Part 6
P.--Vou escrever o nome d'essa qualidade no quadro preto (Escreve). Dizei-me, meus meninos, se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, á qual a borracha se assemelhe não só na côr, mas principalmente na grossura, na consistencia, na impressão que nos faz, quando a apertâmos e revolvemos entre os dedos.
E.--Assemelha-se ao couro.
P.--Muito bem. O que provavelmente não sabeis é como se nomeiam as substancias analogas ao couro.
E.--Não sabemos.
P.--Dizem se _co-ri-a-ce-as_. Repetí pausadamente esta palavra.
E.--_Co-ri-a-ce-as_.
P.--Menino B...; vejo que estaes passando as cabeças dos dedos por cima d'esse bocado de borracha, e esse acto tão simples accordou-me o desejo de vos fazer uma pergunta. Quando passâmos a mão, ou sómente as cabeças dos dedos por cima de diversos corpos, sentimos a mesma impressão?
E.--Não, senhor; umas vezes é agradavel a impressão, que sentimos; outras vezes, desagradavel.
P.--Podereis dar-me exemplo de uma e outra?
E.--Correndo a mão por cima de um panno de lã grosseiro, ou por uma taboa, que não esteja aplanada, sinto impressão desagradavel; correndo-a por sobre uma folha de papel de peso, ou por um vidro bem polido, tenho uma impressão agradavel.
P.--Sabeis que nome se dá aos corpos, quando a sua superficie é como a do panno de lã grosseiro, e da taboa não aplanada?
E.--Diz-se que são _asperos_.
P.--E quando a superficie dos corpos é como a do papel fino, ou de peso, e a do vidro?
E.--Diz-se que são _lisos_, ou _macios_.
P.--A borracha é aspera, ou macia?
E.--É _macia_.
P.--Ficâmos pois, sabendo, que a borracha é _opaca_, _elastica_, _inflammavel_, _negra_, _coriacea_, e _macia_. Mais uma pergunta, e dâmos por terminada a nossa palestra.
Tem a borracha algum prestimo?
E.--Serve para apagar os traços, que o lapis deixou no papel, para fazer pélas e outros objectos.
SEXTA LIÇÃO
COURO
Nesta lição pretende o professor Mayo dar aos meninos idéa das seguintes propriedades, ainda por elles não estudadas: _flexibilidade_, _cheiro_, _impermeabilidade á agua_; e recordar-lhes algumas, já estudadas a proposito da borracha.
P.--Tomae, meus meninos, este corpo (Dando-lhes ás mãos um bocado de couro), examinae-o, e dizei-me se sabeis o que é?[15]
E.--É um pedaço de couro.
P.--Recordae-vos do que dissemos hontem a respeito da borracha, e dizei-me se o couro tem com ella alguma parecença.
E.--Tem, sim, senhor; e bastante.
P.--Muito prazer me darieis se fizesseis favor[16] de me dizer porque se parecem esses dois corpos, que em realidade são mui differentes.
E.--Dissemos que se parecem, porque ambos são _opacos_, _coriaceos_ e _macios_.
P.--E não vos enganastes; mas o couro tem outras qualidades, que podereis descobrir, se o observardes com attenção.
E.--(Hesitam, e ficam-se a olhar para o professor).
P.--Se os olhos me não illudem, todos vós tendes nariz; ora, pois, servi-vos d'elle, consultae-o.
E.--(Cheirando o couro). Tem _cheiro_.
P.--Assim é. Menino C..., dizei-me se todos os corpos tem cheiro?
E.--Não, senhor; o vidro, e a louça, não tem cheiro.
P.--Lembra-vos alguma substancia, que tenha cheiro?
E.--Lembram-nos muitas: o chá, o café, a manteiga, o vinagre.
P.--Quando uma substancia exhala cheiro proprio, como diremos que é?
