Ensino intuitivo livro destinado às mães e paes de familia e às professoras e professores de instrucção primária

Part 2

Chapter 23,878 wordsPublic domain

Para os mais pequeninos, para aquelles que mais se lembram ainda dos beijos maternaes e das doçuras da casa paterna, o triste e monotono a, b, c, as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada. Para os mais crescidinhos, a grammatica, a historia patria, a chorographia, a doutrina christã.

Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo, que involuntariamente decoram, e machinalmente repetem?

Nada, ou quasi nada.

Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais adiantado, o mais estudioso, o que mais talento revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis repetir o compendio, máo ou bom, com certa facilidade e elegancia; mas se lhe perguntardes o sentido de uma palavra, a razão de um facto, vel-o-heis córar e emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram sempre em pousío as mais nobres faculdades da alma, excitando-lhe apenas, e ainda assim por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar, a memoria.

Olhar com seriedade para a educação e instrucção da infancia, e reformal-a completamente, adequando-a ás edades dos estudantinhos, e tornando-lh'a facilima, deleitavel, e todo o ponto util, é não só necessidade urgente, senão dever impreterivel.

O primeiro passo para esta grande reformação, que o bom senso, a sciencia, a caridade, e o interesse de todos nós estão ha muito a pedir a grandes brados, dar-se-ha quando os governos, os municipios, as associações e os particulares se resolverem a edificar casas para escolas infantís, e primarias, espaçosas, alegres, agasalhadas, com o seu jardim, meio descoberto, meio assombrado com arvoredo, tendo no centro um pequeno lago ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil, preparo para a primaria, fôr obrigatoria; quando o ensino da infancia fôr esclusivamente confiado a mulheres intelligentes, instruidas, honestas e amoraveis, que do coração se consagrem ao ministerio sacratissimo de educadoras, e que a todos os discipulos, amem e acarinhem, como se fossem todos elles seus filhos queridos; e quando finalmente o _Ensino intuitivo_ se tornar obrigatorio e exclusivo nas escolas infantís; e obrigatorio, como auxiliar de qualquer outro, nas escolas primarias e secundarias.

Muitos annos hão de decorrer, infelizmente, primeiro que se realizem estes nossos alvitres. Levantar-se-hão contra elles os ramerraneiros, os enthusiastas do passado, os indifferentes, os que não crêem no aperfeiçoamento humano começado a operar na escola infantil, os que só vêem a prosperidade publica, no exercito, nas estradas, nos caminhos de ferro, nos telegraphos electricos, nas escolas superiores, nas academias, e nos museos, como se tudo isto não estivesse a pedir, para ser verdadeiramente util, muita e sólida instrucção no povo, muita moralidade, e muito amor ao trabalho, e como se estas indispensaveis qualidades as podesse ter uma nação, onde não ha escolas infantís, onde as escolas primarias são pouquissimas e defeituosas, onde os methodos de ensino são ruins, e onde os professores, muitos d'elles dignissimos e habeis, são tão vergonhosamente retribuidos, que para pobrissimamente viverem, têm de se occupar em misteres totalmente alheios do ensino e educação.

Muitos annos, repetimos, hão de decorrer primeiro que os exemplos da America, generosissima com a instrucção primaria, sejam imitados na extrema Europa.

Não o quer o _deficit_, exclamarão os financeiros, e applaudil-os-hão todos os que mais ou menos manuseam o orçamento do estado.

Se a indole d'este escripto o permittisse, facil nos seria impugnar esta nefasta e incessante invocação da pobreza publica, e mostrar que em Portugal o que falta, e muito, é verdadeiro patriotismo, é sincera vontade de progredir, é a iniciativa individual nos arrojados commettimentos, caracteristicos dos povos, que comprehendem os seus deveres de membros da grande familia social e que os não pospõe aos seus interesses particulares.

Colhâmos, porém, as vélas ás considerações, que todos estes assumptos nos suggeriram, e entremos já a dizer o que seja o _Ensino intuitivo_, e as vantagens que d'elle resultam.

