Ensaio Histórico sobre as Letras no Brasil

Chapter 3

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Já neste século, principalmente desde o marquês de Pombal, vemos filhos do Brasil ocupando os primeiros cargos do Estado e outros distinguindo-se com escritos que ganharam nomeada. João Pereira Ramos, um dos reformadores da Universidade, é guarda-mor do Arquivo da Torre do Tombo. Seu irmão, o bispo de Coimbra, d. Francisco de Lemos, é reitor e reformador da Universidade. d. José Joaquim Justiniano Mascarenhas foi feito bispo do Rio de Janeiro, sua terra natal. O báculo de Pernambuco, confiou-se a d. Francisco da Assunção e Brito, natural de Mariana e, depois, a d. fr. Diogo de Jesus Jardim, do Sabará, e, mais tarde, a d. José Joaquim de Azevedo Coutinho, de Campos. d. Tomás da Encarnação, natural da Bahia, é autor de uma conhecida História Eclesiástica, publicada em Coimbra em quatro tomos. O franciscano Jaboatão, nascido na Vila deste nome, publicou uma história da sua ordem seráfica no Brasil; Pedro Taques de Almeida Paes e fr. Gaspar da Madre de Deus escreveram memórias históricas sobre a sua Província de São Paulo; José Monteiro de Noronha, do Pará, em cuja Sé foi vigário capitular, era um eclesiástico de bastante saber. Na advocacia, distinguiram-se os doutores Inácio Francisco Silveira da Motta, Saturnino, e como magistrado fez-se muito notável o desembargador Velloso. Além dos advogados mencionados, outro havia de quem nos restam algumas composições poéticas, além de outras que possuem seus netos; só três publicamos do poeta fluminense Mendes Bordallo. Igual nome não daremos, mas sim o de simples versejador a outro fluminense, cuja condição humilde foi para nós grande recomendação para o contemplarmos. Referimo-nos ao sapateiro Silva. Os seus versos devem guardar-se e podem alguns ler-se.

Também nas ciências, alguns brasileiros ganharam celebridade nesta época: Alexandre Rodrigues Ferreira, o Humboldt brasileiro, em suas extensas viagens pelos sertões do Pará; José Bonifácio de Andrada, de cujas poesias adiantando [sic] trataremos, agora viajando como mineralógico pela Europa. Do mesmo modo que o seu patrício (natural do Serro do Frio), o naturalista Manuel da Câmara Bittencourt e o fluminense Antônio de Nola, ao depois, lente em Coimbra; Coelho de Seabra escrevendo tratados de química, além de muitas dissertações científicas; Conceição Velloso, trabalhando em uma grande Flora Fluminense e deixando impressos muitos tratados compostos ou traduzidos; o dr. José Vieira do Couto, naturalista em Minas; Manuel Jacinto Nogueira da Gama (ao depois marquês de Baependi) distinguindo-se, em Coimbra, nas matemáticas, do mesmo modo que Francisco Villela Barbosa (marquês de Paranaguá), e vindo ambos reger cadeiras dessas ciências. Pires da Silva Pontes, encarregado dos tratados de limites e de levantamentos das cartas no Brasil e José Fel. Fernandes Pinheiro (v. de S. Leopoldo) já magistrado e ocupando-se das traduções de obras que podiam ter aplicação à indústria do Brasil; Silva Feijó, naturalista, empregado em explorações nas ilhas de Cabo Verde; José Pinto de Azevedo, médico distinto da escola de Edimburgo, e outros de menos nomeada.

Nos fins deste século, um filho da Bahia, que nesta cidade professou o ensino da gramática, José Francisco Cardoso, compôs em latim um canto heróico sobre a expedição dirigida contra Trípoli e comandada pelo chefe de divisão Donald Campbell, para que o bei entregasse uns franceses aí refugiados. O autor não era de imaginação mui rica, seus versos estão longe da perfeição e o mesmo estilo é, em geral, pouco poético, mas este poema teve a honra de ser vertido em verso português por Bocage, o poeta mais harmônico que tem dado Portugal. Assim, a obra de Cardoso ganha muito em ser antes lida na tradução portuguesa. Rematemos o que falta dizer dos poetas deste século XVIII, com um, que se pode dizer, concluiu com ele seus dias: aludimos ao pardo Caldas Barbosa. E, com referência à sua biografia no Florilégio, diremos que este cantor de viola, como se lhe tem querido chamar, merece mais consideração do que se lhe tem dado até agora. Além de que se ensaiou em todo o gênero de poesia, deixou-nos, a par de muitas composições insignificantes, outras que lhe devem conferir o nome de poeta. Possuímos dele elegantes quintilhas, harmônicas estrofes e alguns sonetos, nos quais só o muito desejo de criticar poderá encontrar senões.

