Elogio Historico do Conde de Ficalho
Part 2
Concernente ainda á Africa, produziu em 1884, nos _Boletim da Sociedade de Geographia_, uma interessante memoria de cerca de 300 paginas, intitulada _Plantas uteis da Africa Portugueza_, com uma nota descriptiva e historica de 299 especies.
Da _Flora Portugueza_ se occupou tambem, publicando, de 1877 a 1879, no _Jornal da Academia_, contribuições para a revisão de varias familias de plantas portuguezas do continente, e em 1899, com a collaboração de Pereira Coutinho, nos deu nos _Boletins da Sociedade Broteriana_, de Coimbra, valioso trabalho sobre as _Rosaceas de Portugal_, comprehendendo a diagnose de 76 especies, relativas a 26 generos.
Mas o Conde de Ficalho não tinha o temperamento de um simples e frio naturalista. A sua tão completa e esmerada educação abrira-lhe horizontes mais largos, e o seu fundo era irresistivelmente de artista.
Assim, a maior parte da sua obra scientifica assume, não só caracter litterario e philosophico, mas uma perfeição e graça de fórma, que a torna singularmente distincta.
A _Memoria sobre a malagueta_, apresentada em 1878 á nossa Academia, é no genero um verdadeiro primor, onde se revela vasta leitura, excellentemente exposta, e consideraveis recursos de conhecimentos historicos, geographicos e philologicos. É modelar.
Em 1880 celebrava-se o Centenario de Camões. Ficalho consagrou-lhe tambem uma pequena monographia, que pittorescamente intitulou--_Flora dos Luziadas_.
É a identificação de todas as especies vegetaes referidas no immortal poema, europêas e exoticas, em numero de 52.
Trabalho essencialmente de erudição e de technica botanica, mas constituindo no conjuncto uma peça litteraria do mais gracioso lavor, nos seus tres capitulos: _Flora Poetica--A Ilha dos Amores--Flora Tropical._
A _Ilha dos Amores_! Existe? Onde? No Atlantico? No Mediterraneo? Nos mares do Oriente?
Faria e Sousa localisou-a na ilha Anchediva. O morgado de Matheus, e outros, na ilha de Santa Helena. Gomes Monteiro na ilha de Zanzibar.
Ficalho dilucida o ponto, tão simples, quanto admiravelmente: a flora da ilha é a flora a um tempo da patria portugueza e a classica flora de Homero, de Virgilio e de Ovidio. Portanto a verdadeira situação geographica da ilha conclue elle... «é na phantasia do poeta; e não está mal collocada».
Ponto interessante tambem, n'esta engenhosa monographia de 100 paginas, é a observação dos abundantes conhecimentos que Camões tinha da flora, como de tudo o mais que ao tempo se sabia, e da precisão, propriedade e justeza com que, dentro do impeccavel metro e da perfeita rima, caracterisava a especie natural a que queria fazer referencia.
Affirmado o seu gosto e competencia para os trabalhos de erudição botanica, Ficalho estava naturalmente indicado para presidir á reedição dos _Colloquios dos simples e drogas da India_, de Garcia da Orta, deliberada em 1889 pela Academia.
Na India, em Gôa, onde era physico-mór, publicara Garcia da Orta, em 1563, os seus famosos _Colloquios_, repositorio importantissimo, embora de contextura um pouco pueril na sua fórma dialogada, do conhecimento das plantas e drogas indicas, e constituindo n'esse momento o primeiro documento rigoroso, authentico e scientifico sobre a materia.
Logo em 1567, Carlos de l'Escluse--latinamente Clusius, tendo conhecido em Portugal, onde viera, o tratado do abalisado medico e botanico portuguez, o refundiu e simplificou em latim, e a esta edição se seguiram mais quatro, nos annos de 1574, 1579, 1593 e 1605.
Em italiano foi depois vertida, por Annibal Briganti, a traducção de Clusius, publicando-se, desde 1576 a 1605, oito edições.