Todos os que lidam com crianças terão percebido que nas primeiras idades é o homem dominado incessante e invencivelmente pela curiosidade, ou desejo de saber; que para saciar esta inclinação empregam os infantes não só os olhos, mas os outros sentidos; que ao verem um objecto, mórmente se lhes agrada, ficam diante d'elle como que absortos, com os olhos mui abertos, ás vezes quasi sem pestanejar; que se lh'o consentem, tomam nas mãosinhas o que primeiro estiveram vendo, e o apalpam, a principio com timidez, depois com afoiteza; que o levam ao nariz, e á bocca, e que por fim começam de separar as partes de que se compõe, se não é inteiriço.

Apoz tal exame, e ás vezes simultaneamente, chovem as perguntas:

O que é isto?

Quem fez?

De que é?

Para que serve?

Quem trouxe?

Terão tambem observado os educadores, que n'estes exercicios instinctivos, as criancinhas, em geral, não comparam, nem por consequencia raciocinam. Fazem como as abelhas, que andam de planta em planta, de flôr em flôr, colligindo os materiaes com que mais tarde hão de fabricar o seu mel. Com a differença que as abelhas nasceram aptas para aquella industria e nunca em vez de mel nos dão outro produto; e as criancinhas, artistas novéis, mas livres e dotadas de intelligencia perfectivel, podem pela maneira imperfeita porque as suas faculdades intellectuaes e moraes se começarem a desenvolver, e continuarem a exercer-se, viciar de tal arte o espirito, que de futuro ou nada possam conhecer bem, ou só com extrema difficuldade e grande dispendio de tempo.

Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia e juventude, em amenisar-lhe o começo da extensa e espinhosa senda, que tem de percorrer na vida, em desenvolver-lhes e aperfeiçoar-lhes gradual e insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes de copiosos e variadissimos conhecimentos o espirito; em formar-lhes o coração, desenvolvendo n'elle astuciosamente o gosto do bom, do bello e do verdadeiro; em habilital-as o mais cedo possivel, sem a minima violencia, para a vida pratica, deixando para tempo opportuno theorias e systemas, para comprehender os quaes é mister intelligencia robusta, é em que consiste o _Ensino intuitivo_.

É este ensino primeiro que tudo dos sentidos externos, os quaes á maneira que se vão exercendo sobre os objectos, para lançarem no espirito os germes de quantas sciencias e artes ha, se aperfeiçoam insensivelmente, adquirindo cada dia mais vigor e aptidão.

É pois indispensavel que os educadores procurem especialmente que as criancinhas empreguem os sentidos, ora simultanea, ora successivamente, nas cousas que tenham de estudar, que as vejam de perto, que as tomem nas mãos, que as cheirem, que as provem, quando não houver inconveniente, que as dividam e recomponham, sem que se lembrem de que estão a estudar.

Tudo servirá para estes exercicios intuitivos, se o educador tiver instrucção variada e profunda. Tudo servirá, por que, como disse Jacotot: _Tudo está em tudo_.

Um grão de areia, um alfinete, uma agulha, um botão, um palito, uma moeda de prata ou cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva, serão compendios tão importantes como um cavallo, uma ave, um peixe, um relogio, uma caixa de musica, ou uma machina de cozer.

Milhares de cousas baratissimas se poderão apresentar aos estudantinhos para larguissimamente os instruir; muitissimas haverá em todas as casas, taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes qualidades, flôres, fructos, relogios, thesouras, campainhas, etc. De um sem numero de objectos se poderão obter modelos em ponto pequeno ou de madeira ou de papelão, ou de qualquer outra substancia apropriada. Na falta absoluta de exemplares naturaes, que são os melhores, ou de copias em vulto, que servem perfeitamente, sendo bem feitas, empregar-se-hão com muita vantagem estampas coloridas ou em negro. O que deve ser banido das escolas infantís é o syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica, o compendio de chorographia e o de civilidade. Da exposição, exame e comparação das coisas ou das estampas, segundo o processo que já vamos indicar, é que as crianças hão de ir colhendo as idéas exactas e claras, que depois saberão associar ás mil maravilhas, formando espontaneamente optimos juizos e raciocinios.

