Entre o caffé e o cognac

Part 10

Chapter 103,894 wordsPublic domain

Certo dia nefando a tempestade Rugiu, rolou, desceu em turbilhões, Lascando a rocha, arremeçando a herdade Do vendaval aos rábidos baldões.

Então, ó Du Barry, obreiro ingente, Que reconstrues as raças com farinha, Pensei em ti, que vês morto o doente Quando a _R'valescièr_' salvado o tinha!

A prima:

--Ora!

O primo:

--Du Barry é um grande homem!

A prima agastada:

--E o primo um grande ingrato!

*

A mãe do primo;

--Ó mano, que diz a folha do que vae por Hespanha?

--A folha diz que os internacionalistas descubriram agora uma nova especie de banhos.

--Uma nova especie de banhos?!

--Já havia os do mar, que estão desacreditados desde que muitas meninas vem de lá solteiras. Havia os de chuva, que já não faziam effeito a ninguem. Havia os russos, e ha-os agora de petroleo...

--De petroleo!

--Mana e senhora--de petroleo, diz a folha.

A mãe do primo:

--Aquelle meu rapaz metteu por força a cabeça em algum banho de petroleo!

*

A prima:

--Então vamos fazer _paciencias_?

Elle:

--Ó prima, eu estava com vontade de fazer mais versos. Ainda tinha tenção de cantar esta noite o dr. Paterson, author das pastilhas americanas, e o Melchior Sola, fabricante de lumes promptos. Dois grandes homens, prima! Um dá a saude; o outro a luz. A pastilha é o colorido das suas faces; o phosphoro é a alma do meu charuto. A prima come uma pastilha e sente-se forte; eu acendo um charuto e sinto-me poeta.

Procurando o chapéo:

--Ó Paterson! Ó Sola! Ó pastilha! Ó phosphoro!...

A prima:

--Então vae-se embora?

O primo, já do patamar:

--Vou ao theatro ainda.

A mãe do primo:

--É o que eu digo, é: o rapaz toma banhos de petroleo!

* * * * *

S. JOÃO

(NO DIA 21 DE JUNHO DE 1873)

S. João é o Anacreonte do christianismo.

Eterna mocidade, inextinguivel alegria, olhar brilhante, faces rosadas, cabellos revoltos, sorriso nos labios...

É o das canções, dos bailaricos, dos amores, dos mysterios.

Na sua noite de tal modo sabe distribuir pelas alamedas os claros-escuros do luar, que parece haver uma sombra para cada segredo, um reflexo para cada alegria.

A festa é da mocidade.

Suspira a guitarra debaixo do arvoredo e a musica d'aquella noite tão docemente estonteia as raparigas, que chegam a perder o seu annel de noivado entre as folhas do serpão...

Andam no ar derramados uns effluvios que parece darem á gente uma indolencia voluptuosa.

É sentar-se na relva, ouvir a guitarra, cantar, rir, e a noite lá se vae esquivando por entre os troncos das alamedas...

As trovas tambem contam que elle, o precursor, vivia no desleixo da felicidade.

De subito o colhia o somno, quando a aurora vinha descendo á terra, para reanimar as flores pendidas durante a noite...

S. João adormeceu Nas escadas do collegio.

Depois, quando acordava, corria a procurar a sua felicidade ainda absorto nas visões do sonho...

O S. João, d'onde vindes Pela calma, sem chapéo?

Outras vezes, porque o somno era mais breve ou o sonho era maior, despertava pouco depois de ter adormecido, e as moças, que ao entreluzir da manhã abriam as janellas do casal, iam-lhe perguntando de casa a casa:

O S. João, d'onde vindes, Que tanto estaes orvalhado?

Viveu rodeado de mocidade, das alegrias da primavera e das maguas dos vinte annos,--maguas que são fecundantes como os chuveiros d'abril.

Ora as moças lhe chilriavam em torno as alegrias dos seus desejos:

S. João, as moças hoje Vos pedem que as caseis;

ora o procuravam para que lhes désse aquellas flores mysteriosas que trazem allivio a penas d'amor:

No altar de S. João Ha um vaso d'açucenas, Aonde vão os namorados Dar allivio ás suas penas.

Perseguido pelas feias, que noite e dia lhe pediam noivo:

S. João, todas as feias Vos pedem um casamento,

corria a esconder-se nos rosaes:

O Baptista no deserto Entre as flores escondido,

certo de que ellas não ousariam, ellas,--as feias!--defrontar-se com as flores para encontral-o.

