Ensaio Histórico sobre as Letras no Brasil

Chapter 2

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Manuel Botelho de Oliveira foi o primeiro brasileiro que, do Brasil, mandou ao prelo um volume de poesias. Aí confessa ele a existência de outros poetas que haviam [sic] então no Brasil, e são seguramente, esses contemporâneos, de cujas poesias apenas se conhecem os títulos. Botelho de Oliveira talvez nascesse poeta, e não lhe falta imaginação, como se conhece quando segue sua natural inspiração, nos momentos em que não quer ser demasiado culto - como então se dizia - e nós hoje diríamos contorcido. O pior que ele fez foi querer demasiado imitar os poetas de Itália e Espanha (expressões suas) dessa época, pois, insensivelmente, toma por modelo a Gôngora, e Gôngora, apesar do seu grande talento, nunca podia imitar-se, pois coisas que ele diz, só ele as sabia dizer com arte. Botelho tinha nímia erudição para poder obedecer sempre às próprias inspirações e encher todo o seu extenso volume da Musica do Parnasso (que à imitação talvez de d. Francisco Manoel dividiu em choros), com mais composições semelhantes à silva, em que descreve a pitoresca ilha baiana da Maré. Quis passar pela vaidade de compor nas quatro línguas, portuguesa, castelhana, italiana e latina, e melhor fora ter-se estreado em uma bem. Ao seu castelhano, falta-lhe sempre o jeito de tal, nem que escrevesse primeiro em português e, depois, lhe cambiasse as terminações. No italiano e latim, a dificuldade da empresa prendeu-lhe a veia poética. Nas suas obras, se compreendem duas comédias, uma das quais Hay amigo para amigo já antes fora publicada anônima entre as Famosas. É o título da outra - Amor, enganos y zelos - três inimigos da alma, diz a comédia, que se dão nos amantes e no mundo todo. O enredo destas duas composições é mui insignificante, nem sequer o autor soube para elas inspirar-se com os socorros de Calderón e outros poetas dramáticos dessa época. Em ambas, fala-se de amor e mais amor, mas em ambas há pouca paixão. Na primeira, um amigo cede a outro a dama, por quem ambos estavam apaixonados. Nota-se, de uma e outra, que o autor possuía muito pouca arte, ou pouco conhecimento deste gênero de literatura dialogada; em vez de pôr em diálogo o que lhe convém, tira-se de cuidados e manda muita vez cada qual à cena dizer o que lhe aconteceu e o que intenta fazer. Além disso, as jornadas ou atos são, em geral, demasiado extensos. Em defensa, porém, do autor, cumpre-nos dizer que ele, por certo, nunca destinou para o teatro estas composições, a que chama Descante cômico reduzido em duas comédias, título que lhe quadra, pois vê-se uma certa forma para servir de pretexto a dizerem-se, segundo o gosto da época, descantes de trocadilhos e conceitos amorosos ou com pretensões de tais, pois mal das finezas amatórias que não foram inspiradas em algum sentimento ou alguma reminiscência da paixão do amor. Se existiu deveras a Anarda de Botelho, duvidamos que se enternecesse com tais declarações desenxabidas. Além da silva, acima mencionada, das comédias e das poesias amorosas, deixou-nos Botelho várias canções, um panegírico em 34 estâncias ao marquês de Marialva, que nos parece digno, com mais algumas outras suas composições, de ser condenado, para nos servirmos de uma expressão querida na época em que ele viveu, a afogar-se no Lethes.

Quase contemporâneo a Botelho de Oliveira deve ter sido o autor que, no Florilégio, designamos pelo nome de Anônimo Itaparicano e hoje temos a certeza que era o pe. fr. Manuel de Santa Maria Itaparica, da ordem seráfica, e que ainda vivia em 1751, em que consagrou várias composições aos funerais do rei d. João V. Filho da baiana ilha de Itaparica, não só disso se prezou no seu nome, como nos seus versos, por pouco merecimento que se encontre nessa descrição da ilha de Itaparica. O Eustaquidos, tão recomendado pelo assunto e que tem sido escolhido para empresa de mais de um poeta, contém algumas belas oitavas, não inferiores às do moderno poema castelhano do pe. fr. Antônio Montiel , que começa com as três belas oitavas seguintes:

Divina Musa, inspira favorable Conceptos à mi mente confundida: Dime, ¿ quien fue el varon inimitable, Que en paz y guerra, en la muerte y vida, Siempre glorioso, siempre inalterable, En una y outra suerte padecida, Con exemplo notable de heroismo, Sopo vencer al mundo, y à si mismo Aquel hombre, mayor que la fortuna, Y que à pesar del tiempo y del olvido, Roma se acordará de ser su cuna; Buen amigo, buen padre, buen marido; Ni la desgracia le abatió importuna, Ni la felicidad le há envanecido: Aquel, que problemático há dexado, Si fue mas infeliz, que afortunado. Dime, pues, ¿ como Eustaquio haya podido Llenar la tierra y mar de sus hazañas ¿ Como despues de poco haya caido De tanta altura ¿ como tan extrañas Aventuras sufrió! ¿ como há perdido El fructo de su amor y sus estrañas ¿ Como há pagado su valor el suelo ¿Como há premiado su virtud el cielo

Cabe aqui fazer menção de um jesuíta, filho do Rio de Janeiro, que então se exercitava na poesia latina. O Carmem De Sacchari opificio de Prudêncio do Amaral só foi impresso no fim do século passado e corre incorporado nos quatro livros de rebus rusticis brazilicis, em que José Rodrigues de Mello trata da cultura da mandioca e outras raízes, da do tabaco, etc. Cumpre reconhecer que a obra brasileira tem menos desenvolvimento do que a de Raphael Landivar, autor de quinze livros latinos que podemos chamar Geórgicas Mexicanas. O mencionado Amaral nos deixou o Stimulus amandi Dei param que julgamos nunca foi impresso; e em prosa, são seus os elogios dos bispos e arcebispos que acompanham as Constituições da Bahia.

Mais tarde, também se exercitou na poesia latina o pe. Francisco de Almeida, natural da Cachoeira, o qual, no seu Orpheus brazilicus trata das virtudes do pe. José de Anchieta.

Gonçallo Soares da Franca e o pe. João Álvares Soares ocuparam-se de algumas insignificantes poesias à morte de d. Pedro II que correm impressas. O primeiro começou Brazilia, poema sobre o descobrimento do Brasil; o segundo é o erudito Soares Bahiense, autor do Progymnasma Litterario.

Contentemo-nos com fazer menção da pernambucana d. Joana Rita de Sousa e de Luís Canelo de Noronha, do qual diz Brito de Lima:

“Nas loas do Parnaso as brancas aves Avantajou no harmônico e sonoro Luís Canelo, que em métrica harmonia É modulado cisne da Bahia.” (Poem. fest., pág. 141)

Este Brito de Lima foi um dos poetas da Bahia que mais versos conseguiu fazer imprimir, dedicava-os à adulação e, naturalmente, publicá-los corria por conta dos adulados. Conseguiu por isso mais fama e glória?

Desgraçado do poeta que, em vez de seguir a inspiração, a busca em assuntos alheios a ele, para lhes prestar servil acatamento!

Cabe aqui consagrar algumas linhas à memória dos paulistas Alexandre de Gusmão e de seu irmão, Bartolomeu Lourenço, o voador, ambos os quais cultivaram as letras. Do primeiro, não compreendemos, em nossa coleção, nenhuma das composições ou traduções poéticas que, sem a necessária autenticidade, correm em seu nome, por nos parecerem todas elas inferiores a tão grande homem. Queremos antes ver Alexandre de Gusmão presenteando sua pátria com a colonização das ilhas de Santa Catarina e Rio Grande, com as providências sobre o quinto do ouro e com a confecção do grande tratado de limites de 1750. É nestas obras, e enquanto esse ilustre político escreveu, para as levar a efeito, que se pode sondar o gênio deste brasileiro. Seu irmão não foi entendido no seu tempo: contra a sua invenção choveram sátiras, e até uma comédia manuscrita vimos nós no Porto, expressamente feita naquele tempo para o ridicularizar. Não admira, quando essa, e ainda pior, tem sido a sorte de tantos outros homens de gênio.

