

D'Alembert...

Elle, o grande geometra, o chefe da seita encyclopedica, chegou a ser um escravo amoroso de mademoiselle Espinasse.

Sahia todas as manhãs para lhe fazer serviços, a comprar alfinetes ou ganchos, e, quando o seu rival Mora partiu de França, ia ainda como de noite esperar o correio á estrada para levar as cartas a mademoiselle Espinasse.

_Telhudo!_

Saint-Foix, author do _Essais sur Paris_, e varias obras...

Estava uma vez no caffé _Procopio_, a lêr o _Mercurio_. Era á noite. Entrou um sujeito e pediu capilé. Saint-Foix disse da sua mesa:

--O capilé é uma triste ceia!

O sujeito olhou e ficou-se. Torna Saint-Foix:

--O capilé é uma triste ceia!

O sujeito carregou o sobr'olho. Torna Saint-Foix:

--O capilé é uma triste ceia!

--Isso é commigo, senhor?

--Pois com quem? O capilé é uma triste ceia!

Foi immediatamente reptado, bateu-se no Luxemburgo, e recebeu uma cutilada. Já em terra, banhado em sangue, apostrophou:

--Isto não prova nada. O capilé é uma triste ceia.

_Telhudo!_

Pugnani, compositor de musica e celebre violinista piamontez...

Estando uma noite tocando violino em meio de numerosa sociedade, parou subitamente e disse:

--Senhoras e senhores, rezem cinco _Padre-Nossos_ pelo pobre Pugnani.

E ajoelhando começou elle proprio a rezar o _Padre Nosso_.

_Telhudo!_

Sua exc.ª o barão de Dangu...

Tinha a _telha_ de querer ser almirante, e, como houvesse passado no mar os primeiros annos de sua vida, sabia um avultado numero de termos nauticos de que diariamente usava. O palacio em que morava tinha a configuração interior d'um immenso navio. Os criados vestiam de marinheiro e tractavam-n'o por almirante. O barão fazia _quarto_ no terraço que chamava _convez_. Pela manhã dizia-lhe um dos criados:

--O mar foi muito esta noite!

Quando elle queria sahir, outro criado berrava pelo porta-voz:

--A chalupa do almirante ao mar!

Isto queria dizer que pozessem as cavallos á carruagem.

Momentos depois, o barão subia ao _convez_, d'onde com o auxilio de cordas, descia á carruagem, que se abria pelo tecto.

_Telhudo!_

Mr. Berluguer, author de tres enormes volumes--_Les farfadets_. Ora os _farfadets_ eram demonios que elle dizia vêr pendurados das arvores do jardim, do espaldar do catre e ás cabriolas sobre a mesa do jantar. Pensava que a melhor maneira de se vêr livre dos _farfadets_ era mettel-os em garrafas ou atravessar-lhes o corpo com alfinetes. Tirante esta notabilissima _pancada_, era um homem alegre e amavel, que sabia conversar com senhoras. Basta porém lêr os _farfadets_ para conhecer que era...

_Telhudo!_

O historiador Mezerai, membro da Academia Franceza...

Escrevia á luz da candeia, ainda que fosse meio dia, e pleno estio. Quando alguem o visitava, acompanhava-o ao corredor, de candeia na mão, e algumas vezes chegava á porta da rua:

--Olhe lá, não caia, dizia elle.

_Telhudo!_

Sua magestade catholica, Filippe V, rei d'Hespanha...

Este soberano passava na cama seis mezes inteiros, sem cortar o cabello e as unhas, sem mudar de camisa. Umas vezes queria que o capellão do paço fosse á camara real dizer missa ás cinco horas da manhã, outras ao meio dia e outras ás oito horas da noite. No inverno mandava abrir de par em par as janellas; durante os ardores caniculares dormia com tres cobertores de papa. Muitas vezes, emquanto dormia, arranhava-se e, quando acordava, começava a gritar que o haviam mordido os vermes. Julgava-se então morto, mordia em si, em seus filhos e na rainha. Perguntavam-lhe o que tinha. Respondia:

--Não tenho nada!

E desatava a cantar.

_Telhudo!_

Sua ex.ª o marquez de Brunoy...

