Part 1
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*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Setembro 2010)
ENSINO INTUITIVO
LIVRO DESTINADO ÁS MÃES
E
PAES DE FAMILIA
E ÁS
PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA
POR
JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES
Socio honorario da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da Sociedade Pharmaceutica Lusitana
PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA NATURAL
LISBOA
FERREIRA, LISBOA & C.^a 132--Rua Aurea--134
1873
ENSINO INTUITIVO
ENSINO INTUITIVO
LIVRO DESTINADO ÁS MÃES
E
PAES DE FAMILIA
E ÁS
PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA
POR
JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES
Socio honorario da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da Sociedade Pharmaceutica Lusitana
PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA NATURAL
LISBOA
FERREIRA, LISBOA & C.^a 132--Rua Aurea--134
1873
LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES IMPRESSOR DA CASA REAL
110--Rua dos Calafates
Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Sr. Conselheiro José Silvestre Ribeiro
Ha annos, ouvindo os louvores, que á intelligencia e probidade de V. Ex.^a tecia um dos mais peregrinos talentos de Portugal, o grande poeta, hoje Visconde de Castilho, senti irresistivel desejo de ler os escriptos de V. Ex.^a e de o conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e com muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de V. Ex.^a haviam saido, umas reunidas em volumes, outras espalhadas pelos periodicos, todas porém rescendendo suave e, digamos assim, castissimo perfume de natural bondade e heroicas virtudes, qualidades que para mim valem muito mais que toda a erudição, e que realçam sobremodo a que v. ex.^a possue vastissima, colhida no incessante estudo de quantos engenhos famosos tem opulentado as sciencias, as artes e a litteratura.
Já eu, havia muito, conversava com V. Ex.^a em espirito e me reputava seu discipulo amicissimo, quando tive a boa fortuna de fallar a V. Ex.^a e de ser por V. Ex.^a acolhido com a benevolencia, que lhe conquista a sympathia de quantos o tratam.
Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso offerecer a V. Ex.^a este livro modestissimo, que se alguma cousa vale é pela boa fé com que foi escripto.
É sympathico o assumpto; creio que é mais um brado pedindo a tão necessaria reforma do ensino infantil e primario na casa paterna e na escola, que tão pouco tem ainda de paternal. Será perdido, como os que o viajante extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens? Talvez.
Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr. Visconde de Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia, nem aquella phrase, que nos faz acreditar a fabula de Orphêo, nem a auctoridade d'aquella quasi intuição do bom e do bello ha conseguido, que amanheça para as criancinhas o dia da sua regeneração intellectual.
Não serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago do trabalho, que puz em escrever estas paginas, se uma só mãe, que seja, ou um só mestre, aproveitar os conselhos, que lhes dou, e se, quando mais não obtenha, uma criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum bom ensinamento a mais.
Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.^a a esta obrinha, imito o bom do Aimé Martin e posso dizer a V.^a Ex.^a o que elle disse ao mavioso Lamartine.
En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher mes paroles aux vôtres, c'est d'étayer leur faiblesse de votre force, ma raison de votre raison. Je veux qu'on dise un jour: Ceux-ci ont connu les veritables biens, ils se rencontrèrent dans la même foi, ils s'aimèrent devant le même Dieu.
De V. Ex.^a
Admirador muito amigo
João José de Sousa Telles.
Lisboa 7 de julho de 1873.
ENSINO INTUITIVO
O livro, que hoje publicâmos, é uma tentativa modesta de acclimação de uma idéa excellente, que lá por fóra tem produzido optimos resultados.
Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas inglezes, allemães, americanos, francezes, e belgas; e ainda que tantos homens competentissimos em assumptos de ensino e educação nol-a não apregoassem famosa, bastaria a simples enunciação d'ella, para que enthusiasticamente a adoptassemos.
Antes, porém, de expôrmos minudenciosamente a idéa nova, e nova lhe chamâmos attendendo ao pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de razão nos parece conversarmos amigavelmente com o leitor ácerca de alguns pontos da educação e instrucção elementar.
É a educação da puericia e da juventude a mais gloriosa e ao mesmo tempo a mais difficil obrigação, que Deus impoz ao homem e á mulher.
