Entre as Nymphéas

Chapter 3

Chapter 33,655 wordsPublic domain

Mas, apezar da edade, tinha ainda bons musculos o velho pescador. Remava á direita, remava á esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se afastava, impávido, cortando a vaga indolente.

Á pôpa, como de alcatéa, velava o farol, ia deixando pela esteira da embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em direcção á terra.

Além d'este, nenhum outro signal de vida poderia enxergar-se mais em toda aquella extensão de costa nem sobre a linha do horisonte, do lado do mar alto. Quem se atreveria a ir pescar na madrugada do dia festivo consagrado á padroeira de Belém?

D'isto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais de duas milhas de distancia, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou para traz e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia sorridente.

--Tolos!--rosnou, volvendo logo a remar com furia, cravando a vista nas redes colhidas ao fundo da canôa.

*

Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá muito ao longe, escalavam o ceu, vinham galgando distancias, desdobravam-se assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado.

--Ué!--exclamou. Vento ou trovoada?

Apezar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de muruxy. E estava contente, porque já não precisaria de empregar maior esforço. O remo já começava a cansal-o, que diabo...

Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das rêdes e, com um gesto largo e facil, fel-a descrever um circulo por sobre a cabeça, lançando-a depois á distancia que reputou conveniente.

Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a estréa fôra de todo improductiva. Não viéra um só peixe!

Era estranho, porque aquelle sitio já tinha fama de rico em cardumes.

Longinqua fulguração de relampago fel-o erguer o olhar. As nuvens tinham subido ainda mais, haviam-se estendido em quasi dois terços do espaço, pareciam agora as pesadas colgaduras de uma camara ardente. Segundo relampago, muito distante, scintilou então. E uma pequena aragem soprou fresca do lado do poente.

Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo: içou a véla, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim afastou-se ainda mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha d'ali.

Quando, depois de lançar a rêde em outro sitio, se dispunha a puxal-a, pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria entreabriu-lhe os grossos labios. E então? Elle bem sabia que aquillo era infallivel!

Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos esforços, conseguiu trazer á flôr da agua a rêde que julgava repleta e de repente sentiu-a tornar-se completamente leve, encontrando-a logo de todo vasia, sem uma unica pescada!

Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar bastante extranho similhante facto.

N'esse momento, o espaço illuminou-se com um grande relampago, seguido do estrugir medonho do trovão.

O vento augmentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno mastro, enfunando a véla com raiva, arrastando a canôa n'uma furia, n'uma vertigem, á luz dos relampagos successivos, no meio de coriscos que esfusiavam caprichosos por todos os lados.

Comprehendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as que lhe attribuira ao principio. Nada mais poderia fazer n'essa noite. Aquillo era praga do Simplicio, pensava. Bem descontente, resolveu regressar. Quiz passar o panno para bombordo, porém não teve a precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quasi invencivel, arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e n'um momento arrebatou a vela em farrapos, n'um redemoinho sibilante pelo espaço.

Só lhe restava o alvitre da resignação. E elle, habituado ás inclemencias, affeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno á pôpa, depois de abaixar o mastro: resolvera esperar o desenlace da crise.

O que presenceou então foi horrivel. Choviam raios á direita, á esquerda, por toda a parte. O ceu estava negro, agitado de ribombos infernaes, a cada minuto illuminado tetricamente, deixando a descoberto as grossas massas das nuvens fugidías.

E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços cruzados, sorrindo com cynismo. O mar tinha um aspecto que se casava com a attitude hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas collinas liquidas, escancaravam-se horriveis, hiantes valles phosphorescentes. Não chovia ainda, mas o vento, que zunia aos ouvidos do negro incredulo, cuspia sobre elle milhares de gottas salitrosas tiradas ás ondas freneticas, trementes.

De subito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou n'um estrepito pavoroso, repercutindo um som innominado, jamais percebido pelo Deodato em situações identicas. Avermelhado clarão illuminou tudo, revelou aos olhos do negro toda a magestade d'aquella scena para a pintura da qual, meus amigos, não tenho senão palavras inexpressivas e phrases sem colorido.

Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a fragil embarcação era com vigor sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do embate das ondas. E a canôa tremia toda, rangia, vibrava incessantemente, como se um braço de Adamastor a agitasse n'uns empuxões cyclopicos e interminaveis.

--Que diabo é is...

