Entre as Nymphéas

Chapter 2

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Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas cidades, onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido infiel, respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida a lamentavel memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana, já com o espirito occupado por amorosos pensares--adulterio posthumo!--appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão que não possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.

Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á innocente creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar alfim, descuidosos na eterna immobilidade dissolvente da ultima pacificação,--separados de toda a phantasia ephêmera e das convenções banaes da fallaciosa hypocrisia social.

Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir o nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,--candeia extincta, apagado fanal do pelago da vida? Recordar o nome d'um morto, perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de insulto, é uma violação que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle os maus, os pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma vez negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espirito.

Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres das privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas! Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio escalvado na rapida ribanceira.

A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que fermenta entre as raizes d'essas bellas e grandes arvores viridantes vae buscar nos vossos cadaveres aquillo que lhe podeis dar:--a cada minuto um átomo de seiva, tirado á tépida fermentação da vosa carne, outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe.

Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á extincção da minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo, enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do cemiterio da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho d'este ultimo capricho realisado.

Teria, como vós, o supremo _requiem_ dos trillos dos passaros, do farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas longinquas regiões do Madeira e dos murmurosos beijos do gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós, lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos prantos pluviaes.

Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores do cemiterio da floresta!

Rio Madeira, abril.

UM ANNIVERSARIO

UM ANNIVERSARIO

Á memoria de minhã irmã A meu irmão.

Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais querida e amoravel das mães.

Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as largas pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem Assoalhada, vibrante de esplendor, fremente de canções d'aves silvestres. Ao contrario, tudo me parece melancholico, monotono, quasi hostil, porque recebo as impressões externas atravez dos meus sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas dôres excitadas pela inapagavel recordação da morte de minha mãe!

*

Ha d'estas originalidades no fragil espirito humano: diz alegres os dias pluviosos, encontra-lhes graça, apraz-se em aspirar humidade na meia-sombra dos nevoeiros,--se algum prazer abala-o jubiloso; entretanto, encara indifferente ou raivoso as glorias da natureza; não tem um olhar para as galas triumphaes do espaço azul rutilante, acolchoado d'alvas nuvens pannejadas harmonicamente; enfastia-se e agasta-se até com a passiva tranquilidade das coisas, com o chilrear dos passarinhos,--quando algum desgosto lateja-lhe no coração encarquilhado ao peso das grandes dores supremas!

*

Estou a recordar-me das funebres e tremendas peripecias d'aquella inolvidavel tarde de 21 de abril, ha seis annos.

Uma pequenina alcova de matrona,--grave aposento destituido de luxo banal, apenas confortavel. Ao lado d'um guarda-vestidos, pesado e bom, uma mesa coberta de frascos de medicamentos com etiquetas multicôres, borradas de receitas pretenciosamente escriptas em termos barbaros, chocantes de ouvir, indicando venenos medidos aos millesimos, com mysterio.

Ao fundo, uma cama austera, toda branca em seus lençóes e colchas, sob os quaes desenhava-se um corpo longo, pouco amplo, de que apenas via-se, repoisada em grandes travesseiras alvas, uma cabeça de mulher, encaixilhada em bastos cabellos negros, lustrosos, apenas aqui e ali, de longe em longe, irisados de fios brancos que desprendiam o brilho metallico da prata polida.

Os olhos, semi cerrados, fitavam um ponto unico da parede fronteira, onde um pequeno raio de sol, atravessando o arco de uma janella da sala, fixava-se insistente, como receioso de desapparecer além, atraz das casas da praça, ou desejoso de não abandonar, no meio-tom confuso d'um crepusculo precoce, aquelle quarto mortuario, em que estava para começar uma agonia. O olhar de minha mãe persistia fito no luminoso circulosinho, que accendia de amarello a brancura da parede nua.

Quem sabe o que vém os moribundos nos seus derradeiros momentos lúcidos? Que visões obsidiam-lhes os ultimos, instantes, subjugando-lhes o espirito já tão enfraquecido, dominando-os poderosamente? Vêm pela ultima vez o goso de alguma ventura occulta, entristecem-se pela proxima separação do encanto da vida ou entrevem já o beatifico descanso interminavel que aguarda-os no pó da sepultura?

*

Quasi seis horas. Continuavam os olhos presos ao circulo luminoso, que subira mais, approximando-se do tecto, n'um deslisar de vida que se extingue suave.

Pelo rosto emaciado de minha mãe não corria sombra de soffrimento. As faces cavavam-se levemente, o nariz afilava-se, com a transparencia de cêra dos entes que vão morrer. Entreabertos, os labios deixavam passar a respiração com um offêjo ciciante e molesto, brandamente. Dir-se-ia dormitar a enferma, a não serem os olhos, agora um pouco mais abertos do que antes...

Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão contristada, transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé, encostada ao espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio, enxugava as incessantes lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se.

Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle resignado soffrimento que tão bem continha-se?

Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse rosto pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava, n'esses doces labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante o ardente halito que esfrolava-os, ja osculados pela morte!...

Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe brazileira,--quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o dulcíssimo affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra festiva da meninice descuidosa?

Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas raras em taças de cristal?...

Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira da nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido vulto,--heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade, de todos os boníssimos sentimentos,--que foi o nosso Pae?....

Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde equatorial pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,--_para sempre!_--o nosso mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!...

*

Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido pelos olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida periclitante. Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha amarella, breve transformada em sombra quasi imperceptivel. Depois, esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida. Desappareceu: começou a agonia na enferma.

É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates soffremos na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela lembrança de ir perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca mais poderá gosar-lhe do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa, oscular-lhe a fronte calma, as faces sorridentes com a immensa candura da virtude. Porém onde haverá mais requintado, mais vivo e agudo soffrer, do que na propria sensação que experimentamos da agonia do moribundo amado? Em que série de martyrios archi-excruciantes classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor, vibrante, que em nós erguem a comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de não podermos participar d'ellas, tomar para nós a maior porção, attenual-as um pouco, com o osculo das mãos acariciantes e com a ternura emolliente dos beijos ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos adeuses?...

Vinham-me ao espirito idéas estonteadoras, que levavam-me á meta da dôr. Ver soffrer a santa mulher que deu-me a vida, que tão feliz foi sempre em possuir nos braços enlaçantes os filhos queridos e amoraveis, era uma provação capaz de abalar-me a solidez da razão. E depois, ha sempre, á beira do tumulo de um ente que viveu em ligação intima comnosco, uma evocação, rapidíssima porém muito minuciosa, de todo o nosso passado.

E o meu passado... quão unido estava ao d'aquella moribunda, que em vão buscava, ao vaguear a vista já vidrada pelo aposento, o raio de sol que viera despedil-a da vida, dar-lhe á alma, por um momento, na hora extrema, a claridade immaculavel que ella sempre teve na consciencia, na honra!

Vi-me creança, buliçoso e festivo, sem um desprazer além do provocado pelas privações dos brinquedos. Vi-me em todas as situações da existencia, em todas as phases d'uma juventude agitada, em todas as peripecias das nossas viagens, das nossas diversões, dos nossos gosos. Em toda a parte, de qualquer modo que manejasse aquellas scenas retrospectivas, ella apparecia-me sempre como o misericordioso interprete dos meus votos de felicidade, o meu anjo tutellar, o amparo inilludivel da minha inexperiencia, o meu aconselhador ajuizado como todas as boas mães.

Quanta saudade, quanta, do meu passado extincto!...

*

Alguém tinha ido á egreja proxima,--a dez passos d'ali, no lado opposto do largo,--pedir o soccorro da religião e um levita acudiu, balbuciando preces indistinctas, a ungir quem ia morrer.

A apparição d'um sacerdote que traz o extremo sacramento a um enfermo apavora sempre. Ante similhante visita, eu e meu irmão principiamos de novo a chorar,--nós que pensavamos já ter exgottado as lágrymas, tão abundante fôra, desde trez dias, o nosso pranto.

Retirando-se o padre,--sempre murmurando orações em latim,--a agonia augmentou. Vizinhos tinham acudido, serviçaes e bisbilhoteiros. Causaram-me raiva, quasi molesto-os com uma demonstração mais evidente do meu enfado pela sua presença, quando desejara, a sós com os meus, receber o derradeiro alento da querida alma adoravel.

Porque ha de prender-nos a educação n'um circulo igneo, impondo-nos dominio, heroicos fingimentos, até nos mais tremendos instantes da vida?...

Soluços mais rapidos de minha irmã fizeram-me esquecer esta série de reflexões, voltaram-me para o leito onde estertorava já a doce companheira da minha innocencia.

Acabei de comprehender este redobramento de chôro, vendo acercar-se alguém com uma véla accesa, que foi posta entre as mãos afusadas e lividas da moribunda.

Minha mae ia morrer! Oh dilacerante, immensa dôr trazida por esta convicção!

Lancei-me de chôfre a beijar-lhe a fronte camarinhada de suor, os cabellos sedosos, negros como a afflicção de minha alma, as faces encovadas, os labios crispados, álgidos, por entre os quaes esgueirava-se um lancinante estertor crescente, que dizia demasiado a aproximação do momento fatal... Allucinado, pensei que a minha vitalidade, a minha florida juventude poderia reanimar, devolver á vida aquelle espirito immensamente amado e em vão tentava aquecer-lhe o involucro com o ardentíssimo, impotente contacto dos meus beijos filiaes!