E.--_Cheirosa._
P.--_Cheirosas_ dizemos as que tem cheiro proprio ou alheio. Por exemplo: se deitarmos no lenço de assoar algum arôma, tal como agua de Colonia, ou almiscar, ficará o lenço _cheiroso_; não obstante não ter cheiro seu, proprio. Se porém uma substancia é dotada de cheiro, bom ou mau, como o chá ou o petroleo, melhor lhe chamaremos: _odorifera_.
E.--Pelo que dizeis, o couro é _odorifero_.
P.--De certo. Digam todos em côro esse nome.
E.--_O-do-ri-fe-ro._
P.--Continuemos a examinar o couro. Além, está o menino F... a dobrar aquelle pedaço, provavelmente para vêr se o póde partir em dois. Vejamos o que elle nos diz da sua experiencia.
E.--Dobra-se, mas não se parte.
P.--E acontece o mesmo a todos os corpos?
E.--Não, senhor; ha bem pouco tempo parti eu uma regoa de madeira, por querer dobral-a.
P.--Qual será a palavra com que possâmos representar a qualidade, que tem o couro, de se dobrar sem se partir?
E.--(Silencio.)
P.--Pensae no caso, e lembrae-vos de que ha palavras parecidas umas com as outras, ou parentas. Por exemplo: bondade e bom; maldade e mau; aquentar e quente; rasgar e rasgado.
E.--Já sabemos, como deveremos chamar aos corpos, que se dobram facilmente, sem se quebrarem ou partirem.
P.--Que esperaes, para nos dar esse alegrão.
E.--Chamar-lhes-hemos _dobradiços_.
P.---Deram no vinte; mas eu sei outro nome, que quer dizer o mesmo, mas que é mais afidalgado, e por isso menos vulgar. Vou escrevel-o no quadro, e soletral-o-hão os que sabem ler. (Escreve no quadro preto, na columna onde estão indicadas as outras qualidades).
E.--(Em alta voz) _Fle-xi-vel_.
P.--Qual dos meninos é capaz de me dizer o nome da qualidade, ou propriedade em virtude da qual são _flexiveis_ alguns corpos?
E.--Deve chamar-se _flexibilidade_.
P.--Muito bem respondeu o menino G... Não se esqueçam os outros do que lhe ouviram, e fiquem sabendo que, quando qualquer corpo se dobra, como o couro, e como elle se não quebra ou rasga, é porque tem _flexibilidade_. Se não temesse cançal-os, ainda lhes havia de fazer mais perguntas a respeito d'este corpo, que pelos serviços, que nos presta, bem merece, que nos entretenhâmos com elle.[17]
E.--Podeis continuar, senhor professor, que não estâmos cançados.
P.--Já que assim o quereis, façâmos uma experiencia. Tomem quatro meninos este lenço pelas quatro pontas e estendam-n'o, mas não muito. Outro menino deite-lhe em cima uma pouca d'agua. (Os meninos executam o que o professor lhes manda). Que observaes?
E.--O lenço molha-se.
P.--E que mais acontece?
E.--A agua atravessa o lenço e cae no sobrado.
P.--Ponde agora este bocado de papel mata-borrão sobre o lenço, deitae-lhe por cima mais agua, e vêde o que succede.
E.--Molha-se tambem o papel e deixa passar a agua.
P.--Espremei o lenço, e dizei-me o que observaes.
E. (Espremendo o lenço)--Escorre a agua, que o lenço tinha em si, e este fica menos molhado.
P.--Fazei com este bocado de couro o que fizestes com o lenço; isto é, estendei-o horisontalmente, e deitae-lhe agua por cima.
E.--A agua não pode atravessar o couro; não cae no chão.
P.--Entornae a agua, e vêde se o couro ficou ensopado.
E.--Não ficou, não, senhor.
P.--Sabeis porque assim acontece?
E.--Não sabemos.
P.--Não se ensopa na agua, porque essa é uma das suas qualidades, ou propriedades. De um corpo, que a agua não atravessa, diremos que é _impermeavel_ á agua.
E.--Fazeis mercê de repetir esse nome, que não percebemos bem.
