Elegias

Chapter 1

Chapter 14,132 wordsPublic domain

Produced by Vasco Salgado

TEIXEIRA DE PASCOAES

+ELEGIAS+

1912

ELEGIAS

OBRAS DO AUTOR

Sempre--1897 Terra Prohibida--1899 Sempre (2.^a edição)--1902 Jesus e Pan--1903 Para a Luz--1904 Vida Etherea--1906 As Sombras--1907 Senhora da Noite--1908 Marános--1911 Regresso ao Paraiso--1912 O Espirito Lusitano ou o Saudosismo--1912 O Doido e a Morte--1913

TEIXEIRA DE PASCOAES

+ELEGIAS+

1912

PREFACIO

Não tencionava publicar este livro. A dôr que ele contem, muito embora arrefecida ao tomar expressão verbal, é sagrada para mim.

Estes versos, nascidos da morte d'uma creança bem amada, fôram escriptos para seus Paes e Avós, para as pessoas que a rodearam de carinhos durante a sua doença e para os meus intimos amigos de alma.

O soffrimento verdadeiro não ama a luz do mundo. Quem chora, esconde o rôsto. A dôr oculta-se por conhecer a desharmonia de que é feita.

Mas quando soube da subscripção nacional aberta a favor do divino Poeta da "Historia de Jesus" _para as creancinhas lerem_, resolvi pôr á venda este livro, com o fim de inscrever o seu producto, ainda que modesto, na subscripção referida.

Fui _eu_ que resolvi?... Gomes Leal verá no producto das "Elegias" não a minha pessoa, mas o proprio espirito d'essa Creança...

É ela a agradecer-lhe a dedicatoria do Poema, sublime de emoção religiosa, onde murmura, eternamente viva, a alma de Jesus.

Março de 1913.

[Nota do Transcritor: Aqui surge a assinatura do autor.]

DEDICATORIA

_Este pequeno livro é para ti, Minha irmã. Has de lê-lo com amor, Pois nele encontrarás o que soffri E uma sombra talvez da tua dôr. E nele, embora em nevoa, encontrarás A Imagem de teu Filho... Ó minha irmã, Sei que és a campa viva onde ele jaz; Sei que este livro é cinza, poeira vã Que eu espalho em redor da tua cruz... Mas ante a negra dôr que me tortura, Quiz vingar-me da Morte, e ergui á luz, Cantando, este meu calix de amargura._

MÃE DOLOROSA

Vi-o doente, ouvi os seus gemidos; Sinto a memoria negra, ao recordá-lo! A Mãe baixava os olhos doloridos Sobre o Filho. E era a Dôr a contemplá-lo!

Depois, nesses instantes esquecidos, Ou lhe falava ou punha-se a beijá-lo... Mas, retomando, subito, os sentidos, Estremecia toda em grande abalo!

Fugia de ao pé dele suffocada, A sua escura trança desgrenhada, Os seus olhos abertos de terror!

E então, num desespêro, a Mãe chorava, E, por entre gemidos, só gritava: Amôr! amôr! amôr! amôr! amôr!

JUNTO DELE

Que terrivel tragedia ver a gente, No seu exiguo e doloroso leito, Uma creança morta, um Inocente, Um pequenino Amôr inda perfeito!

Oh que mimosa palidês tremente A do gélido rôsto contrafeito! A as mãosinhas de cêra, docemente, Ó dôr, ó dôr, cruzadas sobre o peito!

Ó Deus cruel que matas as Creanças! Auroras para o nosso coração, Alegrias, alivios, esperanças!

Não sei quem és; eu não te entendo, Deus! E penso, com terror, na escuridão Desse teu Reino tragico dos Céus...

NAS TREVAS

Como estou só no mundo! Como tudo É lagrima e silencio!

Ó tristêsa das Cousas, quando é noite Na terra e em nosso espirito!... Tristêsa Que se anuncia em vultos de arvoredos, Em rochas diluidas na penumbra E soluços de vento perpassando Na tenebrosa lividez do céu...

