Chapter 1
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OBRAS DE MARQUES DE CARVALHO
VII
ENTRE AS NYMPHEAS
DO MESMO AUCTOR
O SONHO DO MONARCHA Opusculo LAVAS Opusculo PAULINO DE BRITO Opusculo HORTENCIA 1 volume O LIVRO DE JUDITH 1 volume CONTOS PARAENSES 1 volume
J. MARQUES DE CARVALHO
ENTRE AS NYMPHEAS
BUENOS AIRES Arnoldo Moen,--editor Calle Florida N.º 314 1896
PRIMEIRA PARTE
SUBJECTIVISMO
A minha esposa
_Esta parte do volume é intima, subjectiva._
_Suas paginas constituem o trabalho d'um artista apaixonado e d'um homem de coração, durante uma viagem entre as nympheas, na região dos nenuphares e da Victoria Regia, pelos rios Amazonas, Negro e Madeira, ha seis annos._
_O labutar objectivo do auctor em busca da expressão naturalista da arte encontra aqui uma occasião de pausa roborante, emquanto fala a alma, na livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que possue._
_Eu devia esta homenagem ao amparo dos meus desanimos, ao jubilo dos meus dias prazenteiros,--á insubstituivel companheira a quem dedico esta metade do volume. Doze annos de intensíssimo affecto necessitavam de uma commemoração._
Buenos Aires, 1895.
Marques de Carvalho.
O ISOLAMENTO
O ISOLAMENTO
A Coelho Netto
I
Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã.
Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a receber em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia sacudir valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto.
Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.
Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma azinhaga. Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que despertam,--bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na roça,--um como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as innumeras legiões canoras do Amazonas.
Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro. Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma bella clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos rumorejos, agitando as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás vezes, absoluta a tranquillidade das coisas. Por intermittencias, nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso, farfalhante correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos sobresaltos nas florestas do meu paiz.
Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como um luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda tempestade derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa disposição dos estôfos valiosos, esse gigante vencido offerecia-me commodo assento rustico. Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me bem, sentindo-me feliz, estava longe da fatiga. Por insensivel movimento de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe o pé no dorso, vencedoramente.
Na mesma occasião, porém, penetrou-me o pavor: uma grande ave, um inhambú graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de sob o tronco abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo ruflar d'azas com indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente escarninhas.
II
Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos.
No entanto, o ceu fôra devassado pelo hilariante clarão com que este bemdito sol da minha terra doira todas as coisas, em sua munificencia de soberano insupplantavel. Por toda a parte, só uma coisa via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade que penetra tudo, que dá aos objectos uma apparencia de alegria, d'intenso jubilo paradisiaco!
Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que aquella, compromettida a fazer a larga harmonia da alígera volata.
A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de velludo esmeraldino, illuminado d'uma orgia de raios, vibrante da deliciosa bacchanal dos passarinhos.
Minha alma dilatava-se mais no goso, até ali inexperimentado, de tamanha quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade.
O isolamento! Quanta paz na situação que esta phrase traduz! Que suaves delicias que meigo langôr frue o espirito no socego completo, divorciado dos cuidados da vida commum, senhor emfim de sondar a consciencia propria, com a qual anda, ás vezes, semanas inteiras sem ter um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular com ella, extremado dos sêres banaes e falsos que formam a nossa róda habitual!
Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silencio, nos quaes a alma fala comsigo propria, dizendo coisas ha muito sentidas e que, entretanto, parecem-lhe,--quando examinadas,--extranhas novidades jamais ouvidas?
Lembro-me agora da attenta concentração em que surprehendo, algumas vezes, no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a todo instante crystallinas fiorituras sonoras. Dir-se-ia monologarem, resolvendo ponderoso assumpto, tal a profunda gravidade com que pendem a cabecinha, como recolhidos ao mais intimo de si mesmos.
Conheci um canario ao qual este genero de melancolia era habitual. Valente cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que desferia os seus bellíssimos gorgeios, valia a pena vel-o, quando espanejava-se ao sol, muito arripiado e gracioso, revolvendo com o bico, em rápida immersão, a agua do pequenino tanque de crystal da gaiola doirada onde vivia.
Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se que empenhava-se em fazer um impossivel, ou que pretendia matar-se n'um excesso melodico e genial, superior ás forças de seu mesquinho sêr de passarito delicado!
Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se, interrompendo os elegantes pulinhos e, immovel na travéssa principal, ficava ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro lado, com uma sériedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e leviano, não ponderasse no mysterio d'aquelle inesperado recolhimento em que uma alma sonhadora e romantica parecia despertar n'elle com intercadencias fataes.