P.--Vou escrevel-o no quadro preto, para que o leiam, e repetil-o-hemos depois com muito vagar. (Escreve).
E.---_Im-per-me-a-vel._
P.--Relanceae os olhos pelos objectos, que estão n'esta aula, e dizei-me se haverá entre elles algum, que seja _impermeavel_ á agua.
E.--O vidro.
P.--Porque dizeis que é impermeavel á agua o vidro?
E.--Porque a agua não o atravessa.
P.--Podereis convencer-me com algum exemplo de que a agua não atravessa o vidro?
E.--Bastará olhar para esse cópo, que está cheio de agua, e que não a deixa sair atravez das suas paredes.
P.--Gostei muito da vossa resposta, que revela muito siso, e me prova que vos ides acostumando a comparar. E porque sois espertos e amigos de saber, vos perguntarei mais, se o barro de que é feita aquella bilha, que alem tenho, para me arrefecer a agua, tambem é impermeavel?
E.--Não sabemos.
P.--Se a examinarem attentamente, sabel-o-hão logo. Ora ide buscal-a para aqui.
E.--Esta bilha não é, como o couro e vidro, impermeavel.
P.--Dizei antes, o barro d'esta bilha, ou o barro, de que esta bilha é feita, não é _impermeavel_. Reparae, que uma cousa é o objecto, o movel, o corpo, que vemos, e outra cousa a materia, de que o objecto, o movel, ou o corpo é formado. Que é isto? (O professor mostra uma bola de cêra).
E.--É uma bola.
P.--Bola ou esphera; mas de que?
E.--De cêra.
P.--(Transformando a bola de cêra em um cilindro)--E isto, que é?
E.--Um rolo.
P.--Certamente; é um rolo ou cilindro; mas de que?
P.--De cêra.
P.--(Dando â cêra a forma cubica)--O rolo foi-se; isto, que é?
E.--Um dado de jogar.
P.--Vistes, que com a mesma materia, a _cêra,_ formei tres corpos: uma bola ou sphera; um rolo ou cilindro; e um dado de jogar ou cubo, os quaes eu poderia ter feito de tres materias differentes, por exemplo: de cêra, de barro e de madeira. Acostumae-vos pois, desde agora, a distinguir nos corpos a materia de que são feitos, da maneira porque ella está limitada, ou, o que vem a ser o mesmo, da sua configuração. Mas, tornando à _permeabilidade_ do barro d'esta bilha, desejo que me esclareçaes, dizendo-me o fundamento, que tendes, para asseverar, que é permeavel.
E.--Dissemos que não era impermeavel, porque, estando vazia, se conserva secca, e pouco depois de se lhe deitar agua humedece por fóra, provavelmente, porque a agua passa atravez de suas paredes.
P.--Assim é. Tende paciencia, meus meninos, de escutar mais uma pergunta com a qual porei termo á nossa palestra. Quizera me dissesseis se o couro serve para alguma cousa.
E.--Serve para capas de livros; para forrar bahus e malas; para fazer botas, sapatos, corrêas, luvas, sellins, e arreios para cavallos.
P.--Bravo! Quem respondeu com tanto acerto, tem direito a ir brincar.
SETIMA LIÇÃO
UM LIVRO
Examinando miudamente um livro, ficarão os estudantes conhecendo as differentes partes de que elle se compõe, seus nomes e usos; e adquirirão as primeiras e elementarissimas noções ácerca do papel, da typographia, e dos algarismos romanos e arabes.
* * * * *
P.--Meninos, como se chama isto? (O professor mostra aos estudantes um livro encadernado.)
E.--Chama-se _livro_.
P.--Todos vós tendes um livro?
E.--Temos, sim, senhor.
P.--Pegae, pois, nos vossos livros, e preparae-vos para uma palestra, que vos ha de ser muito agradavel.
E.--Vamos ler?
P.--Não, senhores; vamos conversar a respeito do livro, como conversámos ácerca do vidro, da borracha e do couro.