Não pôde continuar. Deante d'elle, rodeado d'uma auréola de chammas, tresandando a enxofre, emergia Satanaz! Levantou-se indizivel alarido: os raios duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por seu turno, o vento engrossou ainda mais as vagas, que chegaram quasi a cobrir o barquinho.

Porém só durou um segundo o estupôr de Deodato. Qualquer outro homem succumbiria de medo. Elle, entretanto, como envergonhado d'esse instante de susto que tivéra ha pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o corpo ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o ceu, proferiu, ou antes bramiu feroz imprecação satanica.

O diabo,--porque era elle em pessoa que assim surgira do mar,--empunhara uma espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a puxar o batel para o lado de terra.

Aquella corrida frenetica durou um momento. D'ali a pouco, barco e tripolante desfaziam-se de encontro ás pedras d'uma enseada, perto da capellinha do logar. Viram os meus amigos a acção da justiça de Deus?

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Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava offegante, com os labios sêccos, o olhar animado.

Mas resoou no aposento uma gargalhada stentorica, que despertou o molequito no cólo do avô.

Era este proprio, o Felix Jacaré, quem zombara d'aquelle modo. Logo, com entonação escarninha, ponderou:

--Não creiam n'essa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá, ficou na rêde muito socegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu padre Simpricio, antão, arranjô o resto...

MATER DOLOROSA

MATER DOLOROSA

A Bellarmino Carneiro.

Ante-manhã.

O vapor seguia rio acima, bem perto da margem, tão perto que, ás vezes, as ramarias sussurrantes da floresta roçavam na coberta, estendiam galhos sombrios por de sobre a borda.

Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado, reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não começára o arruido de passaros com que a alvorada é recebida, mas persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios dos animaes e insectos noctivagos.

A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda.

Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes velavam a meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto.

Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,--o início do fugaz crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave frouxel cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as meias tintas côr de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas e azues, que a seu turno precedem as estridencias rubras e alaranjadas, em breve esbatidas na tranquillidade definitiva dos aspectos mais claros do dia adeantado.

Ia amanhecer.

Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher. Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a escuridão, por um lado, por outro, attentamente.

Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto.

Saudou-o da matta um silvo de passaro,--a primeira manifestação do despertar das aves.

O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de cumarú e baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando emmaranhamentos caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que trescalavam tão fortes effluvios.

A mulher inspirou com força. Queria banhar os pulmões n'aquella olencia. Em seguida, suspirou um suspiro triste; suspiro de viuva? suspiro de mãe inconsolavel?

Clareara um pouco mais. Ja se percebia todo o labyrintho de braços folhudos que as arvores estendiam no ar, em contorsões. Uma suavidade paradisíaca se diffundia na meia tinta da luz crepuscular. Era quasi sol nado. Os passarinhos já haviam encetado o canoro certamen, volitavam céleres. Á beira-rio, nenuphares ostentavam-se opulentos por de sobre as polposas folhas que pareciam caprichos de esculptura em marmore verde. Mil flôresinhas silvestres salpicavam a vegetação das margens, sem nenhum acanhamento de uma ou outra victoria-régia que se dignava mostrar-se entre os massiços dos mururés, os quaes recebiam da correnteza um brando movimento de balouço. E, de um a outro lado do rio, eram grandes bandos altíssimos d'aves aquaticas,--patos grasnadores, pavõesinhos gemebundos, garças, cegonhas, toda a migração alada dos desertos amazonicos. Estava ali a natureza intacta, no seu inalterado aspecto milionario, tal como a viram os primeiros habitantes, as tribus lacustres que fôram as raças autochtones.

O vapor seguia sempre adeante, rente a terra, na mesma monotonia. Aquella ascensão parecia o desvirginamento d'um éden.

Iniciou-se a bordo a tarefa quotidiana. Alguns marinheiros appareceram trazendo baldes, desdobrando mangas para irrigação. Rompeu a subitas o sol, por além das mattas, n'um deslumbramento.

Fugiu veloz para o camarote a madrugadora passageira.

*

Horas mais tarde, o commandante atravessou o tombadilho, foi bater-lhe á porta. Seguiam-n'o trez ou quatro pessôas, que se conservaram a curta distancia, dissimulando a custo grande curiosidade.

Era de certo esperada a visita, porque, immediatamente, a mulher saíu a recebel-a. Com a luz do dia, via-se que era uma anciã, de rosto enrugado e fronte encanecida. Não tinha aquella physionomia outra expressão que a do mais fundo soffrimento. E os olhos brilhavam extranhos, muito negros e dilatados, entre longos cilios sedosos.