Poucas vezes, sim, mas lá vinha uma tristeza ao coração, quando alguma voz ia cantando na estrada:

Por causa de pretenções Mulheres que não farão?

e então--ó horror!--receioso da colera das desilludidas, e do resentimento das feias, procurava encantal-as a todas, e fazia brotar a agua da sua fonte de prata, para que umas e outras viessem narcisar-se ao espelho...

S. João por vêr as moças Fez uma fonte de prata.

Todavia umas e outras, astutas por serem bonitas, astutas por serem feias, fugiam ao logro, e não levavam a sua bilha á fonte, para que todo se matasse de aborrecimento o santo...

As moças não vão a ella, S. João todo se mata.

Estava porém escripto no livro dos destinos que lhe viesse a queimar a vida o fogo com que elle brincava...

Uma noite havia festa nos paços sumptuosos d'Herodes-Antipas.

Em derredor da aurea mesa estava reclinada Herodiades, a libertina que se rendera ao amor do irmão de seu marido, e Salomé, sua filha, e os cortezãos que libavam vinhos deliciosos em taças reluzentes de pedraria.

Não longe, no carcere, estava João Baptista, sepulto na silenciosa solidão das cadeias, porque elle havia levantado a sua voz contra a incestuosa união do tetrarcha e da barregã illustre, sua cunhada.

Depois do festim, Salomé tomou a harpa e cantou e bailou na presença de seu tio.

Quiz elle galardoal-a e perguntou-lhe o que lhe aprazia.

Então Herodiades inclinou-se ao ouvido da filha e a moça respondeu:

--A cabeça do preso.

E continuou a tanger na harpa dos seus cantares.

Momentos corridos pendiam d'um taboleiro de prata, na sala do festim, os negros cabellos da inanimada cabeça.

E Salomé bailava, e Herodiades sorria, e os cortezãos applaudiam.

No paço tudo era alegria; na rua iam cantando melancolicamente as raparigas:

Por causa de pretenções Mulheres que não farão? Fizeram cahir S. Pedro, Degolaram S. João.

Mas, ó prodigio! os olhos, apesar de mortos, tinham brilho, e nas faces inertes havia um raio de sol!

Era o brilho da eterna mocidade, o reflexo da alegria eterna...

E nunca ninguem mais chorara o precursor, porque o cutello do algoz não lhe roubou a grande alma que enche de luz e felicidade a noite d'hontem e o dia de hoje.

* * * * *

JUDAS NO PLURAL

(PASCHOA DE 1873)

Foram-se alguns mas ainda ficaram muitos. Ha-os de todas as idades, de todos os feitios e de todos os sexos. A vida seria um perpetuo sabbado d'alleluia se cada homem e cada mulher tivesse a consciencia do que é. Mas o grande erro do nosso barro é o querermos enganar-nos a nós mesmos. D'este erro nascem todos ou quasi todos os maus sentimentos,--a vaidade, o orgulho, a perfidia...

Na perfidia é que bate o ponto,--da perfidia é que hoje se tracta. Queimou-se hontem pelas ruas a figura do apostolo traidor, e a maioria das pessoas que eu encontrei tinha as faces radiosas d'alegria e não denotava arder na fogueira interior em que muitas vezes nos queimamos,--o remorso. Tudo por não nos querermos conhecer, tudo por não descermos ás profundezas de nós mesmos a tactear aquella costella de Judas que herdamos de nossa mãe Eva, quando no paraiso terreal seduzia o esposo com blandicias conjugaes para tental-o a comer do fructo prohibido. No pomo da tentação foi toda a perfida maldade da fingida esposa. Adão comeu-o, digeriu-o, entrou-lhe muito da substancia na massa do sangue. Depois o sangue do primeiro homem correu para os grandes vasos da humanidade e levou comsigo alguma coisa da fatal maçã, alguma coisa de Judas. Succedeu porém que no corpo do discipulo traidor entrou maior dose do veneno; isto significa simplesmente que elle era mais traidor do que nós e não que, por elle o ser, não o sejamos tambem. Somos! Se somos! O que nós temos a nosso favor é a civilisação do nosso tempo e a suavidade dos nossos costumes. Judas fez uma acção má por maneira peior do que a acção. Nós fazemos o que elle fez,--mas sabemos fazel-o. Elle, com toda a rudeza dos seus babitos de pescador, envenenou com a sua traição a mais doce formula de exprimir a amisade,--o beijo.