Ha finalmente mais duas edições de uma traducção franceza de Clusius, por Antonio Collin, com as datas de 1602 e 1619.
Total: 1 edição portugueza, e 15 edições extrangeiras de imperfeitas traducções.
Em 1841 a _Sociedade de Sciencias Medicas_ chamava para o assumpto a attenção dos poderes publicos, pedindo a reimpressão dos _Colloquios_, de cuja primeira edição eram já preciosamente raros os subsistentes exemplares, e recorria á intervenção de Fr. Francisco de S. Luiz e de Garrett. Ambos fizeram á idéa o melhor acolhimento, e por portaria de 27 de maio de 1841, assignada por Rodrigo da Fonseca Magalhães, se determinou a reimpressão dos _Colloquios_, sob a direcção do conselheiro João Baptista d'Almeida Garrett.
Não teve andamento este tentamen, e é só em 1872 que Varnhagen, visconde de Porto Seguro, nos dá uma 2.ª edição da obra de Garcia da Orta. Para se occupar d'este trabalho era sem duvida competente Varnhagen, mas, ou porque o não pudesse acompanhar, ou por qualquer outro motivo, a nova edição sahiu com bastos erros, uns trazidos da primeira, outros novos, e desacompanhada das necessarias elucidações.
Foi isto, sem duvida, que motivou a deliberação da Academia, encarregando o Conde de Ficalho de levar a cabo uma nova edição dos _Colloquios_, devidamente apurada e commentada.
A escolha não podia ter sido, a todas os respeitos, mais acertada, pois os dois volumes eruditamente annotados dos _Colloquios dos simples e drogas da India_, com o antecedente volume que lhes serve de introducção--_Garcia da Orta e o seu tempo_, ficaram constituindo, no total das suas 1200 paginas, um verdadeiro monumento classico, um trabalho magistralissimo em toda a parte.
Foram as leituras feitas para a confecção do admiravel prefacio historico dos _Colloquios_ que deram mais tarde ao Conde de Ficalho a idéa e lhe propiciaram os fundamentaes elementos para o livro que a esse trabalho se seguiu--as _Viagens de Pero da Covilham_. De Pedro da Covilham, que á India foi dez annos antes de Vasco da Gama, de cuja empresa foi como que preparante, e que mais de trinta annos passou na mysteriosa Ethiopia, junto do quasi fabuloso Preste João.
«Este pero de covilham, escrevia o Pe. Francisco Alvares, é homem que todas as cousas a que o mandaram soube e de todas dá conta».
Ficalho commenta eloquentemente, no fecho do seu bello volume:--«Mandaram-no procurar a pimenta e a canella, quando ninguem nas nossas terras occidentaes sabia d'onde aquellas especiarias vinham; e elle foi, e encontrou o caminho, e chegou á India, e não se contentou em ir á India, foi tambem a Sofála. Mandaram-no ao Preste João, quando ninguem conhecia a sua morada, nem quasi em que parte do mundo tal morada se encontrava; e elle foi, e achou o Preste João, e fez-se amigo da avó do Preste João, e acabou pela convencer que devia mandar uma embaixada a Portugal. Todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta».
É um minusculo specimen do estylo e maneira de Ficalho, mas que bem retrata as suas qualidades de simplicidade, de relevo, de gosto e de alma.
A obra scientifica do Conde de Ficalho accrescenta-se finalmente com a excellente introducção, admiravel quadro da economia rural portugueza, como diz Pereira Coutinho, com que enriqueceu o grosso e compendioso volume, que o governo portuguez enviou á Exposição internacional de Paris, de 1900, com o titulo--_Le Portugal au point de vue agricole._
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Na pura litteratura, que nos deixou o Conde de Ficalho?
