Part 2
Calcule-se do consumo dos liquidos n'aquelle estabelecimento tão prosperamente aberto, depois de saber-se que os mais appetecidos e procurados comestiveis eram ostras, mollusco sobremodo irritante para o systema nervoso, e talvez causa primaria da depreciação da geração actual.
Mas voltemos á abertura do novo _Caffé_ solemnisada na rua dos Inglezes com vistosa illuminação que sobrelevava as demais.
Apollo presidiu em espirito á bacchica tunantada.
Os vates empunharam as lyras e, por muito costumados á dedilhação, até das bambas cordas tiraram muito correctos sonetos, mais lisongeiros ao duque de Bragança que agradecidos ao proprietario do botiquim, não obstante sentirem enervado o braço pela acção cada vez mais intensa dos liquidos.
Parece que deposta a oitava-rima, por inopia de pojantes Camões, a fórma de metro mais patriotica n'aquelles tempos era o soneto, que, por muito familiar que fosse a festa, havia forçosamente de ser allusivo aos acontecimentos politicos da epocha.
Um dos cysnes levantou o pescoço e modulou este soneto, que logo foi distribuido pelos circumstantes:
Se brama pelos Ceos da Liberdade O espantoso trovão da Tyrannia; Se cobrem trévas a Lusa Monarquia, Fulge o clarão da antiga Heroicidade.
Quanto cresce a despotica maldade, Assim dos povos o valor porfia, Com o _Chefe de Bragança_ por seu guia Enchem d'assombro a vindoura idade.
Dias felizes, dias venturosos, Augura-nos o Ceo, em dons fecundo! _Maria_ e _Pedro_ nos farão ditosos.
Daremos nobre exemplo á Europa, ao Mundo: Que os Povos de ser livres sequiosos, Calcam do despotismo o rosto immundo.
O segundo soneto afina pelo mesmo tom emphatico;
Thronos ha tido o Mundo, que producto Foram tão só de Leis, e sangue herdado, Quaes desde longo tempo celebrado Os gosa Portugal indissoluto.
Outros não foram mais que excelso fructo Da Justiça, e do Merito elevado; Qual Viriato, e qual Sertorio honrado, Reis ou Chefes por solido atributo.
Taes houve, e ainda os ha, a quem Cobiça, Ou Acazo erigio, contra seu Dono Fervendo a Execração que a Raiva atiça!
A Segunda MARIA em seu abono, Em mais bases que as Leis e que a Justiça Tem sobre corações firmado o Throno.
O terceiro soneto troa assim:
Se em nossa idade, ó Jupiter, quizeste Com terrivel aspecto olhar a terra, Se os males todos da sanguinea Guerra Surgir do negro Barathro fizeste:
A PEDRO tu doaste um dom celeste, Que ao fero Usurpador confunde e aterra: Monstro dos monstros, que no peito encerra Tartareas serpes que vomitam peste!
PEDRO, d'altas virtudes coroado, Olha nos Luzos inconcusso abono De elevar sua Filha ao Solio herdado.
Nunca Lisia hade ter intruzo Dono; Seu Rei é como os Numes adorado, E tem nos corações firmado o throno.
Falta o quarto soneto;
Nos faustos Ceos de Lisia triunfante, A Liberdade o grito levantando, Ferros ao Despotismo vai lançando De têmpera mais dura que o diamante.
Do Throno o esplendor salva constante D'um principe brioso ao nobre mando: O Solio, quasi em terra, sustentando, Esmaga a Hydra de aspecto vacilante.
Oh Principe ditoso, exulta, e vive, Para que esta Nação por Jove eleita Dos teus Decretos os seus bens derive.
Da Patria, como Pai a olhar-te affeita, De Lisia, que na gloria hoje revive. Do salvo Povo, os corações acceita.
Não obstante o fallar-se de _corações_ nas composições precedentes, parece que a viscera mais attendida na bambochata era o estomago, e a illuminação por igual abundante dentro e fóra.
O dono da casa não tinha sobejos motivos para ficar lisonjeado da amabilidade dos convivas que não fallaram d'elle nem do botiquim.
