Ensino intuitivo livro destinado às mães e paes de familia e às professoras e professores de instrucção primária

Part 4

Chapter 44,043 wordsPublic domain

Na repugnancia, que os meninos tem á escola, são quasi sempre culpados os paes e as mães, porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem d'ella, de lhes mostrarem que está alli o alvorecer de todas as artes e sciencias, de lhes dizerem que é aquella a unica porta por onde se entra á vida publica, na qual terão, quando homens, de tomar parte, de lhes explicarem a missão do professor e de lhes expenderem que n'elle accrescem aos deveres de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto fazem, e só invocam o santo nome da escola, quando irritados pelas travessuras das crianças, que não querem ou não sabem remediar com brandura, bons conselhos, bons exemplos e moderadas correcções, pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes para aquella... penitenciaria.

Como ha de amar a escola e appetecel-a, e correr para ella voluntario e risonho o menino, a quem se não fartaram de dizer: «Não te aquietas? Irás para a escola, onde te farão estar quedo, quer queiras, quer não queiras.» «Não aprendas agora, que o professor depois, com a palmatoria te metterá no bom caminho.» «Por mais que te ralhe, não te emendas, tudo rasgas, tudo quebras; deixa-te ir para a escola;... farei queixa ao professor, elle te porá as uvas em pisa»[4]. A fim de remediar estes deploraveis vicios da educação domestica, de tranquillisar o estudantinho, de familiarisal-o com o professor e com os alumnos e de infiltrar-lhe n'alma o amor da escola e do estudo, adopte-se o seguinte modelo de recepção, ou outro melhor, mas pouco mais ou menos do mesmo padrão.

Professor.[5]--Venha cá, meu menino; como se chama?

Estudante.--Viriato.

P.--Viriato é o seu primeiro nome; desejo tambem saber o seu sobrenome e appellido.

E.--Chamo-me Viriato Henrique de Oliveira.

P.--Bonito nome. Para corresponder a elle terá o menino de ser valente, destemido, muito amante da sua patria e muito bom. Sabe porque?

E.--Não, senhor.

P.--Eu lh'o explico. Viriato foi um pastor da Serra da Estrella, tão amigo da patria e dos patricios, que para impedir que os romanos os escravisassem, largou o cajado, abandonou os rebanhos, que apascentava, tomou armas, aggregou a si outros valentes, e por muitos annos desbaratou os exercitos estrangeiros, envergonhando generaes aguerridos, e grangeando fama eterna. D. Henrique foi outro militar de grandes dotes, e que tanto se distinguiu na guerra contra os mouros, que enchiam a Hespanha e a nossa terra, que, em premio de seu valor veiu a casar com D. Theresa, filha de um rei mui poderoso, da qual nasceu D. Affonso Henriques, primeiro monarcha portuguez.

E para que todo o nome do menino seja de bom agouro, até lhe pozeram o appellido de Oliveira, que é uma arvore muito util e agradavel, symbolo da paz, de cujos fructos, as azeitonas, se tira o azeite, que é o melhor e mais precioso oleo, que se conhece. Mas deixemos o azeite e a oliveira, que ainda lhe quero fazer mais perguntas.

Como se chama o seu papá?

E.--Antonio Joaquim de Oliveira.

P.--Que emprego tem elle?

E.--É militar.

P.--E o menino quer tambem ser militar?

E.--Não, senhor; quero ser medico.

P.--Bom é que não sigam todos a mesma carreira; haja militares, para defenderem a patria dos inimigos estranhos, e para manterem o socego e a ordem, que são a primeira necessidade dos povos; e haja medicos para curarem os doentes, e para nos ensinarem o que devemos fazer para não enfermar. Que edade tem o menino?

E.--Nove annos.

P.--O seu papá tem mais filhos?

E.--Tem mais tres.

P.--Os filhos do seu papá e da sua mamã o que são ao menino?

E.--São meus irmãos.