Quando morreu o marquez pae, mandou despejar em todos os tanques do palacio almudes de tinta d'escrever para que as aguas tomassem lucto; e cobriu de crepes todas as arvores do parque. Era o sachristão da igreja de Brunoy. D'uma occasião, em Conflans, pegou no cadaversinho d'uma criança debaixo do braço, e foi elle proprio sepultal-o. Ahi por 1775 projectava ir de sandalias e esclavina á Terra Santa, fazendo-se acompanhar por sessenta romeiros. A familia pôde estorvar-lhe o plano e sua ex.ª o marquez desistiu de ser peregrino para continuar a ser...

_Telhudo!_

Esta é a grande lição da historia.

Quando alguem nos atacar, leitores, facilmente nos poderemos defender apontando para o enorme epitaphio da historia, que diz:

«Aqui jaz a _telha_ de muitas gerações.»

Jaz e ha de jazer. Culpa é dos ministros portuguezes que fazem reformas na instrucção e não supprimem o estudo da historia. Mandam-nos estudar historia; estudemos. Admiremos os _telhudos_ e sejamos tambem _telhudos_ por nossa vez. Lá diz o conhecido verso:

Un sot trouve toujours um plus sot qui l'admire.

É fado. Iremos caminhando de _telha_ em _telha_. O numero dos tolos é infinito, diz o livro santo, e é assim. Acho prudente o conselho de não sei quem que disse: quem os não quizer conhecer, não saia de casa e quebre o espelho...

* * * * *

OS DOMINGOS

No _Parocho_, romance religioso de Roselly de Lorgues, ha um periodo que diz: «Newton, extasiado perante as maravilhas da creação, observou que de todos os dias do anno é o domingo aquelle em que os vapores da atmosphera nos encobrem menos o astro brilhante.»

Assim devia ser.

O domingo é o dia do repouso, da tranquillidade, do lar. «Ha sueto geral--diz ainda Roselly de Lorgue;--está suspensa a lei do trabalho.»

É portanto este o dia em que se lê, em que o povo procura o jornal, em vez do jornal ir procurar o povo, como acontece durante a semana. O jantar do artista tem ao domingo mais um prato e mais um copo. Urge pois que o homem de trabalho procure tornar-se digno da modesta opulencia da sua mesa. D'aqui procede a ancia de se nobilitar, de se illustrar; de lêr ao domingo. Viveu na fabrica toda a semana; vive ao domingo no lar.

Ora a leitura é um laço que prende á familia, um prazer sereno que requer silencio. O operario senta-se a uma restea de sol, com o seu jornal debaixo do braço, com o seu cigarro na mão. O tabaco--embora o neguem pessimistas--torna a percepção mais clara. Fuma e lê. Quer encontrar o seu jornal variado, alegre, leve e crystallino. Entende. Um cerebro inculto é como um estomago fraco. Demanda alimento ao mesmo passo substancial e de facil digestão.

Pelo jornal se identifica o artista com a sociedade. Sabe o que se passa nas altas regiões de que elle vive esquecido toda a semana.

É então que trava conhecimento com os actos do governo. Ás vezes deprehende da leitura que tem de pagar mais. Fica triste. Tem filhos, e recebe pequeno salario. Mas desce com a vista ao folhetim, e o folhetim serena-o por isso mesmo que lhe não falla de impostos.

Lê com curiosidade, ás vezes sorri, e levanta-se para ir comer o seu guisado e beber o seu copito, supplementos domingueiros do jantar, mais lembrado do folhetim que do imposto.

Senta-se á meza, e como é força que o folhetim d'um jornal popular seja candido na ideia e singelo na fórma, o artista facilmente reproduz o folhetim á mulher que não sabe lêr.

Não adquiriu sciencia, nem elle estava intellectualmente preparado para recebel-a; o que adquiriu, e já não é pouco, foi amor á leitura,--á leitura, este elemento de moralidade, quando prudentemente adoptado, porque preservera da orgia e affasta da ruina.

Estas foram as rasões que me levaram a escolher o domingo para o folhetim semanal,--conversação facil, que eu procurarei guiar sempre por caminho desatravancado d'espinhaes, sejam quaes forem os cataclismos da sociedade, e por mais brutalmente que escouceiem os onagros nas selvas visinhas.

É justo dar ao povo o que nasceu do povo,--o folhetim.

Preciso porém dizer-lhes que eu faço distincção entre o antigo folhetim e o moderno folhetim. Um é aristocrata; o outro democrata. O primeiro saiu dos palacios d'Athenas; o segundo dos theatros, dos botiquins de Paris.