Tratando das viagens de Homero e do estudo pratico das pessoas e cousas, que habilitou o immortal filho de Climene a compôr os protentos litterarios denominados _Iliada_ e _Odysséa_, diz Bitaubé o seguinte, que é a expressão da verdade: «Os livros são uteis, mas favorecem certa indolencia, que obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo, vemos a maior parte das cousas pelos olhos dos outros, e representâmos ao nosso espirito imagens de outras imagens; se observassemos directamente os objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente no espirito. Qual é o resultado da falta de observação directa? É perdermos a perspicacia e sagacidade indispensaveis para observar com perfeição á força de não as exercitarmos e de não contemplarmos a natureza, excellente mestra, que jámais se deve despresar. Adquirem-se é verdade, mais idéas, mas imperfeitas e superficiaes, de que resultam quadros frios e incompletos.»

Todos os pedagogistas, que se teem occupado d'este systema de ensino, encarecem o proveito que se tira da substituição dos livros de texto, que os meninos decoram sem os entender, pelas estampas, que muito os deleitam e que examinam attentos, colhendo das palavras do educador, a proposito de cada uma, infinitos conhecimentos, que jámais esquecerão.

É mister, porém, que as estampas sejam mui perfeitas, para que não viciem nas crianças o gosto do bello e da verdade, e que sejam graduaes, como tudo deve ser na educação. A regra fundamental do ensino intuitivo, a qual nunca deve esquecer é: _Caminhar do conhecido para o desconhecido, do facil para o difficil, do commum e trivial para o menos commum ou mais raro_.

Para realisar este preceito maximo, cujo despreso annularia o systema, convirá que os educadores não entretenham seus discipulos com objectos tomados ao acaso, mas que sigam um processo gradual, lento e invariavel, nunca lhes chamando a attenção para cousas, cujos componentes elles ainda não conheçam, nem lhes fazendo perguntas para responder ás quaes não estejam habilitados. Dêmos alguns exemplos. Se praticarmos com mocinhos a respeito de uma caixa de pinho, que estejam vendo, poderemos convenientemente perguntar-lhes o feitio que tem, as partes de que se compõe, para que serve a tampa, para que estão ali as argolas e a fechadura; poderemos interrogal-os ácerca dos usos da caixa, fallar-lhes do perigo de entalar os dedos quando a fecharmos, ou de nos ferimos se a tampa cair sobre as nossas mãos ou cabeça; poderemos ainda indagar se sabem o nome que se dá aos artistas, que trabalham em madeira; mas não lhe fallaremos do pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham adquirido os convenientes conhecimentos.

Se conversarmos ácerca de uma moeda de prata, bom será perguntar-lhes como se chama aquelle dinheiro, de que é feito, que feitio tem, por que não é quadrado, nem triangular (aqui fará o professor com o giz no quadro preto a figura do triangulo e do quadrado), o que tem n'uma e outra face, que representa a effigie e as armas, para que serve o dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos de lhes dizer que a prata da moeda é uma liga de prata e cobre, se por acaso ainda não souberem o que é uma liga metallica, nem conhecerem o cobre.

Convém estar prevenido para um caso, que muitas vezes se deve realisar na pratica d'este ensino. A natural prespicacia de alguns meninos e os conhecimentos adquiridos na convivencia de seus paes e amigos ou na leitura, se forem já ledores, habilital-os-hão a fazerem perguntas, a que o educador não poderá ou não saberá responder. Quando isto aconteça, nem se enfade ou envergonhe o educador, nem illuda a curiosidade infantil, que de tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar sobre assumpto, que o mestre ignore completamente ou conheça pouco, isso mesmo declare ao estudante com toda a franqueza; se fôr attinente a cousas, para conhecer as quaes o mocinho não esteja preparado, ou que toquem em pontos, que a decencia não permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento, que não é tempo ainda de saber o que pergunta.