Mas, de subito, houve uma cessação na agonia... Estarreci... Iria minha alma incrédula defrontar um milagre?... Oh! Deus era bom, Deus existia então, além da lenda biblica!... O rosto de minha mãe serenara, conservando, todavia, uma expressão retrahida, grave, como quem escuta a voz interior d'uma interessante evocação da existencia inteira.

Os cilios palpitaram longos, n'uma projecção calma de sombra nas faces. Brilharam os olhos, tranquillos de expressão e, vagaroso, subiu o olhar para o sitio onde cravara-se antes o raio de sol extincto agora.

Logo, porém, desceu, afim de erguer-se ainda, para minha irmã, para meu irmão, para mim... Demorou-se fito em minhas pupillas lacrymantes esse inolvidavel olhar, tão sereno como a tranquillidade da sua alma sem mácula, translucido n'uma expressão de quem medira o alcance do grande minuto final.

Quem poderá estereotypar o ultimo olhar das mães aos filhos extremecidos?

Attonito, baixei-me a receber o afago d'esse olhar tão expressivo como um beijo mudo. O milagre providencial ia operar-se, de certo. Eu abençoava já o eterno Bemfeitor da humanidade... ingênuo no egoismo do meu almejo.

Os labios, no entanto, descerraram-se. E, emquanto os olhos, um nada mais vitreos, vagavam sobre os trez rostos dos filhos surprezos, transidos de admiração e esperança, aquella bôcca lívida moveu-se no balbucio inextrincavel d'uma phrase indistincta que, certo, era uma prece, um conselho bom, uma benção, um adeus!

E os olhos fecharam-se, no mesmo calmo palpitar dos longos cilios, os labios contrahiram-se á passagem d'um suspiro mais longo,--um soluço dolentíssimo,--e a cabeça pendeu á direita, buscando o meu primeiro beijo a um cadaver amado, quente do ultimo esforço para dizer-nos com a vista a intensidade insondavel do seu carinhoso affecto!

*

Ha seis annos passou o horrendo transe que prostrou-me louco sobre os despojos funebres da mais santa e querida das Mães.

Dura sempre a dôr d'um filho amantíssimo? Creio bem que sim. Investigando a incalculavel profundez dos meus pezares, cotejando as impressões de hoje com as do anno passado, com as do outro anno, do outro e do dia em que estalou sobre mim a grande fatalidade, verifico a persistencia da mesma dôr molesta, intima, enorme, saudosamente triste, que levanta-me no espirito uma raiva contra a gloriosa expansão d'esta manhã rutilante e contra o gorgeio sonoro das aves, que estão, agora mesmo, a lembrar-me os doces cantos simples da infancia, quando, todo prazer e venturas, meu coração acolhia-se no tépido sacrario de affectos e caricias que era para mim o colo amigo e protector da mais amoravel de todas as mães!

Onde estão os meus deliciosos sorrisos infantis de outr'ora?...

Rio Madeira, 21 de abril.

SEGUNDA PARTE

OBJECTIVISMO

A pesca do Deodato

A pesca do Deodato

Ao Sr. J. T. Lobato de Castro

O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, afim de salvar a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ageitando no longo taquary pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legitimo do Acará, proseguiu:

--É como lhes digo. A desobediencia aos preceitos da egreja traz sempre após si a necessaria e indefectivel punição. Bem o affirma o ditado:--Deus castiga sem pau nem pedra. É certo que, quasi sempre, a consequencia lógica da culpa atraza-se tanto, que o peccador impenitente prolonga uma existencia criminosa no meio da mais impassivel tranquillidade, como se possivel fôsse á justiça do ceu esquecer. Muitas vezes, porém, a pena succede-se á culpa sem notavel intermissão e, em todo o caso, o espirito prudente só tem novo ensejo para arrenegar do instincto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da sabedoria celestial.

Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, d'um modo quasi severo, o auditorio resumido e conspicuo: o Antonio Narceja, portuguez enriquecido n'um barracão á entrada do furo do Pagé; o Dr. Polycarpo Varella, juiz de direito, cuja recente remoção para Salinas filiava-se a memoraveis façanhas eleitoraes, nos confins do Paraná, ao expirar a situação conservadora, havia poucos mezes e Felix Jacaré, um cabôclo muito republicano, sapateiro de officio, avô do pequenito que dormitava-lhe ao cólo, esgaravatando machinalmente o nariz com o dedo titubeante, a cara suja, os labios breiados de assahy, como breiado estava o peito do camisão de riscadinho azul e branco.

