Electra: Drama em cinco actos

Part 4

Chapter 43,329 wordsPublic domain

(_continúa a ler_) ...que n’esse rosto feiticeiro escreveu o Supremo artifice o problema do... do... (_Sem entender a palavra seguinte_)

_Electra_

(_apontando_) ...do «cosmos».

_Urbano_

Isso mesmo: do cosmos, symbolisando em seu luminoso olhar, na sua bocca divina, o poderoso agente physico, que...

_Evarista_

(_arrebatando a carta_) Que indecencias!

_Urbano_

(_descobrindo outra carta em outro bolso_) está outra. (_Pega n’ella_)

_Cuesta_

Vejamos essa!

_Evarista_

Isto, Electra, não é o corpo de uma menina: é um marco postal.

_Urbano_

(_lendo_) Desapiedada Electra, com que palavras exprimirei o meu desespero, a minha loucura, o meu frenesi...?

_Evarista_

Basta... Isso revolta-me. (_Incommodada revista as algibeiras de Electra_) Apostaria que ainda ha mais.

_Cuesta_

Indulgencia, Evarista!

_Electra_

Tia, não se amofine mais...

_Evarista_

Que me não amofine!... A amofinação eu t’a contarei... Veste-te immediatamente.

_Urbano_

(_consultando o relogio_) É quasi a hora.

_Electra_

N’um momento!

_Evarista_

Avia-te, avia-te! (_Electra, contente de se vêr solta, corre para o seu quarto_)

SCENA XIII

CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA

_Evarista_

(_com tristeza e desalento_) E então, Leonardo, que me diz a isto?

_Cuesta_

O socego com que deixou devassar os seus segredos demonstra bem a pouca importancia que lhes dá e que elles teem.

_Evarista_

Não, não é tanto assim...

_Pantoja_

(_pelo fundo, anciado_) Está o Cuesta! Já se não pode dizer o que se quer...

_Evarista_

(_contente de vêl-o_) Até que emfim, Pantoja... (_Formam-se dois grupos: á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista, sentados_)

_Pantoja_

Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.

_Evarista_

Ai de mim! seja o que Deus quizer.

_Pantoja_

(_repetindo a phrase com reservas_) Seja o que Deus quizer... está muito bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa vontade em produzir o bem, por mais que nos custe!

_Evarista_

A sua energia fortifica a minha... Então... que ha?

_Pantoja_

Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos.

Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados, ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia.

_Evarista_

Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!

_Pantoja_

(_angustiado_) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do mais material e repugnante mundanismo.

_Evarista_

Tenhamos paciencia, meu amigo.

_Pantoja_

Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da sociedade em que vivemos.

_Evarista_

Onde respire um ambiente de pura virtude...

_Pantoja_

E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos... Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos...

_Evarista_

Que perigo?

_Pantoja_

O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença, duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas... Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (_Interrompe-o Urbano, que passa para o grupo da direita_)

_Urbano_

(_dando importancia á sua revelação_) Sabem o que me disse Cuesta? Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o confessou.

_Evarista_

E quem é? (_Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de Pantoja e d’Urbano_)

_Urbano_

(_a Pantoja_) Isto poderia modificar os termos do problema.

_Pantoja_

(_mal humorado_) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o mais grave symptoma da loucura do seculo? (_Excitado e levantando a voz_) É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é!

_Urbano_

Saberemos...

_Pantoja_

(_passando para junto de Cuesta_) O snr. Cuesta não a interrogou?

_Evarista_

(_ao centro, a Urbano_) Procura tu certificar-te.

_Cuesta_

(_enfadado, em resposta a Pantoja_) Parece-me que estão os snrs. desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente.

_Pantoja_

(_com uma suavidade que não encobre a sua altaneria_) O meu zelo, meu muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter.

_Cuesta_

(_um tanto ferido_) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da casa...

_Pantoja_

(_levando Urbano comsigo para a direita_) Cuesta mette-se demais com o que não é da sua conta.

_Cuesta_

(_a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça_) O nosso presado snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra nas attribuições dos outros.

_Evarista_

(_sem saber bem que explicação dar_) Emfim, como nosso amigo muito antigo e leal...

_Cuesta_

Tambem eu o sou.

_Urbano_

(_olhando para o fundo_) Ahi está já o Marquez.

