Electra: Drama em cinco actos

Part 8

Chapter 81,258 wordsPublic domain

MUTAÇÃO

Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja, com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É noite escura.

SCENA VI

ELECTRA E SOROR DOROTHÊA

_Dorothêa_

Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês?

_Electra_

Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando forças para vencer.

_Dorothêa_

Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste?

_Electra_

Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só instante.

_Dorothêa_

(_incredula_) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?...

_Electra_

Oh! sim, algum... não muito por emquanto.

_Dorothêa_

Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se effectivamente podes...

_Electra_

(_vivamente_) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não poder amal-o como irmão? (_Aterrada_) Que supplicio, meu Jesus!... Para o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo um viver novo.

_Dorothêa_

Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles que Deus te envia... (_Resolvendo-se a falar mais claramente_) Não te amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará que o seja.

_Electra_

(_em grande excitação_) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel... Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade inteiramente indubitavel e definitiva.

_Dorothêa_

Socega, pobre Electra...

_Electra_

(_exaltando-se cada vez mais_) Todas as confusões que me atormentaram ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma... (_Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando acalmal-a_)

_Dorothêa_

Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (_Olha com anciedade para a porta da esquerda_)

_Electra_

(_parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua_) Ouve... Minha mãe que me chama.

_Dorothêa_

Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão.

_Electra_

É minha mãe... Silencio!... (_Escutando. Entra Pantoja pela direita_)

SCENA VII

ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA

_Pantoja_

Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse?

_Dorothêa_

Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (_Áparte_) Approxima-se a hora... Deus nos ajude!

_Pantoja_

Sentes-te mal, minha filha?

_Electra_

(_com voz assustada e sumida_) A minha mãe chama por mim.

_Pantoja_

(_pegando-lhe carinhosamente na mão_) A dôce voz da tua mãe, falando-te em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este sagrado refugio. (_Ouve-se passando na egreja o côro das noviças_) Ouve, Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu.

_Electra_

(_delirante_) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas, distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura.

_Pantoja_

Estás allucinada. É o divino côro dos anjos.

_Electra_

Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria da vida. (_Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças_)

_Pantoja_

(_inquieto_) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua Nova e a da Ronda. (_Á esquerda e á direita_)

_Dorothêa_

Sim, meu senhor...

_Pantoja_

Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa. (_Assustado, julgando ouvir ruido_) Escute... Não ouvio?

_Dorothêa_

Quê?... Não ouvi nada... É illusão.

_Pantoja_

Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe. (_Escuta_)

_Dorothêa_

De que lado? (_Olhando para o fundo á direita_)

_Pantoja_

Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo... Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá... (_Dando-lhes pressa_) Andem... (_Acompanha-as até á porta da egreja. Sae pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se, pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena. Electra, sem vontade, deixa-se levar_)

SCENA VIII

ELECTRA E SOROR DOROTHÊA

_Dorothêa_

Vem commigo... Para a egreja não.

_Electra_

Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver.

_Dorothêa_

(_aparte, inquieta_) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (_Olhando para a esquerda_) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (_Alto_) Irmã Electra, espera-me aqui.

_Electra_

(_assustada_) Onde vaes? (_Pega-lhe no braço_)

_Dorothêa_

(_com decisão, defendendo-se_) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo.

_Electra_

(_tremula_) Irmã Dorothêa... não me deixes.

_Dorothêa_

Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo.

_Electra_

Quando?

_Dorothêa_

Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (_Esquerda_) Animo!... Não me estorves... Não te movas d’aqui. (_Sae correndo pela esquerda_)

_Electra_

Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui virá... (_Julga vêr Maximo na escuridão_) Ah! é elle... Maximo! (_Falando como em sonhos, desviando-se como d’um ser real_) Pára... Deixa-me... Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim... (_Com accento desesperado_) Mãe! mãe! (_Volta-se de frente para o fundo. Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria, formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico, contempla-a com os braços cruzados no peito_) Oh! (_Grande pausa_)

SCENA IX

ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da outra.

_A Sombra_

Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura d’esta santa casa.

_Electra_

Oh! mãe adorada, que consolação me dás!

_A Sombra_

Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (_A sombra cala-se e desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo_)

SCENA ULTIMA

ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA

_Maximo_

(_á porta da esquerda_) Electra!

_Electra_

(_correndo para elle_) Ah!

_Pantoja_

(_pela direita_) Minha filha, onde estás?

_Marquez_

Comnôsco.

_Maximo_

Commigo.

_Pantoja_

Foges-me, Electra?

_Maximo_

Não foge... Resuscita.

FIM