--Já estamos,--disse-lhe o commandante.

Ella penetrou de novo no aposento, mas volveu passado um instante. Trazia uma corôa de saudades,--uma corôa tosca, evidentemente barata. E, com o sorriso triste, murmurou ao capitão uma palavra de agradecimento.

Depois, apertando com as mãos crispadas a humilde corôa sobre o coração, foi ajoelhar-se junto á borda, suspirando, soluçando, toda desfeita em pranto.

Ali perto, na floresta, rebrilhavam flôres de sonho,--extranhas orchídeas gigantes, catléas variegadas, osculadas de coleopteros zumbidores. Crescia triumphal o canto dos passarinhos.

*

O grupo de passageiros arredára-se, n'um movimento de involuntario respeito por aquella sincera dôr ignorada. No meio d'elles, o commandante sentou-se taciturno e falou:

--Não notam? Estou emocionado. Ha doze annos que vejo, em cada viagem, duas vezes repetir-se este espectaculo e, no entanto, até aqui me não familiarisei com elle. A prova é que abala-me ainda, como da vez primeira que a elle assisti. Onde encontrar explicação para isto? De certo que no immenso impulso d'essa dôr, na grandeza do sentimento que a provoca e que ha de haver compungido o coração dos senhores todos, não é verdade?

O grupo teve um movimento egual de assentimento. Em algumas physionomias brilhava uma curiosidade inequivoca. Mas o capitão proseguia:

--Vou referir-lhes a causa d'este espectaculo com que não contavam certamente os meus amigos. Esta senhora é a viuva do antigo commerciante C. A., de Belém. O marido possuia seringaes no alto Madeira, administrados por um primo. Raras vazes vinha a estas paragens: a escala dos seus negocios no Pará impedia-o de visitar a propriedade, perto da fronteira boliviana.

Tinham um filho unico,--o pequenito Anselmo,--um mimo de creança, que os senhores haviam de estimar se o vissem, uma só vez bastava. Moreno, olhos negros e vivazes, tinha na franca physionomia alegre a manifestação exacta d'um espirito aberto e elevado. Sympathico a valer, bem educado aos onze annos, todos o queriam sobremaneira.

Esta creança, um dia, perdeu o pae. Aquella senhora que ali está em pouco tempo soube que os seus haveres se achavam reduzidos. Ella, que sempre vivera na abundancia, não teve uma palavra de queixa. Abençoando á memoria do eterno ausente, resolveu retirar-se para o seringal, trabalhar como o ultimo cabôclo, afim de attender á instrucção do pequeno. Para este voltaram-se todos os seus affectos. Quem ignora ahi como sabem amar as dôces mães amazonicas?

Dona Maria não tinha parentes proximos. Emprehendeu a viagem sem saudades, n'este mesmo vapor. Trazia comsigo o retrato vivo do morto, cuja existencia era continuada na louçania dos onze annos risonhos da creança.

A bordo, corriam felizes os dias. O Anselmito brincava sem pezares, tinha em cada passageiro um camarada. E a bôa senhora quedava-se horas esquecidas a fital-o de longe, no enlêvo da sua alma reflexiva, folheando recordações posthumas, revendo saudades discretas.

Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel com toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado d'alma, indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a vibrar-me nos ouvidos, esse grito de mãe desesperada!

O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós e, perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte d'aquella immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o vapor, desceram escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e quatro horas seguidas.

O cadaver adorado não appareceu.

De então para cá--e quantas viagens tenho eu feito?--a infeliz mãe não deixa o _Mahissy_. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente por sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle corpinho tão fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos, dona Maria ajoelha-se lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja piedosamente ao rio uma corôa de saudades artificiaes. Não tem aqui flôres naturaes, a pobre; mas acaso não são bem viridantes as flôres do seu coração, as tristes flôres do pezar eterno?

Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço, Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem estar bem reduzidos os capitaes da desgraçada. Causa-me isto uma lastima profunda. Mas attendam...

*

Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da cabeça a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua.

O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e transfigurada no seu apaixonado desespero.

Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa gigante d'uma feroz sapupema secular.

Yaras paraenses

YARAS PARAENSES

No copiar da chacara, aquella noite, haviam-se reunido alguns vizinhos do commendador Esteves, o principal proprietario do Pinheiro.