Ó tristêsa das Cousas! Noite morta! Pavor! Desolação! Escura noite! Phantastica Paisagem, Desde o soturno espaço á fria terra Toda vestida em sombra de amargura!

Êrma noite fechada! Nem um leve Riso vago de estrela se adivinha... Sómente as grossas lagrimas da chuva Escorrem pela face do Silencio...

Piedade, noite negra! Não me beijes Com esses labios mortos de Phantasma!

Ó Sol, vem alumiar a minha dôr Que, perdida na sombra, se dilata E mais profundamente se enraiza Nesta carne a sangrar que é a minha alma!

Ilumina-te, ó Noite! Ó Vento, cála-te! Negras nuvens do sul, limpae os olhos, Desanuviae a bronzea face morta!

Oh, mas que noite amarga, toda cheia Do teu Phantasma angelico e divino; Espirito que, um dia, em minha irmã, Tomou corpo infantil, figura de Anjo... E para que, meu Deus? Para partir, Com seis annos apenas, no primeiro Riso da vida, em lagrimas, levando Toda a luz de esperança que floria Este êrmo, este remoto em que divago...

Como estou só no mundo! Como é triste A solidão que faz a tua Ausencia, E o terrivel e tragico silencio Da tua alegre Voz emudecida!

Ó noite, ó noite triste! Ó minha alma! Tu, que o viste e beijaste tantas vezes, Tu, que sentiste bem o que ele tinha De angelica Creança sobrehumana, Não vês as proprias cousas como soffrem, E como as grandes arvores agitam As ramagens de lagrimas e sombras?

Repára bem na lugubre tristêsa Da nossa velha casa abandonada Da divina Presença da Creança!

Ah, como as portas gemem e o beiraes Têm soluços de vento...

Lá fóra, no terreiro onde brincavas, A noite escura chora...

Ó minha alma, Embebe-te na dôr das Cousas êrmas; Chora tambem, consome-te, soluça, Junto á Mãe dolorosa, de joelhos...

OLHAR ETERNO

Aquele olhar tão triste, Onde ia, feito em lagrima, o que eu sou, Isto é, tudo o que existe, No instante em que pousou, Relampago do Além, Sobre ti, meu querido e pobre Anjinho, Já deitado na cama e tão doentinho, Cercado da afflicção de tua Mãe; Esse olhar fez-se eterno, Em meus olhos ficou: é luz do inferno Que tudo me alumia...

Parece a luz do dia!

NO SEU TUMULO

Sobre o seu frio berço sepulcral, Meu espirito resa ajoelhado; E sente-se perfeito e virginal Na sua dôr divina concentrado.

Caí, gotas de orvalho matinal! Astros, caí do céu todo estrelado! Sêcas flôres do zéfiro outomnal, Vinde enfeitar-lhe o tumulo sagrado!

Ó luar da meia noite, encantamento De sombra, vem cobri-lo! Ó doido Vento, Dorme com ele, em paz religiosa...

Sobre ele, ó terra, sê brandura apenas; Faze-te luz, toma o calor das pennas; Sê Mãe perfeita, bôa e carinhosa.

DELIRIO

Não posso crêr na morte do Menino! E julgo ouvi-lo e vê-lo, a cada passo... É ele? Não. Sou eu que desatino; É a minha dôr soffrida, o meu cansaço.

Delirio que me prendes num abraço, Emendarás a obra do Destino? Vê-lo-ei sorrir, de novo, no regaço Da mãe? Verei seu rosto pequenino?

Misterio! Sombra imensa! Alto segredo! Jamais! jamais! Quem sabe? Tenho mêdo! Que vejo em mim? A treva? a luz futura?

Ah, que a dôr infinita de o perder Seja a alegria de o tornar a ver, Meu Deus, embora noutra creatura!

REMORSOS

Onde comtigo, um dia, me zanguei, É hoje um sitio escuro que aborreço; E sempre que ali passo, eu anoiteço!... Ah, foi um crime, sim, que pratiquei!

