Electra: Drama em cinco actos

Part 7

Chapter 73,378 wordsPublic domain

Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos...

_Electra_

Não acredito, não acredito...

_Pantoja_

Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha...

_Electra_

(_rebelando-se com energia_) Cale-se! Cale-se!

_Pantoja_

A vergonha do nascimento de Maximo.

_Electra_

(_apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja_) Ah!

_Pantoja_

Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França.

_Electra_

A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret.

_Pantoja_

Mãe adoptiva.

_Electra_

(_tapando os olhos com ambas as mãos_) Divino Jesus! É o ceu que desaba...

_Pantoja_

(_condoído_) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos.

_Electra_

(_demudada_) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira. (_Olhando espantadamente para uma parte e para outra_) Mentira estas arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes, monstro d’um pesadelo horrivel!... (_Com os punhos na cabeça_) Acorda, desgraçada, acorda!

_Pantoja_

(_tentando socegal-a_) Electra, querida Electra! Pobre innocente!

_Electra_

(_com um grito d’alma_) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a verdade... (_Fóra de si percorre a scena_) Onde estás, mãe?... Quero a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (_Sae pelo fundo, perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto dos meninos jogando ao côrro_)

SCENA X

PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois d’elles BALBINA E PATROS

_Urbano_

Que é?

_Marquez_

Ouvimos gritar Electra.

_Balbina_

Foi a correr pelo jardim.

_Patros_

Por aqui. (_As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim_)

_Marquez_

(_olhando por entre as arvores_) Lá vae correndo... Continúa a gritar... Pobre Electra! (_Adeanta-se para o jardim_)

_Urbano_

Que foi isto?

_Pantoja_

Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada...

_Urbano_

O quê?

_Pantoja_

(_procurando coordenar as suas ideias_) Deixe-me pensar... Trazel-a para casa já... Ir buscal-a... Vá!

_Urbano_

(_olhando para o jardim_) Lá está já o meu sobrinho...

_Pantoja_

(_contrariado_) Em que má hora!

_Urbano_

Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem... Pobre Maximo!

_Pantoja_

Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha...

_Urbano_

Que balburdia! (_Interna-se no jardim_)

_Pantoja_

Se eu podesse... (_hesitante em ir e não ir_)

_Balbina_

(_voltando pressurosa do jardim_) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira d’ali...

_Pantoja_

E Maximo?

_Balbina_

Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar a senhora...

_Pantoja_

Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José?

_Balbina_

Já, sim senhor, chegaram agora.

_Pantoja_

Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim.

_Balbina_

Sim, senhor. (_Sobe para casa_)

_Pantoja_

(_indeciso e como assustado_) Não sei que faça... Pela primeira vez na minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (_resolvendo-se_) Vou. (_A poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do jardim e o detem_)

SCENA XI

PANTOJA E MAXIMO

_Maximo_

(_ardentemente em toda a scena_) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no delirio em que está.

_Pantoja_

(_perturbado_) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...

_Maximo_

Foi mordida pelo monstro.

_Pantoja_

Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta de factos e que se chama a Historia. (_Querendo ir-se_) Adeus.

_Maximo_

(_agarrando-o fortemente por um braço_) Espere. Primeiro vae repetir aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro da Historia...

_Pantoja_

(_sem saber que dizer_) Eu... convém assentar préviamente que...

_Maximo_

Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa... Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão... Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente. Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.

_Pantoja_

Para mim é mais: é o ceu e a terra.

_Maximo_

Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta, urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima mulher? Que responde?

_Pantoja_

Nada.

_Maximo_

(_acommette-o explodindo em colera_) Pois por esse infame silencio, mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra desfere o raio que nos aniquilla; (_agarra-o pela garganta e derriba-o no banco_) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula, Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o que sejas!

_Pantoja_

(_recobrando alento_) Que brutalidade! que infamia! que demencia!

_Maximo_

Bem sei. Estou doido... (_Recompondo-se_) E quem é que dispõe assim do poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho, incapaz de responder á força com a força?

_Pantoja_

(_tomando aprumo_) Com a força te respondo. (_Voltando á sua condição normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa_) Tu és a força do musculo, eu a força da alma. (_Maximo olha para elle, attonito e confuso_) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?

_Maximo_

De que póde mais?

_Pantoja_

A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido, recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu, Maximo, tremes!

_Maximo_

É a ira. Não a provoque.

_Pantoja_

Nem a provoco nem a temo. (_Cada vez mais senhor de si_) Tu maltratas-me. Eu perdôo-te.

_Maximo_

Que me perdôa a mim! (_iracundo_) Mas é para o homicidio que assim me empurra!

_Pantoja_

(_com serena e fria gravidade, sem jactancia_) Enfurece-te, grita, bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho. Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna. Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que está aqui (_na sua mente_) é indestructivel. Na minha vontade só um poder impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.

_Maximo_

Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem ternura, nem compaixão.

_Pantoja_

O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por qualquer caminho que se me depare.

_Maximo_

(_aterrado_) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o da Bondade Humana. (_Com exaltação_) Deus do ceu! tu não pódes permittir que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a maquina do Universo destruida e aniquillada.

_Pantoja_

Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.

_Maximo_

Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.

_Pantoja_

Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.

_Maximo_

Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (_Segura-o vigorosamente por um braço_) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria de minha mãe.

_Pantoja_

(_depois de o encarar fixamente_) Vamos. (_Ao darem os primeiros passos sae Evarista de casa_)

SCENA XII

OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as duas irmãs de S. José

_Evarista_

Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa?

_Maximo_

É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco... (_Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado_) Que mulheres são aquellas? Que querem essas senhoras? (_Chega Patros do jardim, correndo_)

_Patros_

(_pesarosa, choramigando_) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu... Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!

_Evarista_

(_caminhando para o jardim_) Filha da minh’alma!

_Maximo_

(_olhando para o jardim_) Ahi vem. (_Larga Pantoja e dirige-se a ella_)

_Patros_

O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa... (_Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles, Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia. Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio adornado de flôrzinhas_)

SCENA XIII

ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)

_Evarista_

Deliras, minha pobre filha!

_Maximo_

Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão.

_Electra_

(_afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno, sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada e melancolica_) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua.

_Maximo_

Porque me foges? para onde vaes sem mim?

_Pantoja_

(_que passou para a direita, junto de Evarista_) Para a eterna verdade, para a inalteravel paz.

_Electra_

Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (_Ouve-se ao longe o canto dos meninos_)

_Marquez_

Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo.

_Maximo_

(_vivamente_) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força nenhuma que o empeça, Electra, minha vida.

_Electra_

(_impondo silencio_) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras, que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (_Com arrebatamento de medo_) Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?... Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu, lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades!

_Pantoja_

(_áparte, a Evarista_) É a occasião. Aproveitemol-a.

_Evarista_

Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz.

_Maximo_

Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (_Evarista procura leval-a_) Exijo-a.

_Electra_

Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe chama-me para o seu lado... (_Extactica, anciosa, prestando uma attenção intensissima_) Ouço-lhe a voz...

_Maximo_

A voz!

_Electra_

Silencio, que me chama! (_delirando de alegria_) que está chamando por mim!

_Evarista_

Torna a ti, meu amor!

_Electra_

Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (_Corre para o alto da escada_) Vamo-nos! (_A Maximo, que quer seguil-a_) Eu só... É por mim só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe... (_Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja_)

_Maximo_

Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (_Quer desprender-se dos braços de Urbano e do marquez_)

_Marquez_

(_contendo-o_) Não enlouqueças tambem tu.

_Urbano_

Socega!

_Marquez_

Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!

_Maximo_

Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim!

FIM DO QUARTO ACTO

ACTO QUINTO

Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.

Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.

SCENA I

EVARISTA E SOROR DOROTHÊA

_Evarista_

(_entrando com a freira_) D. Salvador...?

_Dorothêa_

Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre escrivã.

_Evarista_

Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a sua amiga e a sua confidente...

_Dorothêa_

Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto contribuirei para a socegar.

_Evarista_

(_aponta para a cabeça_) E como está ella de...?

_Dorothêa_

Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve.

_Evarista_

E lembra-se de Maximo? fala d’elle?

_Dorothêa_

Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera conseguil-o.

_Evarista_

Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos...

_Dorothêa_

Uma desgraça!...

_Evarista_

Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta...

_Dorothêa_

Não sabia...

_Evarista_

Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto.

_Dorothêa_

Pobre senhor!

_Evarista_

No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna...

_Dorothêa_

Ah!

_Evarista_

Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se D. Salvador já terá conhecimento d’isto?

_Dorothêa_

Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que não conhece.

_Evarista_

E é verdade!

_Dorothêa_

(_vendo chegar Urbano_) O snr. D. Urbano.

SCENA II

AS MESMAS E URBANO

_Evarista_

Falaste-lhe?

_Urbano_

Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez d’attenção, que me assombram. Que homem!

_Evarista_

Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta?

_Urbano_

Já.

_Evarista_

Está contrariado?

_Urbano_

Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle deixa transparecer as suas commoções...

_Evarista_

(_interrompendo-o com enthusiasmo_) É um espirito d’aguia, que paira acima de todas as tempestades da terra.

_Urbano_

Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa: «Confio em Deus».

_Evarista_

Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros?

_Urbano_

Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para que declare se acceita ou se renuncia a herança.

_Evarista_

E á vista d’essa communicação...?

_Urbano_

Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que o pinta n’um traço: «Confio em Deus».

SCENA III

OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda)

_Marquez_

Esperaremos aqui.

_Maximo_

(_vendo Evarista_) Adeus, tia. (_Sauda-a com affecto_)

_Evarista_

(_respondendo ao cumprimento do marquez_) Então, Marquez... Ha finalmente esperanças de ganhar a batalha?

_Marquez_

Não sei... Luctamos com féra de muito ardil.

_Evarista_

E a ti, Maximo, que te parece?...

_Maximo_

Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu confio em Deus.

_Evarista_

Tambem tu...?

_Maximo_

Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia ser, querida tia.

_Urbano_

Não viste Electra quando atravessaste os claustros?

_Maximo_

Não vi.

_Dorothêa_

(_approximando-se da janela_) Vae passar agora. Vem do cemiterio.

_Maximo_

(_correndo para a janela com Urbano_) Que triste! e que bella! A brancura do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (_chamando-a_) Electra!

_Urbano_

Cala-te.

_Maximo_

Não posso. (_Volta a olhar_) É então certo que vive... É ella que vae ali na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará pensando? (_Continua a contemplar Electra_)

_Marquez_

(_que ficou no proscenio com Evarista_) ...Sim, minha senhora: falso, falsissimo!

_Evarista_

Olhe o que affirma, marquez...

_Marquez_

Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse, sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não penetram as nossas limitadas intelligencias.

_Evarista_

É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura consciencia, de ideias tão altas!

_Marquez_

E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se figuram.

_Evarista_

Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito.

_Marquez_

Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza, Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista, amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866.

_Evarista_

Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que...

_Marquez_

(_vendo entrar Pantoja pela direita_) Ahi vem elle.

_Maximo_

(_descendo ao proscenio_) Chega o abutre.

_Dorothêa_

Se me dão licença retiro-me. (_Sae pela esquerda. Pantoja permanece um instante junto da porta_)

SCENA IV

EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA

_Pantoja_

(_adeantando-se vagarosamente_) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito esperar.

_Maximo_

Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o...

_Marquez_

(_benignamente_) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja, que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha.

_Pantoja_

(_sereno, sem jactancia_) Eu não perco nunca.

_Maximo_

Será adeantar muito.

_Pantoja_

E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra, não acceitará o legado.

_Evarista_

Já vês que este homem não se rende.

_Pantoja_

Não me rendo... nunca, nunca.

_Maximo_

Estou vendo. (_Sem poder dominar-se_) É então preciso matal-o?

_Pantoja_

Venha a morte.

_Marquez_

Não chegaremos a tanto.

_Pantoja_

Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no meu posto.

_Marquez_

Confiamos na lei.

_Pantoja_

Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa.

_Maximo_

(_impaciente_) Podemos falar-lhe?

_Pantoja_

N’este momento, precisamente, não.

_Maximo_

(_querendo protestar_) Oh!

_Pantoja_

Socegue.

_Maximo_

Não posso.

_Evarista_

É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora...

_Pantoja_

Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se depois d’isso ella quizer sahir, que sáia...

_Marquez_

Cumprirá o que diz?

_Pantoja_

Como não? se é em Deus unicamente que confio.

_Marquez_

Voltaremos logo. (_Toma o braço de Maximo_)

_Pantoja_

E nós para a egreja. (_Saem Urbano, Evarista e Pantoja_)

SCENA V

MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado, impaciente, receioso

_Marquez_

Que diz a isto, Maximo?

_Maximo_

Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto. Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á violencia.

_Marquez_

E que faz tenção de fazer?

_Maximo_

Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos, cumplices, um esquadrão, um exercito... (_Com crescente fervor_) Renascem em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do feudalismo.

_Marquez_

Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia!

_Maximo_

Os extremos tocam-se. (_Exaltando-se mais_) Para esse homem, para esse monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o.

_Marquez_

Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos, insidiosos, perseverantes.

_Maximo_

(_com brio e eloquencia_) Não: sejamos como eu... sinceros, claros, valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo. Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós.

_Marquez_

Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em que vivemos.

_Maximo_

A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma... presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas, corrompidas.

_Marquez_

Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias?

_Maximo_

Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam?

_Marquez_

Empregaremos meios efficases.

_Maximo_

(_com violencia_) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid...

_Marquez_

Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força.

_Maximo_

(_muito vivamente até o fim_) Ou uma força triumphante, ou uma desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos.

_Marquez_

Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa pertence-me... Caluda!

_Maximo_

Violencia!

_Marquez_

Subtilesa e astucia!

_Maximo_

Adeante, de pronto, e pelo caminho direito!

_Marquez_

Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (_Tomando-lhe o braço_) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos... (_Levando-o_)

_Maximo_

Sim, vamo-nos.

_Marquez_

Confia em mim.

_Maximo_

Confio em Deus.