P.--Como se chamam os seus manos?

E.--Thomaz, Clemente e Valeriano.

P.--Dos quatro qual é o mais velho?

E.--É o Thomaz.

P.--Porque é elle mais velho?

E.--Porque nasceu primeiro que os outros.

P.--Se Thomaz é o mais velho, porque nasceu primeiro que os outros, como designará o ultimo nascido?

E.--Direi que é o mais pequeno.

P.--Melhor é dizer que é o mais novo. Onde mora o menino?

E.--Na rua da Alegria.

P.--Caspite! Quem mora na rua da Alegria não deve ser triste.

Após esta pratica com os recem-entrados poderá o professor ou professora convidar os que souberem contar a contarem os estudantes, que estiverem na escola, e a designar pelos nomes os que forem seus conhecidos.

P.--Menino Viriato[6] quantos condiscipulos tem aqui?

E.--Não sei.

P.--Não sabe, porque ainda os não contou; conte-os em voz alta.

E.--Um, dois, tres, etc.

P.--Agora, que sabemos quantos traquinas aqui estão, diga-me os nomes dos seus conhecidos.

E.--Aquelle é Francisco; aquelle é Antonio; aquelle, que está ao pé da janella, tambem se chama Francisco, etc.

P.--Ha n'esta aula tres Franciscos, como é que os havemos de distinguir de modo que, ao chamar um d'elles, não acudam todos tres?

E.--Não sei.

P.--Nada mais facil; bastará accrescentar ao primeiro nome de cada um o appellido da familia; teremos: Francisco de Mello; Francisco de Aguiar e Francisco Loureiro. Quando differentes pessoas ou cousas tem o mesmo nome, é indispensavel juntar ao nome que lhes é commum, outro, para que as possâmos designar sem confusão. Os meninos tem nas suas casas cópos de differentes tamanhos, para differentes usos; a uns chamam cópos _d'agua_, a outros cópos _de vinho_, a outros cópos _de liquor_. O mesmo fazemos com a fructa. Ha muitas qualidades de pêras; para distinguil-as denominamol-as pêra _parda_, pêra _virgulosa_, pêra _bojarda_, pêra _flamenga_, etc.

* * * * *

Finda que seja a segunda phase d'este colloquio, tenue, mas conveniente para desassombrar o espirito dos estudantinhos, passará o professor a fazer-lhes outra ordem de perguntas.

P.--Como se chama, meus meninos, esta casa, onde estamos?

E.--Chama-se escola.

R.--Para que vem os meninos á escola?

E.--Para aprender.

R.--Que vem os meninos aprender?

E.--A ler, escrever e contar.

P.--Assim é; mas na escola além de ler, escrever e contar, ensinam-se muitas outras cousas agradaveis e uteis, as quaes todas concorrem para tornar os meninos instruidos e virtuosos. Querel-as-heis aprender tambem?

E.--Queremos, sim, senhor; queremos.

P.--Ha um adagio, que diz:--_O que se ha de fazer, faça-se_; sigamos o adagio e comecemos desde já o nosso estudo, examinando os objectos, que estão n'esta aula. (Aqui mostrará o professor aos estudantes o _quadro preto_[7] a que muitos impropriamente chamam pedra). Qual dos meninos tem um objecto como este em sua casa?

E.--Eu não; eu tambem não.

P.--Sabem como se chama?

E.--Chama-se _pedra_.

P.--Assim o denominam alguns, mas impropriamente. Isto não é de pedra, é de pau, é de madeira. Ha n'esta casa alguma cousa de pedra?

E.--As hombreiras da porta e das janellas.

P.--E nada mais?

E.--As ardosias, que trouxemos para fazer contas.

P.--O menino F. respondeu muito bem; essas laminas pretas, a que chamâmos ardosias ou lousas, e as pennas com que escrevemos n'ellas, são pedaços de pedra. Querem ver a differença, que vae da pedra á madeira? Batam com os dedos nas ardosias; agora venham aqui, e batam n'isto, a que deram o nome de pedra. Todos percebem a differença do som.