Quantas negras torturas eu padeço Pelo pequeno mal que te causei! Se, ao menos, presentisse o que hoje sei? Mas não; fui mau; fui bruto; reconheço!

E sôffro mais, por isso, a tua morte, E dou mais chôro amargo ao vento norte, Mais trevas se acumulam no meu rôsto...

Ó vós que n'este mundo amaes alguem, Seja linda creança ou pae ou mãe, Não lhe causeis nem sombra de desgôsto!

NO CREPUSCULO

Nasce a luz do luar dos derradeiros, Êrmos, soturnos pincaros sósinhos... Andam sombras no ar e murmurinhos E vagidos de luz... e os Pegureiros Descem, cantando, a encosta dos outeiros...

Tangendo amenas frautas amorosas, Seus vultos, no crepusculo, desmaiam E assim como os seus canticos, se espraiam Em ondas de emoção. As fragarosas Quebradas que o luar beija, misteriosas Furnas, boccas de terra, murmurantes, Arvoredos extaticos orando, Rochedos, na penumbra, meditando, Desfeitos em ternura, esvoaçantes, Pairam tambem no espaço comovido, Das primeiras estrelas já ferido, Todo em luar e sombra amortalhado...

E eu choro sobre um monte abandonado...

E o Phantasma divino da Creança, Sombra de Anjinho em flor, Nos longes dos meus olhos aparece, Como se, por ventura, ele nascesse Da minha incerta e trémula esperança, E não da minha firme e eterna dôr!

E choro; e alem das lagrimas, eu vejo Aquele dôce Vulto pequenino, Em seu leito de morte e soffrimento; Jesus martirisado, inda Menino... E é como cinza morte o meu desejo E como extinta luz meu pensamento!

Depois, a sua Imagem soffredôra Regressa á Vida, veste-se de aurora; Os seus labios sorriem para mim... E aquelles verdes olhos cristalinos Abrem-se radiosos e divinos, E vejo-o então brincar no meu jardim!

Vejo-o como ele foi, como ele existe No coração da Mãe por toda a vida! Anjinho tutelar da nossa casa! A divina Esperança florescida, Brilhando além de tudo quanto é triste... Longinquo Alivio, protectora Asa!

Mas de que serve? Eu choro sem descanço, No meio da tristêsa indiferente Das Cousas que têm a alma sempre ausente...

Só eu na minha dôr nunca me canço.

Ó brutêsa das Cousas! No infinito E gélido silencio, eu ouço um grito! Na funda solidão que me rodeia, Um sêr apenas, tétrico, vagueia...

Quem grita? O meu espirito. E que importa? É ele a errar no mundo solitario, Sem principio nem fim, sem pae nem mãe!

Ó céu indiferente! Ó terra morta! Ó grito de Jesus sobre o Calvario, A subir no Infinito, cada vez Mais cercado de tragica mudez, Mas afflicto, mais alto, mais além!...

Cousas que já fizestes companhia A este espirito meu que, em vós, se via, Porque me abandonastes? Êrmo Vento, Insonia do ar correndo o Firmamento, Só vejo, em ti, loucura inanimada, Revolta inconsciencia destruidora!

Alta estrela, na noite, incendiada, Passarinhos do céu, cantos da aurora, Já não palpita em vós meu coração... Sois o silencio, a treva, a solidão.

Além de mim já nada avisto. As cousas, Arvores, nuvens, serras pedregosas, São penumbras que á luz do meu olhar Se dissipam, de subito, no ar.

De tal forma meu sêr se concentrou Na visão da Creança, que além d'ela, Não vejo flôr ou ave ou luz de estrela, Limpido céu azul, verde paisagem! Dir-se-á que o seu Espectro reencarnou Em mim,--que não sou mais que a sua Imagem!

SOBRESALTO

Quantas horas passava contemplando Seu pequenino Vulto. Era um Anjinho Dentro de nossa casa, abençoando... Era uma Flôr, um Astro, um Amorzinho.

