Chapter 2
Quantas intimas dôres nos abalam! Porque não ha no mundo quem as ouça, As dolorosas vozes que se calam!
Ó gente enamorada! Ó gente môça! Que, de repente, ao tumulo baixaes, Qual o vosso pecado? a culpa vossa?
Ó Procissão das lagrimas, dos ais, Deante de mim, passando eternamente A caminho das sombras sepulcraes!
Dôr sem fim, sem principio, dôr presente, Martirisando as almas, e sobre elas O sorriso de Deus indiferente!
O Deus que põe na face das estrelas Nodoas de sombra e enfeita com as flôres Da morte, as brancas Noivas e as Donzelas;
O Deus acêso em tragicos furôres, Que mata as creancinhas sem peccado E parece viver das nossas dôres,
E fez do nosso chôro o mar salgado, E fez da nossa angustia um êrmo outeiro, E sobre ele Jesus crucificado;
O Deus que me tornou prisioneiro, E que transforma tudo quanto eu amo Em desfeita visão de nevoeiro;
Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo, É profundo silencio, indiferença, A propria sombra morta que eu derramo...
Remoto Deus--Phantasma, sem presença, Que em materia de dôr edificou As arvores, o Sol, a noite imensa,
E em doloroso barro alevantou Minha figura tragica e reprêsa, Num impotente, empedernido vôo;
É o Deus do Abysmo, o Pae da Naturêsa, Nocturno Deus da vida material, Divindade da fúnebre Tristêsa;
O Deus creador das Trevas, contra o qual Sósinho, se ergue em mim, mas sem temor, O meu divino Sêr espiritual;
Meu Sêr heroico acêso em puro amor! Sol comovido, ardente meio dia, Trespassando de luz a noite e a dôr!
Meu Sêr, onde se muda em alegria A corporea tristêsa; onde a Materia Se faz alma perfeita de harmonia;
Meu Sêr que afirma o Bem, ante a miseria Das transitorias cousas; que alevanta, Contra a sombra do inferno, a Luz etérea!
Meu Sêr espiritual que, alegre, canta, Se, por ventura, eu choro desolado, E que os Phantasmas lúgubres espanta;
Meu Sêr creador do Espírito sagrado, O Redemptor das lagrimas, dos ais; Senhor dum novo Olimpo sublimado...
Novo Orféu nos Abysmos infernaes.
ESPERANÇA E TRISTÊSA
Minha tristêsa é peor que a tua dôr. Um dia, no teu ventre sentirás Reencarnar para o mundo o teu amor: A mesma alma, o mesmo olhar... verás!...
Eu sei que ha de voltar; e assim terás A alegria primeira, ainda maior... E então, de novo, alegre ficarás; Será primeiro o teu segundo amôr!
Mas eu que, antes do tempo, já declino, Quem sabe se verei o teu Menino, Numa edade em que possa compreender?
E partirei talvez sem lhe deixar, Na memoria, esse interno e fundo olhar, A comovida imagem do meu sêr...
SÓSINHO
Tarde. Vagueio só por um outeiro. Sua Imgem chimerica fluctua, Deante de mim, no espaço: é nevoeiro Vestindo de emoção a terra nua...
E como na minh'alma se insinua Aquele etéreo Vulto... amôr primeiro! Ouço-o falar, lá fóra, á luz da lua. Vejo-o brincar na sombra do terreiro.
Apenas vêm meus olhos, n'este mundo, O seu perfil angelico, o seu fundo, Misterioso, verde negro olhar...
Vejo uma estrela? É ele. Vejo um lirio? É ele. Tudo é ele. E o meu delirio É ele: é o seu espírito a cantar!
DEPOIS DA VIDA
Quando meu coração parar desfeito Em sombra, na profunda sepultura, E o meu sêr, já phantastico e perfeito, Vaguear entre o Infinito e a terra dura;
Quando eu sentir, emfim, todo o meu peito A transformar-se em constelada Altura; Eu, divino Phantasma, o claro Eleito, O Enviado da Vida á Morte escura;
Quando eu fôr para mim minha esperança, Meu proprio amôr jamais anoitecido, E a minha sombra apenas fôr lembrança;
Quando eu fôr um Espectro de Saudade, Entre o luar e a nevoa amanhecido, Serei comtigo, Amôr, na Eternidade.
O ENCONTRO COM O RETRATO
Receio o teu encontro, pobre Mãe, Com o retrato de teu Filho. Vaes Contemplar suas formas materiaes, O que pertence á morte e a mais ninguem...
Mas para que exaltar ainda mais Aquela dôr que é só do mundo? Tem Paciencia. Não o vejas. Olha bem: De que servem as lagrimas e os ais?...