O beijo ficou envenenado, e tanto assim é, que desconfiamos sempre do beijo, excepto quando elle desabrocha em labios de mãe.

É que o coração materno, profundo como o mar, é inviolavel como elle: rejeita qualquer corpo extranho á pureza dos seus sentimentos. Feita esta excepção, a primeira e unica,--o beijo continua a estar envenenado. O beijo tem sempre um fim, o beijo é simplesmente um instrumento. Parece impossivel que uma coisa que dura tão pouco possa fazer tanto mal, mas faz. Ah! é de noite, n'um quintalsinho de roseiras? Lá ao longe ha montes, recortados por pinheiraes, e pinheiraes illuminados pela lua cheia?

Julieta está entre as suas roseiras, com os cabellos revoltos, o seio offegante? Um fremito! Foi uma folha que cahiu? Ah! não foi,--foi um beijo que poisou. Estás bem servido, desgraçado! Romeu piegas! esse beijo coou-te ao sangue a febre do casamento. Ó desgraçado!...

É uma noite d'inverno. A chuva é torrencial. A ventania abala as janellas. Tu estás sentado ao fogão, com o teu _robe-de-chambre_ e o teu capote, com os pés no _fender_ e a cabeça mettida dentro do barrete de velludo preto. Leste o teu jornal, e ficaste somnolento, ou fosse que o jornal te adormecesse ou que o calor te enervasse. Chegaste a um d'esses estados de espirito em que já se não pensa em nada; e se se pensasse em alguma coisa, era decerto em dormir. N'isto ouves entrar na sala tua mulher.

Abriste os olhos, conheceste-lhe o andar e deixaste cahir as palpebras. Ella vem, pé-ante-pé, debruçar-se do espaldar, bater-te uma palmada no hombro, e dizer-te maviosamente:

--Já são horas de me vestir, filho?

Estremeces, como se te rebentasse aos pés uma bomba Orsini.

--Vestir?

--São nove horas. Eu mandei vir a carruagem ás onze.

--Ó filha, mas eu estou constipado, não posso comigo, tem paciencia, filha, mas com esta noite, não vamos, não podemos ir!... Atchi, atchi... olha como eu estou constipado!

--Ahi estás tu com as tuas phantasias, com a tua negregada imaginação! Dir-me-has ámanhã se peioraste com o baile. Imagina que desces as escadas muito embrulhado no teu capote, que te mettes na carruagem, que te deixas enterrar nas almofadas, que chegamos finalmente, que entras nas salas onde as luzes conservam uma temperatura confortavel, que o conselheiro e o doutor esperam por ti, que fazem a sua partida de voltarete, que dás seis codilhos e um geral, que vaes tres vezes á casca...

--Tudo isso é verdade, filha, mas hoje não póde ser. Estou indisposto, estou bruto, deixa-me dizer assim, estou bruto. Hoje, se jogasse o voltarete, não ia á casca, dava á casca com toda a certeza.

Ella, que n'esta esgrima conjugal tem guardado para o fim o bote decisivo, continua um pouco mysteriosamente, cada vez mais debruçada na cadeira:

--Pois sim, tu não queres ir... não vamos... por mim pouco me importa. Mas lembra-te que não jantaste ainda ha duas horas, que n'esta sala faz um calor excessivo, que o medico...

O marido, aprumando-se e esgazeando o olhar:

--Que o medico?

Ella perplexa:

--Deixemos isso. Vamos ao baile, filho, anda vestir-te...

Elle:

--Ó Nini, mas que disse o medico? Não me enganes... Este fogão... este maldito fogão... eu bem sinto que isto é calor de mais.

--Mais uma rasão para o evitares.

--Ó filha, ó Nini, mas passar agora para o frio!

--Não passes já: arrefece primeiro. Em todo o caso livra-te do fogão, homem, livra-te d'este fogão, que hade dar cabo de ti... Bem o disse...

--O medico?

--Sim, o medico.

--Que disse elle, Nini?

--Que fizesse por arrancar-te ao fogão, porque este calor, depois de jantar, bem sabes que o teu temperamento...

--Ah! Já sei! A apoplexia!

E n'isto cae dos labios da esposa á face sanguinea do marido um beijo muito mais venenoso do que um frasco d'acido prussico. E que a esposa vende a tranquillidade do marido pelos trinta dinheiros do baile.