Um dia, em que ele, ao pé de mim, sósinho Brincava, estes meus olhos inundando De graça, de inocencia e de carinho, De tudo o que é celeste, alegre e brando,

Vi tremer sua Imagem, de repente, No ar, como se fôra Aparição. E para mim eu disse tristemente:

"Pertences a outro mundo, a um céu mais alto; Partirás dentro em breve." E desde então Eu fiquei num constante sobresalto!

ENCANTAMENTO

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar A tua dôce e angelica Figura, Esquecido, embebido num luar, Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar, Deante de ti, mimosa Creatura, Suavemente sentia-me apagar... E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria! Tua figura de Anjo radiava! Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu proprio espirito cantava! Nessas horas divinas, quem diria A sorte que já Deus te destinava!

O QUE EU SOU

Nocturna e dubia luz Meu sêr esboça e tudo quanto existe... Sou, num alto de monte, negra cruz, Onde bate o luar em noite triste...

Sou o espirito triste que murmura Neste silencio lúgubre das Cousas... Eu é que sou o Espectro, a Sombra escura De falecidas formas mentirosas.

E tu, Sombra infantil do meu Amôr, És o Sêr vivo, o Sêr Espiritual, A Presença radiosa... Eu sou a Dôr, Sou a tragica Ausencia glacial...

Pois tu vives, em mim, a vida nova, E eu já não vivo em ti... Mas quem morreu? Fôste tu que baixaste á fria cova? Oh, não! Fui eu! Fui eu!

Horrivel cataclismo e negra sorte! Tu fôste um mundo ideal que se desfez E onde sonhei viver apoz a morte! Vendo teus lindos olhos, quanta vez, Dizia para mim: eis o logar Da minha espiritual, futura imagem... E viverei á luz daquele olhar, Divino sol de mistica Paisagem.

Era minha ambição primordial Legar-lhe a minha imagem de saudade; Mas um vento cruel de temporal, Vento de eternidade, Arrebatou meu sonho! E fugitiva Deste mundo se fez minha alegria; Mais morta do que viva, Partiu comtigo, Amôr, á luz do dia Que doirou de tristêsa o teu caixão... Partiu comtigo, ao pé de ti murmura; É maguada voz na solidão, Dôce alvor de luar na noite escura... E beija o teu sepulcro pequenino; Sobre ele vôa e erra, Porque o teu Sêr amado é já divino E o teu sepulcro, abrindo-se na terra, Penetrou-a de luz e santidade... E para mim a terra é um grande templo E, dentro dele, a Imagem da Saudade... E reso de joelhos, e contemplo Meu triste coração, saudoso altar Alumiado de sombra, escura luz... Nele deitado estás como a sonhar, Meu pequenino e mistico Jesus... Lagrimas dos meus olhos são as flôres Que a teus pés eu deponho... Enfeitam tua Imagem minhas dôres, E alumia-te, ás noites, o meu sonho.

Todo me dou em sacrificio á tua Imagem que eu adoro. Sou branco incenso á triste luz da lua: Eu sou, em nevoa, as lagrimas que choro...

MINHA ALEGRIA

Minha alegria foi no teu caixão; Deitou-se ao pé de ti, na sepultura, A fim de acalentar teu coração E tornar-te mais branda a terra dura.

Por isso, é para mim consolação Esta sombria dôr que me tortura! E ponho-me a cantar na solidão, Meu cantico esculpido em noite escura!

Consola-me saber minha alegria Longe de mim, perto de ti, na fria Cova a que tu baixaste apoz a morte.

Fôste tu que m'a deste, meu amôr; Agora, dou-t'a eu: é a minha flôr; Eu quero que ela soffra a tua sorte.

TRISTÊSA

O sol do outomno, as folhas a cair, A minha voz baixinho soluçando, Os meus olhos, em lagrimas, beijando A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vae passando Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir Silencios da minh'alma e o resurgir De mortos que me fôram sepultando...