Essa dôr não a ames, que é profana. Sim: não adores nele a forma humana, A ilusoria aparencia, o sonho vão...
Pois é verdade, ó Mãe, que tens presente Seu imortal espírito inocente Em ti mesma, em teu proprio coração!...
NA MINHA SOLEDADE
Aqui, por estes sitios onde nós Vivêmos; tu brincando no jardim; Eu a ouvir encantado a tua voz E vendo em ti um Anjo, um sonho, ao pé de mim;
Aqui, por estes vales de alegria Emquanto tu viveste, E agora escuras, êrmas terras de elegia Batidas do nordeste, Eu ando á minha sombra redusido E mais a tua Imagem. E quem nos vê, de longe, diz entristecido: Dois Espectros, além, vagueando na Paisagem...
A TUA IMAGEM
Os meus olhos abrigam como um templo, Tua divina Imagem que os eleva E os enche de purêsa e santidade; São os meus olhos intimos, aqueles Que entre as nuvens avistam, certas horas, Azas de Anjos, relampagos de Deus, E não meus pobres olhos materiaes Na côr, nos formas vãs crucificados.
E tu vives e falas nesse mundo, Ao pé do qual meu corpo de tragedia É sua antiga e vaga Nebulosa...
E em meu nocturno espirito rebôa Aquela tua voz amanhecente Que espalhava alegrias pelo ar.
E a tua voz divina, por encanto, Se espêlha em minhas lagrimas que ficam Todas, por dentro, acêsas num sorriso.
A lagrima vê tudo: a propria voz, Pousando á sua tôrva superficie, Nela desenha, em ondas, o seu Vulto.
Meu doloroso sêr com tua Imagem Eterna comunica. A minha vida Na tua morte assim se continua... Embora exista entre elas a distancia De sombras lampejantes, que separa Nosso corpo mortal do nosso espirito.
E eu canto, e me deslumbro em minha dôr! De subito, anoiteço, e me disperso, E vejo-me Phantasma... e, a sós, divago Pelos caminhos lúgubres da Morte... E chego á porta em flôr do teu sepulcro; E uma alegria misteriosa vem Doirar a sombra vã de que sou feito...
E esta alegria és tu... que me apareces!... Minha segunda vida transcendente Nasceu da tua Ausencia que lhe imprime O drama eterno, a acção divina e triste.
Tua morte refez meu sêr: abriu-lhe Novo sentido de alma; aquele olhar Que no seio das lagrimas desperta, E veste de infinito e de saudade A tôsca rocha bruta que se torna Espirito vivente no crepusculo: Esphinge em cujos labios a tristêsa Das cousas interroga a dôr humana.
E vós, ó brutas cousas reviveis Perante o meu olhar que vos penetra De seu liquido lume visionario. Tornastes a viver. As vossas almas Que a minha dôr primeira afugentou, São presentes, de novo, em vosso corpo. Ei-lo scismando, triste, á luz do luar, Na projectada sombra que, a seus pés, Desenha ignotas formas de silencio... Ei-lo embebido em mistica ternura, Tremulo de emoção, reverdecendo, Esculpindo, no ar, melancolias...
E a tua Imagem paira sobre mim... Todo eu palpito em ondas de anciedade! Abysmo de emoção, em mim me perco! E minh'alma exaltada e comovida, D'este meu sêr trasborda e inunda tudo! Arde no fogo virgem das estrelas, Em cada humana lagrima scintila, Chora nas nuvens, no êrmo vento geme!
E julgo haver, meu Deus, resuscitado Da morte que soffri para nascer!
Sim: o meu berço é irmão do teu sepulcro; Teu cadaver baixou áquele abysmo Donde subi outrora á luz da morte... E lá tu me encontraste ainda em vida, Na Aurora que precede o nascimento, E parece doirar a nossa Infancia...
Sinto que estou comtigo em outro mundo. Lá vivemos os dois em companhia, Muito embora eu arraste sobre a terra, Que teu cadaver, tão mimoso! esconde, Esta minha Presença de afflição!
E beijo a tua Imagem, de joelhos... E, em meu silencio, reso... E a tua Imagem Agora é grave, séria, quasi triste, Porque se fez sagrada além da Morte.
A NOSSA DÔR
Emquanto chora a Mãe desventurada, Sobre o seu coração, de noite e dia, Eu canto a minha dôr; e a dôr cantada Como que intimamente se alumia...
Se me levanto cêdo e a madrugada Já vem doirando os longes de harmonia, Sinto que estás ainda despertada E eu ouço, em mim, cantar nova elegia.
Abre-te a dôr os olhos sem piedade, Durante as longas noites de amargura... Mas para mim a dôr é já saudade.
A dôr, em mim, é canto que murmura; A dôr, em ti, é negra tempestade: Sou a noitinha, e tu, a noite escura!