Pouco diremos neste lugar do desgraçado Antônio José, remetendo o leitor para a sua biografia e para os trabalhos que sobre suas obras terá talvez já ora publicado o nosso amigo, o Sr. Pontes.

Para o fazer figurar na nossa coleção, separamos de suas óperas alguns versos que publicamos, talvez sem a ordem e as explicações necessárias e sem que se refiram ao Brasil. Basta-lhe que, por mais de um século, haja o público esquecido o seu nome, não se declarando este nas óperas e apelidando-as do judeu; basta que a Santa Inquisição se vingasse do que ele escreveu, queimando-lhe o corpo! É de saber que o pai de Antônio José, o mestre em artes João Mendes da Silva, natural, como seu filho, do Rio de Janeiro, também cultivava a poesia, mas, por infelicidade, nunca se imprimiram as obras que se lhe atribuem. Barbosa menciona um ofício da cruz em verso; a fábula de Leandro e Ero, em oitavas rimadas; um hino a Santa Bárbara e, finalmente, um poema Christiados. Notamos que, na maior parte dos assuntos, se contêm, pelo menos nos títulos, a não serem paródias, profissões de fé antijudaicas. Dedicar-se-ia ele, pois, a tais composições, só para que o não perseguissem? É certo que João Mendes morreu advogado da casa da suplicação quando a mulher e o filho sofriam os tratos dentro da Inquisição. Se as tais obras foram compostas para defender-se das perseguições destas, desculpemos-lhes a hipocrisia, mas cremos que não seriam elas obras de inspiração, porém poesias de cálculo e, em tal caso, a perda de tais manuscritos não deve muito lamentar-se. É sabido que Christiados fora o título de um poema latino do bispo Balbuena, de cujo manuscrito se apoderaram os holandeses, quando assaltaram a ilha de Porto Rico.

Ao referirmo-nos às operas, ou antes, zarzuelas, de Antônio José, cumpre dizer que não nos consta que fossem jamais representadas em teatros no Brasil. Exigiam elas (como os vaudevilles franceses de hoje), cômicos, vozes e músicos, o que não era fácil encontrar em tempo, em que ainda, na Bahia, não havia teatro regular, nem cômicos de profissão. Só por ocasião de festas se davam extraordinariamente representações, mas de comédias, entremezes e um pouco de dança, e esses, algumas vezes, em espanhol. Temos informação das representações feitas em duas dessas festas e, se bem sejam de época um pouco anterior à das óperas de Antônio José, julgamos a notícia curiosa para não deixarmos de aqui a dar. Em janeiro de 1717, sabemos que se representaram, na Bahia, El conde de Lucanor e os Afetos de ódio y amor de Calderón; em 1729, com a notícia dos casamentos dos príncipes, representaram, do mesmo Calderón, Fineza contra fineza, La fiero, el raio y la piedra e El monstro de los jardines; além disso, La fuerza del natural e El desdén com el desdén, de Moreto. Não negamos boa escolha nas produções acima, mas haveria ali, mesmo na capital do Estado, atores capazes de desempenhá-las? Eis quando, para no-lo contar, é para sentir que já não vivesse Gregório de Mattos.