E.--Quereis que escrevâmos a palavra livro?
P.--Vá escrevel-a no quadro preto o menino H.
E.--(Escreve), _Li-vro_.
P.--Talvez não tenhaes notado, que assim como ha grupos de pessoas aparentadas, que constituem familias, e que mais ou menos se parecem umas com as outras; assim ha grupos de palavras tão similhantes, que se não póde desconhecer, que são muito chegadas entre si, e como que parentas.
E.--Ainda não tinhamos reparado em tal.
P.--Prestae attenção ao que eu vou escrever no quadro preto (O professor escreve umas por baixo das outras as palavras do exemplo, separando com o hyphen o radical de cada uma) _Pomb-o_, _pomb-a_, _pomb-inho_, _pomb-inha_, _pomb-al_, _pomb-alinho_.
Todas estas palavras formam uma familia[18].
_Cas-a_, _cas-inha_, _cas-ão_, _cas-arão_, _cas-eiro_, _ca-sal_, _cas-alinho_, _cas-aleiro_, _cas-aría_, _cas-ebre_ (Todos estes nomes sejam escriptos uns por baixo dos outros, ao lado dos nomes do primeiro exemplo, e mui claramente pronunciados á proporção que se forem escrevendo). Aqui tendes outra familia.
_Carr-o_, _carr-inho_, _carr-ete_, _carr-eta_, _carr-etilha_, _carr-ocim_, _carr-uagem_, _carr-oça_, _carr-oçada_, _carr-etão_, _carr-etada_, _carr-eteiro_, _carr-eto_, _carr-iagem_, _carr-icoche_, _carr-oceiro_, _carr-oçar_, _carr-il_, _carr-omato_. Outra familia e não pequena.
Se bem attenderdes, percebereis, que as palavras do primeiro grupo começam todas pelas lettras _pomb_; as do segundo pelas lettras _cas_; e as do terceiro pelas lettras _carr_.
As primeiras--_pomb_--representam a idéa--pombo; as segundas--_cas_--representam a idéa--casa; as terceiras--_carr_--a idéa--_carro_.
Agora que estaes iniciados n'este segredo, podereis dizer-me se a palavra--_livro_--tem algumas parentas?
E.--Tem uma parenta.
P.--Fazei favor de me dizer qual é.
E.--A palavra _livrinho_.
P.--Só essa?
E.--Tem outra parenta, que é _livrete_.
P.--Procurae bem, que achareis mais.
E.--_Livraria_.
P.--Não sabeis o nome, que se dá, por desprezo, a um livro pequeno e mau?
E.--Chama-se-lhe _livreco_.
P.--Como denominaes os homens, que negoceiam em livros?
E.--_Livreiros_.
P.--Fazei favor de me repetir os nomes de que se compõe a familia, cujo pae é a palavra livro.
E.--_Livro_, _livrinho_, _livrete_, _livraria_, _livreco_, _livreiro_.
P.--Muito bem. Agora se vos não custar muito, dizei-me qual é a parte, que em todas essas seis palavras sôa, quando as pronunciâmos, e se vê, quando as escrevemos, constante e inalteravel.
E.--É o principio. É _livr_.
P.--Menino B, escrevei essas lettras no quadro preto.
E.--_Livr._
P.--Olhando para aquellas lettras, que vos lembra?
E.--Lembra-me um livro.
P.--Fique-vos pois de memoria, que ha muitas palavras, que se podem dividir em duas partes; e que a primeira d'ellas, que figura em todos os membros da familia, lembra a idéa da cousa, claramente representada no termo, de que a familia toda procede.
Que figura tem este livro? (O professor mostra um livro.)
E.--É quadrado.
P.--Quadrado não é elle; é _quadrilatero_.
Repeti, partida em syllabas, esta palavra.
E.--_Qua-dri-la-te-ro_.
P.--Agora de uma só vez.
E.--Quadrilatero.
P.--Sabeis o que quer dizer a palavra quadrilatero?