Rêdes fechavam os angulos, pendentes dos esteios. Era uma roda de homens. Todos balouçavam-se, acalorados, aguardando o assahy que n'esse momento a mulata Josepha amassava na cosinha.

O luar de agosto penetrava em diagonal, diaphano, trazendo toda a melancholia profundíssima das incomparaveis noites equatoriaes. Da matta pouco distante, lavada de luar, vinha o monotono arruido dos insectos nocturnos, o alarido dos cururús teimosos. Na gaiola pendente do tecto sem fôrro, um caraxué silvava. E do rio, que corria ali perto, ao fundo da ribanceira, subiam com a brisa refrigerante os rumores dos barcos de pesca fazendo-se ao largo, para a foz.

Fumava-se, conversava-se. Haviam já discutido os negocios do dia, na capital. Esteves encetara mesmo um poucochinho de politica. Portuguez de nascimento, não queria immiscuir-se em assumptos partidarios; mas tinha por elles sua predilecção e nunca deixava de externar uma ou outra opinião, sempre muito conservador e ordeiro.

N'essa tarde, viera com elle passar a noite na rocinha o velho Barriga, seu aviado do alto Xingú. Era um cabôclo adiposo, de ventre proeminente e face larga. Apparencia insignificante, matreirice innata: o typo commum do seringueiro indígena. Trouxera a mulher, que já estava recolhida ao quarto destinado ao casal.

Achava-se também presente o subdelegado Fonseca, antigo solicitador dos auditorios, agora enviado ao Pinheiro afim de preparar recursos para uma eleição proxima. Era esta a sua especialidade, ao que parecia. Em todo o caso, rendia mais do que a primitiva profissão. Um presidente vindo da Côrte não tivéra extraordinaria difficuldade para convencel-o d'isto.

Mas a palestra veiu naturalmente a versar sobre assumptos do sertão. A um quint'annista de direito, que villegiaturava todo o anno, explicara já o Barriga a pesca do pirarucú e o preparo da grude de gurijuba. O quint'annista era, n'este ponto, d'uma ignorancia absoluta: não admirava a sua curiosidade.

Os demais circumstantes escutavam n'um silencio discreto, bocejando. Nas intercadencias da narrativa, apenas se ouvia o ranger das escápulas pelo movimento das rêdes e o farfalhar dos galhos, matta fóra.

Uma voz reclamou um conto indígena, uma lenda amazonica. Não comprehendeu a phrase o Barriga. Quedara-se a olhar o interlocutor, cortado.

--Historias de bôto, do curupira, da mãe d'agua,--explicou o subdelegado.

--Han!--rosnou o cabôclo. Tudo isso é mentira, acredite!

--Como! Pois o senhor atreve-se a negar o que todos no sertão asseguram ser verdade evidentíssima?

Sorriu o velho, superiormente. Tinha no rosto uma profunda piedade, pela bôa fé do cidadão. Ergueu-se, afivelou o cós da calça e, espreitando para o lado do quarto da mulher, congregou os companheiros em circulo diminuto. Estava transfigurado: era um philosopho stoico.

--Vocês ouviram já falar em yaras, não?--perguntou. Pois é tudo mentira também.

E abaixando a voz:

--Só ha uma especie de yaras,--proseguiu. Essas, porém, não vivem no fundo dos rios da minha terra, estão, ahi, na cidade; vi hoje á tarde uma porção, quando fui com seu Esteves tomar o vapor. São as mulatinhas cheirosas a periperioca e jasmins, sabem? as verdadeiras yaras encantadas. Mas precisamente não é para o abysmo das aguas que arrastam a gente!...

--Seu Barriga, venha dormir!--gritou no outro extremo do copiar a encanecida e rotunda esposa do velho cabôclo do Xingú.

Uma historia de amor

(DOCUMENTOS HUMANOS)

Uma historia de amor

(DOCUMENTOS HUMANOS)

PRIMEIRA QUINZENA

I

Senhor,--

Não posso attendel-o. Tenho deveres sagrados a cumprir, uma posição social a zelar. Esqueça-me.

(_Sem assignatura_).

II

Senhor,--

Julgo-o um cavalheiro e acredito-o sincero, por causa da assiduidade com que me procura. Acceito o seu convite para jantar,--mas somente no intuito de o dissuadir d'essa loucura que nunca poderá ser correspondida. Até logo.

ELISA.

III

Sympathico amigo,--

Porque insiste? Estimo-o como um camarada, quasi como a um irmão. Não posso, entretanto, perdoar-lhe a impertinencia:--meu marido nunca será enganado.