SCENA XIV

OS MESMOS E O MARQUEZ

_Marquez_

Em boa hora chego!

_Pantoja_

(_áparte_) Em pessima!

_Marquez_

(_depois de saudar Evarista_) E Electra?

_Evarista_

Vem já.

_Marquez_

(_cortejando os outros_) Já não é cêdo.

_Urbano_

É a hora. (_Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto. Cuesta fala com Urbano_)

SCENA XV

OS MESMOS E ELECTRA

_Pantoja_

(_com alegria annunciando-a_) Eil-a aqui. (_Electra entra pela direita, muito elegantemente vestida com singeleza e distincção_)

_Marquez_

(_encomiastico_) Que elegante!

_Electra_

(_satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados_) Meus senhores, que me dizem?

_Cuesta_

Divina!

_Marquez_

Ideal!

_Evarista_

Sim: estás bem.

_Pantoja_

(_fastiento dos elogios tributados a Electra_) Vamo-nos? (_Preparam-se para sahir_)

SCENA XVI

OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena, entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada

_Balbina_

Minha senhora! Minha senhora! (_Suspensão geral_)

_Todos_

(_menos Electra_) Que é?

_Balbina_

Ai! o que a menina foi fazer!

_Electra_

(_áparte, batendo o pé_) Descobriram-me!

_Balbina_

Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (_rindo_) Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre...

_Evarista_

(_impaciente_) Acaba...

_Electra_

Eu confessarei, se me deixam. Foi que...

_Balbina_

Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas roubou...

_Urbano_

O quê?...

_Balbina_

O menino mais pequeno! (_Olham todos para Electra, que promptamente se recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave_)

_Evarista_

(_a Electra_) Isto que vem a ser?

_Pantoja_

Electra!

_Balbina_

Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés... Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá.

_Evarista_

É inacreditavel.

_Pantoja_

(_reprimindo a sua irritação_) E não é decente.

_Electra_

(_com effusão_) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a elle e elle a mim!

_Marquez_

(_enthusiasmado_) Que exemplar mulher!

_Cuesta_

Merece todo o perdão.

_Evarista_

Maximo estará furioso a estas horas...

_Balbina_

O José já para lá foi a correr...

_Urbano_

E a creança onde está?

_Balbina_

Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite lh’o leve para dormir com a menina. (_Sorrisos dos homens, menos de Pantoja_) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe dar uma palmadinha tambem...

_Electra_

(_correndo para a esquerda com um impulso instinctivo_) Oh! meu querido amorsinho!

_Pantoja_

(_procurando contel-a_) Não.

_Evarista_

(_segurando-a por um braço_) Espera.

_Balbina_

(_á porta da esquerda_) Ainda se ouve chorar.

_Electra_

Pobresinho d’elle!

_Evarista_

Que o levem para a sua casa.

_Electra_

Ninguem lhe toque... Ninguem se atreva a tocar-lhe... É meu. (_Desprende-se á força de Evarista e de Pantoja, que querem contel-a, e sae de uma corrida pela esquerda_)

SCENA XVII

OS MESMOS E JOSÉ

_Pantoja_

(_colerico, passando para a direita_) Que falta de dignidade e de juizo!

_José_

(_pressuroso, pelo jardim_) Minha senhora...

_Evarista_

O snr. D. Maximo que disse?

_José_

Não sabia de nada. Está lá com uns senhores. Quando lhe contei poz-se a rir... Como se nada!... Diz que o menino que está muito bem entregue á menina.

_Urbano_

Já é pachorra!

_Evarista_

(_a José_) Vaes leval-o a casa. Para que a menina aprenda.

_Marquez_

Voto por que a deixem gosar um pouco mais do seu lindo crime.

SCENA XVIII

OS MESMOS E ELECTRA, pela esquerda, trazendo nos braços o menino, que tem pouco mais ou menos dois annos

_Electra_

Queridinho da minh’alma!

_Evarista_

Deixa o menino, e vamo-nos.

_Urbano_

São horas.

_Cuesta_

(_ao marquez_) Eu, pela minha parte, acho que é um rasgo de maternidade. E applaudo-o.

_Marquez_

Eu digo que é um lance angelico. E adoro-o.

_Evarista_

(_querendo pegar no menino_) Então, Electra?