Terão também os passaros o prazer do soliloquio, a volupia da meditação? Terão também a percepção dos gosos inebriantes que provém da certeza de estarmos sós,--absolutamente sós, que ventura!--emfim libertados da tyrannia das convenções, capazes de desafivelar a mascara que atam-nos á face os respeitos mundanos?...
Bem quizera crêr na existencia, n'elles, de um poder de reflexão, pois d'outro modo não sei explicar aquella postura tão extranha, aquelle ar philosopho, essa expressão quasi humana,--tão humana, que surprehende!
É que, de certo, sentem o valor do socego, da paz completa, do tranquillizador influxo da solidão, cujos ineffaveis encantos fascinam, penetram o organismo d'uma tepidez emolliente, dão este balsamo incomparavel:--a alegria de viver!
E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do espaço, os habitantes da matta, onde é de todo sensivel o poder do isolamento, d'esta situação, que póde ser considerada egoista e destruidora, porém que o meu espirito acaba de começar a comprehender, a reverenciar, a amar com descompassados enthusiasmos, porque vae-lhe perscrutando os largos arcanos de poesia e alento philosophico, o vigor que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjectivo, no conhecimento do _eu_, a desillusão a que arrasta-nos em relação ás pequenas miserias odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos civilizados?...
Gloria ao isolamento! Bemdita sejas, ó grande floresta amazonica, osculada pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da passarada chilreante, rica de estranhos mysterios e de mysteriosas riquezas inestimaveis!
GAIVOTAS
GAIVOTAS
I
Um bando de gaivotas, aos pares amoravelmente aproximados, ergueu o vôo do mattagal e, cortando o espaço por de sobre o borbulhante estirão do rio, veiu seguindo o vapor, a poucos metros de distancia da pôpa, ora alteando-se á ponta do mastro, ora descendo rapido, de olhar incisivo e lesto bico, até esfrolar levemente a agua com as cendradas pennas da aza desfraldada.
O marulho da agua parecia excital-as, espicaçar-lhes a actividade em céleres convites de festiva digressão a ignotas paragens, onde o ceu fosse azul,--muito azul,--e a verdura das ilhas tivesse os tenros e alegres tons que apresentavam os aningaes das margens defronte das quaes passavamos n'aquelle instante.
Revoavam jubilosamente, as gaivotas, aproximavam-se do vapor, descrevendo elegantes circulos, n'uma palpitação d'azas similhante ao ruflar do leque entre os dedos d'uma bella mulher, quando impéra, deslumbrante de graça, nos salões selectos. Vinham, parecia quererem invadir a coberta, participar da ruidosa vida que sobre ella apresentavam os passageiros, reunidos em intimas palestras.
Sentado á pôpa, eu silenciosamente fitava aquelles aquaticos viageiros ignorados. Seguia-lhes os caprichosos folguedos sob a limpidez do ceu, com o olhar perdido traz elles, emprestando-lhes idéas, dando a mim proprio as razões d'esse livre gaudio perante a pompa triumphal da tarde moribunda.
Formavam as margens visiveis do rio largas ilhas meio submersas, de que apenas se viam emergindo da agua,--como braços erguidos para o espaço n'um enthusiasmo viril de canticos de louvor,--milhares d'arvores variadíssimas, esparzindo perfumes resinosos e estalando as cascas sob a demasiada affluencia das tepidas seivas vivificadoras. Como grandes açafates de caprichosas fórmas espalhados por toda a latíssima extensão do rio, essas ilhas balouçavam as farfalhantes cômas glaucas, onde os pássaros, papeando, entreteciam previdentes os diminutos ninhos e a robustez dos merityzeiros erguia pendentes os pesados cachos de fructos granadinos.
Pelas margens, começavam a acordar os innominados animaes noctivagos e um arruido extranho, abafado, levantava-se em surdina sob o machucamento das folhagens ondulantes.
E a tarde morria a pouco e pouco.
Depois, ao fundo da paizagem, recortaram-se escuras, encobrindo o sol, as longas montanhas sobre as quaes está erecta Monte-Alegre.
Um dos mais bellos crepusculos vespertinos começou então.
Quadro verdadeiramente formoso! O ceu, entestando com essas montanhas, apresentava todas as tonalidades do iris, n'uma pujança complexa de matizes prismaticos, e o sol,--como apertado entre ellas e a brunida cupula sideral,--disseminava pelo espaço crystalino feixes de raios luminosos em gigántea expansão que lembrava uma aurora boreal, um enorme clarão d'apothéose empyrea.