E para que nem o credito scientifico do educador soffra detrimento, nem os meninos se desgostem e abstenham de perguntar, bom será que o educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada ás suas intelligencias, e por meio de exemplos, quão numerosos são os conhecimentos humanos, que é impossivel que todos saibam tudo, e que, para adquirir sciencia de bons quilates, é indispensavel ir a pouco e pouco, e não investigar certas cousas, antes de ter adquirido noções exactas de outras.

Para que o ensino intuitivo produsa todos os bons resultados que d'elle se podem esperar, não basta progredir do conhecido para o desconhecido, do simples para o composto; é indispensavel que os alumnos não conheçam o plano adoptado pelo professor, e que não percebam que o que elle lhes vae ensinando tende a um determinado fim e se ajusta para os iniciar nas sciencias, cujas leis e applicações mais importantes só mais tarde terão de estudar. Para a realisação d'este importante segredo do ensino intuitivo, iremos nós offerecendo aos educadores em publicações successivas, se esta nossa tentativa merecer o favor publico, as lições graduaes, que deverão constituir um curso completo.

Recommendam os mestres d'esta especialidade, no intuito de não enfadar os estudantes e de os conservar attentos, que cada lição não exceda quinze ou vinte minutos. Diremos, porém, que a pratica nos tem mostrado poder ás vezes a lição prolongar-se até duas horas e mais, sem que os estudantes se enfastiem nem deixem de attender ao que se lhes mostra e explica. Consegue-se este resultado amenisando a pratica com historietas, de que os meninos muito gostam, com exemplos, que elles bem comprehendam, com a citação de proverbios, anexins, e anecdotas consoantes ao assumpto de que se trata, e mais que tudo com o dialogo mui cortado entre elles e o professor.

Haja sempre n'estas lições a maxima variedade apparente, tanto no objecto do estudo como na fórma, no dizer, nas conclusões e até na collocação dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem, além de certos limites, entristece a escola e cança os escolares. A par do ensino das cousas andará sempre o ensino da moral, da hygiene, da economia domestica, da religião, da organisação social, da historia, da geographia, das bellas artes, de tudo; com preferencia do mais util; mas sem estudos de cór, sem declamações, nem theorias transcendentes, nem listas de nomes de pessoas, nem datas escusadas; tudo ao de leve, saboroso, convidativo, e nem assim em grandes dozes, nem todos os dias.

Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos de como se deverá proceder n'estes pontos, e não os tenham na conta de ridiculos, que nada é ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada, que ha de precorrer a puericia.

Estamos na escola, estudando um objecto qualquer. Ouve-se ganir um cão na rua. Logo o professor interrompe o estudo, e pergunta a um dos escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigirá:

P.--Que é aquillo, alli, na rua?

E.--É um cão a ganir, responderá o estudante; e o dialogo proseguirá, pouco mais ou menos, do seguinte modo:

P.--O cão está ganindo ou ladrando?

E.--Está a ganir.

P.--Quantas qualidades de sons ou vozes produzem os cães com a bocca?

E.--Não percebo a pergunta.

P.--Eu me explico. Os cães não estão sempre calados...

E.--Já percebo o que o senhor professor pergunta. Os cães _ladram_.

P.--E quando estão tristes, ou quando ouvem certos sons, que lhes não agradam, ladram?

E.--Não, senhor, _uivam_.

P.--E quando estão a roer um ôsso, e outro cão ou qualquer pessoa lh'o quer tirar, o que fazem?

E.--_Rosnam_.

P.--E se lhes batem, ou os apedrejam?

E.--Põem-se a _ganir_.

P.--Mui bem; os cães, pois, podem _ladrar_, ou _latir_, _rosnar_, _uivar_, e _ganir_.

Aqui, se os meninos tiverem já conhecimentos de grammatica, dirá o professor como de si para comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco verbos, e repetirá, contando pelos dedos ou batendo com o lapis na mesa: o verbo _ladrar_, o verbo _latir_, o verbo _rosnar_, o verbo _uivar_ e o verbo _ganir_.