VIDA ETERNA
Nele adora somente o que não passa; O que é imortal, perfeito, e no teu sêr É fonte de orações, de luz e graça.
Adora a sua Imagem a viver, Numa perpetua infancia florescendo, Perpetuamente isenta de soffrer.
Dia a dia, nós vamos falecendo; Esta vida carnal é um arremêdo Da Vida, á luz da qual eu não entendo
Nem morte ou aparencia ou dôr ou mêdo... Teu Filho agora é luz, revelação; E tu, ó Mãe, crepusculo e segrêdo!
Adora, sim, teu proprio coração Se desejas amar teu Filho. Resa E não chores, que a luz duma oração
Mostra-te bem melhor sua belêsa, Seus verdes olhos de alma, a fronte e o rôsto Que as lagrimas sombrias de tristêsa.
Seja alegria eterna o teu desgôsto Corporeo, transitorio! Seja aurora De idilio o teu dramatico sol-pôsto!
A alma ajoelha e resa, mas não chora.
MEMORIA
Memoria, Elisios Campos, Paraiso, Espirituaes Paisagens! Vales de luz, outeiros de sorriso, Onde vivem as misticas Imagens.
Jardim florido de Almas que o estortôr Da Morte libertou! Jardim povoado De luminosas Sombras que em amôr E sonho iluminado, Dando-se as mãos de luz e intimidade, Vagueiam pelas verdes avenidas, Ao luar misterioso da Saudade, Evocando outros mundos, outras vidas...
Vejo, em grupos, os velhos conversando... E murmuram palavras... voz de outomno Que se vae em silencios desfolhando Num êrmo chão doirado, ao abandono.
Mais adeante, em dôce companhia, Caminha enamorada a gente nova: O Heroe caido, morto, á luz do dia, A Noiva que baixou á fria cova!
E mais adeante ainda, em mais ruidosos E alvoroçados grupos, as Creanças Falam alto, têm gestos luminosos... São bandos de esperanças, Tão cêdo á luz do mundo arrebatadas E aos braços maternaes! E brincam a sorrir, inda molhadas Das lagrimas eternas de seus Paes...
E com um ar de riso, As beija o Sol do Alem... Nem se lembram das mães, no Paraiso; São Almas, sim, e as Almas não têm Mãe!
Ao Sol espiritual que as faz corar Durante os seus brinquedos, Somente Deus as pode contemplar Do seu trôno de trevas e segrêdos.
Deus contempla as Creanças que roubou Ao fundo amôr materno... E bem se vê Nos seus olhos a nuvem que os toldou... E a si mesmo pergunta: Para quê?
E á luz do eterno dia, Os Phantasmas divinos das Creanças Fazem os seus bailados de alegria, Elas que são tristissimas Lembranças!
E a nova formosura que elas têm! O novo e estranho encanto! Assim tocadas já do sol do Alem, Até aos pés vestidas do meu Canto!
Memoria, Jardim de Almas todo em flôr Que as canções e os perfumes enevôam, Se para mim és dôr, és luz e amôr, Para os sêres amados que o povoam!
E eis tudo quanto resta á Creatura: Saber que o seu tormento É perfeita alegria, alta ventura, Em outro Firmamento!
Quando os meus olhos intimos, em sonho, Esse mundo ideal conseguem vêr, Fico tão deslumbrado que suponho Haver morrido já sem o saber!
E eis que sou na Paisagem da Memoria! Lembrança de mim mesmo, eu já penetro Na cidade phantastica e ilusoria... Já sou Aparição, Visão, Espectro!
Que é da minha Presença? Não me vejo! Ah, não me encontro em mim! Sou a Oração Redimida, sem Deus e sem desejo; Amôr sem coração! Sonho liberto, ascendo no Infinito. A propria Altura é já profundidade! Onde estás? onde estás? ó corpo aflicto! Meu sêr perdeu-se em alma: ei-lo saudade!
Outubro de 1912
INDICE
Prefacio Dedicatoria Mãe dolorosa Junto dele Nas trevas Olhar eterno No seu tumulo Delirio Remorsos No crepusculo Sobresalto Encantamento O que eu sou Minha alegria Tristêsa A minha dôr A Mãe e o Filho Ausencia Tragica recordação Idilio De noite Noites em claro Duas sombras Lagrima Meditação Esperança e tristêsa Sósinho Depois da vida O encontro com o retrato Na minha soledade A tua imagem A nossa dôr Vida eterna Memoria
ACABOU DE IMPRIMIR-SE AOS 21 DE JUNHO DE 1913 NA TYPOGRAPHIA COSTA CARREGAL TRAVESSA PASSOS MANUEL, 27--PORTO.