O certo é que n'aquella epocha em que não havia editores, os vates lucraram duplamente com o brodio, porque ao depois se imprimiram os sonetos na typographia Gandra, sendo cada soneto precedido d'estes dizeres;
PUBLICADO E DISTRIBUIDO A 12 DE OUTUBRO DE 1833: POR OCCASIÃO DA ILLUMINAÇÃO, QUE NA RUA NOVA DOS INGLESES DA CIDADE DO PORTO SE PATENTEOU N'ESSE DIA DE ABERTURA DA CASA DE CAFFÉ DO COMMERCIO
Custava o folheto, de quatro paginas, um vintem.
Se bem que os versos em 1833 estivessem mais baratos do que as ostras, os poetas, attento o pequeno dispendio da impressão, deviam enfardelar no mesmo sacco, a despeito do anexim, honra e proveito.
Ora este _Caffé do Commercio_, que recebeu ao nascer o baptismo da politica, veio depois a mudar-se para a Praça da Batalha com o nome de _Aguia d'Ouro_, sem todavia desmentir, apesar da mudança, as tradições que lhe embalaram o berço.
Venus do botiquim, sahiu da onda da revolução e mantem-se revolucionario, posto que decorado ao gosto moderno, com espelhos, mesas de marmore, e apainelado o tecto com manchas multiformes de humidade e immundicie.
Não obstante o desgracioso do tecto, alli se travam ainda os grandes acontecimentos portuenses, as pateadas, os _meetings_, as eleições, e alli se discutem as magnas questões do estado.
Verdade é que ha outro botiquim onde se conversa de politica,--o _Suisso_.
Todavia este caffé usa entreter-se na tranquilla politica municipal, ao passo que os mais animados debates da _Aguia_ versam sobre politica governamental.
Da _Aguia_ tem sahido acontecimentos para a historia; do _Suisso_, que nos conste, apenas uma ou outra occasião sae uma embriaguez para a pharmacia.
Sem embargo muitas discussões da _Aguia_ acabam por diluir-se em amoniaco.
Já disse pois o que foi a _Aguia d'Ouro_ e o que é.
Quanto a mim, a _Aguia d'Ouro_ é... o que foi.
* * * * *
PHYSIOLOGIA DO THEATRO DE S. JOÃO
(NO DOMINGO GORDO DE 1873)
Elle é grande e triste. Não obstante hade esta noite encher-se de sociedade sedenta de recrear-se. As senhoras estão nos camarotes como livros de marroquim em estantes de mogno. Lêem-se as etiquetas e passa-se adeante.
Os bailes de mascaras permittem em toda a parte que se atire uma flôr, um rebuçado, uns versos. Alli não. O mais que se atira é um... olhar. O mais que se faz é um cumprimento. Bonitos livros mas em sanskrito. Tudo luxuoso e frio.
É que elle, o theatro de S. João, é grande e triste.
No Palacio de Crystal um baile de mascaras é uma batalha; os galopes são cargas de bayoneta. No theatro de S. João valsa-se para passeiar á roda com outra mascara. No palacio bebe-se Xerez ou Porto; em S. João parece que todas as pessoas estão costumadas a tomar vinho em... pilulas. Gostam de comer delicadamente um cacho d'uvas, e sentem-se horrorisadas deante d'uma garrafa. Para ir a S. João basta haver ceiado; para ir ao Palacio é preciso ter comido uma ceia. S. João é uma sala; o Palacio é uma avenida. Em S. João é uma visita; no Palacio é uma escaramuça; a S. João vae o mascara; ao Palacio vão as mascaras.
Depois que dá meia noite parece estremecer a grande nave do Palacio na vertigem do galope. É um assalto á quaresma que está perto, uma lucta, um combate; é preciso vencel-a e dançar ainda em quarta feira de cinza. É uma invasão das hostes do carnaval pelos reinos das endoenças. Ah! tu estás ahi, ó roxa penitencia, a dois passos de distancia, palida dos teus jejuns, angustiada pelos teus cilicios, arrependida dos teus erros! Pois bem. Nós somos o vendaval da alegria, que saccode as tranças loiras da Magdalena peccadora. Tu queres impor-nos o arrependimento, e nós queremos vencer-te para que nos deixes valsar algumas horas mais.
E rompem de esfusiada pelo salão fóra os pares, parecendo correr todos a aggredir um ponto invisivel, um inimigo mysterioso.