E.--É verdade.

P.--Como chamaremos, pois, a este objecto? Eu lh'o digo. Chamar-lhe-hemos o _quadro_, ou a _taboa_; e como esta madeira está pintada, poderemos acrescentar ao nome quadro outro nome, indicativo da côr, que tem.

E.--Poderemos dizer: _Quadro preto_.

P.--Mui bem. Agora dir-me-hão para que serve o quadro preto.

E.--Serve para n'elle se escrever.

P.--(Mostrando um pedaço de giz). Sabeis o que é isto?

E.--É um bocado de _giz_.

P.--Para que o tenho eu aqui?

E.--Para escrever no quadro preto.

P.--De que côr é o giz?

E.--É _branco_.

P.--(Mostrando a esponja). Como se chama est'outro objecto?

E.--Chama-se--_esponja_.

P.--Para que temos aqui esta esponja?

E.--Para apagar as lettras e as figuras, que se fizeram no quadro preto.

P.--Não poderiamos apagar a escripta com o lenço de assoar?

E.--Poderiamos, sim, senhor; mas ficaria sujo, e sujar-nos-hia o fato.

P.--Respondeu muito bem. E porque razão não apagâmos as lettras com as mãos?

E.--Porque ficariam sujas, e sujar-nos-hiam tambem o fato.

P.--Quando por qualquer motivo tivermos sujado as mãos, que deveremos fazer?

E.--Limpal-as.

P.--De quantas maneiras se limpam as mãos?

E.--Esfregando-as n'um panno, ou lavando-as.

P.--Como ficam ellas mais desenxovalhadas, esfregando as n'um panno, ou lavando-as?

E.--Lavando-as.

P.--Como se chamam as peças de roupa, de que nos servimos para enxugar as mãos depois de as termos lavado?

E.--Chamam-se--_toalhas de mãos_.

P.--Trazer as mãos limpas é garridice, ou necessidade e dever?

E.--É necessidade e dever.

P.--Para que é necessario trazer as mãos aceiadas?

E.--Para não mancharmos aquillo em que mechermos, e para não enojar as pessoas, que nos virem ou a quem prestarmos algum serviço.

P.--A sugidade das mãos prejudica a saude?

E.--Não sei.

P.--Prejudica, e muito; em primeiro logar porque obsta á transpiração, isto é, á saïda da agua e suor, que continuamente estão atravessando a pelle; em segundo logar porque, indo com as mão sujas aos olhos, poderemos inflamal-os e originar doenças, que ou nos enfraqueçam a vista ou nos acarretem a cegueira. Quantas vezes ao dia deveremos lavar as mãos?

E.--Quantas fôr necessario.

P.--Acertadamente responderam; mas não será escusado dizer-lhes que invariavelmente as devem lavar pela manhã, ao erguerem-se da cama; antes e depois do almoço, jantar e ceia, ou de qualquer outra refeição; ao sair e entrar em casa; afóra as outras vezes, que o aceio o exigir. Passemos a outro assumpto. (Apontando para o cavallete.) Qual dos meninos me saberá dizer o nome d'aquelle objecto?

Silencio.

P.--Menino Carlos, não sabe como se chama aquillo?

E.--Não, senhor.

P.--Pedrinho, tambem não sabe como se chama aquella geringonça?[8]

E.--Chama-se _cavallete_.

P.--Acertou. Agora digam todos commigo: Ca-va-lle-te[9].

E.--Ca-va-lle-te.

P.--Agora hão de dizer esse nome, sem separarem as syllabas.

E.--Cavallete.

P.--Para que serve aquelle cavallete?

E.--Serve para sustentar o quadro preto.