_Electra_

(_em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe o pequerrucho. Este abraça-lhe o pescoço_) Não, não posso deixal-o agora.

_Evarista_

Balbina, pega n’esse menino.

_Electra_

(_passa de um lado para o outro, procurando um refugio_) Não! e não!

_Urbano_

Dá-m’o a mim.

_Electra_

Não!

_Pantoja_

(_imperioso, a José_) Pegue n’elle, José.

_Electra_

Não, já disse!... Ninguem lhe toca... É meu.

_Evarista_

Mas, filha, se temos de sahir!

_Electra_

Saiam! vão com Deus. (_Vendo que o chapeu a inhibe de abraçar e beijar o seu amiguinho, arranca-o rapidamente da cabeça e atira-o para longe. Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem tirar, e, sem ouvir, falando com o pequerrucho, que lhe deita os braços ao pescoço e a beija_) Dorme, dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... Dorme, que não te largo.

_Evarista_

Então vamos ou não vamos?

_Electra_

Eu não vou... Tens fome? tens sede, meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa berrar esses egoistas todos, que se não lembram de que não tens mãe!

_Pantoja_

Mas tem quem olhe por elle.

_Evarista_

Basta! (_Imperiosa, aos creados_) levem-o para a sua casa.

_Electra_

(_resolutamente, sem deixar que toquem na creança_) A casa! a casa! (_Com passo decidido, sem olhar para ninguem, corre para o jardim e sae. Seguem-a todos com a vista, indecisos, não ousando dar um passo para ella_)

_Pantoja_

Que escandalo!

_Evarista_

Que loucura!

_Marquez_

Que juizo! o juizo mais perfeito da mulher! Achou o seu caminho.

FIM DO SEGUNDO ACTO

ACTO TERCEIRO

O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a producção de energia electrica. A porta praticavel no socco divisoria communica com a rua.

Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha. Entre a porta e o corredor, uma estante com livros.

Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de physica e objectos de uso scientifico.

Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita um pequeno aparador.

Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de precisão sobre um supporte de fabrica.

Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.

SCENA I

MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc. Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco.

_Maximo_

(_sem levantar os olhos do papel_) Para mim, Electra, a dupla historia que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto destituido de valor positivo.

_Electra_

(_suspirando_) Deus te ouça!

_Maximo_

Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal... até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de Pantoja...

_Electra_

Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa!

_Maximo_

Devéras? assim te affliges?

_Electra_

Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia...

_Maximo_

A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são. Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia.

_Electra_

(_muito animada_) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer. (_Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das estantes_) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem penso na furia da tia logo que souber...

_Maximo_

(_attento ao trabalho_) A tia até ha de acabar por gostar... Mas deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha!

_Electra_

Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «_Insubordina-te!_»

_Maximo_

Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso.

_Electra_

A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço.

_Maximo_

Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver mal em estar alguem na minha casa!

_Electra_

(_trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz_) Eu digo mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse...

_Maximo_

Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica, digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo!

_Electra_

Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha paixão, o meu fraco... (_Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar attenção ao que ouve_) Chega-me a parecer... (_Approxima-se da mesa levando uns livros que não estavam no seu logar_)

_Maximo_

(_vagamente_) Quê?

_Electra_

Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu!

_Maximo_

(_satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma cifra_) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as _Tabellas de resistencias_... aquelle livro encarnado...

_Electra_

(_correndo á estante da direita_) Não é este?

_Maximo_

Mais adeante.

_Electra_

É verdade... que tôla!

_Maximo_

Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus livros e os seus logares na estante...

_Electra_

Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho.

_Maximo_

Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro, revolto e poeirento, a limpeza e a ordem!

_Electra_

(_desvanecida_) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente inutil?

_Maximo_

(_olhando com fixidez para ella_) Não ha nada inutil na creação. Quem te diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não virás a ser...

_Electra_

(_anciosa_) O quê?

_Maximo_

Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na serradura e na estopa de uma boneca?

_Electra_

(_com alegria_) Pae do ceu, se assim fosse! (_Maximo levanta-se e, na estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina_) Nem me digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?...

_Maximo_

Podes cantar... (_Electra repete trauteando o andante de uma sonata_) A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do entendimento. Canta, companheira, canta... (_Prosegue attento á sua occupação_)

_Electra_

(_á estante do fundo_) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era capaz de ficar aqui todo o santo dia...