Á luz da philosophia e da moral, a paternidade e a maternidade consistem menos em gerar o infante, do que em desenvolver-lhe e aperfeiçoar-lhe incessantemente as faculdades da alma e do corpo, até que possa cumprir os seus deveres e arrostar as contrariedades da vida na curta, mas trabalhosa peregrinação, que principia no berço e acaba no tumulo.
Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios ao seu alcance, para que os filhos, creaturinhas imbelles, que a Providencia confiou a seus cuidados, cheguem no mais curto espaço de tempo, e pelo emprego de processos razoaveis, amenos, e repassados de amor e ternura ao estado de perfeição physica, intellectual e moral, que constitue o homem, tal qual deve ser, tal qual Deus quer que elle seja, tal qual a sociedade bem organisada o requer, para obreiro prestadio da civilisação.
Infelizmente, nem todos os paes conhecem os seus deveres; e dos que os conhecem, muitissimos ha, que os não cumprem, ou por modo mui imperfeito se desempenham d'elles.
D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem os maiores males, que affligem a humanidade, males para os quaes a maior parte das vezes não ha remedio.
Tratando de assumpto differente, disse um douto, que muitas descobertas se poderiam fazer, se opportunamente perguntassemos: _Por que?_ Appliquemos o engenhoso e facil processo de Arago ao exame das causas determinantes de alguns vicios sociaes, e convencer-nos-hemos de quão exacta é a nossa asserção.
Estamos na via publica. De toda a parte se nos apresentam creanças esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas, famintas, petulantes; revolvem-se umas na lama e no pó; dormem outras, tiritando, á chuva e ao vento; estas divagam estendendo a mão asquerosa e pedindo uma esmola aos que passam; aquellas soltam dos labios rosados palavras, que fazem enrubecer os que as ouvem.
Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou, flôres no esterquilinio, passarinhos implumes entre abutres esfaimados, anjos manchando as azas na sujidade das calçadas.
Responder-vos-hão: Nossas mães e nossos paes.
Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando em redor, vendo prepassar trens sumptuosos, soberbos cavallos, mulheres elegantes, homens felizes e descuidósos. Chega-vos aos ouvidos um echo, um gemido, um choro infantil; olhaes...
Que vêdes?
Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos, quasi morta de fome e de frio uma criancinha, cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas lagrimas da materna alegria, e aquecidas pelos beijos fervidos da que lhe deu a existencia, se humedecem com as lagrimas da amargura infantil.
Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito, osculae aquella carinha de jasmim e rosas, e perguntae-lhe:
Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado?
E a innocencia vos responderá, não com palavras, que as não sabe ainda articular, mas com ternissimos soluços:
Abandonou-me meu pae e minha mãe.
Além vae caminho do cemiterio, a tumba, que andou de porta em porta recolhendo os miseros, cujas familias não poderam coalhar o bastante para o modesto funeral dos seus parentes.
Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para dentro.
Horror! exclamareis vós ao ver por entre os adultos exanimes, em sacrilego desarranjo, um bando de creanças quasi esqueletos, rachiticas, chagadas, meio apodrecidas, com signaes evidentes de terem vindo ao mundo com o estigma da morte profundamente gravado nas frontes innocentes.
Martyres obscuros, podereis vós dizer-lhes, para quem o mundo não teve nem uma corôa, nem uma palma; estrellas cadentes, que brilhastes um momento e desapparecestes n'um eterno occaso; quem assim vos macerou os corpinhos, e vos deu a beber o fel da morte ao alvorecer da vida?
E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas na hastea, e emurchecidas antes de desabrocharem, responderá:
Nossos paes e nossas mães.
Vêdes aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo pomadas, todo essencias, gesto insolente, olhar altivo e desdenhoso, que vae rindo e galhofando com outros da sua ralé.
Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros taes. Que bocadinhos de oiro estará elle a dizer?
Escutae-o.
Mófa da religião, que desconhece; insulta os sacerdotes, que acertam de passar junto d'elle; escandalisa as donzellas; zomba dos anciãos; aos pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente.
Indagae como tão cedo se depravou aquelle moço, que deveria estar ainda sentado no banco da escola.
Dir-vos-hão que á incuria paterna deve elle toda a sua ruina.
Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias, que rememoram a angustiosa paixão e morte do grande amigo da humanidade.
Que observaes?
A turba irreverente, descomposta, sacrilega, rindo, conversando, ostentando galas, trocando gracejos, costas para os altares, olhares distrahidos, attitudes grosseiras e vilans.
Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos povoam aquellas mentes? Que piedosos affectos existem em tantos corações? Escandalisa-vos o desacato? Quereis saber porque na egreja estão, como não poderiam estar na casa da opera?
Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe o que lhe hão dito seus paes da grandiosa tragedia do Calvario; do incruento sacrificio, que a representa, da respeitabilidade do altar, do valor das preces humildes e sinceras?
Responder-vos-ha, sorrindo:
Não vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram d'essas coisas.
Que vozearia é aquella? Porque tantos gritos, tamanho borborinho?
Ergue-se um homem mal trajado, e arenga á turba.
Poucas palavras tem dito, e já uns o applaudem phreneticos, já outros o vituperam enfurecidos.
É o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos. A onda encapellada das ruins paixões sobe, sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o Demosthenes improvisado.
Todos fallam, todos proclamam a idéa nova.
Ouçamol-os.
Abaixo os padres, não precisâmos d'elles; abaixo a religião, que para nada presta; acabemos com a propriedade, os ricos só querem beber-nos o sangue; viva o communismo, grita um; viva o socialismo, que é melhor, responde outro; nada, nada d'isso, venha a republica.
Acabemos com os tributos e seremos felizes; e o exercito para que serve? Elimine-se o exercito.
Pedi instrucção, pedi ensino facil, bom, universal, escolas primarias a cada canto, bibliothecas populares, livros optimos ao alcance de todos no preço e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e sonora um operario, fronte ampla, respeitaveis cans, rosto sereno, mão calejada pelo trabalho.
Fóra com o visionario brada a turba.
Que quer dizer instrucção? Para que servem os livros? Para que prestam as escolas? regouga um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia e occiosidade; e bradando á turba, após si a leva cançada, mas não saciada de disparatar.
Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos de quem sejam aquelles doidos.
Uns infelizes, dirá elle, bons corações, más cabeças. Pobresinhos todos; porém mais pobres de instrucção que de dinheiro, porque todos tem aptidão para o trabalho, mas a todos faltou a educação. Não tiveram paes, como eu felizmente tive, que os mandassem ensinar. A mór parte nem ler sabem, nem fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que seja republica, socialismo, communismo, salario, religião, exercito, á boa fé vos affirmo que não poderão responder coisa que geito tenha.
Mas deixemos estes homens, nem todos maus; muitos bonissimos, desvairados pela febre ardente de antigos e profundos padecimentos, que buscam a verdade e o bem, como os alchimistas da idade media, por meios absurdos e inconvenientes, mas que tem a coragem de affrontar os perigos, de sacrificar a propria vida, e de soffrer com a resignação dos martyres dos primeiros seculos do christianismo esses hediondos supplicios, a que ainda hoje o mundo civilisado assiste com profunda magoa e indignação.
Volvamos os olhos para aquell'outros.
D'onde vem?
Das enxovias.
Para onde vão?
Para o degredo.
Homens, mulheres, crianças! Deixam a patria, os amigos, as familias, os formosos campos, onde nasceram, este céo tão puro, este sol tão esplendido, este clima tão amoravel, este abençoado e feracissimo torrão, para irem em paizes inhospitos luctar com a morte opprobriosa, ralados de saudades, roidos de remorsos, despreziveis aos olhos de todos, e condemnados pela voz implacavel da propria consciencia.
Vãm alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas, patrecidas, ladrões, incendiarios; todos os crimes, todas as torpezas, todas as infamias, o lodo asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas da ignorancia preversa, a lepra do grande corpo social.
Ponde os olhos n'aquelle quadro, mães e paes.
Não interrogueis os que o crime despenhou; não insulteis a desgraça; não amargureis mais aquelles corações devastados e corroidos pelo crime, onde poderá haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel; mas perguntae a vós mesmos que educação receberam aquelles miseros de seus progenitores? que sorrisos e carinhos lhes cercaram os berços? que palavras ouviram aquelles entes ao entrar na vida? que exemplos tiveram para seguir? quaes as escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram n'aquelles corações? quantas vezes lhes apontaram para o céo e lhes fallaram de Deus? que noções lhes deram da verdade, da justiça, da honra, do dever? que meios empregaram para lapidarem aquelles diamantes? que processo adoptaram para desinvolver-lhes a intelligencia?
E se não acertardes com as respostas a estas e a muitas outras perguntas, que o caso suscita, ide-vos por essas cidades, e villas, e aldeias, e povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles infelizes. Raro achareis que se prevertesse o que dos paes houvesse recebido desvelada educação.