E as creanças, quando são inquietas como borboletas, e têem cabellos loiros como o sol, e olhos azues como o céo, que graciosos Judas que ellas são! Prohibe-lhes a gente que bulam no _bouquet_ que poisamos em cima da mesa. E ellas a estenderem sorrateiramente a mão...

--Menina!

--Menino!

--Não bula ahi.

--Deixe estar isso.

E d'ahi a segundos lá torna a creança a mexer com a mãosita, como um beija-flôr que estivesse abrindo uma aza para ir oscular uma rosa.

--Tu apanhas!

--Espera ahi!

E a creança, em vez de saltar ao _bouquet_, salta ao nosso collo, e afaga-nos, e pede-nos meigamente que lhe deixemos vêr o _bouquet_, que ella só o quer vêr, que só o quer cheirar. Beija-nos! O almasita de Judas em corpo de cherubim! Tu não sabes que o beijo foi a arma de Judas, mas o que tu já advinhaste é que o beijo é um veneno com que a gente facilmente mata uma opposição qualquer.

Os governos ainda se não lembraram d'este grande expediente, mas estou certo de que mais tarde ou mais cedo será incluido na longa lista das tricas parlamentares.

Supponhamos que um ministerio não tinha maioria. Um dos ministros entrava na camara, e estava fallando vehementemente um dos maiores oradores do parlamento. As accusações eram energicas, o ministro sentia-se abalado no pedestal do governo, via cavar-se-lhe aos pés o abysmo do _nunca mais_. Era preciso uma ideia salvadora, um pensamento luminoso. Pois bem. S. ex.ª o ministro levantava-se doidamente apaixonado, e corria a beijar freneticamente o orador da opposição. E s. ex.ª o deputado, affrontado d'aquella ancia de beijar, cahia na cadeira amavelmente asphyxiado, e afastava com um gesto carinhoso s. ex.ª o ministro.

Já se tentou rehabilitar o beijo, mudando-lhe o nome. Começou-se a dizer osculo, não por ser mais elegante a dicção, mas por ser menos conhecida. Logo porém que se veio a saber o que era o osculo, entrou-se a desconfiar tanto do osculo como do beijo.

Diziam os namorados:

--Acreditas o juramento?

--Não acredito.

--E se o sellar com um osculo?

--Oh! não acredito. Não póde haver amor exdruxulo.

Nós não rompemos por entre a multidão, asperamente, apartando os grupos, para ir vender com um beijo; vendemos e compramos com um beijo, negociando com elle serenamente. A grande culpa de Judas foi falsificar a moeda e lançal-a falsificada na circulação. Nós não falsificamos, é verdade, mas negociamos com dinheiro falso.

Por isso hontem, quando a alleluia passava festivamente de torre em torre, e estralejava nas ruas, e os Judas de palha iam arder estoirando com grande applauso do rapazio, eu ouvi soar a meus ouvidos a grande voz da Rasão, d'esta Rasão que se escreve com letra maiuscula por ser da escola do Infinito, e dizer:

--Se só os que não fossem Judas devessem acender o rastilho, estes monos de palha, que tu ahi vês, não arderiam jámais.

* * * * *

HISTORIA VELHA

Sou muito novo para não ter esperanças e muito velho para deixar de sentir o suave doer da saudade. Espero no futuro, na baixa das inscripções, nas bancarotas, nas dictaduras, espero em tudo o que nós podemos ter de bom em Portugal, e não posso deixar de lembrar-me saudoso do passado, das suas crenças, das suas obras, uma das quaes somos nós, das suas tolices tambem.

Se ponho olhos no futuro, refujo de medroso para o passado e apraz-me então conversar com os homens que foram, os quaes me contam coisas maravilhosas e graves. Ora succede tambem que muitas vezes me fico pasmado diante do estendal das relamborias semsaborias das sociedades extinctas, mas nem por isso deixo ainda de querer ao passado, que não nos deu os barões, nem os penicheiros, nem as companhias de caminhos de ferro, innovações mil vezes mais causticantes que as supraditas semsaborias. Revivam pois as sinceras crenças e as ingenuas tradições de nossos avós, e conversemos d'elles e d'ellas emquanto a sociedade moderna applaude o espectaculo de si mesma.