Resumo

A casa, onde estamos, chama-se «escola». Na escola aprende-se a ler, escrever, contar, a doutrina christã, desenho, canto, e mil outras cousas uteis e agradaveis, que o professor nos vae ensinando pouco e pouco, as quaes todas concorrem para que sejamos bons e instruidos, qualidades estas indispensaveis a qualquer homem. Ha na escola diversos objectos, e entre elles o _quadro preto_, a _esponja_, o _giz_ e o _cavallete_. No quadro preto escreve-se com giz. Serve a esponja para se apagar o que se escreveu no quadro, e o cavallete para sustentar o mesmo quadro.

Reflexões

Meus meninos, attendei bem ao que vou dizer-vos, e não o esqueçaes. Pode a casa da escola ser convidativa, a mobilia e utensilios bons, os compendios famosos, o professor sabio, zeloso e habil, e o methodo de ensino excellente, e não obstante todas estas invejaveis condições, os estudantes não utilisarem nada, com detrimento proprio e de seus paes, por falta de assidua frequencia e de estudo.

São incalculaveis os prejuizos, que resultam das repetidas faltas á escola. Os meninos, que faltam, não só não se adiantam, mas perdem o que aprenderam, desgostam e entibiam o professor, introduzem a desordem na aula, e incitam os collegas com o exemplo, a que procedam do mesmo modo.

Evitae, pois, todos estes males, não faltando á escola sem causa justificavel, e estudando aqui e em vossas casas, isto é, attendendo ao que o professor vos disser, meditando nas suas palavras, e lendo ou decorando o que vos mandarem que leiaes ou decoreis. Não se pode ser instruido, sem estudar. Os meninos estudiosos grangeiam a estima das pessoas de bem, e tornam-se dignos da protecção divina.

SEGUNDA LIÇÃO

A ESCOLA

P.--Meus meninos, fallámos outro dia do quadro preto, das ardozias, do giz, da esponja, da toalha de mãos, e do cavallete; desejo que me nomeeis agora mais alguns utensilios da escola... Como se chama isto? (Indicando a mesa).

E.--Chama-se _mesa_.

P.--De que é feita esta mesa?

E.--De madeira.

P.--Todas as mesas são de madeira?

E.--Não, senhor; algumas são de pedra.

P.--E não as ha feitas de outras materias?

E.--Não sei.

P.--Nunca viram mesas de metal?

E.--Lembro-me agora de tel-as visto de ferro.

P.--E não só de madeira, de pedra e de ferro se podem fazer; todas as materias solidas e duras se prestam á construcção d'este movel. Como se chama esta parte da mesa? (Indicando a parte superior).

E.--_Taboa_ da mesa.

P.--Como se chama est'outra? (Indicando a parte sobre que assenta a taboa).

E.--Chama-se _aro_.

P.--Vinde aqui e dizei-me, que nome tem estas especies de caixas (Mostrando as gavetas) que estão sobre a taboa da mesa, e que eu puxo para fóra e torno a esconder (abrindo e fechando as gavetas).

E.--Essas especies de caixas chamam-se _gavetas_.

P.--Para que servem as gavetas?

E.--Para guardar diversos objectos?

P.--Estas peças de metal, que as gavetas aqui tem embebidas na madeira, como se denominam?

E.--_Fechaduras._

P.--Para que servem estas fechaduras?

E.--Para fechar as gavetas?

P.--Porque razão fecho eu as gavetas d'esta mesa, quando saio da aula?

E.--Não sei.

P.--Porque ha meninos, que commettem a indiscripção de as abrir e de mecher no que n'ellas está, praticando uma acção feia ...

E.--É máu abrir uma gaveta?

P.--Se a gaveta é de nosso uso, ou se nos é permittido abril-a e tocar no que lá está, não commettemos falta nenhuma em a abrir; mas se é de outrem, ou se nos prohibiram abril-a, é acção muito feia e má o descerral-a, sem licença, excepto em caso de necessidade. E já que estamos a fallar de gavetas, dizei-me, que deve fazer um menino bem educado, quando na sua presença se abre uma gaveta?