E continuará, como quem se está recordando do que aprendeu: palavras que representam acções praticadas ou feitas pelo cão.

E logo, como quem se desviou do caminho direito e a elle volve, dirá ao alumno:

P.--Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que o _uivo_ dos cães é de mau agouro, isto é, que um cão a uivar annuncia desgraça. Será verdade?

E.--A minha avó diz que sim, que é signal de estar alguem para morrer.

P.--Essa resposta esperava eu.

Pois fiquem os meninos sabendo, que não ha agouros, e que _uivar_ um cão, ou _cantar_ um canario, ou _relinchar_ um cavallo, ou _piar_ um mocho, ou _cacarejar_ uma gallinha, ou _miar_ um gato não tem influencia nenhuma nos acontecimentos humanos.

E.--Á minha casa vae uma velhinha, que, em ouvindo uivar um cão, descalça o sapato e põe-n'o com a sola para cima, até o animal se calar.

P.--Se os cães uivarem muito em roda d'ella no inverno, andará sempre com os pés frios.

E.--Então a minha avó mente?

P.--Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta na cabeça, e ella acredita uma cousa, que não é verdadeira.

E.--Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa estiver para morrer e um cão se puzer a _uivar_ na rua ou na escada?

P.--O doente morrerá, se Deus quizer que morra; e viverá, se fôr da vontade divina, que continue a viver.

E.--Mas como se explica o que aconteceu o anno passado a um visinho de meu papá?

P.--Conte-me lá essa historia tentim por tentim.

E.--Adoeceu um homem, que morava no primeiro andar do predio, em que eu habito; veiu o medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a doença não era de perigo, e saïu. Minutos depois metteu-se na escada um cão e principiou a uivar.

A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com o cabo da vassoura e pol-o na rua. Quando entrou em casa, estava o marido morto em cima da cama.

P.--Sabe o menino o que isso foi?

E.--Eu não senhor.

P.--Pois tem pouco que saber. Foi o que se chama _uma coincidencia_. Se á saïda do medico, entrasse pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia, que a avesinha viera annunciar aquella desgraça; se eu por acaso batesse á porta do doente n'aquelle instante, era eu o agoureiro.

E.--Mas o medico tinha dito, que a doença não era de perigo.

P.--E a morte repentina pressente-se horas, ou minutos antes? E não podem os proprios medicos morrer de repente, sem que suspeitassem o que lhes ia acontecer?

E.--Mas o cão uivou!

P.--Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa d'esse homem, que falleceu, não tem estado mais ninguem doente?

E.--Estiveram doentes dois filhos.

P.--E a mãe mandou chamar medico para os tratar?

E.--Mandou, sim, senhor.

P.--E não mandou chamar um cão?

E.--Ora essa! Os cães não sabem curar doenças.

P.--Mas o cão, que uivou, quando o homem morreu, era mais entendido que o medico, porque annunciou a morte, até sem vêr o doente.

E.--O senhor professor está brincando! Os cães são brutos, não sabem d'aquellas cousas.

P.--Então como é isso? Não sabem d'aquellas cousas, são brutos, e prophetisam?

E.--Tem razão, senhor professor. Agora vejo que a minha avósinha anda enganada.

P.--E muito, e faz mal em dizer taes patranhas. O uivo dos cães é desagradavel aos ouvidos, aborrecivel por isso, mas não tem a minima significação.

Aqui poderá o educador dar fim ao incidente, ou continuar o dialogo, fallando do mau costume de molestar os animaes, das qualidades do cão, da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc, etc.

Ao terminar a lição poderá o educador convidar ou os meninos a imitarem o relincho do cavallo, o carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o latido dos cães, etc.