Pelo nascente, subiam gradativas trevas, como poderosíssimo senhor que sae a combate sem precipitações, na sua convicção d'inilludivel victoria.
Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella da tarde,--esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida amiga,--scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel saudade, entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio, rendilhando-se no azul ferrete do firmamento.
As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,--emquanto o meu olhar, da pôpa do navio, parecia desejar attraíl-as poderoso,--grasnaram freneticas e, de subito, descrevendo rapido circulo elegantíssimo, regressaram á terra d'onde tinham partido e fugiram veloces, n'uma actividade de movimentação d'azas perdendo-se ao longe, na meia escuridade do crepusculo.
Fiquei sosinho á ré, a fital-as...--a fital-as, oh! não!--a mirar o ponto do aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres, que tanto me tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus largos circulos graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças sobre as gorgolejantes aguas amazonicas.
II
Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando, levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as candidas inflorescencias do meu amor.
Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que idolátro na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande patria digna das maiores dedicações.
Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas, separado de vossos enlevadores affagos, ó queridos entes cuja ternura deslaça-me a vida em loiras espadanas de luz puríssima e gentil! Sigo meditabundo, sem receber na alma entenebrecida um raio do vosso olhar,--um só raio que me illuminasse o peito, para pôr em relevo dentro d'elle toda a somma de santos sentimentos para vós,--sómente para vós--guardados alí!
A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina dolente que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado pela afflicção das saudades.
Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem rebôa agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco pelo ceu do meu espirito certo par de estrellinhas annejas,--que são os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes da vida minha.
E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze rápida no tenebroso velludo dos aningaes da beira.
A solidão augmenta-me os pezares, quando a hora do crepusculo da tarde vem descaíndo vaga pela terra, deslisando do inflexivel pendulo do tempo com a dura impassibilidade d'uma desgraça tremenda.
Gaivotas, alegrias do rio! Alegrias, gaivotas do pélago da minha vida! Porque fugís tão velozes, sem vos deixardes agarrar por estas mãos, que vagam sem um apoio amoroso, sem vos deixardes aprisionar n'este peito, fremente de meigas paixões santíssimas?
Rio Madeira, abril.
O Naufragio do Purus
O Naufragio do Purus
A H. Inglez de Souza
I
Este é o sitio em que, ha vinte annos quasi, afundou-se o _Purús_, arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadaveres colhidos de surpreza.
O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memoria do luctulento successo, rola silencioso as suas aguas, cobre-se eternamente com o intenso crepe, accentuado e mesto, do vasto rio Negro.
Têm as margens a apparencia de um recinto de funeral: socegadas e desertas, monotonisam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas ramalhudas verduras densíssimas.
Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante.
No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a risonha alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma imagemzinha da Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a reverenciar com o contemplativo respeito das creanças absôrtas!
Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante embarcação aventureira.
Um pensamento de saudade assalta-me o espirito, agora que deslisei rápido por cima do líquido sapulchro de tantos infelizes.
Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações da primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época, o pasmoso entrécho do hórrido espectaculo.
Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da noite, bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu impassivel, amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das grandes afflições.
A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle pégo, quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de esforços, conseguirão alcançar a margem anhelada; a mór parte, porém, certo fraquejará impotente na violencia das aguas e rolará inanimada aos profundos antros dos caimões!
N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas aguas em sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem haver tempo de reconhecer o perigo por que passa com os seus,--com os parentes affectuosos e com o infeliz marido, o commandante austero, de quem separa-a, sem transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever.
E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e ama de muitos d'aquelles naufragos. É a heroica exploradora d'uma parte do rio Madeira, a veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e de honestíssimas mulheres,--a idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura que deu-me luz aos olhos e piedosos sentimentos ao coração!
II
Comprehendo agora perfeitamente a dôr que rasgou-te os puros seios d'alma, querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido successo.
Creança quasi irresponsavel, eu não tinha a percepção completa d'aquelles affligidíssimos desespêros em que te lançaste, com os olhos amarados de lágrymas adamantinas.
Entrei a brincar-te com os longos cabellos pretos, minha adoravel amiga, e um beijo tão sincero como a tua dôr deposeram-te na fronte ensombreada meus labios deslaçados em simples phrases sem valor.
Hoje, porém, ó Mãe, avalío com justeza a afflicção que em ti causou tão deshumano flagicio da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes e lamentosas.