E.--Não, senhor.
P---Quer dizer: Figura de quatro lados, ou superficie fechada por quatro linhas.
Reparae para a figura que vou desenhar no quadro preto. (O professor traça um parallelogrammo, retangulo, um quadrado e um losango) Todas estas figuras são quadrilateros; mas apenas esta (Aponta o quadrado) se póde chamar quadrado[19]. Tenho aqui sobre a mesa uns poucos de pedaços de papel, vinde cá, e escolhei um que seja quadrado.
E.--Eil-o.
P.--Muito bem. Agora desenhe o menino A. no quadro preto um quadrado.
E.--(Desenhando). Aqui está desenhado.
P.--Como chamareis a esses riscos, que formam o quadrado?
E.--_Linhas._
P.--Sabeis que outro nome se dá ás linhas, quando são direitas como essas, que ahi desenhastes?
E.--Não, senhor.
P.--Dá-se-lhes o nome de _linhas rectas_. Todos esses quadrilateros são formados de linhas rectas.
Olhae agora para os vossos livros, e dizei-me como se chama a sua parte externa, a parte de fóra.
E.--Chama-se _capa_.
P.--Por que lhe dariam esse nome?
E.--Talvez pela analogia, que tem com a capa ou capote, que usam homens e mulheres.
P.--Mas a capa dos livros não tem góla, nem cabeção, nem roda, como é uso terem os nossos capotes.
E.--Certo é que nada d'isso tem; mas reveste o livro, e o resguarda, como o capote resguarda o fato; que lhe fica por baixo.
P.--Respondestes optimamente. Dizei-me se as capas dos livros tem todas a mesma consistencia.
E.--Não, senhor; umas são duras e grossas; outras, delgadinhas e molles.
P.--Assim é. De que materia fazem as capas dos livros, quando duras e grossas?
E.--De _papelão_.
P.--É verdade; mas noto, que sendo o papelão aspero e feio, as capas dos livros são macias e bonitas. Sabereis explicar-me a razão d'isto?
E.--É porque revestem o papelão de papel de côres, de panno, ou de couro pintado.
P.--Bravo! muito bem. Como se denominam os artistas, que fazem as capas dos livros e lh'as põem?
E.--_Encadernadores_.
P.--Como se diz que está um livro, a que o encadernador poz uma capa consistente, como a d'estes, que temos nas mãos?
E.--Diz-se que está _encadernado_.
P--E quando um livro está apenas coberto com uma capa de papel, como este, que vos mostro?
E.--Diz-se que está _brochado_.
P.--Se um artista se empregar exclusivamente em brochar livros, como lhe chamaremos?
E.--Não sei.
P.--Chamar-lhe-hemos _brochador_.
E.--Os encadernadores não são tambem livreiros?
P.--_Livreiro_ é a pessoa, que negoceia em livros, que os compra e vende. Ha, porém, individuos, que exercem ambas as industrias, isto é, que compram e vendem lívros, e que os encadernam.
Continuemos a examinar o nosso livro, e em primeiro logar fazei obsequio de me indicar o nome d'esta parte (O professor indica a lombada).
E.--Não sei como se chama.
P.--Chama-se _lombo_, ou _lombada_.
E.--Porque dariam a esta parte tão estrambotica denominação?
P.--Provavelmente em consequencia de ter certa analogia de fórma e posição com as costas ou lombo do homem.
E.--Tenho notado, que é a lombada a parte, que os encadernadores mais esmeradamente aformoseam. Porque será?
P.--Admira-me não vos occorrer a razão d'isso! Porque será, menino B.?
E.--Eu não sei.
P.--Dizei antes: Não sei. É preciso não abusar do _eu_ e do _tu_. Muito mais elegante, conciso e energico é dizer: Não sei, não quero, não posso, do que: Eu não sei, eu não quero, eu não posso.
Menino C, porque motivo adornam os encadernadores as lombadas dos livros mais do que o resto da capa?
E.--Não sei.