Escreveu o nosso consocio, o conde de Sabugosa, que elle distinctamente versejava na inspiração acidula de Baudelaire e na dolente cadencia de Musset. Para publico,--além das suas admiraveis _Notas ácerca de Serpa_ e do seu erudito estudo sobre _O elemento arabe na linguagem dos pastores alemtejanos_, tudo constante de numerosos artigos na _Tradição_, só veiu, em prosa, um volume de novellas e contos, em 1888.
Mas na sua mesma simplicidade, que primor de concepção, de observação, de analyse, de execução, e que revelação de talento romantico, n'esse delicioso volume, em que se encontram: _Uma eleição perdida.--A caçada do malhadeiro.--A maluca d'A dos Corvos.--A pesca do savel.--Os cravos.--Mais uma!_
Penitencio-me de só agora os ter lido, esses deliciosos contos a que se não fez _reclamo_, e é doce penitencia, que a todos que se achem no mesmo peccaminoso caso muito recommendo, para accrescerem de mais um motivo a sua admiração e sympathia pelo Conde de Ficalho.
A leitura d'esses contos, episodios todos referentes á terra alemtejana, com um profundo sabor regional, é um verdadeiro e saudavel goso.
O auctor revela-se, como de prever, _naturalista_, mas de temperamento e sentimento seu, proprio, e não de _escola_. Inspira-se, como homem de sciencia, na verdade, mas sem a conhecida predilecção dos corypheus do realismo para os seus aspectos mais ou menos monstruosos e deprimentes, e antes propendente ás conclusões sentimentaes, felizmente não extranhas á natureza humana, e que moralmente a elevam e sublimam.
Na primeira e mais importante das novellas--_Uma eleição perdida_, no fidalgo Julio d'Azevedo julga-se a principio vêr despontar uma especie de parente de Carlos da Maia, o brilhante e amoral protogonista do famoso romance lisboeta de Eça de Queiroz, mas o desengano vem com commovido aprazimento do leitor. Julio d'Azevedo, coisa menos vulgar na litteratura realista, não é neurasthenico, nem nevrotico, nem degenerado, mesmo superior. A physiologia não se impõe n'elle acima das exigencias da dignidade humana, que prevalecem. Tem sentimentos, tem disciplina moral, e o episodio simples e casto do seu vago e doce enleio com a tão timida e rendida Margarida, a filha do entrevado escrivão Pascoal, o _passarinheiro_ da meninice de Julio, mais de uma vez, pelo seu encanto tão singelo e irresistivelmente sentimental, nos humedece as palpebras.
Que revelação esta, e tão inesperada: Ficalho, juntando a tantas outras faculdades a de um enternecimento tão subtilmente communicativo...
Não ha duvida! Debaixo da sua mascara de impassivel homem do mundo havia, como sempre o disseram os seus amigos, um coração, humanissimo _malgré lui_, de honesta e bondosissima textura, e á piedade filial, dos que dignamente lhe ficam representando o aureolado nome e conservando sua resplendente memoria, será certamente grato observar n'este momento que em seu elogio a Academia não esquece o registo d'esses dotes de sensibilidade, que á saudade são sempre os mais caros.
Não posso alongar-me em considerações sobre a pequena, mas linda obra litteraria de Ficalho, representada no volume de contos a que acabo de fazer referencia, e que se poderia, de certa maneira, pelo seu caracter regional, por, sob o titulo de _Novellas do Alemtejo_, em parallelo com as _Novellas do Minho_ de Camillo. Mas peço licença aos meus collegas da classe de Lettras d'esta Academia para, em fórma de fecho a este capitulo, summariamente aventar que, a avaliar pelos fulgurantes rastos e signaes que nos deixou, se o Conde de Ficalho se houvesse consagrado á extreme litteratura, n'ella deixaria um nome singularmente assignalado para a gloria das lettras portuguezas.
E é tudo, senhores?
