Electra: Drama em cinco actos

Part 6

Chapter 63,479 wordsPublic domain

Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas.

_Electra_

Dize-me primeiro tu uma grande verdade.

_Maximo_

Que te adoro. (_Approximam-se_)

_Electra_

Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho, pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti.

_Maximo_

Tu tens um grande coração e um alto espirito...

_Electra_

Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu.

_Maximo_

Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...

_Electra_

E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que tu a completes e aperfeiçôes.

_Maximo_

Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura, alegre e compadecida. (_Consulta o relogio_)

_Electra_

Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito?

_Maximo_

Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa.

_Electra_

E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito?

_Maximo_

Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!... Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos...

_Electra_

(_surprehendida_) Mas então precisamos ainda de que nos defendam?

_Maximo_

No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica?

_Electra_

(_tranquillisando-se_) D’essa jurisdicção nos riremos nós.

_Maximo_

Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar.

_Marquez_

(_pressuroso pelo fundo_) Então ainda aqui?

_Maximo_

Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios de familia...

_Marquez_

Acceito a procuração... (_Reprehendendo-o com doçura_) Mas, homem, que se lhe faz tarde!

_Maximo_

Adeus, adeus! até já.

_Electra_

(_vendo-o partir_) Vae, e vem depressa.

SCENA III

ELECTRA E O MARQUEZ

_Marquez_

Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher.

_Electra_

Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (_Com muita curiosidade_) Mas diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do homem que amo.

_Marquez_

Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar tranquillo mas sem felicidade...

_Electra_

Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?

_Marquez_

A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em negocios de amor. Era falado.

_Electra_

N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em pessôa.

_Marquez_

De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.»

_Electra_

(_suspirando_) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido Marquez: posso estar socegada?

_Marquez_

Inteiramente.

_Electra_

Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se julgam com sufficiente auctoridade...

_Marquez_

Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós não resolvermos encurtar-lhes os vôos.

_Electra_

O snr. de Cuesta...

_Marquez_

Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos dará o seu mais convicto assentimento.

_Electra_

O snr. de Pantoja...

_Marquez_

Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo.

_Electra_

Deveras?

_Marquez_

Não vale nada.

_Electra_

Não tenho de que me atterrar quando o encontre?

_Marquez_

Não mais que da importunidade de um mosquito.

_Electra_

Que allivio me dá! (_Com enthusiasmo carinhoso_) Deus lhe pague! Deus o bemdiga, snr. de Ronda!

_Marquez_

(_muito affectuoso_) Deus será comvosco.

SCENA IV

OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça

_Urbano_

Marquez, bons dias.

_Marquez_

Querido Urbano, posso falar comsigo?

_Urbano_

Não lhe faz differença depois da missa...? (_A Electra_) Então, rapariga, que vagares são esses? Está a tocar.

_Electra_

Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (_Entra correndo em casa_)

SCENA V

MARQUEZ E URBANO

_Marquez_

Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento em regra.

_Urbano_

Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher.

_Marquez_

Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que annullam a sua auctoridade de chefe de familia.

_Urbano_

Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá; mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher.

_Marquez_

Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não com Evarista.

_Urbano_

Vamos á missa e depois falaremos.

_Marquez_

Pois vamos lá, eu tambem vou.

SCENA VI

OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA

_Electra_

(_de chapeu, luvas, livro de missa_) Pronta.

_Urbano_

Vamos. O Marquez vae comnosco.

_Evarista_

(_pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja_) Vão ligeiros.

_Pantoja_

Depressa, se querem chegar.

_Evarista_

O marquez volta?

_Marquez_

Infalibillissimamente, minha senhora.

_Evarista_

Até logo. (_Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda_)

SCENA VII

EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se atira para o banco da esquerda, primeiro plano.

_Evarista_

Entramos?

_Pantoja_

Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o calôr, com o apertão de gente...

_Evarista_

Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (_chamando_) Balbina!

_Pantoja_

Não, obrigado.

_Evarista_

Uma taça de tilia...

_Pantoja_

Tambem não. (_Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha, que acaba de tirar, e o livro de missa_)

_Evarista_

Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto...

_Pantoja_

Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora critica.

_Evarista_

Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer?

_Pantoja_

Nada. (_corrigindo-se_) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam... Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos; e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois d’este prévio exame, resolveremos... (_Altaneiro_) Que ha que dizer a isto?—pergunto eu agora.

_Evarista_

(_acobardada_) O que digo é que para esse plano... na realidade perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação.

_Pantoja_

(_com arrogancia, passeando_) De modo que, segundo os seus caridosos principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?... Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com isso?

_Evarista_

(_com maior timidez, suggestionada_) Perder-se! condemnar-se! E está porventura na minha mão evital-o?

_Pantoja_

(_com energia_) Está.

_Evarista_

Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?... Impossivel, Salvador, impossivel...

_Pantoja_

(_affirmando mais a sua auctoridade_) Saiba, minha amiga, que o acto de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje outro senão o bem d’esta menina?

_Evarista_

(_acobardando-se mais_) Bem sei que é assim.

_Pantoja_

(_com effusão_) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?

_Evarista_

(_abatida_) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu entendimento.

_Pantoja_

Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.

_Evarista_

Não posso... (_Senta-se chorosa e abatida_)

_Pantoja_

É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão profundamente me inspira a mim. (_Empregando suavidades de persuasão_) Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho, governará a congregação... (_Com profunda commoção_) Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! (_Fica-se como em extase_)

_Evarista_

Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.

_Pantoja_

Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz da morte, eu na tempestuosa provação da vida...

_Evarista_

E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as monjas dormem o somno eterno.

_Pantoja_

(_vivamente_) Sabia isso?

_Evarista_

Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e cyprestes...

_Pantoja_

É certo... quem lh’o disse?

_Evarista_

...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu.

_Pantoja_

Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (_Com vehemencia_) Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso, o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se, experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor, ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os meus amores commigo e todos nós em Deus...

_Evarista_

(_com viva commoção_) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade incomparavel.

_Pantoja_

Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não move nenhuma paixão ruim?

_Evarista_

Como quer que duvíde?

_Pantoja_

Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a realisal-o?

_Evarista_

Porque me não considero com poderes para isso.

_Pantoja_

Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter provisorio?

_Evarista_

Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (_luctando com a sua consciencia_) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou: tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica.

_Pantoja_

(_dissimulando o seu enfado_) Bem. Paciencia... (_Passeia caviloso e sombrio_)

_Evarista_

(_depois de uma pausa_) Em que pensa? Desiste?

_Pantoja_

(_com naturalidade e firmeza_) Não, minha senhora.

_Evarista_

Qual então o seu projecto?

_Pantoja_

Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (_Resolvendo-se_) Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora da Penitencia?

_Evarista_

Dizendo-lhe...?

_Pantoja_

Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem.

_Evarista_

Porque lhe não escreve directamente?

_Pantoja_

Porque tenho de acudir a outras coisas.

_Evarista_

Quer já?

_Pantoja_

O mais breve possivel...

_Evarista_

Bem. (_Dirige-se para casa_)

_Pantoja_

Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo.

_Evarista_

(_olhando do alto da escada para o jardim_) Creio que elles ahi vem.

_Pantoja_

Depressa a carta, minha cara amiga.

_Evarista_

Vae já... Deus nos inspire a todos. (_Entra em casa_)

_Pantoja_

Lá vou ter. (_Áparte_) Que me não vejam! (_Esconde-se atraz do macisso da direita junto da escada_)

SCENA VIII

PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da missa—PATROS, que desce de casa.

_Electra_

(_adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada_) Veio?

_Patros_

Não, senhorita. (_Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no jardim_)

_Electra_

Morro de impaciencia. (_Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros com o livro de missa_) Vou brincar com os pequenos emquanto espero... Não... Vou apanhar flôres. (_Colhe algumas no macisso da esquerda_)

_Urbano_

(_a Patros_) A senhora?

_Patros_

Em casa.

_Marquez_

Vamos ter com ella.

_Urbano_

Vamos a isso. (_Entram em casa. Patros segue-os_)

_Electra_

(_admirando as flôres que acaba de cortar_) Que lindos, que graciosos rainunculos! (_Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o_) Ai!

SCENA IX

ELECTRA E PANTOJA

_Pantoja_

Assim te assusto, minha filha?

_Electra_

É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou jogar ao côrro com os pequenos...

_Pantoja_

Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria?

_Electra_

Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma. (_Afasta-se o canto de roda dos meninos_)

_Pantoja_

Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei...

_Electra_

Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de Pantoja.

_Pantoja_

Ingrata! Concede-me um instante...

_Electra_

Um instantinho só?

_Pantoja_

Unicamente.

_Electra_

Bom. (_Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello_)

_Pantoja_

Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua felicidade e pela tua vida...

_Electra_

(_sem olhar para elle, attenta ás flôres_) Pois, se o interessa a minha felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz.

_Pantoja_

Feliz hoje. E amanhã?

_Electra_

Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo!

_Pantoja_

A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas.

_Electra_

(_adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto_) Toca-me outra vez no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim para o ceu n’esta occasião.

_Pantoja_

Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito.

_Electra_

(_mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o coro dos meninos_) Que tal? não lhe pareço um anjo?

_Pantoja_

Pareces, e quero que o sejas.

_Electra_

Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me acham! (_Com uma triste ideia subita_) Sabe com que eu me estou parecendo agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam a enterrar.

_Pantoja_

Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão.

_Electra_

(_arrancando as flôres_) Não, isso não, não quero parecer menina morta. Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura!

_Pantoja_

Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (_Vae esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos_)

_Electra_

Tambem se põem luzes aos meninos mortos.

_Pantoja_

Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar, mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino.

_Electra_

(_Confusa_) E porque é que me deseja tudo isso?

_Pantoja_

Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos tormentos que se possam imaginar.

_Electra_

(_estonteada, sem entender bem_) É o cumulo da abnegação uma coisa d’essas.

_Pantoja_

Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho, um dissabor, que te vou dar.

_Electra_

A mim?

_Pantoja_

A ti mesma.

_Electra_

Um desgosto?

_Pantoja_

Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause.

_Electra_

(_rebelando-se, levanta-se_) Desgostos! Não os quero. Não os acceito. Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias!

_Pantoja_

(_condoído_) Bem quizera dar-t’as, mas não posso.

_Electra_

Que terror que tenho! (_Com subita ideia que a tranquillisa_) Ah! já sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se cançar porque nem me convence nem o acredito. (_Precipitando-se na emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale_) Maximo é o maior e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e detesto-o...

_Pantoja_

Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é intelligentissimo... Que mais queres?

_Electra_

(_satisfeita_) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem.

_Pantoja_

Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o...

_Electra_

(_com alegria_) Ah!

_Pantoja_

Amal-o entranhadamente... (_Pausa_) A culpa não é d’elle, não é...

_Electra_

(_assustada outra vez_) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir maldades?

_Pantoja_

A elle não.

_Electra_

Então a quem? (_Recordando-se_) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso?

_Pantoja_

Pobre innocente! não sabes o que dizes.

_Electra_

Digo que esse excellente homem...

_Pantoja_

Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti...

_Electra_

(_comprehendendo e não querendo comprehender_) De mim!

_Pantoja_

Que morreu, e a quem tu muito queres. (_Pausa. Olham um para o outro_)

_Electra_

(_com terror e em voz apenas perceptivel_) Minha mãe! (_Pantoja faz um signal affirmativo_) Minha mãe! (_Attonita, desejando e temendo uma explicação_)

_Pantoja_

Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.

_Electra_

(_indignada_) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim!

_Pantoja_

Terias que principiar por Lazaro Yuste.

_Electra_

O pae de Maximo!

_Pantoja_

O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria.

_Electra_

Quem é que o diz?

_Pantoja_

Quem o sabe.

_Electra_

E... (_Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia_)

_Pantoja_

Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu amor por ti ordena-me que fale.

_Electra_

(_angustiada_) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o!

_Pantoja_

Disse eu que foi Lazaro Yuste...

_Electra_

(_tapando os ouvidos_) Não quero, não quero ouvir.

_Pantoja_