O primeiro varão respeitavel que temos a conversar chama-se Antonio Cerqueira Pinto, _cidadão da cidade do Porto e academico supranumerario da academia real da historia portugueza_, o qual escreveu e estampou a _Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado que com o titulo de Bom Jesus de Bouças se venera no lugar de Mathozinhos, na Lusitania_.

Posto isto como apresentação indispensavel, vamos direito ao assumpto e oiçamos o Cerqueira n'uma das paginas do seu livro:

«Consiste pois o principal d'este admiravel successo, em que voltando S. Thiago de Hespanha a Jerusalem, com os sete discipulos, que na provincia interamnense da Lusitania convertera, e havendo triunfado em martyrio n'aquella mesma cidade, em que Christo remira o mundo, emprehenderam os mesmos discipulos, tanto por anterior recommendação do santo, como por divino impulso, reconduzir o seu sagrado cadaver a esta parte, para ter o jazigo, na em que fôra missionario apostolico.

«Embarcados com elle em Jope, porto maritimo da Palestina, e navegado em breves dias para o Occidente, o Mediterraneo, costeando pelo oceano a Lusitania, com rumo direito a Galiza, parou como em calmaria a embarcação, á vista do venturoso logar de Mathosinhos, não por faltar-lhe o vento, pois vinha celestialmente equipada, e tanto de divinas auras favorecida, que lhe levou brevissimos dias a derrota sendo d'extensão bem dilatada; mas por permittir o céo, que n'esta escala tivesse S. Thiago por refresco uma salva real, como teve na conversão do copioso gentilismo, que n'aquella praia se achava então celebrando os regios desposorios referidos (uns que se celebravam n'esse dia em Mathosinhos) em justas, torneios, lanças, e outros applausos ao antiquado uso, que n'estas partes haviam introduzido os primeiros adventicios dominantes gregos.

«E sendo n'este festejo um dos jogos celebrados, o a que chama o _Flos sanctorum_ antigo de Alcobaça, _andar bafordando_[3] porque os cavalleiros na praia em concertados meneios entravam pelas candidas espumas, que ao mar costumam servir de crespo bordado ao ceruleo adorno, com que gallea; succedeu por alto mysterio, que do noivo o cavallo desperando do domante freio os regulados preceitos, se arrojou ás ondas, intrepido, com tanto fogo, que julgavam magoados os circumstantes ao cavalleiro desgraçadamente perdido; porém elle prodigiosamente venturoso chegou sem perigo a abordar á nau, em que com os seus discipulos estava o corpo de S. Thiago, e lhe serviu de segura tabua a salvar-se, e a todo o logar do naufragio gentilico, por ir Deus assim dispondo aquelle especioso terreno para soberano deposito da veneravel imagem de Christo Crucificado.

«Junto da nau, entre os confusos assombros de vêr-se na fluida inconstancia das anfuas, como em terra firme, seguro, notou e advertiu o cavalleiro, que não só chegava de maritimas conchas matisado: mas que no mesmo perigo achava quem o livrasse do susto na milagrosa exposição do Mysterio e instruido nos da Fé, recebido o sagrado baptismo por um dos santos discipulos administrado, impresso bem tudo no seu conceito com prazer inexplicavel convertido, e por aquelle sacramento illustrado; advertido finalmente do mysterioso final, que as conchas haviam de ficar representando feito missionario apostolico, triumphante da culpa, e dos mares para elle já todos de graça, voltou em airosa carreira pela liquida torrente ao mesmo sitio, d'onde tinha sahido naufragante.»

Não cuidemos de saber como Sam Thiago _se refrescava com uma salva real_, nem commentemos os pasmos do cavalleiro ao vêr-se _matisado de maritimas conchas_. Esmiuncemos que _regios desposorios_ eram esses que se celebravam na praia da villa de Mathosinhos.

Parece que a palavra _regios_ se não quer referir unicamente ao fausto das bodas, que foram sobremodo lusidas como inculca o citado _Flos sanctorum antigo de Alcobaça_, cujo texto vem citado no _Catalogo dos bispos do Porto_[4] , de D. Rodrigo da Cunha, a pag. 20, part. 1.ª «... e a Cavalaria, e as Donas, e a gente moita, e cada um fazia o que sabia, que pertencia á boda: e os huns lançabão ao tavoado, e os outros bafordabom, mas entre estes que bafordabom, bafordava hi o noivo.» Hoje não se ostentam nas bodas proezas de cavallaria: os convidados esgrimem contra os taboleiros, e os noivos esperam que os convidados devastem os podins para se verem livres dos importunos parasitas de luva branca.