O primeiro rojou-se aos pés de Aspasia e Lais quando os gregos as mandavam entrar ao _dessert_ na sala do banquete, justamente ao contrario dos inglezes, que é ao _dessert_ que expulsam as mulheres. O segundo saiu da caixa de rapé do abbade Geoffroy, uma noite, na Opera, quando elle a abria para offerecer uma pitada a mr. Bertin, que o tinha acompanhado. O primeiro recebeu ao nascer o baptismo dos vinhos de Corintho, de Samos, e de Chios. O segundo mergulhou na onda nacarada do Bordeus ou do Champagne.

No seu _Grande diccionario de cosinha_, recentemente publicado, escreveu Dumas pae: «Foi n'estes elegantes jantares (de Athenas) que se formou a conversação grega, conversação ao depois copiada por todos os povos, e da qual a nossa era, asseguro-o, antes da introducção do cigarro, uma das mais vividas e mais rapidas copias. D'aqui a expressão _sal attico_.»

Assim foi que nasceu o folhetim aristocrata, passando de bocca em bocca, borboleteando entre os convidados, que eram ordinariamente sete, em honra de Pallas, rematado provavelmente com um beijo de Phryné ou com um sorriso d'Aspasia. Depois passou da Grecia para Roma. Os banquetes d'Augusto, conversados por Virgilio, Horacio e Pollion, deviam de ser folhetins delicadamente cinzelados como os cyathos imperiaes. Todavia o grande espirito de Augusto amava a publicidade, e permittia que circulassem em Roma as anecdotas dos seus opiparos folhetins. Conta-se, por exemplo, que certo dia, em que jantava com Virgilio e Horacio, se desculpara d'umas sombras de tristeza dizendo que estava entre os _suspiros_ e as _lagrimas_, porque um d'estes escriptores soffria dos pulmões e o outro tinha uma fistula lacrimal.

No tempo d'Augusto já o povo romano conhecia a publicidade. Julio Cesar foi o verdadeiro creador do jornal. Nos primeiros tempos de Roma os pontifices escreviam dia a dia os acontecimentos do céo e da terra. Julio Cesar arrancou o privilegio aos pontifices fazendo redigir e publicar os actos quotidianos do senado e do povo. O que, segundo uma bonita phrase de Julio Janin, foi passar duas vezes o Rubicon, desvelando d'uma vez para sempre os tenebrosos mysterios do senado romano.

Tão inveterado estava porém entre os patricios o habito do folhetim á mesa, tanto o banquete era mais uma recreação para o espirito que um prazer para o estomago, que Heliogabalo reunia á mesa anões, zarolhos e corcundas para os vêr da galeria e os ouvir conversar durante o jantar. Era um folhetim burlesco, como ás vezes por ahi apparecem alguns, o que Heliogabalo queria.

Fallemos agora do folhetim democrata, nado e creado em Pariz, teudo e manteudo pelo abbade Geoffroy. Nominalmente o folhetim data de 1789, do nascimento do jornal politico em França. Chamava-se assim o espaço em que o jornalista escrevia, na parte inferior da pagina, a resenha dos trabalhos que a Assemblêa deixára indicados para o dia seguinte. Mas o folhetim só começou a existir de facto no fim do seculo XVIII. Um homem de letras havia a esse tempo, ao mesmo passo escriptor e clerigo, o abbade Geoffroy, que, entediado das noitadas do _caffé Procope_, voluntariamente se desterrou de Pariz. Um certo dia, porém, mr. Bertin, que comprara aos irmãos Baudonim a propriedade do _Journal des Debats_, lembrou-se de ir procurar o espirituoso abbade ao seu remoto escondrijo. Foi e arrastou-o.

--Que quer de mim, Bertin? perguntou-lhe o abbade.

--Que venha jantar commigo a Pariz, que vá á noite commigo á Opera, e que ámanhã me escreva um artigo para o primeiro numero do _Journal des Debats_.

O abbade lembrou-se dos seus tempos, e foi.

As palmas, os bravos, as acclamações espiritaram-n'o. Ao outro dia fez a critica da opera na parte interior de duas columnas, e a terceira encheu-a Bertin com anunncios de theatro.

O artigo, occupando o logar do _folhetim_, chamou-se _folhetim_. O povo leu e gostou. Correu a comprar o jornal, chegou a disputal-o, o successo foi ruidoso, e Geoffroy não só fez a sua celebridade senão que tambem tornou celebre o _Journal des Debats_.