ELISA.

SEGUNDA QUINZENA

I

Bom amigo,--

Exactamento como o senhor, estou bastante incommodada por tremenda enxaqueca, que obrigou-me a ficar deitada até agora. A sua amavel carta, cheia de phrases tão meigas, traz-me certo lenitivo e me dá a energia necessaria para tomar a penna. Demais d'isto, a satisfação de escrever-lhe faz-me esquecer os proprios soffrimentos.

Não me agradeça tanto o serão de hontem, ao jantar. Se o sr. comprazeu-se com a minha companhia, o mesmo aconteceu commigo; não tenho, pois, merito algum em fazer o que ditam os meus mais caros desejos.

Quanto mais conversamos, mais vou eu descobrindo no meu bom amigo sentimentos e gostos que correspondem aos meus. A surpreza rejubila-me; similhante analogia de caracter e de idéas é demasiado rara para que eu deixe de admirar-me, sobretudo se encarar as barreiras sociaes que nos separam e a differença de classe a que pertencemos.--A sua cartinha de hoje é uma pequena obra-prima de cariciosas phrases. Quero crel-o, desejo acredital-o. Já não posso duvidar do senhor. Julgo-o sincero, porque _nada_ o obriga a ter procedimento egual ao seu. O sr. é demasiado superior de espirito para ligar tanta importancia a uma vulgar questão de materialismo. Por consequencia, a logica me compeliu a suppol-o franco em seus sentimentos apparentes. Quanto a mim, entrego-me toda ao senhor, intellectualmente. Juro-lhe que sou sincera, mesmo--e sobretudo--nas minhas ingenuidades.

O sr. é sceptico, já m'o disse; isto é, preveniu-me do trabalho que eu teria para fazer-me acreditar. Não ignoro as prevenções que têm os homens pelos sentimentos affectados. Todas as mulheres são enganadoras, voluveis, mentirosas, mas todas têm, comtudo, momentos de real sinceridade. Encontro-me em um d'esses momentos. E note, meu caro Jorge, que não digo isto para differençar-me das demais mulheres e tornar-me importante aos seus olhos. Não, porque possúo todos os defeitos acima enumerados. Melhor do que ningúem, sabe-o o senhor, porque estou prestes a enganar o homem com quem vivo. Verdade é que esse homem é um imbecil e que nunca sympathisarei com tal cathegoria de caracter. Não digo isto para desculpar-me aos meus proprios olhos, pois só me importo com a minha consciencia e não com alheias opiniões. Digo-o, sim, á laia de informações a respeito dos meus sentimentos reaes, no intuito de fazer-lhe comprehender que, do senhor para mim e reciprocamente, deve estabelecer-se uma corrente de escrupulosa sinceridade, pela simples razão de que eu e o sr. não somos impellidos um para o outro por outro interesse que não seja o nosso capricho,--ou, se mais lhe apraz e para falar mais exactamente, pela especie de correlação que existe entre os nossos dois espiritos.

Como vê, sou mais franca do que o sr. É talvez um mal. Por principio, uma mulher, posto que enamorada, nunca deve revelar inteiramente a sua alma. Eu, porém, tenho-o na conta do mais leal dos homens, do mais generoso dos corações. Serei algum dia despertada cruelmente d'este adoravel sonho?

Percebo que tenho ainda muitas coisas a dizer-lhe: tomo, pois, outra folha de papel. Ha de fazel-o sorrir tamanha expansão. Que quer? Tenho tantas phrases agitando-se-me na cabeça.... Emfim, perdôe-me. Desejo que o sr. me conheça bem e saiba completamente o que sou e o que quero.

Não imagina até que ponto aprecio a attenção tão firme mostrada para commigo, vae fazer um mez. Agradeço-lh'o deveras, porque isto me satisfaz immenso. Lembra-se da carta em que lhe pedia que me esquecesse? Pois bem; hoje tem o meu querido amigo a razão por que lhe dizia essas palavras. Não o conhecia bem e receiava affeiçoar-me demasiado a um homem cujas apparencias eram as de um aristocratico _viveur_.--Sinto que hei de amal-o, que hei de amal-o talvez mais do que o sr. deseja e o amor é, ás vezes, cruel tyranno intransigente e molesto. O sr. agora está prevenido: póde defender-se. Não venha um dia lamentar-se pelo facto de haverem-se tornado demasiado serios os meus sentimentos.