Este exercicio que a algum fatuo parecerá ridiculo, ou desnecessario, ou ambas as cousas, tem as seguintes vantagens: alegra e distrae as creanças, que jámais fugirão do estudo, quando elle fôr recreativo, desenvolve-lhes, e aperfeiçôa-lhes a natural tendencia para imitarem, exercita-lhes e robustece-lhes os orgãos vocaes, e por cima de tudo não faz mal nem á alma nem ao corpo.

Quem reparar bem no dialogo que deixâmos architectado, descobrirá quanto ensinamento ha n'elle, e perceberá que se pretendeu principalmente combater uma crença erronea, mas vulgarissima.

Dêmos o segundo exemplo.

Está sobre a mesa ou em cima de outro movel um ramalhete de flores, que alli se puzéra mui calculadamente.

Chegada a occasião opportuna, o professor interrompe a lição e diz:

Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se faz uma pausa, e todos os rapazinhos exultam e saltam dos seus logares.

P.--Já viram bem aquelle ramalhete?

E.--Ainda não, senhor.

P.--Pois vão buscal-o, para o examinarmos por miúdo.

E.--Eil-o aqui.

P.--De que flores se compõe?

E.--De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas e cedro.

Se os meninos errarem o nome das flores, ou os não souberem, irá o professor emendando e dizendo lhes como se chamam.

P.--Menino F... (ao que mais atrazado estiver em contar) conte pelos dedos quantas qualidades de flôres ha n'este ramalhete.

E.--Rosas, _uma_; cravos, _duas_; camelias, _tres_; junquilhos, _quatro_; violetas, _cinco_; cedro, _seis_... Ha seis qualidades de flôres.

P.--Parece-me que se enganou. Veja bem.

E.--São seis, não me enganei.

P.--E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se, porque não attendeu bem. Diga-me, o cedro é flôr?

E.--Tem razão; são cinco. O cedro não é flôr.

P.--Está-me parecendo, que nenhum dos meninos me sabe dizer para que serve este cedro á roda das flôres.

E.--Eu não sei; eu tambem não; é, é....

P.--Eu lhes digo para que elle aqui está. É para realçar a belleza das flôres, para fazer um contraste agradavel á vista. Se duvidam desatem o junco, tirem o cedro, e verão que o ramalhete perde muito da sua formosura. (Acto continuo, o educador faz o que aconselhou e mostra o ramo desguarnecido de verdura).

P.--É ou não é verdade, o que lhes affirmei?

E.--É verdade.

P.--Ha entre estas flôres, umas que cheiram, e outras que não cheiram.

E.--As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram; as violetas, tambem; as camelias é que não tem cheiro.

P.--Não me lembro se já lhes disse como se denominam as substancias, que tem cheiro?

E.--Denominam-se _odoriferas_.

P.--E as que não teem cheiro?

E.--_Inodoras_.

P.--E todas as substancias, que tem cheiro, cheiram bem?

E.--Não, senhor.

P.--E todas as flôres cheirosas, possuem cheiro agradavel?

E.--Nem todas.

P.--Digam-me agora outra cousa. O cheiro das flôres é bom ou mau, para a saude?

E.--Não sabemos.

P.--Pois vão saber uma verdade, que jámais devem esquecer. Attendam. Ha pessoas a quem o arôma das flôres incommoda e faz adoecer; causa-lhes dôres de cabeça, enjôos de estomago, tonturas, e outros padecimentos. Muitas flôres, e ás vezes poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir com flôres na alcôva é muito perigoso, e sabe Deus quantas molestias este mau costume terá originado. Por agora basta que saibam isto, para se acautelarem; em outra occasião lhes explicarei como é que as plantas e flôres alteram a pureza do ar e o tornam doentio.

É por este theor que nos animos infantis se podem inocular conhecimentos praticos de quantas sciencias ha, de modo que as crianças, ao sairem das escolas, levem copia immensa de noções utilissimas para todas as circumstancias da vida.

* * * * *

De grande proveito nos parece que os meninos mais desembaraçados na escripta tenham um caderno onde todos os dias vão escrevendo mui laconicamente o assumpto da lição, e o que da mesma lhes pareça mais digno de se conservar na memoria.