Choravas, inconsolavel e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe.
Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dôr que, ha seis annos, confrange-a impiedosa, minuto a minuto, persistentemente, tantas são as vezes que de ti me lembro, inolvidavel mulher que foste a guia da minha infancia e a amiga insubstituivel da minha adolescencia!
Rio Amazonas--Rio Negro.
Brinde a minha Filha
Brinde a minha filha
Hoje é o dia do teu primeiro anniversario, querida filha.
És pequenina de mais, tens o espirito ainda cerrado á comprehensão exterior das cousas, para poderes penetrar o jubilo immenso de que devo estar saturado por esse acontecimento, sobre a vastidão d'esta valente arteria amazonica, ao tempo que as perspectivas das verdes paizagens apraziveis se vão succedendo gradativamente, n'uma suavidade que deslisa tranquilla a meus olhos enlevados nas florituras das folhagens ramalhudas.
Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus olhos e a tua alma,--sobretudo á tua alma, querido amor! Intima força propelle-me a esta communicação silenciosa dos nossos dois espiritos,--o meu ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescencias da edade madura e o teu velado ainda á vida do espirito, aos sentimentos santos, pequenino botão de bogary transcendental, que nem sequer pensa em desabotoar as cerradas corollas aos largos folguedos d'uma existencia feliz!
E porque não falar-te hoje?
Quem sabe o que o dia de amanhã,--soturno cairel dos arcanos do tempo,--não guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro?
A distancia que entre nós presentemente existe não é motivo bastante forte para recusar-me ao desejo de escrever estas palavras simples, destinadas á perfeita simplicidade do teu espirito.... d'aqui a meia duzia d'annos, quando estejas no caso de entendel-as, meu amôr.
Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cerebro, hoje que um anno se completa que pela vez primeira te vi, rosada e pequenina, quasi imperceptivel átomo-flôr d' uma existencia tão almejada e bemdita pelo meu espirito milhares de vezes rejubilado!
Como estuava-me o coração, alargado em seus ambitos pelo prazer, todo aberto ás santas paixões amoraveis de quem começa a gosar as grandes, as mellifluas, as inebriantes sensações vitaes da paternidade! Com que ternura immensa não te fitavam meus olhos, rasos d'agua, abertos como n'um sorriso, revendo a tua pequenina imagem atravez da nervosa palpitação imperceptivel dos cílios orvalhados das puras lágrymas do contentamento!
Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentaes produzia-se-me no espirito, em luzida cohorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me pequeno demais para creal-os, bastante insignificante para soletrar tramando de emoção todo aquelle mirífico alphabeto enorme da mais santa das paixões.
Era a completa alegria que manifestava-se d'ess'arte em minha alma, porque pela primeira vez te via deante de mim, envolta em candidas faixas, ao collo de tua mãe, que desabrochava o rosto n'um sorriso meio doloroso e quasi todo espiritualisado já, como n'um altar immaculado, erguido á tua innocencia pela ternura da Mulher que te deu á luz, regenerada da culpa da especie pelo immanente martyrio da maternidade!
Hoje, que taes factos completam um anno, dia a dia, os mesmos sentimentos revoam-me festivos pelo espirito, com egual força de vitalidade.
Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu pae, emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil votos pela tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude, pela tua angelica pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude de esposa.
É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas.
Não importa! Servirão para lembrar-te que possuiste um pae amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos todos da sua vida e, por certo, ainda mesmo o pensamento final da hora derradeira!
Rio Madeira, abril.
O cemiterio da floresta
O cemiterio da floresta
Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante inesperado espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e arrasta-me tremula a mão, na tarefa de consignal-o no papel.
Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração sentiu n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.
Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa clareira era um cemiterio, um pequeno campo santo solitario e melancholico,--sympathico todavia,--salpicado de cruzes toscas e negras!
A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. Ninguém parecia attentar n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a tripudiante passarada das mattas volitava cheia de inconsciencia, garridamente estrepitosa e jovial.
Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata fundida.
E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo, fechando o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia entoar a langorosa monotonia d'uma surdina risonha do prazer, sacudida em amplas vibrações de volupia.
Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos sonhos acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a força objectiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do mundo externo, nada comprehendem do que vem, porque só o cerebro trabalha dentro da materia e o seu meio de acção anniquila-se perante o vigor do espirito.
De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos homens, entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções pungentes, restituidos á obscuridade do nada para sempre, para sempre furtados á ultima recordação marmorea que lhes lembrasse o nome na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?
Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a leve camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus cadaveres meio decompostos?