Estamos chegados ao momento de dever dar conta da primeira sociedade literária regular que teve o Brasil: a Academia dos Esquecidos, criada na Bahia em 1724, sob a proteção do vice-rei, Vasco Fernandes César de Menezes, ao depois, conde de Sabugosa. O nome de esquecidos tomaram, talvez, os sócios da circunstância de não haverem sido lembrados os seus na Academia de História que se criara em Lisboa, em 1720. Daquela Academia chegou a fazer memória o Mercúrio histórico de França, desse mesmo ano, mas os trabalhos delas eram de pouca importância, a regularmo-nos por alguns manuscritos que foram parar à biblioteca dos frades da Alcobaça e [que] tivemos ocasião de consultar, a saber: dissertações dos desembargadores Luís de Sequeira da Gama e Caetano de Brito e Figueiredo, outra do dr. Inácio Barbosa Machado e uma sobre a história eclesiástica do acima mencionado Gonçalo Soares da Franca. Já que falamos da Academia de História, cumpre dizer que dela foi sócio o baiano Sebastião da Rocha Pita que, em 1730, publicou uma História do Brasil que se recomenda pela riqueza das descrições e elevação do estilo que, às vezes, são tais que mais parecem de um poema em prosa. Antes tinha dado à luz vários escritos e composto poesias, pelas quais pouco se recomenda o autor baiano. O pe. João de Mello, jesuíta pernambucano, também publicou, em 1742, um livrito de poesias que apenas tivemos ocasião de ver. O mesmo nos sucede com as do fluminense Manuel José Cherem, publicadas em Coimbra e com o culto métrico à Senhora da Conceição, do Secretário de Estado do Brasil, José Pires de Carvalho. Todas três possuía um amigo nosso, portuense, mas não nos foi possível obter dele que no-las remetesse para nos servirem nesta notícia. Mais felizes fomos com impressos de fr. Francisco Xavier de Santa Teresa, da Academia de História, e das dos Aplicados, mas estas, exclusivamente panegíricas, de um bispo do Porto e de um dos duques de Cadaval nada teriam com o Florilégio. É, porém, para sentir que em Olinda já em tempo de Jaboatão não se achassem os manuscritos do poema ao Espírito Santo e a tragicomédia de Santa Felicidade e seus filhos, por cujas obras poderíamos ajuizar do gênio do poeta. Este escritor baiano era tido por bom pregador. Do genetlíaco, composto a uma senhora, pelo pernambucano Manuel Rodrigues Corrêa de Lacerda, dos escritos do cônego João Borges de Barros, nada podemos aventurar. O livro deste último, Relação Panegírica, dos funerais (que consagrou à Bahia) à memória de d. João V, contém muitas poesias de brasileiros, as quais excluímos da nossa coleção, não por falta de merecimento, mas por julgá-las só próprias de uma Miscelânea.

Na cidade do Rio de Janeiro, onde, em 1735, se tinha começado a organizar uma sociedade literária, que não vingou, volveu-se, em 1752, a tratar de outra que chegou definitivamente a organizar-se, com o nome de Academia dos Seletos. O mesmo sucedeu mais tarde, no vice-reinado do marquês do Lavradio, à Sociedade Literária, que, sob seus auspícios, se criou. Cinco anos antes da fundação da Academia dos Seletos, em 1747, fora aí estabelecida, por Antônio da Fonseca, uma tipografia em que se imprimiu uma pequena relação composta por Luís Antônio Rosado e também, segundo se crê, o livro Exame de Artilheiros, do lente da Escola militar, José Fernandes Pinto Alpoim. Esta tipografia emudeceu logo, ou porque a fizeram calculadas medidas de uma política desconfiada, ou porque não poderia por si mesma sustentar-se, o que não é para crer, quando tantas outras havia já em várias cidades, muito inferiores da América Espanhola.

O Rio, pelo seu comércio, pelo talento de seus filhos, patenteado em Coimbra, e sobretudo por se achar mais central para acudir de Pernambuco à Colônia do Sacramento, já tinha sobre a Bahia uma grande preponderância quando, em 1763, o marquês de Pombal para ali transferia a sede do vice-reinado.

Mas foi mais que tudo a província de Minas que (por ser pátria de uns literatos e residência de outros) imprimiu um novo e grande impulso na regeneração da literatura brasileira. Se esta nascera da atividade de uma guerra de armas, agora, um século depois, outra guerra com os elementos, com as brenhas e entranhas da terra para extrair-lhe o ouro nelas escondido, produziu a regeneração literária que já traz em si mesma o cunho de ser nascida daqueles sertões do coração do Brasil.

Eram filhos dessa província, mas dela ausentes, José Basílio e Durão; eram nela nascidos e achavam-se aí residentes, Cláudio e Alvarenga Peixoto; Gonzaga desempenhava o lugar de ouvidor em Vila Rica; Silva Alvarenga vivia no Rio de Janeiro; o irmão deste, e Antônio Caetano de Almeida, irmão de José Basílio, também: todos formavam uma espécie de Arcádia, que se chamou Ultramarina.

Se bem [que] destes poetas, Cláudio é o mais antigo, trataremos antes dos ausentes, não só por darmos notícia de suas epopéias de assunto brasileiro, como por deixarmos ou [sic] outros para os atender, conjuntamente, nos fatais acontecimentos posteriores.