E fico mudo, extatico, parado E quasi sem sentidos, mergulhando Na minha viva e funda intimidade...

Só a longinqua estrela em mim actua... Sou rocha harmoniosa á luz da lua, Petreficada esphinge de saudade...

A MINHA DÔR

Tua morte feriu-me no mais fundo, Remoto da minh'alma que eu julgava Já fóra desta vida e deste mundo!

E vejo agora quanto me enganava, Imaginando possuir em mim Alma que fôsse livre e não escrava!

Meu espirito é treva e dôr sem fim. Todo eu sou dôr e morte. Sou franquêsa. Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim

Prégar a noite, a lagrima, a incertêsa, A luz que, para sempre, anoiteceu... Esta envolvente, essencial tristêsa,

Tristêsa original donde nasceu O sol caindo em lagrimas de luz, Chôro de oiro inundando terra e céu!

Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz, Meu ilusorio sêr crucificado Lembra um morto phantasma de Jesus...

E aos pés da minha cruz, no chão maguado, A tua Ausencia é a Virgem Dolorosa, Com tenebroso olhar no meu pregado.

Ah! quanto a minha vida religiosa, Depois que te perdeste no sol-pôsto, Se fez incerta, fragil e enganosa!

Em meu sêr desenhou-se um novo rôsto. Sou outro agora; e vejo com pavor Minha máscara interna de desgôsto.

Vejo sombras á luz da minha dôr... Sombras talvez de eternas Creaturas Que vivem na alegria do Senhor...

E quem sabe se os Mortos, nas Alturas, Vivem na paz de Deus, em sitios êrmos, Entre flôres, sorrisos e venturas?...

E quem sabe se as dôres que soffremos E nosso corpo e alma, não são mais Que as suas vagas sombras irreaes?...

Ah, nós sômos ainda o que perdemos...

A MÃE E O FILHO

Teu sêr tragicamente enternecido, Em desespero de alma transformado, Vae através do espaço escurecido E pousa no seu tumulo sagrado.

E ele acorda, sentindo-o; e, comovido, Chora ao vêr teu espirito adorado, Assim tão só na noite e arrefecido E todo de êrmas lagrimas molhado!

E eis que ele diz: "Ó Mãe, não chores mais! Em vez dos teus suspiros, dos teus ais, Quero que venha a mim tua alegria!"

E só nas horas em que a Mãe descança, É que ele inclina a fronte de creança E dorme ao pé de ti, Virgem Maria!

AUSENCIA

Lúgubre solidão! Ó noite triste! Como sinto que falta a tua Imagem A tudo quanto para mim existe!

Tua bemdita e efémera passagem No mundo, deu ao mundo em que viveste, Á nossa bôa e maternal Paisagem,

Um espirito novo mais celeste; Nova Forma a abraçou e nova Côr Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora tão triste e sem verdor! Depois da tua morte, regressou Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou Tua voz num instante sempiterno, Em negra, intima noite se occultou.

Quando chego á janela, vejo o inverno; E, á luz da lua, as sombras do arvoredo Lembram as sombras pálidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo, Nascem Visões saudosas, diluidos Traços da tua Imagem, arremêdo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos, Do teu Vulto de sol a amanhecer... A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos...

Mas eu que vejo? A luz escurecer; O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa A amargura de olhar e de não vêr...

A voz da minha dôr, da minha queixa, Em vão, por ti, na fria noite clama! Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha

Os ouvidos de pedra! Mas quem ama, Embora no silencio mais profundo, Grita por seu amor: é voz de chama!

E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo, Para onde quer que eu olhe, aqui, além, A tua Ausencia tragica! E no fundo

De mim proprio que vejo? Acaso alguem? Só vejo a tua Ausencia, a Desventura Que fez da noite a imagem de tua Mãe!

A tua Ausencia é tudo o que murmura, E mostra a face triste á luz da aurora, E se espraia na terra em sombra escura...