P.--Respondei, menino M.
E.--Enfeitam mais as lombadas, se me não engano, por ser a parte, que mais se vê, quando os livros estão na estante.
P.--Assim é. Examinae o lombo do vosso livro e dizei-me o que notaes?
E.--Traços e adornos dourados.
P.--Mais nada?
E.--Lettras, tambem douradas.
P.--Que dizem essas lettras?
E.--«Motta»--«Quadros de historia».
P.--Aos dizeres, que os livros tem na parte superior do lombo, que nome se dá?
E.--_Titulo_.
P.--A palavra «Motta», que está ahi a dizer?
E.--O nome do auctor.
P.--E as outras?
E.--O assumpto.
P.--Vede a lombada d'est'outro livro. Tem tão poucos dizeres, como a d'esse, por onde habitualmente ledes?
E.--Não, senhor; tem mais.
P.--Que mais tem?
E.--Uma lettra de conta.
P.--De que palavra nos deveremos servir, para designar o que chamaes lettra de conta?
E.--Não sei.
P.--O menino, que souber responder á minha pergunta, responda.
E.--Não se deve dizer lettras de conta, mas _algarismos_.
P.--Muito bem. Se temos palavra apropriada para indicar os signaes representativos dos numeros, evitemos um rodeio.
Que algarismo tem esse livro na lombada?
E.--O algarismo 2.
P.--Para que pozeram ahi o algarismo 2?
E.--Para indicar que este livro é o segundo volume da obra.
P.--Exactamente.
E.--Todas as obras constam de dois volumes?[20]
P.--Não se riam da pergunta do menino S.; ninguem nasce ensinado, e quem não pergunta fica ignorando muitas cousas. Agora conversemos nós, menino S. Ha obras completas em um volume, e d'essas tendes exemplo nos «Quadros de historia portugueza»; tambem as ha em dois, tres, quatro e até em dez, vinte e mais volumes. Quando uma obra principia e acaba no mesmo volume não é necessario pôr-lhe nem externa nem internamente nenhum algarismo; se principia n'um volume e continúa e acaba n'outro, marca-se externamente o primeiro com o algarismo 1 e o segundo com o algarismo 2; se a obra se estende por tres ou quatro volumes, põe-se na lombada do primeiro o algarismo 1, na do segundo o algarismo 2, na do terceiro 3, na do quarto 4, etc.
Menino H., para que serve o titulo do livro escripto na lombada?
E.--Para facilmente darmos com elle sem ser necessario abril-o.
P.--Como se nomeiam estas partes da capa dos livros? (Pondo o dedo nos cantos.)
E.--_Cantos da capa_.
P.--Abri os vossos livros e dizei-me como se chamam essas laminas de papel, que a capa envolve e resguarda?
E.--Chamam-se _folhas_.
P.--Esse nome applica-se a muitas cousas: folhas de arvores, folhas de espadas, folhas de papel, folhas de serra, folhas de madeira, folhas das mangas do jaleco, etc.
Explicae-vos, pois, de modo, que todos fiquem sabendo a quaes folhas alludis.
E.--A nenhuma das que citastes. As folhas, que estamos vendo, são folhas do livro.
P.--Cada uma folha de livro tem duas faces; sabeis que nome se lhes costuma dar?
E.--É costume chamar-lhes _paginas_.
P.--A primeira e ultima folha dos livros, nas quaes nada ha escripto, e que ás vezes são de papel pintado, como se chamam?
E.--Não sei.
P.--Qual de vós outros me póde responder?
(Silencio).
P.--Chamam-se _guardas_, porque estão ali, como que para defenderem as folhas impressas da acção da poeira, dos insectos e das impurezas dos ledores menos aceiados.
Ha tambem nos livros _ante-rôsto_ e _rôsto_. Fazei mercê de m'os indicar.
E.--O _ante-rosto_ deve de ser esta folha escripta só de um lado, e que diz apenas: «Quadros de historia portugueza» o _rosto_ deve de ser a folha, que se segue immediatamente ao ante-rosto, tambem só de um lado escripta.