No theatro de S. João o baile de mascaras não é uma refrega mas um acampamento. Parece descançar-se em vez de combater-se. As armas estão ensarilhadas, porque é a noite em que mais se dispensa o binoculo. Espera-se que sejam duas horas da manhã para retirar. Quando começa o _sopro do Euro_, o _vil quebranto_ a agitar as arvores da Batalha, principiam a rodar as carruagens. É que tambem as palidas bellezas parecem sopitadas pelo _vil quebranto_. Esta phrase é d'um grande poeta contemporaneo, o snr. Raymundo Felgueiras, no final d'uma formosa quadra que eu li algures:
Cahiste, como a rosa desfolhada, Que não via murcho o purpurino encanto, Não aos beijos da brisa perfumada, Mas ao sopro do Euro, ao vil quebranto.
Ás duas horas _murcha o purpurino encanto_. Os candelabros bruxoleam. Os porteiros--aquelles homens mysteriosos que ninguem ainda pôde vêr de dia na rua--dormem pelos corredores dentro dos seus amplos casacões.
Sae-se pois ás duas horas, fugindo ao tempo, emquanto nos outros theatros se corre ainda atraz do tempo para detel-o.
O Camões do tecto tem já fechado o unico olho que lhe resta. João Baptista Gomes resona. Almeida Garrett está aborrecido por não vêr damas a quem esteja galanteando. Gil Vicente, o falso Gil Vicente do theatro de S. João, pensa em escrever um novo romance satyrico modelado pelo seu _Gargantua et Pantagruel_. Que mistiforio é este! Gil Vicente a escrever romances satyricos... em francez! Perdão, é que o Gil Vicente do theatro de S. João não é Gil Vicente mas Rabelais.
Eu lhes conto.
Quando se tractou de pintar o tecto do theatro, os administradores da casa a esse tempo perguntaram ao meu erudicto amigo o snr. José Gomes Monteiro se conhecia os retratos de João Baptista Gomes e Gil Vicente. Sua ex.ª indicou o paradeiro do retrato de João Baptista, e pelo que tocava ao de Gil Vicente certificou os administradores do theatro de que não havia deixado retrato. Esta circumstancia pareceu contrarial-os vivamente.
--Mas, volveu o consultissimo bibliophilo, podem facilmente fazel-o substituir por outro escriptor.
--Isso prejudica um pouco o nosso plano.
--Sim; nós optamos pelo Gil Vicente, acrescentou outro administrador, e... queremos o Gil Vicente.
--Mas se não deixou retrato!
--Emfim, se a gente advinhasse como era Gil Vicente!
--Ah! isso póde muito bem ser.
--Pode ser?
--Muito bem...
--Como?
--Fazendo substituir Gil Vicente por outro escriptor da epocha.
--Óptima lembrança!...
--Qual ha de ser?
--Vejamos...
--Vamos a vêr se lembra.
--Lembro-me d'um! apostrophou o snr. José Gomes Monteiro.
--Qual?
--Um escriptor da mesma epocha e cuja individualidade litteraria não deixa de ter seus pontos de contacto com Gil Vicente...
--Chama-se?
--Rabelais.
--Muito bem!
Procurou-se o retrato de Rabelais, e pintou-se Gil Vicente, aquelle Gil Vicente que o leitor póde vêr esta noite n'um dos quatro medalhões do tecto do theatro de S. João, e que a mim mesmo, que sei esta anecdota, me fez algumas vezes desconfiar de que não seja Rabelais, porque o meu binoculo me permitte vêr em grandes caracteres o nome de Gil Vicente sotoposto ao medalhão...
O caso é que Rabelais, á hora que os camarotes se despovoam, parece preparar na mente, a julgar pela contracção sarcastica das faces, um novo romance satyrico em que moteje da composta austeridade da sociedade portuense n'um theatro onde, ha cincoenta annos, se queimou fogo artificial no palco, executado por João Semelhes, e um palhaço divertiu os espectadores com a graciosa _Macaquinha_, e se dançou o _Fandango_, e se fez a exhibição da _Corda Bamba_.
Para os leitores que duvidarem da fidelidade d'estas asserções vou copiar alguns periodos de dois annuncios d'espectaculo n'aquelle theatro, no tempo em que alli trabalhou uma companhia de funambulos, o que devia d'acontecer ahi por 1824. Os avisos trazem apenas indicado o dia; não me foi possivel precisar a epocha.
No primeiro _aviso_, correspondente a 24 de julho, lêem-se estes periodos:
«O _Palhaço_ divertirá os Senhores Espectadores com novas, e diversas habilidades, entre as quaes executará a Scena do Bebado, dando fim a esta primeira parte a graciosa _Macaquinha_.»