Mas, tornando ao conto, escreve ainda D. Rodrigo da Cunha: «Não é só o _Flos sanctorum_ de Alcobaça o que faz menção d'este milagre, que deu occasião a se converterem tantas almas n'este nosso Bispado, e em lugares tão visinhos ao Porto. No Breviario antigo da Sé de Oviedo, se acha um hymno, que se costumava a resar na festa de Sanct'Iago aos 25 de julho, em que claramente se faz allusão a elle. Dizem os versos do hymno:

Cunctis maré cernentibus: Sed á profundo ducitur; Natus Regis submergitur; Totus plenas conchilibus.

Chama ao cavalleiro, que se recebia filho d'El-Rei, porque sem duvida o seria d'algum regulo, a quem os Romanos soffriam estes nomes de dignidades, em quanto lhe não impedia a subjeição a seu imperio.»

Como d'aqui se deprehende, conjectura-se nas passagens citadas a fidalguia do noivo, _natus regis_, e por isso adjectivaram de _regias_ as bodas.

Não obstante divergem as opiniões sobre a qualidade e nome dos nubentes. Não os nomeia o _Flos sanctorum_ do mosteiro de Alcobaça, copiado por D. Rodrigo da Cunha e outros doutos varões, com quanto circumstanciadamente conte do milagre. D'esta lacuna procede todo o embaraço, porque o padre frei Luiz dos Anjos os nomeia Cayo Carpo, natural da Maya, e Claudia Loba, do Porto; e D. Pedro Seguino, bispo d'Orense, escreveu que o cavalleiro se chamava Rivano e a dama Valeria.

Ao noivo uns o dão como _liberto_ de Augusto Cesar, e outros como filho d'algum poderoso regulo das Hespanhas. Ora a nobreza da mulher, suppõe Cerqueira Pinto,--que persiste em chamar a elle Cayo Carpo e a ella Claudia Loba,--que era das primeiras e melhores: «no conselho da Maya, que he, e foy sempre contiguo á mesma Cidade, (do Porto) e onde está situado o lugar de Matosinhos, havia cavalheiro capaz de casar com mulher daquella nobre familia...» Pelo que se vê, a villa de Mathosinhos era alfobre de preclara nobreza em que floreciam varias fidalguissimas Claudias. Hoje, se Claudias ha em Mathosinhos, trazem saia pelo joelho e seguram vigorosamente contra a ressaca as esgrouviadas banhistas que vão molhar no mar os nervos doentes.

Ó decadencia das Claudias, e outras!

Não vae o nosso amor pela antiguidade até averiguarmos cabalmente o verdadeiro chamadoiro e nascimento dos noivos de Mathosinhos, e até, para conciliarmos os consultissimos historiadores, não temos duvida em matrimoniar Valeria com Cayo Carpo e Rivano com Claudia Loba. D'esta maneira, ficariam por igual comprazidos os chronistas que divergem sobre o nome do cavalleiro que sahiu ao mar, e da noiva que ficou em terra.

Do prodigio resultou a total conversão do logar de Mathosinhos á fé catholica, e, segundo diz Cerqueira Pinto, de toda a nobreza do Porto e da Maya, que estava presente. Tambem lembra o historiador que o nome de Leça, dado ao rio, poderia derivar da alegria devida á aproximação da nau que conduzia S. Thiago ou á plenaria conversão d'aquellas gentes.

É pois certo que o logar de Mathosinhos, onde o leitor descuidosamente passeia o seu aborrecimento em mezes de banhos, é por mais d'um respeito celebre, porquanto no 1.º de abril do anno de 44 se operou o prodigio que vimos historiando, e d'ahi a oitenta annos aportou áquella praia a imagem cuja historia Cerqueira Pinto particularmente escreveu no livro de que havemos extrahido estes apontamentos.

A par da tradição religiosa, que deriva das bodas de Cayo Carpo com Claudia Loba, corre a tradição nobiliaria, como se os homens, ciumentos das glorias da Igreja, quizessem sequestrar-lh'as em grande parte para satisfazer sua vaidade.

Conhecel-o-ha o leitor, se me quizer acompanhar a Benavente, districto de Evora, onde encontraremos n'uma das torres da matriz as armas dos condes d'aquelle titulo, as quaes armas representam cinco conchas em escudo liso.