E primeiro trataremos de José Basílio e do seu Uraguay. Esta epopéia é das modernas de mais merecimento, se bem que o autor, com pressa, não lhe desse todo o desenvolvimento. José Basílio tinha-se familiarizado muito com a literatura clássica e italiana e deixou nisso freqüentes reminiscências, espalhadas pelo poema. O autor do Uraguay, principalmente, se extremou pelo talento da harmonia imitativa, pelo mecanismo da linguagem, sabendo sempre adotar os sons às imagens. Às vezes, faz correr os versos fluidos e naturais, outras, como nas falas de Cacambo, demora no verso de propósito, porque deseja representar distância, sossego ou brandura. Se a imagem é audaz e viva, como quando fala Cepé, faz precipitar os versos; até diríeis que em casos duros e de batalhas, etc., sabe fazê-los roçar asperamente uns com outros.

Durão deixou-nos o Caramuru. Este poema, mais acabado que o anterior, é de fácil e natural metrificação, dicção clara e elegante, nele o poeta, só pelo seu gênio, conseguiu fazer herói um indivíduo que estava longe de o poder ser. Entretanto, cumpre dizer que, se da Ilíada se colhem estímulos de valor, se a Eneida comove à piedade, se o Orlando inspira sentimentos de cavalheirosa abnegação, se os Lusíadas exaltam o patriotismo e a Jerusalém é um modelo de prudência e conselho, o poema Caramuru oferece um tipo de resignação cristã e de virtudes conjugais. O Caramuru ganhará, de dia para dia, mais partido e chegará, talvez, a ser um dia popular no Brasil.

Cláudio deve considerar-se o primeiro poeta mineiro, por direitos de antigüidade, pois já em 1751, em Coimbra, começou a imprimir algumas poesias; depois de ir a Minas, serviu de secretário de Governo, correu os sertões com o governador Lobo e foi protegido do conde de Valadares.

Deixou-nos Cláudio mais de cem sonetos, vinte églogas, muitas epístolas, alguns epicédios e romances líricos e um heróico, alem de cantatas e cançonetas em italiano; pulsou a lira, orçando pelo sublime na sua saudação à Arcádia Ultramarina, mas no poema Vila Rica não acertou bem com a embocadura da trombeta épica. Nos sonetos, faz, muita vez, recordar a Petrarca. As suas églogas parecem em tudo modeladas sobre as de Garcilasso. Era Cláudio, como este, exato na impressão e, como ele, amante da literatura italiana. Mais delicados e ternos que sublimes, um e outro eram como nascidos para égloga e elegia. As obras de Cláudio devem estudar-se como modelos de linguagem; e, porém, de temer que o gênero bucólico, em que mais abunda, venha a convidar poucos à sua leitura.

Alvarenga Peixoto era dotado de grande gênio poético e o pouco que dele nos resta é bastante para lamentarmos que nos não deixasse muito mais ou, por ventura, que não apareça o mais que comporia. O seu canto genetlíaco em 19 estâncias e a magnífica composição com que convida d. Maria I a passar-se à América são, por si sós, bastantes para lhe tecer eterna coroa de poeta.

Gonzaga, cuja Marília de Dirceu já vai sendo traduzida em todas as línguas, acabando de sê-lo em castelhano, a rogo nosso, pelo amigo Sr. d. Enrique Vedia, distingue-se pela ternura dos afetos e pela naturalidade da versificação. Ninguém como ele, a nosso ver, tirou tanto partido para expressar seus sentimentos, de tudo quanto o rodeava, inclusivamente na prisão, com a imagem da morte perante os olhos.

Se Gonzaga (Dirceu) nos deixou um cancioneiro por nome Marilia, temos outro de Silva Alvarenga (Alcindo) intitulado Glaura. À maneira de Petrarca, um e outro constam de duas partes: no primeiro, canta o poeta os seus amores, na segunda, chora a perda deles: Dirceu, pela sua prisão e desterro; Alcindo, como Petrarca, pela morte do objeto amado.