Mais abaixo:
«Madama _Joannita_, e o _Diabrete_ dançarão os Boleros, dando fim o divertimento com duas peças de Fogo Artificial de composição Italiana, executadas por _João Semelhes_, cujas constão de hum brilhante sol com variedades de côres, entre as quaes apparecerá o raro fogo azul, e outra que figura uma Rosa Italiana transparente, donde apparecerá por tres vezes um distico aluzivo a _Sua Magestade_ fidelissima (D. João VI) formando-se no fim em uma brilhantissima Gloria, rodeada de lindissimas estrellas.»
Do segundo _aviso_, correspondente a 3 de fevereiro, basta citar estas linhas:
«... dançará depois _Madama Joannina_ o _Sólo Inglez_, a que hão-de seguir-se os vistosos _equilibrios_ do _Menino_, depois dos quaes se dançará o _Fandango_, terminando-se todo o devertimento com a _Corda Bamba_, onde o insigne _Diabrete_ fará admiraveis difficuldades.»
A sociedade d'aquelle tempo riu e applaudiu com sincero enthusiasmo todas as facecias e evoluções da companhia de funambulos.
Agora, por maior que seja a festa e o artista, parece que ninguem traz gratas sensações do theatro de S. João mórmente d'um baile de mascaras. Faz-se um silencio sepulchral nos intervallos. Ás vezes apenas se escuta um levissimo rumor: é uma fita que se agitou ou uma petala que se despegou d'um toucado. Em epochas mais turbulentas atiram-se estalos á plateia. Os artistas italianos, quando lá fóra lhes perguntam pelo clima de Portugal, já vão respondendo:
--É bom; o peior que tem é o estalo.
O estalo no Porto é como a _febre amarella_ na America e a _carneirada_ na Africa.
Tirante o accidente do estalo, o clima do theatro de S. João não prejudica ninguem. Sae a gente como entrou: quente se entrou quente, fria se entrou fria. Antigamente, quando se ceiava nos camarotes da quarta ordem, podia a gente sahir de lá com uma indigestão, ou, quando se exhibia a graciosa _Macaquinha_, rebentar um suspensorio, ou finalmente chamuscar o casaco quando o Semelhes queimava fogo artificial no palco.
Qualquer d'estas contrariedades podia ser perigosa, mas sendo a vida uma serie de perigos, viver era aquillo.
Agora, ó Catalani, ó Milanez, ó madama Joannita, ó phosphorecente Semelhes, eu lembro-me tristemente de vós, e desejo-vos; principalmente se ha estalo, invejo-te, Semelhes!
* * * * *
PHYSIOLOGIA DO THEATRO BAQUET
Ha theatros que procuram a gente, em vez de ser a gente que os procura a elles.
Para ir ao Palacio de Crystal, por exemplo, é preciso ir lá procural-o ás ribas outr'ora solitarias que se aprumam sobre o Douro. Quando vamos ao theatro de S. João, sahimos de casa no proposito de ir ao espectaculo, como quando vamos almoçar á Foz ou jantar á Ponte da Pedra. É uma caminhada que se faz simplesmente por distracção. Todavia com o theatro Baquet não acontece o mesmo;--é o theatro que nos procura, é elle que nos dá na vista, que nos chama, que nos tenta.
Sahimos de casa para comprar um par de luvas, um chapéo, um casaco, umas botas, uma _badine_, um relogio, um frasco com conserva, uma caixa de charutos, um oboé, para tomar um banho, para mandar tingir um collete, para reconhecer um attestado, e até para comprar tortas, por divertimento, porque eu já conheci um comilão de _tortas_ ás direitas, que as trazia no bolso, e que de instante a instante se mettia n'um portal, como quem accende um charuto, para comer uma torta. No theatro guardava uma provisão de tortas na copa do chapéo, e ia-as comendo de intervallo a intervallo, fazendo no botiquim unicamente a despeza de um copo de agua. Mas voltando ao Baquet,--sahimos de casa para comprar qualquer coisa, e damos comnosco na rua de Santo Antonio. Fazemos a transacção, paramos á porta do theatro a lêr o cartaz, e vemos a passeiar no atrio o snr. Antonio Moutinho de Sousa, floreando a sua _badine_ na posse da mais tranquilla felicidade, de modo a dar á gente tentações de ser empregado no theatro para vêr se tambem engorda.