P.--Que significam essas duas palavras: _ante-rôsto_?
E.--Parece-me que querem dizer: folha, que antecede a do rôsto.
P.--Exactamente. Sabeis que outro nome se dá á folha do rôsto?
E.--_Frontispicio_.
P.--Desejava saber por que ao frontispicio chamam tambem, rôsto. Se algum de vós me poder esclarecer, far-me-ha muito obsequio, satisfazendo o meu desejo.
E.--Eu não sei; não sei; eu tambem não.
P.--Parece-me que não ha de ser necessario irmos a Coimbra, para explicar similhante bagatella.
E.--Bagatella!?
P.--Ides ver se o é, ou não. Como se chama esta parte do nosso corpo? (Apontando o rôsto).
E.--_Cara_.
P.--Não tem outro nome?
E.--_Semblante_.
P.--Não tem outro nome?
E.--_Face_.
P.--Não tem ainda outro nome?
E.--Ah! Chama-se _rosto_.
P.--Que quiz dizer esse ah!?
E.--Já sabemos porque ao frontispicio dos livros se chama tambem rôsto.
P.--Se sabeis, dizei-m'o.
E.--Chamam-lhe rôsto, por que em a gente olhando para aquella folha, logo conhece o livro, como conhece uma pessoa, em lhe vendo a cara.
P.--Para conhecer um livro, isto é, para saber de que trata, parece-me que não é indispensavel examinar-lhe o rôsto; bastará ler o titulo, ou ante-rôsto.
E.--Não é exactamente o mesmo, para tomar conhecimento de um livro, ler o titulo ou o ante-rôsto, ou o rôsto, porque este indica muitas mais cousas, que aquelles.
P.--Dizei quaes são.
E.--O titulo da obra por extenso, o nome todo do auctor, a typographia, a terra onde foi impresso e até o anno.
P.--Bravo! bravo! sr. estudante, muito bem. As vossas respostas animam-me. Dizei-me se o papel, de que são feitos os livros, é uma substancia natural, isto é, que se encontre feita, como se encontra a pedra, a agua, a madeira, o barro, a areia, ou se é um producto da arte, quero dizer, feito pelo homem.
E.--É producto da arte.
P.--Já alguem vos disse de que é fabricado o papel.
E.--Não, senhor.
P.--Quereis saber?
E.--Se queremos....
P.--Fabrica-se de trapos de linho, canamo, e algodão.
E.--De trapos?!
P.--Sim, de trapos.
E.--Eu pensava que os trapos não prestavam para nada!
P.--Qual é a cousa, que não tem algum prestimo? Os trapos, que vós despresaveis, e tinheis em conta de nada, são uma riqueza, e prestam grandissimo serviço á industria, ás artes, ás sciencias e á moral. São um instrumento indirecto do progresso da humanidade.
E.--Como se faz o papel?
P.--Não posso agora satisfazer a vossa louvavel curiosidade. É muito complexo o seu fabríco para que vol-o possa expor de modo, que d'elle fiqueis fazendo perfeita ideia; em vós tendo mais alguns conhecimentos eu vol-o indicarei por miudo.
E.--O papel é todo da mesma qualidade?
P.--Não é; e aqui tendes a prova (O professor mostra á escola papel de imprimir, papel de escrever, de filtrar, de embrulho, de seda, pintado, etc. e vae indicando os nomes de cada um). São de differentes tamanhos estas folhas. A grandeza de cada uma indica-se pela palavra _formato_, a qual tambem se emprega para representar a grandeza dos livros e jornaes.
E.--Para que tem este livro na parte inferior da pagina do rôsto a palavra «_Lisboa_»?
P.--Já se disse que é para mostrar a terra em que foi impresso.
E.--Os livros são impressos?
P.--Não se riam os meninos, que sabem uma cousa, quando outro, que a ignora, se quer illustrar, e pede que lh'a ensinem.