Não é por certo seu mérito a comparar com o seu xará, também eclesiástico - o sublime Sousa Caldas. Conta-se que aquele reconhecia tanto essa superioridade que, uma vez, encontrando ao último em sociedade, improvisou a tal respeito a seguinte quadra:

“Tu és Caldas, eu sou Caldas; Tu és rico e eu sou pobre; Tu és Caldeira de prata; Eu sou Caldeira de cobre.”

Souza Caldas é talvez o poeta brasileiro que mais orçou pelo sublime e também, com seus versos líricos menores, sabia ser festivo. Como poeta sagrado, rivaliza com ele, não pelo sublime e correto, mas pela viveza das imagens, colorido e facilidade de expressão, o autor da epopéia sagrada, a Assunção da Virgem.

Fr. Francisco de S. Carlos teve a coragem de se abalançar neste século a tratar um tal assunto e só pela fecundidade de seu engenho poderá sair bem da empresa. Com muita arte envolve a América e suas grandezas neste assunto divino, passado em tempos em que aquela não era, é verdade, conhecida dos cristãos, mas já era do Eterno e o podia ser do Arcanjo seu núncio. Igualmente a idéia de pôr no Paraíso terreal os frutos da América, isto é, o verdadeiro jardim da terra, é belíssima e original.

Na Assunção há mais poesia que no Uraguay e no Caramuru, mas as rimas pareadas serão fatais à popularidade do poema e glória do poeta, sempre que algum leitor, animado pelo assunto piedoso ou prevenido em favor do gênio poético do autor, se dedique boamente à sua leitura, sem fazer reparo a um que a outro lugar de menos castigado estilo. Infelizmente, ao poeta faltou-lhe em vida não só outro poeta amigo a quem pudesse dar a censurar suas composições. E devemos crer, pelo que ele próprio nos diz, que dos outros, em vez de estímulo, só recebia sinais de indiferença, e até o fim do poema se achara sozinho, sem mais valimento que o da sua musa. Queixando-se a esta, nos diz:

“Aqueles mesmos, que nos meus suores Deveriam ter parte são piores. Surdos se têm mostrado, e indiferentes A tão nobres vigílias... Vê, que gentes, Que estima pelas musas, que alto brio Produz o teu Janeiro o ilustre Rio.” ( C. 8º , pág. 211)

Quanta reputação e quanta glória não pudera ter adquirido um dos poderosos de então se houvesse querido e sabido proteger um pobre frade que, com tais versos, implora a benevolência da posteridade! Sem aguardar para mais longe, já os que nascemos depois, quase condenamos todos os que então figuravam no Rio e com quanto prazer, com quanta glória, para ele, não citáramos aqui o Mecenas, se algum tivesse querido então sê-lo!

De Manuel Joaquim Ribeiro, professor régio de Filosofia em Minas Gerais, possuímos alguns sonetos e várias liras e, lástima é que tantas destas composições não passem de puros encômios à pessoa do capitão-general. Vê-se que Ribeiro quis tomar por modelo a Dirceu e, força é dizê-lo, que às vezes o imitou, na graça e naturalidade que chega a iludir-nos.

Ao fazermos menção de Minas nesta época, é impossível deixar no olvido a exata e ingênua descrição desta província, feita em quadras pelo alferes miliciano Lisboa. As suas outras composições patrióticas e contra a invasão francesa em Portugal nem sequer tiveram voga na época de entusiasmo em que se deram à luz.

Mineiro era também o pe. Silvério, chamado da Paraopeba. Suas composições são recomendáveis pela muita originalidade e , quando se colijam, fornecerão uma pintura de muitos usos de nossos sertanejos.

Mais para o interior, em Goiás, pulsava a lira de Píndaro o sublime Cordovil, de quem devemos sentir que não sejam conhecidas maior número de produções. Tendência ao sublime se descobre também nas composições que temos do baiano Luís Paulino. Mais que estes se distinguiu, posteriormente, no lírico elevado, o pernambucano Saldanha, cantando os principais heróis que dirigiram a restauração da sua província contra o jugo holandês. Infelizmente, Saldanha parece não ter tido mais modelo que as odes pindáricas de Diniz que já demasiado se parecem umas às outras.

Restava ocuparmo-nos, mais extensamente, dos últimos quatro autores poetas, com que termina o nosso Florilégio. De alguns outros modernos, falecidos, não possuímos composições bastantes, e dos vivos, não ousamos nós julgar e muito menos a par dos mortos. Assim, Deus faça subsistir por muito tempo os motivos porque [sic] deixamos aqui sem exame as poesias dos Pedra Branca e Alves Branco, dos Odorico Mendes e de tantos outros poetas talentosos de nossos dias. Reservando-nos, pois, o projeto de publicar um suplemento a esta coleção, quando tenhamos juntado os materiais para ele, igualmente prometemos, para o futuro, um album, contendo duas ou três das composições ou trechos de poesias que cada um dos poetas, que a nós se dirijam, e que são convidados neste lugar, creia preferíveis às outras suas.