Mas o que é educação desvelada?
Eis o ponto importantissimo, para o qual chamâmos a attenção de todos. Não o desenvolveremos aqui. Assumpto é para um livro, e já larga e proficientemente tratado por grandes mestres da sciencia de educar.
Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha, por desgraça nossa e d'elles, que não comprehendem nem a extensão, nem a intensidade da palavra educar.
Para uns educar é crear, é nutrir o animal, é desenvolver-lhe o physico; e nem sempre conforme os dictames da medicina e da hygiene.
Para outros educar é iniciar a criança nas regras mais elementares da leitura, da escripta, da contabilidade e de uma arte ou officio.
Não falta quem se vanglorie de ter educado bem, excellentemente, seus filhos, por que lhes deu mestres de linguas antigas e modernas, de geographia, de historia, de philosophia e de muitas outras cousas mais.
Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome sair laureado de uma escola ou academia e entrar na sociedade precedido da fama de optimo estudante. Tal outro se julga em paz com a sua consciencia e se tem por excellente educador, porque o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das columnas de um jornal assombra o mundo com seus artigos, ou deleita as turbas com versos, que reputa mais correctos e melodiosos que os de Camões, Garrett ou Castilho.
E consistirá em tão pouco a sciencia difficilima de educar?
Não, mil vezes não.
Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma certa porção de intelligencia, susceptivel de indefinido desenvolvimento, crescer e medrar no physico, permanecendo-lhe embryonaria a melhor das faculdades? Que vale ao homem, que poderia elevar-se pelo estudo, pela leitura, pela applicação das potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar do progresso da humanidade, qualquer que fosse a sua posição social, saber apenas os primeiros rudimentos das artes de aprender, e tanto pela superficie, que nem d'elles se possa servir, a não ser nos mais simples usos da vida?
Quantos e quantos dos que cursaram as escolas e as academias, e n'ellas se distinguiram, tiveram mais trabalho em debellar os erros da educação elementar do que em arcar com as difficuldades, e segredos das sciencias superiores?
E quantos não vem dos institutos scientificos imperfeitamente instruidos, não por culpa dos mestres, nem d'elles mesmos, mas pela incuria e ignorancia dos paes e dos primeiros educadores?
Todos os homens intelligentes, que tem consagrado a vida ao magisterio superior, reconhecem e confessariam, se quizessem, que a falta de cultivo intellectual nas edades tenras difficulta extremamente aos estudantes a comprehensão das sciencias, e os inhabilita para tirarem dos cursos mais bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam obter.
D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confusão dos principios, a impossibilidade das grandes concepções, a timidez na applicação pratica, o desamor do estudo, que fecunda o que nas aulas se ouviu, e a propensão para a preguiça, que se contenta com o pouco cabedal adquirido e não busca grangear mais.
Se das escolas superiores passarmos ás secundarias, encontraremos as mesmas causas produzindo os mesmos effeitos; e dir-nos-hão os professores intelligentes e zelosos, que das mãos dos paes e dos primarios educadores, receberam a mór parte dos alumnos com os olhos do espirito tão cerrados ainda, que de todo desconheciam as verdades mais elementares e intuitivas, os phenomenos mais simples e intelligiveis, as relações mais claras.
Na escola primaria, o professor instruido, que comprehenda quanto tem de nobre e grandioso o seu ministerio, em apparencia tão humilde, na realidade tão augusto; que considere na criança o homem e no homem o futuro todo inteiro da humanidade; que abranja com a vista o largo horisonte das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje dissipar as trevas d'aquelles entendimentos com luz tenue e suave, como convem a edades infantis, tem ainda a luctar com os defeitos da educação domestica, que devendo ser a primeira, a mais engenhosa, a mais insistente, e mais efficaz, é muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e quasi sempre deficiente.
E se o que vamos dizendo se applica em cheio á educação das faculdades intellectuaes da puericia, que são ainda assim, as que os paes de ordinario mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos, outro tanto se póde asseverar da educação physica e moral.
Conhecida a doença, urge accudir-lhe com o remedio. Já o bom do Jenuense, mestre de nossos paes, mestre de muitos de nós outros, que hoje ensinamos e que suppômos ter alguma valia, e tão injustamente esquecido e mettido para o canto, dizia:
_Principiis obsta, sero medecina paratur, cum mala per longas invaluére moras._
«Acode ao doente apenas a molestia dê o primeiro rebate; que de nada lhe prestará o remedio, tardio.»