Entra-se ao portal. Depois de entrar, é vergonhoso retroceder. N'este momento chega um actor cantarolando, e emquanto o bilheteiro faz o troco entra uma paviola com um sophá de velludilho encarnado e quatro cadeiras d'espaldares doirados. Por Deus! como aquelle actor ha-de cantar bem á noite, se até pela rua se anda ensaiando! como as cadeiras hão-de relampejar reflexos deslumbrantes á luz da rampa! Sae a gente e passa pelos cartazes com o reservado orgulho de quem sabe mais do que lhe dizem. O cartaz annuncia simplesmente o espectaculo, mas o comprador do bilhete sabe o que não diz o cartaz,--que entram no drama cadeiras com espaldares doirados.
Á noite enxameia á porta do theatro o bando dos agiotas.
--Quer geral?
--Quer cadeira?
E a gente rompe por entre elles com a sobranceira indifferença de quem tem desde pela manhã, no bolso do collete, o divertimento que elles nos offerecem, esbofando-se.
No theatro Baquet ha sussurro nos corredores.
No theatro lyrico entram as senhoras, cobertas d'arminhos, friamente silenciosas, e assomam aos camarotes com a estudada compostura de quem vae ser retratado.
Muda o caso no Baquet; as senhoras charlam pelos corredores, e os homens descem rapidamente as escadas, cumprimentando e saltando.
Bem! É um theatro popular, onde os espectadores fallam alternadamente com os actores, e onde a gente póde espirrar á vontade sem que lhe digam do lado--_sciu_!
Os frequentadores habituaes do theatro Baquet--os das platéas, entenda-se--dividem-se, a meu vêr, em trez classes distinctas: espectadores fluctuantes, espectadores fixos, e espectadores moderados.
Os espectadores fluctuantes são os que occupam as primeiras filas da superior, e os logares das coxias na geral. Alguns,--especialmente os da superior,--trazem camelia ao peito e luva côr de canario. Mal desce o panno, saiem para o botiquim, para os camarins, e para os corredores. Que teem elles que fazer em todos os intervallos? Que vão dizer? Nada. Saiem porque são fluctuantes. Entram á plateia quando começa a symphonia. Encostam-se á varanda da orchestra, com requebrada negligencia, olhando uns para os camarotes atravez do binoculo e outros cantarolando se estão em scena os _Apostolos do Mal_:
As moças da nossa aldeia D'aldeia de S. Luiz, Fallam sempre de maridos E n'um enlace feliz;
ou se se representam as _Mulheres de marmore_:
Amas tu. Marco gentil, Os salões cheios de flores, Com uma alegria infantil As danças, risos, amores?
Espectadores fixos são uns sujeitos pesados, que não se mexem na cadeira, e que conversam nos intervallos com os visinhos da direita e com os visinhos da esquerda, incommodando-se com os espectadores fluctuantes que os obrigam a levantarem-se ao sahir e ao entrar.
Espectadores moderados são, a meu vêr, os que saiem em dois intervallos, quando a peça tem cinco actos, e os que só incommodam o porteiro no fim do drama se depois do drama vae comedia. São methodicos. Da ultima vez que saiem não é por variedade mas unicamente por methodo. Vão buscar o guarda-chuva ou a bengala para evitarem os apertos da confusão no fim do espectaculo.
Passemos ás galerias. A galeria é um mundo dentro d'um theatro. De hemispherio a hemispherio medeia o oceano-platéa. As ondulações, as correntes, e as tempestades estão na platéa, mas nas galerias ha a variedade do atlas:--alli é que estão as castas, os systemas, as luctas, a verdadeira liberdade do homem e a verdadeira emancipação da mulher.
Pouca gente leva uma creança para um camarote, mas o povo leva os seus filhos para a galeria. É que reside alli a soberania popular. Os mil episodios, que por via de regra accidentam a vida das nações, reproduzem-se nas galerias.
Ha em todos os espectaculos do Baquet--digam se não é verdade--uma creança que chora: um visinho da esquerda que se oppõe á expansão vocal da creança, e um visinho da direita que proclama alto e bom som a liberdade da larynge.
Estas luctas são eterno apanagio do povo.
Ha sempre um velho, ou bonacheirão, rosado, inxundioso, que diz graçolas, e é o divertimento dos visinhos durante os intervallos, ou um velho zarolho, de cabello em ss e chapéo quinhentista, silencioso, que se não levanta toda a noite, e que faz a critica do drama e da platéa pela unica janella que a Providencia lhe deixou aberta para vêr a humanidade.