Geoffroy d'alli em deante applaudia, acclamava, pateava e assobiava no folhetim. O povo seguia-o, acompanhava-o, o povo pensava com Geoffroy e Geoffroy pensava pelo povo. Foi o povo que lhe deu nome, a elle e ao folhetim, e era para o povo que Geoffroy escrevia. Não havia trova popular, caricatura, retrato e lanterna magica--até lanterna magica!--que não reproduzisse o abbade folhetinista. Quando elle morreu, annunciou-se nos collegios a sua morte depois do _Benedicite_. Geoffroy festejado! Geoffroy applaudido! Geoffroy... cantado!

O successor de Geoffroy no folhetim foi Charles Nodier. Não o excedeu mas não o deshonrou.

Depois de Nodier vieram Etienne Bêquet, Duvicquet, e outros, sempre acclamados e sempre attendidos pelo povo, até que chegámos á revolução litteraria de 1830. Então appareceram Sainte-Beuve, Dumas, Janin e Gautier. O dia que o movimento litterario do romantismo designou ao folhetim foi a segunda feira. D'ahi o chamar-se ao folhetim _causerie du lundi_, e aos folhetinistas _les rois du lundi_. _Os reis da segunda-feira!_ Reis, porque? Porque empunhavam elles o sceptro da opinião? Porque eram os soberanos absolutos da critica?

Nada d'isto. Porque cada folhetinista da segunda-feira tinha sua côrte d'admiradores, seus salamaleques, e seus subditos. Alexandre Dumas chama a Sainte-Beuve um poeta; a Janin um phantasista, e a Gautier um esmaltador. «Sainte-Beuve,--continua a escrever Dumas pae,--não se quer indispor com ninguem.» «Janin é um escravo do seu estylo.» «Gautier o Benvenuto Cellini do periodo».

Era-lhes o folhetim _vitrine_ onde estadeavam as pompas da sua linguagem finamente rendilhada. Os aulicos da sua côrte eram as mulheres da Opera, os academicos e os _virtuoses_. Janin pertence actualmente ao numero dos quarenta da academia franceza. Como havia o povo de entender um escriptor que traduzia Horacio e dispunha de recursos para chegar a ser academico?

O folhetim, aristocratisado, era para os erudictos, para as salas, e para os gabinetes. Vestia casaca, lenço branco, e trazia flôr na _boutonnière_. O povo, que comprehendia Geoffroy, não entendia Janin.

Mas como o jornal depende essencialmente do povo, começou o jornalismo a folhetinisar o noticiario, a fazer espirito, a contar anecdotas, de sorte que o povo comprava o jornal, não por causa do folhetim, como no tempo de Geoffroy, mas por causa do noticiario.

Isto foi, e isto é ainda em França.

Ora eu que não posso ser academico, que não cinzelo a phrase, que não disponho de recursos para ser Janin e Gautier, escreverei n'um jornal do povo unicamente para o povo. O folhetim veiu do povo; é preciso portanto que elle vá para o povo, quando o povo o póde receber,--ao domingo. Que vá, que lhe falle de assumptos que elle conhece, que não seja nubloso na phrase, impuro na ideia, que não tenha subtilezas, mas que se faça lêr, que se faça applaudir se poder, e que uma vez por outra nobilite a caixa de rapé do abbade Geoffroy.

* * * * *

AS ITALIANAS

A esta hora fogem as que estiveram entre nós. Deixem-me porém fazer uma observação.

As italianas de que vou fallar não são as mulheres de Italia,--são as mulheres da Opera. Não nasceram para viver,--nasceram para cantar. Por isso andam cantando de paiz em paiz, e chegam no inverno, quando a natureza emudece, partindo na primavera, quando as andorinhas regressam... São ricas, opulentas, e todavia o mais que guardam na sua mala são os seus anneis de cabello, as suas fitas e as suas rendas, coisas tão leves que o vento póde agital-as. O thesouro d'ellas está na garganta; lá é que guardam as _notas_, que trocam em qualquer paiz, sem desconto, antes com o premio das palmas e dos applausos. Cantando atravessam o mundo, as tempestades sociaes, os cataclismos da humanidade. Cabe-lhes perfeitamente a anecdota que se conta do guitarrista Phillis, pae da celebre cantora do mesmo nome. Uma vez, durante o Terror, um magistrado chamou-o e perguntou-lhe:

--Como se chama?

--Phillis.

--Que faz?

--Toco guitarra.

--Que fazia no tempo do tyranno?

--Tocava guitarra.

--Que vae fazer pela republica?

--Tocar guitarra.