Silva Alvarenga, a quem devemos os melhores ensaios, feitos de intento em um gênero erótico novo, tinha grande amor à poesia e elevadas ambições de poeta. É correto na linguagem, poético nas imagens, natural, sensível e melodioso nas redondilhas, mas nem sempre altíloquo no heróico. Seus ensaios eróticos de cor americana perdem por monótonos e convertem, às vezes, o poeta num namorado chorão e baboso. Seu irmão, João Inácio, passava por ser o autor da famosa ode a Albuquerque que, ultimamente, se deu de presente (não sabemos com que fundamento), a Vidal Barbosa.

Do irmão de José Basílio da Gama, nada podemos dizer, por não conhecermos composição alguma sua.

O governador Luís da Cunha de Menezes não soubera ganhar as simpatias da capitania, cujo governo lhe fora confiado em 1783. O seu gênio vaidoso, os seus erros administrativos e o prestar-se ele em pequenas coisas ao ridículo, deram assunto para a violenta sátira que, em novo epístolas, chamadas Cartas Chilenas, contra ele escreveu um dos poetas de Vila Rica. A facilidade da metrificação, a naturalidade do estilo e a propriedade da linguagem fariam atribuir esta obra a Cláudio, a não desmentirem da sua pena, algumas expressões chulas e pouco decorosas. Tão pouco nos atrevemos a atribuí-las a Alvarenga Peixoto, de quem nenhuns versos possuímos deste gênero. É, porém, sem dúvida que tais versos eram de pessoa exercitada em o fazer e não havia então em Minas poetas neste caso mais que os dois e Gonzaga, que fica excluído, por se falar dele nas mesmas cartas. As epístolas supõem-se dirigidas por Critilo a um Doroteu (Teodoro?) que estava na Corte. Correm precedidas de uns versos de outro autor que, em certo lugar, nos previne a favor da nomeada de Critilo como escritor conhecido. Não faltam nas cartas verdades que deviam de ser duras aos ouvidos, não só do governador presente, como até de todos os mandões maus que lhe sucedessem. A sátira foi escrita provavelmente em 1786, isto é, depois das festas, por ocasião dos casamentos dos infantes de Portugal e Espanha.

As cartas chilenas, que melhor podemos chamar mineiras, são o corpo de delito de Cunha de Menezes, cujo desgoverno foi a origem da primeira fermentação em Minas, para a conspiração em que apareceram complicados como chefes e cabeças os poetas de que ultimamente fizemos menção, Cláudio, A. Peixoto e, em aparência, Gonzaga. Talvez nenhuma outra história literária ofereça a novidade de se ver assim inseparável de uma conspiração política em que, segundo parece, tiram os poetas a principal parte.

Em 1788, sucedeu a Menezes no governo o visconde de Barbacena e, à sua chegada, correu voz de que ia forçar a capitania ao pagamento de 700 arrobas de ouro que ela devia pela lei da capitação. Entretanto, as idéias de conspiração e revolução, originadas no governo anterior, haviam amadurecido e a notícia de que se ia violentar o povo e satisfazer aquele tributo fez-se espalhar como conveniente para fazer rebentar a revolução que os conspiradores imaginavam teria tão feliz êxito como a que se acabava de levar a efeito nos Estados Unidos, graças à grande proteção que estes encontraram da parte da França e Espanha contra a Grã-Bretanha.

Alvarenga Peixoto estava entusiasmado pelo futuro da nova nação; improvisou-lhe a bandeira e propôs as providências que deviam adotar para criar partido e para resistir à guerra que, infalivelmente, dizia ele, com razão, devia ter lugar. Mas, como sucede tantas vezes, alguns conspiradores converteram-se em delatores. Antes de rebentar a revolução, foram todos os suspeitos réus presos e depois julgados. Cláudio matou-se no cárcere, enforcando-se com uma liga. Alvarenga Peixoto foi sentenciado à morte, e Gonzaga, talvez inocente à conspiração, a degredo por toda vida para as Pedras Negras, em Angola. Estas sentenças foram comutadas, por uma Carta Régia de perdão, a daquele em degredo perpétuo , ao princípio, para Dande e, depois, para Ambaca, e a deste, em dez anos de degredo para Moçambique. O poeta português Diniz foi um dos juízes signatários destas sentenças de seus colegas.