Não. No seu espolio scientifico e litterario, affirma-o o conde de Arnoso no seu bello Elogio, deixou o Conde de Ficalho estudos sobre _Correia da Serra_, sobre a _Flora portugueza_, memorias ácerca do _Clima de Portugal_, das _Feculas alimenticias_ e da _Flora fossil_, numerosissimas notas historicas, anthropologicas e linguisticas, alguns contos, entre os quaes _Cartas do Campo_, o _Jornal de Fulano_, poesias, e até uma peça de theatro.
Mais. Além de escriptor, temos tambem Ficalho--orador, pronunciando o elogio de Antonio Augusto de Aguiar, abrindo o Congresso portuguez de medicina, por occasião do tricentenario do descobrimento do caminho maritimo da India com uma conferencia intitulada _O descobrimento do caminho para a India e a Materia medica_, dissertando na Sociedade de Agricultura e em outras agremiações intellectuaes.
E temo-lo tambem orador politico, proferindo na Camara dos Pares os seus memoraveis e exhaustivos discursos sobre a invasão do phylloxera e sobre o regimen cerealifero.
Fallava como escrevia, com a mesma correnteza, propriedade e elegancia, e na tribuna tambem o seu distincto porte physico soberanamente o realçava.
E já que á politica fiz referencia, cumpre registar que mais de uma vez foi convidado para ministro. Fontes, Bocage e Hintze Ribeiro debalde insistiram com elle. Recusou sempre, com premeditada e intencional obstinação.
Chega hoje isto quasi a não acreditar-se: ter existido, vivo e palpavel, sem defeito, um portuguez que não queria ser ministro!
Vê-se que o nosso consocio, quando se lhe proporcionava a occasião, não se lhe dava de cultivar tambem... a excentricidade.
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O Conde de Ficalho, meus senhores, como heis visto, foi distinctamente tudo quanto quiz ser, com muita gloria para si e muita honra para o seu paiz.
Trouxe do berço opulentissimos dotes, pelo seu esforço admiravelmente os multiplicou, mas em tudo tambem a sorte liberalmente o favoreceu na vida.
Foi tudo quanto mais eminentemente se pode ser.
Na côrte foi mordomo-mór; na ordem politica, par do reino, conselheiro de estado, embaixador extraordinario; na sciencia e nas lettras, lente e academico; na esphera mundana, um verdadeiro arbitro, cujos varonis e encantadores predicados, mais de uma vez--estamos em conjectural-o, como academicos, a quem nenhum interesse humano pode ser indifferente,--mais de uma vez, iamos dizendo, teriam, na longa e brilhante carreira do nosso consocio, posto em doce palpitação intimos anceios de frageis e commovidos corações.
Mas fidalgo ficou sempre e homem de côrte, superior ás avidas ambições da epocha, hostil aos equivocos e promiscuidades a que taes ambições conduzem, considerando-as absolutamente incompativeis com a sua condição no serviço real, e com o bom gosto com que sempre primou em desempenhal-o, junto d'El-Rei D. Luiz, de saudosa memoria, e junto de Sua Magestade El-Rei D. Carlos, que por esse e pelos seus demais meritos tanto e tão justamente o apreciava.
Ninguem o invejava, estava como que--_hors concours_, e antes todos se compraziam no convivio social, proximo ao longinquo, d'aquella especie de compendio vivo de meritos e elegancias.
Na sociedade portugueza, mórmente na capital do reino, tinha uma evidencia e notoriedade especiaes, em que prestigio, sympathia e curiosidade se confundiam, e assim quando um dia, o da chegada da Real Familia dos Açores, correu a noticia de que o Conde de Ficalho fôra acommettido de um deliquio no Arsenal, houve um primeiro sobresalto.
Pouco depois o facto repetia-se, e logo a má nova se espalhou que a sua saude estava gravemente compromettida, que o seu robusto organismo se achava ferido de morte, na trama nobre e aristocratica por excellencia da humana textura, no systema nervoso.