Quem traz o outomno ao meu jardim agora? Quem muda em cinza o fogo do meu lar? E quem soluça em mim? Quem é que chora?

É a tua Ausencia, Amôr, que vem turbar Esta alegria etérea, nuvem, asa De Anjo que, ás vezes, passa em nosso olhar!

O Sol é a tua Ausencia que se abrasa, A Lua é tua Ausencia enfraquecida... Da tua Ausencia é feita a minha vida E os meus versos tambem e a minha casa.

TRAGICA RECORDAÇÃO

Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora De o ver brincar, e avisto novamente Seu pequenino Vulto transcendente, Mas tão perfeito e vivo como outrora!

Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra, Fala em voz alta e brinca alegremente, E volve os olhos verdes para a gente, Dois berços de embalar a luz da aurora!

Julgo que ele ainda vive, mas já perto Da Morte: sombra escura, abysmo aberto... Pesadêlo de treva e nevoeiro!

Ó visão da Creança ao pé da Morte! E a da Mãe, tendo ao lado a negra sorte A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!

IDILIO

Sinto que, ás vezes, choras, minha Irmã, No teu sombrio quarto recolhida... É que ele vem rompendo a sombra vã Da Morte, e lhe aparece á luz da vida!

E afflicta, como choras, minha Irmã... Teu chôro é tua voz emudecida, Ante a imagem do Filho, essa Manhã Em profunda saudade amanhecida.

Silencio! Não palpites, coração; Nem canto de ave ou mistica oração Um tal idilio venham perturbar!

Deixae o Filho amado e a Mãe saudosa: O Filho a rir, de face carinhosa, E a Mãe, tão triste e pálida, a chorar...

DE NOITE

Quando me deito ao pé da minha dôr, Minha Noiva-phantasma; e em derredor Do meu leito, a penumbra se condensa, E já não vejo mais que a noite imensa, Ante os meus olhos intimos, acêsos, Extaticos, surprêsos, Aparece-me o Reino Espiritual... E ali, despido o habito carnal, Tu brincas e passeias; não comigo, Mas com a minha dôr... o amôr antigo.

A minha dôr está comtigo ali, Como, outrora, eu estava ao pé de ti... Se fôsse a minha dôr, com que alegria, De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dôr, a dôr etérea... Sou a Carne que soffre; esta miseria Que no silencio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...

NOITES EM CLARO

Passas em claro as noites a chorar; Dia a dia, teu rosto empalidece... Faze tu, pobre Mãe, por serenar, Santa Resignação sobre ela desce!

Rochedo que a penumbra desvanece, Tu, por acaso, não lhe podes dar Um pouco d'esse frio que entorpece O coração e o deixa descançar?...

Jamais! Não ha remedio! Nem as horas Que passam! Toda a fria noite choras; Tua sombra, no chão, é mais escura.

Soffres! E sinto bem que a tua dôr, Como se fôra um beijo, acêso amôr, Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.

DUAS SOMBRAS

Pelas tardes divinas, Quando a côr se dissolve em lagrimas doiradas, Eu vejo duas Sombras pequeninas, Andando de mãos dadas. Como duas creanças que elas são, Percorrem, a brincar, Esta minha infinita solidão; E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar... Bate-me o coração; caminho... Na distancia, Através do crepusculo divino, Vejo a Sombra infantil da minha infancia E a Sombra do Menino! E d'elas me aproximo; e paro; tenho mêdo De as vêr fugir, assim... Seus Vultos de chimera e de segrêdo Tremem deante de mim... E como se parecem! O mesmo adeus no olhar, o mesmo rôsto e altura... E ao pé d'elas as cousas se enternecem, E este meu coração aberto em sepultura.