O velho gordo, se vê que uma _lorette_ põe a cabeça fóra da galeria, para ser vista, acode logo a dizer:
--Estenda a cabeça, estenda, que lhe caiem os pingos das vélas!
O velho sêco olha com o seu luzio para a _toilette_, e volta logo a cara para o outro lado, porque de si para si fez austeramente a seguinte reflexão:
--Bem te entendo!
Ha sempre nas galerias um _cicerone_. É ordinariamente um cocheiro, de jaqueta e chapéo redondo; explica todas as situações da peça ainda que seja nova.
--Ella agora vae pegar n'aquella flôr!
Ás vezes, mórmente se o drama é novo, o cocheiro engana-se, e a actriz em vez de pegar na flôr bebe um copo d'agua.
O _cicerone_ não se acobarda. Continua a explicar;--explica tudo.
Isto facilmente se comprehende. O cocheiro precisa de presumir-se sabio. Pergunta-se-lhe:
--Sabes onde mora F.?
--Sei, meu amo.
Não sabe. Vai andando á espera que lhe batam na janella da carruagem.
--Pára; é aqui.
--É aqui; eu bem sabia.
O cocheiro precisa realmente de dizer que sabe.
Vamos agora ao botiquim. O botiquim do _Baquet_ offerece curioso estudo. É preciso ser-se philosopho para se exercer o logar de botiquineiro alli. De contrario, ao cabo do primeiro intervallo, o botiquineiro estaria doido com toda a certeza. O snr. Magalhães, botiquineiro, é pois um philosopho.
--Uma sangria!
--Gelatina!
--Uma limonada!
--Uma orchata.
--Um grog!
N'uma palavra, é nem mais nem menos que todos os espectadores fluctuantes a dizerem ao snr. Magalhães:
--Retalhe n'um momento o seu botiquim e dê a cada um de nós um fragmento.
Qualquer homem menos philosopho responderia:
--Ó senhores! não os posso servir a todos ao mesmo tempo! Sem este senhor beber a limonada, não dou ao senhor o grog.
Isto era o mesmo que perder a freguezia.
O snr. Magalhães descubriu um optimo systema para viver com todos. Como seja grande a concorrencia, alguns espectadores, em rasão da sua mesma natureza fluctuante, já estão no corredor no momento em que deviam pagar. O snr. Magalhães bem percebe que é logrado, mas não se afflige. Tem a paciencia de esperar para o dia seguinte. D'esta maneira tudo vae bem.
Conta-se de Mazarino dizer: «Cantam! Deixal-os cantar; elles o pagarão.» Toda a philosophia do snr. Magalhães tem por eixo esta anecdota de Mazarino: «Escapam-se! Elles o pagarão.»
Saiamos do botiquim para fallarmos ainda d'uma classe supplementar de frequentadores, que já iam esquecendo. São os espectadores-meteoros. Não compram bilhete pela simples rasão de não terem tempo de o comprar. Entram á platéa e dizem ao porteiro:
--Eu saio já.
Está o panno em cima. (Elles entram sempre quando o panno está em cima). Encostam-se á varanda da orchestra. Passam em revista os camarotes, medem a plateia com um só olhar, e saem. Vae a gente a procural-os, e já não os vê. São meteoros; desappareceram. Quando a gente os procura, já estão em outro theatro. Tambem por sua vez são philosophos; toda a philosophia d'elles está no adverbio _já_.
--Eu saio _já_.
E vêem tudo.
Ora eu, se fosse actor e fizesse beneficio, havia de perguntar ao porteiro:
--Você quantos _jás_ conhece?
A esses é que eu passaria bilhetes para vêr o que respondiam.
Agora me lembro! Salvavam-se ainda com o mesmo adverbio:
--_Já_ tenho.
Depois de conhecida a nau e a tripulação, justo é fallar do piloto, que vai tranquillamente encostado á cana do leme, sereno em meio da azafama geral, saboreando-se nos mil accidentes de bordo, como homem que morreria nostalgico se porfiasse a sorte em arrancal-o ao mar.
O Palinuro do _Baquet_ é o snr. Antonio Moutinho de Sousa, actual empresario.
Nasceu para o theatro como o piloto nasceu para as vagas.
É alli que elle vive feliz.