Começou-se a reparar n'elle. Retezava-se contra o adversario, mas a tristeza invadira-o, e transparecia na fórma de uma maior affectuosidade. O andar tornara-se incerto e mal equilibrado, da espinha o mal subia ao cerebro, e na falla, no olhar, no pensamento, havia preludios timidos e fugazes, mas irrecusaveis e fataes, de incipiente inconsciencia e desvairamento, que a todos infundia a maior tristeza.
Ambulava, articulava, mas já não era o Conde de Ficalho. Estava vivo ainda, mas era peor do que se estivera morto.
Não era elle. Era o seu phantasma, de dolorosa e arripiante visão!
Felizmente para elle, felizmente para todos, o angustioso espectaculo do progressivo desmoronamento d'aquelle privilegiado e scintillante exemplar humano não se prolongou muito. Retido finalmente pelos progressos da doença no seu Palacio dos Caetanos, onde nascera, e onde a filha unica que lhe restava o fôra carinhosamente acompanhar, arrebatado por uma congestão, no dia 19 de abril de 1903 deixava de existir o nosso consocio, e de tão perfeito ser, de tão meritorio homem e de tão brilhante existencia--só restava um despojo material, a accordar mais uma vez para as mundanas meditações os echos da sempre tremenda palavra do _Ecclesiastes_:
_Vanitas, vanitatum et omnia vanitas!..._
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Mas será tudo vaidade, meus senhores, na existencia do homem, desde os dons da Natureza, os felizes acasos da Fortuna, até á propria Virtude e Sabedoria, como desoladamente o proclama o desabusado e penitente Salomão?
No ponto de vista individual, considerada a pequenez e fragilidade das mais assignaladas acções terrenas perante a eternidade dos destinos fataes, tudo é vaidade, que se desfaz em pó, cinza, nada, e ao termo da aspera jornada o mais afortunado e glorioso viandante a si mesmo pergunta--Para quê?
Mas não nos elevemos a tão altas conjecturações, não fitemos o Infinito, cogitemos, como academicos, singelamente dentro da esphera dos interesses terrenos, na orbita das benemerencias sociaes.
É tudo vaidade, e do que foi o Conde de Ficalho, só resta realmente uma imagem brilhante, que no seu mesmo brilho com vaidade se confunde?
Não quererieis, illustres collegas, que eu o dissesse, e não o digo.
Do Conde de Ficalho fica a sua obra, em muitos tomos valiosissima e perduravel, e fica, n'um aspecto mais transcendente--um exemplo e uma lição.
Não é licito apoucar em ninguem o merito de por seu esforço se elevar no saber e na consideração, seja a necessidade ou a ambição que o estimulem. O facto é todavia normal, physiologico, e constitue a banal e natural condição do progresso social.
Mas um tal merito sobreleva indiscutivelmente em quem, nascido sem necessidades materiaes, já do berço com logar marcado nas primeiras bancadas da hierarchia social, usufruindo-o por condição de nascimento, esse apanagio o corrobora como que pela conquista, affirmando esforçada e democraticamente meritos proprios, sufficientes para lhe alcançarem, fóra de todo o privilegio, eminente logar na consideração publica.
É bem caracterisadamente este o caso do nosso consocio, o Conde de Ficalho.
O terremoto constitucional de 1834, como terremoto que foi, destruiu ainda mais, do que se edificou. A nobreza soffreu ahi um profundo e talvez excessivo golpe, que a ulterior suppressão completa dos vinculos veiu tambem excessivamente consummar, e d'ahi começou o desmoronamento das grandes e tradicionaes familias, que eram como monumentos da historia de Portugal, pelo esforço de cujo sangue a nação se constituira, se mantivera e engrandecera, e que deviam ser salvaguardadas, como elos preciosos entre o Passado e o Futuro, a affirmarem a continuidade e indissolubilidade da gloria nacional.