Os quatro autores referidos, que terminam o nosso Florilégio, são: José Bonifácio, Paranaguá, Januário e Álvaro de Macedo. Os laços de amizade e veneração que a eles nos prendiam, e nos ligam às suas famílias, quase nos apertam o pulso e fazem que a mão trema ao escrever deles um juízo crítico - prematuro talvez. Digamos, antes de tudo, que nenhum desses brasileiros talentosos cultivou a poesia, senão por distração de mais sérios estudos. José Bonifácio era naturalista; Paranaguá, matemático; Januário, pregador e Álvaro, profundo nos estudos da vária filosofia. Todos eles dedicaram grande parte da sua atividade e tempo aos afãs da política, já como deputados e ministros, já como escritores e jornalistas. De cada um destes dois últimos não pode contar a literatura mais que um pequeno poema, com escasso desenvolvimento. De Paranaguá, faltam ao público a maior parte das composições, com a correção com que as ia limando no decurso de sua vida, sobretudo as primeiras que publicou em Coimbra, no século passado. Não sabemos como haverá modificado a sua Primavera, tão notável pelo estilo e metrificação, mas onde faltava muita cor americana. Sentimos que o poeta fluminense preferisse entre as quadras do ano a que na Europa é mais risonha e fizesse menção de se ter acabado o frio do vento norte, quando o frio no Brasil não vem desse lado e que se lembre da flor da amendoeira, pois se há esta árvore em algum jardim de aclimatação, não é para nós um indício da primavera, etc. As composições amorosas, quando não abundam em nomes mitológicos, e sobretudo as heróicas ao Fundador do Império, e que ouvimos recitadas da própria boca do poeta, cremos que irão à posteridade com unânime louvor e darão a Paranaguá mais glória do que a Primavera a que, por falta de outros modelos do autor, demos a preferência.

José Bonifácio não se pode classificar como poeta; não pertence a nenhuma escola, se bem que se educou na clássica. Não se afeiçoou a nenhum gênero, mas em todos se ensaiou. Não poetava por amor da arte, mas por fugir do tédio em horas que não queria pensar em ciências, nem em política. Isto em nada se opõe a que não sejam de superior mérito algumas poesias que nos deixou. Parece que, juntamente com o brasileiro Mello Franco, muito concorreu para a confecção do poema satírico da Universidade de Coimbra - O Reino da Estupidez.

Se o cônego Januário merece, nos diferentes ramos da literatura brasileira, uma reputação muito maior do que a que lhe dão suas obras na poesia, sobretudo, os seus serviços foram maiores do que os que indica o seu Nictheroy. Januário foi o primeiro coletor de poesias brasileiras, que promoveu o gosto pelas letras americanas e delas foi, na imprensa, na tribuna e até no púlpito, estrênuo e acérrimo campeão. Seu estro, descobriu ele, principalmente, em produções anônimas que, por ora ao menos, não podem pertencer à literatura, pelas muitas personalidades que encerram, nascidas de paixões políticas às quais não foi estranho na idade madura este ativo eclesiástico.

Álvaro de Macedo era um moço de saber e conhecedor profundo da língua e literatura inglesa e desta grande admirador. A Festa de Baldo, apesar de seus defeitos, que consistem em faltas de desenvolvimento de certos pensamentos e no prosaísmo de alguns versos, é o nosso primeiro poema herói-cômico.

A muita convivência que, na qualidade de colega, com Macedo tivemos e a amizade que a ele nos ligava, nos permitiram quase que assistir à composição dos últimos dois cantos do seu poema ao qual, a pedido nosso, o autor decidiu dar uma cor mais americana na parte descritiva. Lastimamos que não desse ainda mais desenvolvimento a este nosso pensamento quando, quase simplesmente, nomeia as frutas, etc.

A obra de Macedo ganhará, talvez de dia para dia, mais popularidade e, daqui a menos de um século, figurará no país e na literatura mais do que hoje. Nela nos legou o autor uma verdadeira imagem da sua maneira sincera de pensar em religião, em política, em proceder social e doméstico, em tudo finalmente. Nela nos apresentou um espelho do seu caráter que conciliava à profissão de princípios severíssimos, com um trato tão alegre e galhofeiro quanto lho consentiam as queixas que tinha contra a sorte que pouco o favorecera na carreira que abraçara. Essas queixas, reunidas à sua compleição débil, lhe quebrantaram a existência aos quarenta e dois anos de idade. Faleceu em Bruxelas, onde servia como representante do Brasil.

Categoria:Obras publicadas em 1847 Categoria:Crítica literária