E.--Não sei.

P.--Deve abster-se de olhar para lá e de estar a observar o que ella contem. Dizei-me, com que se abrem as fechaduras?

E.--Com as _chaves_.

P.--Olhae para aqui... Metto a chave n'esta fechadura dou-lhe volta e vejo sair uma peça de ferro, chata e larga.

E.--É verdade.

P.--Como se chama essa peça?

E.--_Lingueta._

P.--Sabeis porque lhe pozeram o nome de lingueta?

E.--Não sabemos.

P.--Soletrae a palavra lingueta, e talvez deis no vinte.

E.--Lin-gue-ta.

P.--As duas primeiras syllabas d'essa palavra não vos trazem á memoria outra palavra muito conhecida?

E.--Trazem, sim, senhor; a palavra lingua.

P.--Reparae agora se ha alguma similhança entre a lingua do homem e dos outros animaes e a parte da fechadura, que estamos observando.

E.--Ha, sim, senhor.

P.--Em que?

E.--A lingua é chata e a lingueta tambem; a lingua é comprida, como a lingueta; a lingua está preza na bocca d'onde sae ás vezes, e a lingueta está egualmente presa no interior de uma caixa da qual a chave a faz sair.

P.--Difficilmente se poderia responder melhor á minha pergunta. Tomem d'aqui exemplo os outros meninos. A explicação que o menino F. me deu prova-me que elle observa as cousas com attenção e compára umas com as outras, o que muito concorre para que se nos desenvolva a intelligencia; ou que, se alguem lhe tinha ensinado isto, se não esqueceu do que lhe haviam dito, o que tambem é muito para louvar[10].

E.--A mim ninguem me tinha ensinado a resposta.

P.--Tanto melhor, porque deu prova de que medita no que vê; que vêr as cousas superficialmente é quasi o mesmo que não as vêr: Continuemos a estudar a mesa. Reparem n'estas quatro columnas (mostrando os pés da meza) sobre as quaes assenta a taboa, o aro e as gavetas.

E.--São os _pés_ da meza.

P.--Porque se lhes chama pés?

E.--Porque sustentam o resto da mesa, á maneira dos pés do homem e dos animaes, que sustentam o resto do corpo.

P.--Todas as mesas tem quatro pés?

E.--Nem todas; umas tem um só pé, outras quatro, outras seis, e podem ter mais.

P.--Quaes são as mais firmes, isto é, menos subjeitas a cairem, as de um, ou as de quatro pés?

E.--As de quatro pés.

P.--Para que servem os bancos?

E.--Para nos assentarmos.

P.--De que são feitos esses bancos?

E.--De madeira.

P.--Não poderiam ser feitos de outra materia?

E.--Poderiam ser de ferro, ou de pedra.

P.--Porque não poriam aqui bancos de pedra?

E.--Porque são mais caros, que os de pau.

P.--E só por isso é que os não pozeram aqui?

E.--É porque são muito pezados; não poderiamos mudal-os de um logar para outro.

P.--Não haverá outro motivo para preferir os bancos de pau aos de pedra?

E.--Não sei.

P.--Menino F... queira responder á minha pergunta?

E.--Não sei.

P.--Aquelle estudantinho, que além está a gesticular, é que nos vae satisfazer a curiosidade; vamos, menino G... deite a barra adiante aos seus collegas, revelando-nos o motivo porque os bancos de pedra, á parte o serem pesados e caros, não são adoptados nas nossas casas e nas aulas?

E.--Parece-me que é por serem muito frios.

P.--Por causa da frialdade da pedra são os bancos d'aquella materia não só incommodos, senão muito prejudiciaes á saude. Passemos a outro assumpto. Já vos ponderei que é muito mau faltar á aula, não estar attento ao que diz o professor, e não estudar. Desejo que me digaes agora o que acontece aos estudantes, que não vem ao principio da aula, e que entram aqui uma hora, ou hora e meia, depois de terem começado os nossos trabalhos?

E.--Não podem seguir bem as lições.

P.--Que deverá, pois, fazer, relativamente a este ponto, um estudante applicado, e que deseje adiantar-se?

E.--Deverá entrar na aula á hora marcada para o começo do estudo.

P.--Diga-me menino L... que cousas deve o estudante trazer sempre para a escola?

E.--Uma ardozia, uma penna de pedra, um lapiz, uma penna de aço, e os livros.

P.--E que lhe acontecerá, se lhe esquecer alguma ou algumas d'estas cousas?

E.--Não poderá tirar da lição o fructo, que deve tirar.

P.--Qual será a razão porque alguns meninos chegam muitas vezes á aula sem os objectos, que lhes são indispensaveis?

E.--A razão d'essa falta é ou por que se esquecem de os tomar ao sair de casa, ou por que, saindo com pressa, os não acham, e lhes falta o tempo para procural-os.

P.--Ha meio de evitar aquelle esquecimento, e de fazer com que os objectos, que devem trazer para a aula, se lhes deparem facilmente?

E.--Ha, sim, senhor. Bastará que os meninos ponham a ardozia, o lapis, e os livros em um logar certo.

P.--Que nome daremos a um menino, que põe uma cousa aqui, outra alli, outra acolá, e que depois se não lembra dos logares onde as poz?

E.--_Desarranjado._

P.--E ao que suja e rasga os livros, e deita borrões na escripta, e por cima das mesas, e se apresenta com a cara e os dedos enxovalhados?

E.--_Porco ou enxovalhado._

P.--Deve o professor consentir que os meninos rasguem os livros, que salpiquem de tinta as paredes e as mesas, que tragam sujas as mãos e cara, e o fato cheios de nodoas?

E.--Não, senhor.

P.--Porque?

E.--Porque estragar os livros, ou as paredes, ou qualquer cousa, sem necessidade, é acção muito feia, assim como não andar limpo.

P.--E será apenas acção muito feia? Não será uma especie de roubo feito aos paes e aos mestres, aos quaes muitas vezes é em extremo penoso custear as despezas, a que os filhos e discipulos os obrigam?

E.--É de certo.

P.--Que devem, pois, fazer os meninos a quem se recommenda, que sejam arranjados e aceiados?

E.--Devem obedecer.

P.--E que merecem os que não fazem caso das advertencias de seus paes e mestres?

E.--Merecem castigo.

P.--E de que são dignos os que estudam bem, e obedecem aos seus superiores, procurando em tudo conformar-se com os seus conselhos e preceitos?

E.--São dignos de estima e de premio.

P.--Respondeu com muito acerto. Por hoje basta de conversação. Antes, porém de nos separarmos quero repetir-lhes um conselho muito prudente de um grande mestre. Decorem-n'o e sigam-n'o, se querem ser methodicos e arranjados. Eil-o:

_Logar certo para cada cousa, e cada cousa no seu logar_.

TERCEIRA LIÇÃO

OS CONDISCIPULOS

P.--Recommendei-lhes outro dia, meus meninos, que não faltassem á aula, que viessem á hora marcada no regulamento, que se não esquecessem de trazer os livros, e mais objectos necessarios para as suas lições, que se acostumassem a ser arranjados, methodicos, e desenxovalhados, e que tivessem o maior cuidado em não estragar os objectos de seu uso. Não são tão poucos os deveres dos meninos; e como para bem os cumprirem é indispensavel conhecel-os, vamos hoje conversar em outro assumpto, que muito lhes interessa. Começarei perguntando-lhes como se denominam, em geral, os meninos, que frequentam ao mesmo tempo uma aula?

E.--Denominam-se _condiscipulos_.