Bateram nove horas n'um relogio pendente da parede caiada. Fóra, bramia o mar. Pela janella aberta entravam, com a brisa, exhalações salinas e esse borborinho confuso e melancholico das noites em plena roça. No tecto de vigamento visivel, trilavam grilos. E, por intercadencias, a luz do candieiro de porcelana pestanejava de leve, como se também por ella passasse o arripio mysterioso das coisas tragicas que ali se falava ou se o apavorasse o tom soturno das considerações philosophicas do tenente-coronel Fernandes.

--Tem muita razão, acudiu Antonio Narceja, offerecendo obsequiosamente um phosphoro acceso ao Dr. Varella, que sacára um cigarro de tauary.

--Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espirito de contradição era conhecido na villa.

--Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno.

Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ageitando-se na rede, emquanto os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou.

*

Ha coisa de uns 25 ou 30 annos, vivia no Magoary um preto corpulento e encanecido, cuja edade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza conhecia como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade.

Methodico, não passava um dia sem ir á pesca; afortunado, não atirava a tarrafinha sem depois puxal-a repleta de peixes! Era um assombro, um gosto admiral-o em acção! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que fôsse o estado do tempo, era infallivel encontral-o todas as noites, pelas duas horas, descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a canôa e logo fazer-se ao largo.

E que saúde de ferro tinha elle! Jamais conhecera um incommodo, uma dôr de cabeça! Rijo como o acapú, afrontava os temporaes com a impavidez do fatalista. E pela madrugada, quem saisse á praia, não deixaria de descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz intercadente da canôa do Deodato.

Era rendoso o officio. Quando voltava á casa, depois do nascer do sol, o pescador trazía atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na arte da salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores offertas do que o dos demais pescadores da costa do Magoary, quando os procuravam os compradores que iam revender em Belém.

Mas tinha um defeito o Deodato:--era um impio. Deveria possuir a alma egual á cutis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente de todos os mysterios da religião e de todos os actos do culto catholico.

Em balde buscara algumas vezes o padre Simplicio--conheceram?--trazei-o á reflexão e demovel-o ao respeito pelo Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante, possuia phrases curiosas, sophismas fustigantes, objecções irrespondiveis, para combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inutil. Não havia razão que o impedisse de ir á pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer outro de trabalho.

--Você ha de acabar mal,--avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo.

--Milhor p'ra mim,--retorquia o hereje, sarcastico.

*

Ora, uma tarde, era vespera de não sei que dia santo grande. Creio que a Egreja rendia culto á Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia um calor enorme. O ceu estava claro, limpo, muito azul e tranquillo, como tranquillo estava o mar. Na praia arenosa, as ondas vinham desdobrar-se preguiçosamente, n'uma languidez ineffavel. Mas, ali perto, nos mattos, estalavam os galhos, causticados pelo sol. E muito ao longe, na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo avistados a olhos nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser barcas de pesca paralysadas á mingua de brisa.

No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu.

Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno rictus á commissura dos labios e lhe encrespava levemente a retinta fronte. Maior trabalho seria o seu, pois far-se-ia necessario o remar por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á mercê dos desejos humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando sempre.

Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato:

--Póde-se entrar?

Era o padre Simplicio.

Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado trabalho.

A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza.

--Não faça isso, homem de Deus; olhe que a festa é da padroeira da cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará a falta de respeito...

--Ella bem que s'importa co'a minha vida!--respondeu o preto, com um encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o fastio que as suas observações lhe causavam.

--E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em vez de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser attendido...

Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla polpa dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção profunda, com um tom sarcastico e decidido:

--Eu ia mesmo, sim, senhor!...

Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas eternas que o demovessem. O negro era teimoso. Retirou-se o padre amuado, quasi colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio da escuridão do caminho, tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo coaxar de rãs, nos lameiros.

*

Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do padréca que tratasse dos seus negocios. E esta!

Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada e logo atirou-se á rede, vencido pelo somno.

Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario, teria tempo de reflectir nas observações do sacerdote e quiçá algum sonho o prevenisse da sorte que aguardava a sua irreligiosidade. Mas o infeliz dormiu como uma pedra até que os gallos das roças proximas soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada, despertando-o.

Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia.

Trilavam grilos, como n'este momento em que lhes falo. Na noite calma, rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas cabecinhas irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do mattagal. Coaxavam sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam com enthusiasmo. E, ao longe, dominando esses mil arruidos da noite, vibrava ainda o cantar dos gallos, com um não sei que de profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada.

Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro de brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo mesmo.