E haverá remedios, que prestem para os males de que enferma a educação elementar?
Ha, e muitos; o caso está em applicar-lh'os a tempo e judiciosamente.
Não todos apontaremos aqui, porque não é este livrinho um tratado de pedagogia, mas tão sómente um, que valerá por muitos.
É remedio barato, condicção esta que não é para desprezar; de facil manipulação; composto de simples, que por toda a parte e a toda a hora se acham; e por cima de tudo isto, tão agradavel, que em vez de lhe fazerem caretas, os que o devem tomar, o appetecem e pedem sequiosos e nunca fartos de saboreal-o.
É este remedio o _Ensino intuitivo_.
Para applical-o, diga-se já e bem alta e claramente, nem todos servem. Em mãos de ignorantes converte-se em veneno, e em vez de beneficios, só produz males.
É indispensavel, pois, que paes e mestres, que hajam de o empregar, possuam profundo e variado cabedal de conhecimentos.
Antes, porém, de entrarmos a dizer o que este ensino seja, convem que nos lembremos das condicções organicas, physiologicas e intellectuaes das crianças.
É o infante um organismo em via de formação, incompleto, fransino, em que a vida animal consiste quasi exclusivamente no movimento tumultuoso, na expansão incessante, na assimilação continua.
Abriu os olhos ha pouco, e ainda não teve tempo de ver bem o grandioso espectaculo da natureza, cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam lá dentro, ainda confusas, as harmonias, os ruidos, as palavras, que mal percebe; aspira sofrego os aromas, que rescendem as flores, mas não os distingue; saborêa o nectar, mas quererá tambem provar o fél e degustar o absintho; apalpa enlevado a pelle assetinada e suavissima das faces maternas, mas queimar-se-ha incauto na chama da véla, que admira, sem a comprehender.
No intimo, na cabeça, cujos óssos ainda se não consolidaram completamente, no coração, que palpita violento, jorrando sangue para todo o corpo, começam de germinar as idéas e os affectos, cuja elaboração de hora para hora, de dia para dia, de mez para mez se complica, e transmitte com incrivel velocidade.
São dois mundos luctando atravez do fragil envolucro, que chamâmos corpo; o mundo externo, cujos variadissimos factos contempla attonito sem suspeitar que os determinam infinitas leis, que os encadeam reciprocamente innumeras relações, e que sobre elle actuam incessantemente: o mundo interior, o mundo dos sentimentos, das ideas, dos affectos, cuja admiravel genese começa, e que ha de irromper atravez dos sentidos, e reagir violento sobre os modificadores de fóra.
A creança porque é um ente material, que tende a completar-se, carece de muita alimentação, de muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento, de liberdade, e de sensações variadas, mas suaves, que a deleitem, e que attraiam a sua attenção.
Se todas ou algumas d'estas condicções lhe faltarem vel-a-heis extinguir-se subito, como a luz de uma véla á mingua de oxigenio; ou estiolar-se e pender para o tumulo, onde não tardará a sumir-se, como a planta, que germinou em solo arido e assombrado.
Como creatura intelligente e moral, necessita que lhe dirijam e robusteçam as faculdades, á proporção que se forem desenvolvendo, ministrando-lhes objectos apropriados ás forças das mesmas faculdades, e em quantidade tal, que nem as cancem, nem as desgostem.
No desprezo d'estes principios está, a nosso ver, o primeiro e mais funesto erro do actual systema da educação infantil.
Na maxima parte das escolas da puericia entram quotidianamente as criancinhas faltas do indispensavel alimento, e alli se conservam largas horas em casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando ar infecto, inhibidas de fazer os movimentos, que a sua edade imperiosamente reclama, sem horisontes extensos e ridentes, que as alegrem, sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos.
O mestre, senão carrancudo e severo, é quasi sempre sufficientemente serio e concentrado, para não lhes incutir a confiança e amôr, que são os mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes laços, que prendem o discipulo ao perceptor.
Começa a lição. Não ha canticos, nem musicas, nem exercicios gymnasticos, nem historiasinhas, que alegrem aquelles corações e instruam aquellas mentes nas coisas, que com maior facilidade poderiam comprehender.