Durante a tua vida, meu Amôr, Quantas vezes, ao ver-te, imaginava Olhar de perto, a minha infancia toda em flôr! E ainda mais: pensava Que eras a minha propria Infancia novamente, Mesmo deante de mim, resuscitada E brincando comigo alegremente, N'esta velha Paisagem bem amada, Terra da meia noite, alma do outomno... N'esta casa velhinha, evocadora, Tocada de luar, de sombra e de abandono, Da alegria de outrora... E por isso, no dia em que morreste, Quando tudo era lagrima, a distancia, Coração, duas cruzes padeceste; Duas mortes soffreu a minha infancia.

LAGRIMA

Bate-me o luar na face, e o meu olhar Em lagrima saudosa se condensa... Vejo-a deante de mim, como suspensa Na sombra do ar.

E em seu liquido seio de esplendor, Tua Imagem começa a alvorecer, Pois toma corpo e vida no meu sêr, Quando a beija, sorrindo, a minha dôr...

Ébria do teu espirito sagrado, A radiosa lagrima estremece, Emquanto a minha face empalidece E o luar e a noite scismam ao meu lado...

E a comovida lagrima crepita... Relampago de dôr... E nada vejo; Pois nela está presente o meu desejo E a minha vida fragil e infinita.

E a lagrima scintila, num adeus... E, desprendida de meus olhos, ei-la Já distante, no espaço: é nova estrela Subindo aos céus...

MEDITAÇÃO

A nocturna lembrança consumida Da tua horrivel morte dolorosa, Enevôa de lagrimas a vida...

E sinto a luz tornar-se duvidosa, Tocando a minha fronte que lhe gasta A seiva etérea, a fluida côr viçosa.

O meu olhar maldito logo afasta O Sêr que ás suas lagrimas empece, E o perfil animado lhe desgasta!

O meu olhar as cousas anoitece... E elas choram na sombra e na incertêsa, A minha propria dôr... E eis que aparece,

Deante de mim, o Espectro da Tristêsa... E tudo transfigura... E eu fico a vêr, Como através da Morte, a Naturêsa...

O berço é cova. Que é nascer? Morrer. Quem abre ao sol os olhos, escravisa A alma, a luz espiritual do sêr...

Um rio de emoção, em mim, deslisa... Para cantar se fez pequena fonte; Seu canto é bruma pálida e indecisa.

E fito, de olhos tristes, o horisonte: Nele me perco em nevoa: sou distancia... Intima cruz a erguer-se em tôsco monte...

Vésper, sorriso de oiro, luz, fragancia Da noite que amanhece, ao teu fulgôr, Vejo Espectros que são da minha infancia...

Formas mortas que nem meu proprio Amôr Anima,--ele que d'antes animava A sombra, a pedra, as arvores em flôr!

E como outrora tudo me encantava! Como perdi no turbilhão dos dias O sabôr que nas cousas eu gostava!

Tristêsas são phantasmas de alegrias... E entre Phantasmas vivo... Ó meus amôres, Folhas mortas, outomno, ventanias!...

Sombras da meia noite! Mãe das Dôres Em teu altar sósinho, na capela Do monte sem romeiros e sem flôres!

Ó Noite! Virgem triste! Êrma Donzela! Se eu fôra sombra de alma adormecida, Silencio de alma, solidão de estrela?...

Mas não; eu vivo e penso n'esta Vida; No Mal victorioso e na Bondade Quasi sempre ultrajada e perseguida!

Vejo a Inocencia ás mãos da Crueldade Morta, desbaratada, e vejo a aurora Alumiando esta negra, ferrea edade!

Vejo um pequeno Anjinho que enamora Meu comovido espírito encantado... E divinos sorrisos ele chora,

E só de vê-lo, eu sinto-me sagrado! E fica todo em flôr meu coração, Paraiso astral, Jardim de Deus, Sol nado!

E, súbito, lá vae: é sonho vão! E sobre mim, afflicta, a noite desce: Maré cheia de treva e solidão.

E o sangue em minhas veias arrefece... Á altura do meu rôsto, vejo o Mêdo Que, nos êrmos crepusculos, me empece!

E como tudo é sombra, dôr, segrêdo! De longe, aspectos de alma que nos falam; De perto, brutas formas de rochedo!