P.--O encontrarem-se quasi todos os dias, estarem muito tempo juntos, lerem pelos mesmos livros, aprenderem com o mesmo professor, terem com pequenas differenças, a mesma idade, e trabalharem para conseguir o mesmo resultado, concorrerá para que os condiscipulos formem uma especie de familia ou irmandade, cujo pae espiritual é o professor?

E.--Certamente.

P.--Se os condiscipulos, como affirmaes, são quasi irmãos, parece-me que devem tratar-se de maneira differente do que se tratam os meninos, que nem são parentes, nem condiscipulos.

E.--Sem duvida.

P.--Já que tão expeditamente confirmaes a minha opinião, fazei mercê de me dizer como se devem tratar os condiscipulos.

E.--Devem tratar-se com delicadeza, bondade e amisade.

P.--Optimamente, sr. estudantinho; mas como eu não quero deixar por mentiroso o rifão, que diz: «As palavras são como as cerejas», peço-lhe me indique quaes actos de delicadeza hão de praticar os condiscipulos; de certo não quereis que elles deem excellencia uns aos outros, ou se saüdem com salamaleks, á maneira dos turcos.

E.--Hão de cumprimentar-se quando se encontrarem em qualquer parte, e á entrada e saïda da aula; não hão de bater uns nos outros, nem rasgar ou sujar os vestidos; não hão de usar nas suas conversas de palavras feias; se a qualquer tiver esquecido o livro, a lousa, a penna, ou qualquer outro objecto deve-se-lhe emprestar aquillo de que carecer.

P.--Muito bem. E será delicado o menino que despresar o collega, por elle ser feio, ou aleijado, ou tartamudo, ou vesgo, ou coixo?

E.--Não, senhor.

P.--Será delicado o menino, que pozer alcunhas a seus condiscipulos, ou que lhes lançar em rosto o serem filhos de pessoas pobres, ou não trajarem á moda, com elegancia, e esmero?

E.--Não, senhor.

P.--Se ao mesmo tempo chegarem ao pote, para beber, dois meninos grosseiros, que acontecerá?

E.--Por-se-hão a ralhar, querendo cada qual ser o primeiro que beba.

P.--Se um dos meninos fôr delicado e o outro grosseiro?

E.--O delicado ou se affastará, para que o outro mate a sede em primeiro logar, ou encherá o copo e lh'o offerecerá.

P.--E se ambos forem delicados?

E.--Não sei o que devam fazer.

P.--Menino F., responda á minha pergunta.

E.--Se ambos forem bem criados, deverá o mais pequeno encher o copo e offerecel-o ao mais velho.

P.--Mas pode acontecer que ambos tenham a mesma idade, ou que um não saiba a do outro.

E.--Nesse caso o mais delicado antecipar-se-ha a obsequiar o outro.

P.--Respondeu com muito juizo. Que deverá fazer um menino delicado, se ao lanche, um condiscipulo lhe pedir um damasco, uma pêra, ou qualquer outra cousa, que lhe não faça falta?

E.--Deve dar-lh'a.

P.--E pedir-lhe outra cousa em paga?

E.--Não, senhor.

P.--Do que temos estado a dizer conclue-se, que a delicadeza consiste não só em evitar tudo quanto possa desgostar os outros, mas tambem na pratica de quanto honestamente lhes possa ser agradavel.--Desejo, porém, que me digaes se delicadeza e bondade são o mesmo.

E.--Não, senhor.

P.--Como assim?

E.--Pode uma pessoa ser delicada e não ser boa; pode tratar os outros muito bem, mas não proceder assim por virtude, e tão somente por genio, elegancia, ou astucia.

P.--Para que possâmos ter um menino em conta de bom o que é necessario?

E.--É necessario que elle não faça nenhuma acção má.

P.--Quando é que as nossas acções são más?

E.--Quando offendem a Deus, ou ao proximo.

P.--Dizeis muito bem; mas para que este ponto se aclare bastante, fazei favor de me indicar algumas acções que reputeis más.