Tomadas de surpreza, sem preparo para as competencias da nova ordem social, as classes nobres esmoreceram, e entrincheiraram-se--os que ainda o podiam, n'um altivo orgulho, os outros na desolada, inerte e mortifera contemplação das suas tradições, preferindo depois ao trabalho energico e á lucta porfiada, para que não haviam sido educados, as magnanimas protecções, a que tantos se viram obrigados.
Não comprehenderam o novo mundo, que ante elles, de facto, se abria. Não comprehenderam que as arvores de sua nobre linhagem, em cuja triste e vaidosa contemplação puerilmente se quedavam, eram, na nova ordem de cousas, apenas inefficazes diplomas de grandezas passadas, arvores mortas, emquanto elles, pelo esforço e merito proprio, e no novo criterio das supremacias sociaes, lhes não reverdecessem as folhas e lhes não reinflorassem os ramos.
Alguns raros o attingiram, e o Conde de Ficalho, agora sagrado pela morte e entrado já na posteridade, sem quebra da nobreza do seu nome, antes com summo realce para elle, admiravelmente os symbolisa.
Não ha aqui, senhores, uma soberba lição, um experimental exemplo e um irrecusavel estimulo para que os netos dos que galhardamente combateram pela espada procurem manter a fama dos avós nas competencias modernas do merito intellectual e scientifico, aquelle que hoje em dia todas as portas abre, a todos os logares dá accesso, e em egual consideração chega a confundir e irmanar, nos fastos gloriosos d'uma nação, testas secularmente coroadas, como Luiz XIV, o _Rei-Sol_, e simples filhos do povo, como Luiz Pasteur, de immortal e benemerita memoria?
A aristocracia moderna, ia quasi dizer a aristocracia democratica, é a da sciencia e das lettras, a do talento. Só esta é universalmente irrecusavel, no tempo e no espaço.
Monarchas e principes não só a veneram, mas n'ella se comprazem em incorporar a magestade de sua alta condição, como tambem n'elles proprios estimam fundar a consagração de meritos pessoaes, que perante o mundo lhes realça a herdada primazia.
Não, a aristocracia intellectual não é incompativel com a do nascimento e da tradição, de que é antes conservadora e engrandecedora. E bem o demonstraram tambem, em exemplo ainda mais subido e frisante, que é da historia, e que á cortezia, e á justiça, é grato aqui recordar, os «altos infantes», que se chamaram--os principes d'Orléans.
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Tal é, senhores, a lição que se extrae da vida e obra do Conde de Ficalho, que a Academia hoje glorifica entre os seus mais distinctos ornamentos.
E não destoa ella certamente n'este instituto, fundado em 1780 por D. João Carlos de Bragança, duque de Lafões--_qui mores hominem multorum vidit et urbes_, e ao qual, com duplo e prestigioso titulo, preside--Quem, por nativo direito investido em tal funcção, por direito scientifico teria egualmente logar aqui, entre os academicos, que pela unica affirmação de algum valor ou esforço proprio conquistaram o seu ingresso n'esta casa.
Disse.
[1] Conde de Arnoso.--_Elogio do Conde de Ficalho._ Lido na sessão especial da Sociedade de Geographia de Lisboa, em 19 de maio de 1903.
[2] _A Tradição._--Revista mensal de ethnographia portugueza, illustrada. Vol. V, nos. 6, 7 e 8.--Artigos de: Ramalho Ortigão, D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, A. R. Gonçalves Vianna, Conde de Sabugosa, Alberto Pimentel, Dr. Theophilo Braga, Dr. Sousa Viterbo, Dr. Candido de Figueiredo, Manuel Ramos, Conde de Arnoso, Dr. Graça Affreixo, Dr. Thomaz de Mello Breyner, D. João da Camara, Pedro A. de Azevedo, Julio de Lemos, Costa Caldas, José Orta Cano, D. Antonio de Mello Breyner, Dr. Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes.