Ensino intuitivo livro destinado às mães e paes de familia e às professoras e professores de instrucção primária

Part 3

Chapter 33,655 wordsPublic domain

Evite-se, porém, que n'estes summarios, ou indices menemonicos, se empreguem palavras escusadas e se commettam erros de grammatica.

De principio convirá que o educador, ao findar a lição, ensine aos meninos como o registro deve ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o redijam em suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte, para ser emendado.

E como a extrema concisão seja a melhor qualidade de taes escriptos, aqui pômos um paradigma, para governo de educadores e educandos.

Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica exarado.

*Registro*

_Assumpto._--Um cão a ganir.

_Sons, que os cães produzem com a bocca_: Latido, uivo, rosnadura, ganido. São substantivos. Ladrar, ou latir, uivar, rosnar, ganir.--São verbos.

_Agouros._--Não os ha.

_Vozes de differentes animaes._--Cão, _ladra_; canario, _canta_; cavallo, _relincha_; mocho, _pia_; gallinha, _cacareja_; gato, _mia_.

O _uivo dos cães_ não indica, nem póde indicar a morte de ninguem, nem desgraça nenhuma. Se um cão uiva, pouco antes de morrer alguem, este facto é apenas uma coíncidencia, um accaso.

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O professor exigirá que os meninos, nas respostas que lhe derem, empreguem sempre phrases completas, conformes ás leis grammaticaes, simples e curtas quanto fôr possivel.

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Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a repetição individual e simultanea.

É um processo excellente, para conseguir que mais fundas se gravem certas especies no espirito dos alumnos, e para corrigir defeitos de expressão e pronuncia. No repetir em côro se deleitam as crianças muito, mormente se o tom das vozes não é tristonho, mas alegre, musical, variadissimo.

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Ao minimo erro de regencia, de concordancia, ou de pronuncia, acudirá logo o professor com a indispensavel advertencia, e tanto mais clara e fervorosa, quanto mais grave fôr o erro. Suppunhâmos que um menino diga _somentes_ em vez de somente, _faz-le_ por faz-lhe, _traz_ por traze, _Madanela_ por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas corruptelas, que deslustram a nossa lingua, e que a cada momento se nos deparam até na conversação e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes.

Acto continuo advertil-o-ha o professor de que tal palavra não foi bem pronunciada, e o convidará a que a repita correctamente. Se o estudante não atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente partida em syllabas, acompanhando cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa com o ponteiro ou com a mão. Ouvida que seja a palavra assim pronunciada, repetil-a-ha o estudante tantas vezes, quantas seja necessario, para que a não altere, e após este exercicio dil-a-ha tão rapidamente como é de uso dizer-se. Se ao professor parecer conveniente, ordenará que outros estudantes façam o mesmo exercicio individualmente, e por fim mandará que a palavra ou phrase seja cantada pela classe inteira, attendendo muito a que o erro, que se pretendeu emendar, se não repita. O que fica dito ácêrca das palavras em especial applica-se em cheio ás phrases compostas de muitas palavras.

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A falta de ordem e clareza no dizer é defeito grave, mas communissimo, que tem raizes na escola primaria, e que por isso mesmo ou nunca se perde ou só com muito trabalho se consegue extirpar. A fim de prevenil-o e de combatel-o comece o educador dando exemplo de imperturbavel ordem na exposição, de esmerada escolha dos termos, de grande sobriedade nos incidentes, e de irreprehensivel rigor nas conclusões; tudo isto sem apparato, nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; e esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o gosto de bem fallar, cortando todas as imperfeições mal apontem nos labios infantís. Cabe n'este logar uma recommendação, nunca assás repetida. Nas ruas, nas aulas, nos theatros, nas conversações familiares, e, quando Deus é servido, até no parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo palavras e phrases, que, com quanto não sejam deshonestas, são tão grosseiras e plebeas, que nenhuma pessoa delicada as deveria empregar. Quasi sempre se ignora a origem d'aquelles termos, muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo expressivos e por vezes engraçados, mas que nem por isso deixam de ser baixos e vis. Em evital-os seja fervorosissimo todo o educador, sem comtudo levar o zelo até ao ponto de banir da conversação escolar as locuções pittorescas e folgazãs, que alegram a linguagem, sem mareal-a.

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Assim como as leituras e recitações soturnas, pesadas, substanciosas, e extensas, aborrecem ás crianças e não lhes prendem a attenção, assim a poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e apologos, as anecdotas e proloquios lhes aprazem sobremodo e de tal arte se lhes apegam á memoria, que não mais as esquecem.

Verdade é que Voltaire arguïu os fabulistas de quererem ensinar as verdades moraes por um processo essencialmente mentiroso, pondo a fallar animaes e plantas; e condemnou a leitura e recitação de taes composições nas primeiras edades. Tem porem mostrado a experiencia que Esopo, Phedro, La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos moralisam mais, e muito mais que a _Introducção á vida devota_, que o _Flos Sanctorum_, e que o _Thesouro de meninos_, e quantos outros escriptos, ainda que sejam verdadeiros na essencia e correctos na fórma, se hão publicado para edificação das almas, mormente em quanto n'estas se não ha robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se pois d'este meio os educadores, lendo de vez em quando á escola uma fabula, que tenha relação com os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; contando a proposito uma anecdota, ou repetindo algum dos muitos e verdadeirissimos rifões, de que tão rica é a lingua portugueza. Dos bons poetas nacionaes, tanto modernos como antigos, poderá o educador escolher infinita copia de versos em todos os generos, com os quaes irá perfumando as lições e desenvolvendo na puericia o gosto da poesia, que alarga a imaginação, modifica e reprime as ruins paixões, consola o espirito, e o dulcifica e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de versos máos ou mediocres, não esquecendo jamais que _a poesia_ é, no dizer de um dos mais elegantes e profundos escriptores de Portugal, o sr. Latino Coelho, _a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; a gloria e a humiliação; o triumpho e o martyrio; o genio e a loucura_.

No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente se deve dirigir, desenvolver, e approximar da perfeição é a faculdade de comparar, cujos defeitos inutilisam os esforços das faculdades, que a antecedem, e obstam a que as superiores se exerçam como é mister. São innumeraveis e quasi sempre facillimos os processos de comparação de que o educador poderá fazer uso, desde a confrontação de dois feijões, ou de dois alfinetes, etc., até ao estudo comparativo de duas poesias, de duas obras de arte, do caracter de dois homens notaveis, de duas epocas historicas. Não ha palavras para encarecer os resultados, que os estudos d'esta ordem produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento intellectual e moral das crianças.

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A par com o estudo das cousas, podem e devem marchar os exercicios attinentes ao aperfeiçoamento dos sentidos externos, e os preceitos consoantes á sua hygiene. Todos terão observado que o exercicio de certos orgãos concorre por muito para que os mesmos se apurem e tornem cada vez mais delicados. Os homens do mar, acostumados a olhar muito ao longe, e a buscarem a grandes distancias um objecto perceptivel, excedem sempre em perspicacia os que teem vivido encerrados em horisontes menos extensos.

Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, ainda mesmo nos cheios, se qualquer dos executantes deu uma nota errada, ou commetteo outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem nos corpos qualidades, que pertencem ao dominio da visão, e executam trabalhos manuaes difficeis e delicados, como aquelle cego de nascença, de que falla o sr. dr. Centazzi na sua _Medicina_ e _Hygiene Popular_, que existia na cidade de Faro, no Algarve, e que fazia peões, cubos, e outras obras tão perfeitas, como as dos mais habeis mestres. Dos provadores de vinho se sabe quão facilmente reconhecem pelo paladar o merito, idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor.

Não se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, por mais bem dirigida que seja na casa paterna e nas escolas infantís e primarias, venha a produzir tão miraculosos resultados; mas é indubitavel, que lhes corrigirá muitos defeitos, e que de dia para dia os hade ir tornando mais apropriados aos importantissimos fins, para que a natureza os destinou.

Os paes em suas casas, e os professores nas escolas poderão começar a gymnastica dos sentidos pelo exame e comparação das côres. Mostrarão primeiro aos educandos o vermelho, amarello, verde, azul, preto, branco; depois differentes gradações de cada uma d'estas côres; em seguida as côres de transição; apoz estas, todas as mais, que fôr possivel apresentar-lhes. A pouco e pouco lh'as irão nomeando, e fazendo notar tudo quanto convier que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento das côres poder-se-hão seguir exercicios tendentes a apurar a vista, taes como a inspecção de objectos collocados a distancia cada vez maior; a leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, planetas e constellações, cuja posição no espaço previamente se lhes tenha mostrado no mappa.

Por meio de processos analogos se podem educar os outros sentidos, ensinando-se ao mesmo tempo milhares de cousas.

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Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, que se acostumem os meninos a lerem e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em algumas escolas temos notado quão pouco os professores attendem a esta parte do ensino, consentindo que os estudantes exponham as lições e respondam ás perguntas, que se lhes fazem, com extrema negligencia; negligencia na pronunciação das palavras, cujos sons elementares falseam; negligencia na declamação, que por muito precipitada, ou por extremamente preguiçosa, se torna monotona e insuportavel; negligencia na coordenação das idéas componentes dos raciocinios, e negligencia na disposição d'estes.

Acudir com remedio a tantos defeitos é empreza ardua e enfadonha, mas de que não ha de levantar mão o bom educador, sendo o seu primeiro e persistente cuidado desarreigar os vicios da pronunciação, que principalmente na côrte, trazem adulteradissimo o mais elegante e donairoso de quantos idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o italiano, ao qual, não obstante a sua nativa belleza e abundancia, não é somenos.

Daria um livro a só enumeração das transgressões das regras orthoepicas, que a cada momento se ouvem até em boccas de ouro; tão irresistivel é a força dos maus exemplos! De entre as mais vulgares citaremos, para amostra, o accrescentamento, ou paragoge de um _e_ mudo ao infinito dos verbos, dizendo-se: _amare_, _fazere_, _comere_, _partire_, _pore_, etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pôr. O mesmo accrescentamento ao final das palavras, que terminam em consoante, proferindo-se: _sole_, _flore_, _mulhere_, _metale_, em logar de sol, flor, mulher, metal; o emprego do _a_ grave, onde deveria soar _e_ fechado, pronunciando-se _espâlho_, _panha_, _tanha_, etc., por espelho, penha, tenha. A substituição grosseirissima de _le_ a lhe, dizendo se _dei-le_, _mostrei-le_, _quizera-le_, em vez de dei-lhe, mostrei-lhe, quizera-lhe; bem como o emprego de _lhe_, quando este pronome se refere a mais de uma pessoa ou cousa, e de _lhes_, quando a referencia é a uma só cousa ou pessoa. O emprego de _i_ em logar de _e_ em muitas palavras taes como dedal, dedeira, deante, empenho, emprestar, que a mór parte da gente pronuncia: _didal_, _dideira_, _diante_, ou _diente_, _impenho_, ou _impanho_, _imprestar_.

De tanto e tão damninho joio irá o educador arrancando diariamente muitas mãos cheias, desafogando a linguagem de todos quantos senões n'ella fôr descobrindo, afim de que mais tarde, quando os meninos entrarem a estudar os segredos da elocução, nem elles, nem os professores tenham de perder muito tempo e muita paciencia em os debellar. E não sómente aos erros da pronunciação se ha de ir applicando prompto e efficaz remedio, mas tambem aos gallicismos e plebeismos de que está inçada a nossa lingua, mórmente aos que respeitarem á composição das phrases, havendo o maximo cuidado em não atordoar as cabeças dos estudantinhos com preceitos de grammatica e considerações philologicas.

Se um menino disser: Vi hoje na _montra_ de um livreiro uma linda estampa; accudirá logo o educador: Não se diz _montra_; diz-se mostrador; e fará que o mocinho repita a phrase, substituindo o termo peregrino e escusado pela palavra portugueza. Diz outro: _Houveram_ hontem muitas festas de egreja; emendará sem demora o educador: Houve hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha a que emende o erro. Se algum menino lhe perguntar a razão por que tal palavra ou phrase se não deve dizer, a resposta será regulada pela idade, intelligencia e adiantamento do interrogante, de modo que, se elle fôr pequenino e muito noviço em materias grammaticaes, só lhe dirá: Essa palavra não se deve empregar porque é estranha á nossa lingua e desnecessaria; essa phrase não é admissivel, porque não é conforme ás leis da grammatica, que é a sciencia de bem fallar. E ahi fica o educando insensivelmente sabedor de que a phrase, que empregou, não é boa; de qual ou quaes a devem substituir; de que o discurso está subjeito a leis; e de que a sciencia de fallar correctamente se chama grammatica.

Quanto mais não valerá a advertencia despretenciosa, que valeria um discurso mui chorudo de citações e palavras latinas e gregas! Se o pequenito, que os ha amigos de discutir e aferrados á propria opinião, não largar voluntario a palavra, que ouvira ou lêra, bom será convencel-o, não com argumentos scientificos, salvo se a sua intelligencia os poder comprehender sem custo, mas por meio de um simile. Poder-se-lhe-ha ponderar que assim como ninguem rasoavelmente vae pedir emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia de portas a dentro, nem vae ao mercado comprar fructa ruim, tendo-a famosa no quintal, a bater-lhe nas vidraças, assim os portuguezes de bom juizo e sufficiente instrucção, não devem andar tomando palavras e maneiras de dizer a estranhos, quando até para repartir com elles lhes sobram muitas.

Para conseguir que as crianças leiam e fallem com elegancia, e n'isto vae o segredo da perfeitissima declamação, a primeira cousa, que o educador tem a fazer, é acostumal-as ao rhythmo, tão bem aproveitado pelo sr. Visconde de Castilho no seu _Methodo de leitura repentina_.

Por pouco que se pense na organisação de todo o apparelho vocal (pulmões, larynge, bocca e narinas) nas relações d'aquelles orgãos e no mechanismo da voz, facilmente se perceberá, que a palavra, no que tem de physico, é verdadeira musica, com seus sons naturaes e accidentaes, com sua oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, com os seus tempos, já breves, já longos, e até com a expressão e timbre variadissimo, que ás vibrações sonoras e musicaes, imprimem os instrumentos.

Ora, como não ha musica, que tal se possa chamar, sem rhythmo e expressão, claro está que a voz humana, para satisfazer ás condições da arte, e bem servir a intelligencia, de que é a melhor reveladora, e até parte integrante, no dizer de Condillac, deve ser rhytmica e expressiva.

Para que estas duas essenciaes qualidades lhe não faltem é indispensavel em primeiro logar, que o educador habitue os meninos a obdecerem escrupulosamente ao compasso, na pronunciação dos sons elementares (vozes e consonancias) na dos compostos (diphthongos e syllabas) e na recitação das palavras, que só poderá ser perfeita, quando tiverem sido previamente divididas em tantos tempos, quantos forem seus elementos syllabicos. Depois de bem amestrados por meio d'estes exercicios na leitura auricular das palavras, que o educador para tal fim lhes ditará em voz bem intelligivel, palmeando as primeiro mui vagarosamente, depois um poucochinho mais depressa e por ultimo com o natural andamento, passarão os meninos a _ler por cima_, como é uso dizer-se nas escolas.

Chegado a este ponto terá o educador de desvelar-se muito em supprir a extrema penuria da orthographia, não tanto no tocante á representação dos sons constituitivos das palavras, no que muito falta, como no que se refere á divisão logica das orações, ás variadissimas pausas, que ha de fazer o bom ledor e recitador perfeito; ás infinitas intonações de que carecem as palavras, as proposições, os periodos e até um mesmo vocabulo conforme a idéa que revela[1].

Ler ou fallar sem intonações, sem pausas, sem as devidas quantidades, sem dar ao que se lê ou falla o natural colorido, e o relevo indispensavel, vale tanto como querer executar em um piano miseravelmente desafinado os primores de Rossini, Donizetti, Bellini, Meyerbeer ou Marcos Portugal.

E não obstante serem intuitivas todas estas verdades, muitissimas pessoas ha, que as desconhecem, e muitas que, não as desconhecendo, como que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que provocam tedio e somno.

Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade de mostrar praticamente a um educador, sempre avido de se aperfeiçoar, e em extremo benevolente para comnosco, a introducção nas escolas infantís e primarias, para o ensino e aperfeiçoamento da leitura e recitação de um processo analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras e bandas marciaes no estudo das peças concertantes. Consiste elle em se collocarem os meninos em pé ou assentados, mas conservando direitos os troncos e naturalmente levantadas as cabeças[2] em frente de estantes ou mesas, onde estejam abertos os livros. Em logar elevado, de modo que todos os escolares o vejam, está o educador em pé, batuta na mão, olhos no livro e olhos na turba. Primeiro lê elle pausadamente em voz alta, com todo o esmero, um periodo, marcando o compasso com a batuta, repetindo duas ou mais vezes as palavras, que lhe parecerem mais difficeis de pronunciar, e corrigindo sem o minimo acanhamento os proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o mesmo trecho ao estudante mais adiantado, depois a outro e outro, reservando para o fim os menos habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar.

Findo que seja este segundo exercicio, e tomado algum descanço, dará o signal de attenção e mandará ler em côro, indicando sempre com a batuta, como se estivesse regendo uma orchestra, todas as modificações da voz, que a leitura exigir.

A estes estudos, que bem se podem chamar de leitura coral, podem-se accrescentar outros, excellentes para exercitar os meninos na declamação, e mui bem acceitos do bando infantil, que consistem primeiramente na leitura, e depois na recitação de cór, de pequenos dialogos, fabulas, e entremezes, em que haja um côro e dois, tres, ou mais interlocutores. Composições d'este genero facilmente se obtem, e quando se não achem, sem muito custo as póde architectar o professor.

A par dos exercicios de leitura e recitação se póde ir cultivando a intelligencia dos meninos, e acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se com certo rigor logico. Nada ha mais facil.

Umas vezes elles mesmos subministrarão ao educador assumpto de molde para os seus conselhos e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e educador uma pergunta ou lhes proporá um problema, e nas respostas irá notando as transgressões das leis da logica, que porventura commetterem, nunca saindo do campo da pratica para o das theorias, nem usando da terminologia scientifica, que nas idades tenras assusta, desgosta e não instrue.

* * * * *

Cerraremos estas considerações lembrando aos educadores a vantagem de excitar nos estudantes o amor do estudo pelo emprego de premios e distincções.

Se no dizer de Christo «Todo o que trabalha é digno de recompensa» _Dignus est enim operarius mercede sua_, qual será a razão por que se não hade galardoar o bom comportamento, a assiduidade no estudo, o aceio, e o progresso dos meninos?

Se nas escolas superiores ha premios annuaes para os alumnos distinctos, se as academias os offerecem aos sabios, que cabalmente satisfazem aos seus programmas; se aos que triumpham nos certames das artes e da industria se concede a menção honrosa, o _accessit_, a medalha de prata ou a de ouro; se ha palmas e corôas, e ramalhetes, e brindes para o actor eximio, e até para o que na praça lucta com o touro embravecido, de melhormente se devem premiar as criancinhas, para as quaes o estudo, por mais que lh'o procuremos amenisar, hade ser sempre tarefa improba e tediosa.

Hade porém haver na concessão das distincções e premios escolares a maxima parcimonia e inteira justiça, para que nem a prodigalidade lhes diminua o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de incentivo do bem, facho de discordias, e origem de malquerenças.

E assim como a advertencia e a reprehensão se não devem fazer esperar, commettida a falta, assim tambem se não deve demorar, nem regatear o galardão aos que o merecerem.

Finda a semana, a cada um se dará com certa solemnidade ou o diploma, ou a medalha, ou a estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca gulodices ou cousas, que os possam prejudicar.

Além d'estes estimulos, bom será que annualmente haja, como em muitos collegios se usa, uma sessão publica consagrada á glorificação dos que mais se houverem distinguido.

Ponhamos aqui ponto, não porque hajamos dito quanto se poderia recommendar aos educadores relativamente á difficilima empresa de iniciar as criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque exposto fica o que mais lhes convem saber para o bom emprego do ensino intuitivo, que nos proposemos vulgarisar, convencidos da sua muita utilidade. Os exemplos que seguem, não entram no plano de ensino intuitivo _gradual_, que, se Deus fôr servido, daremos á estampa; são tão sómente uma amostra, pela qual se possa fazer idéa do systema.

Preferimos para estes exemplos os assumptos e objectos, que nas suas primeiras lições trataram Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em materia de educação tem prestado relevantes serviços á humanidade, adquirindo incontestavel direito a esta humilde, porém sincera homenagem[3].

E já que fallámos de pedagogistas de tamanha nomeada, honremos aqui tambem outro escriptor e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja ultima obra, publicada em fins do anno de 1872: «_A educação maternal conforme as leis da natureza_,» não inferior á tão justamente applaudida: «_Educação das mães de familia_,» de Aimé Martin, hade forçosamente contribuir muito para a reforma do actual viciosissimo systema de educar a infancia, do qual o sr. Rambosson diz estas tão tristes, quão verdadeiras palavras: _Il n'existe rien sous ce rapport, ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler éducation ce que se pratique pour cet âge_.

PRIMEIRA LIÇÃO

Ao entrarem a primeira vez na escola a maior parte dos meninos receiam; muítos d'elles temem.

Que receiam e que temem?

Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario de suas mães e paes; o affastamento de seus irmãos e criados; o professor, que desconhecem; os condiscipulos, que nunca viram; a casa da aula, que lhes é estranha; a sciencia que ignoram.

Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se apartam do ninho seu paterno, mais desbotadas levam as faces, mais tremem e se angustiam ao aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, que se lhes afigura medonho ergastulo.