_Maximo_

(_jovial_) Camarada!

_Electra_

(_correndo para elle_) Que manda o magico?

_Maximo_

Eu não mando por ora. Proponho. (_Pega n’um frasco que contém um metal em limalha_) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de me pesar trinta grammas d’este metal.

_Electra_

Péso.

_Maximo_

Sabes já pesar na balança de precisão...

_Electra_

Perfeitamente. Dá cá. (_Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula, admira-lhe a belleza_) É lindo! Que é isto?

_Maximo_

É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco...

_Electra_

Ah! eu então?...

_Maximo_

Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (_Olhando-lhe para a cara_) Tu tambem?

_Electra_

Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (_Continúa pesando sem interromper a operação_)

_Maximo_

Que coisas são essas?

_Electra_

Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes.

_Maximo_

(_attento ao trabalho_) Pesas-me depois setenta grammas de cobre. (_Dá-lhe outro frasco_)

_Electra_

O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer comtigo.

_Maximo_

É feio, mas util.

_Electra_

Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais.

_Maximo_

Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio.

_Electra_

Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu!

_Maximo_

Não sabem o que dizem.

_Electra_

Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou!

_Maximo_

Mas toma sentido, que te não equivoques no peso!

_Electra_

Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida!

_Maximo_

Já vou vendo, já vou vendo! (_Dirige-se a uma das estantes em procura d’um cadinho_) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes...

_Electra_

Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não deixa que eu venha para cá?

_Maximo_

(_voltando com o cadinho que escolheu_) Por que tu és uma menina solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem só, por mais honrado e por mais digno que elle seja.

_Electra_

Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as pobres meninas solteiras! (_Termina o peso e apresenta os dois metaes pesados nas suas duas capsulas de porcelana_) Aqui tens o aluminio e o cobre.

_Maximo_

(_pegando nas capsulas_) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada! Estás fina.

_Electra_

Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem.

_Maximo_

Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (_Verte os dois corpos no cadinho_)

_Electra_

Isso é um cadinho, não é?

_Maximo_

Sim senhor, para fundirmos os dois metaes.

_Electra_

Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo... (_Trauteia a sonata_)

_Maximo_

Faze favor de chamar o Ricardo.

_Electra_

(_correndo á porta da esquerda_) Ricardo!

_Maximo_

Que venha tambem o Gil.

_Electra_

Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem!

SCENA II

ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario, com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca, pena na orelha

_Gil_

(_mostrando um calculo_) Aqui está o valor obtido.

_Maximo_

(_lê rapidamente a cifra_) 0,158,073... Está errado (_Seguro do que diz e com certa severidade_) Não é possivel que para um diametro de cabo menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros...

_Gil_

Não sei então... eu... (_Confuso_)

_Maximo_

Está mal. É que te distrahiste.

_Electra_

É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena...

_Maximo_

Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha.

_Electra_

E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não fazemos nada.

_Gil_

Vou rectificar as operações.

_Electra_

E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco sentidos!... Senão tornamos á mesma.

_Gil_

Vou vêr isto.

_Maximo_

Anda lá e não te descuides (_Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo, entrega-lhe o cadinho_) Aqui tens.

_Ricardo_

Para fundir...

_Maximo_

Está preparado o forno?

_Ricardo_

Sim senhor.

_Maximo_

Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos duzentos kilometros com perda escassissima.

_Ricardo_

Faz-se o ensaio hoje?

_Maximo_

(_atormentado por uma ideia fixa_) Sim, quanto antes. Não abandono este problema. (_A Electra_) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver.

_Electra_

Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante!

_Maximo_

Avante, _Electra_! Avante, _Ricardo_!

_Ricardo_

Não manda mais nada, patrão?

_Maximo_

Que actives a fusão.

_Electra_

Que se fundam bem os metaes!

_Ricardo_

Hão de ficar os dois em um só, senhorita.

_Electra_

Dois n’um.

_Maximo_

(_como preparando-se para outra occupação_) Agora, minha graciosa discipula...

_Electra_

Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos.

_Maximo_

Ha quanto tempo comeram?

_Electra_

Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado assim?

_Maximo_

Está bem tudo o que determines.

_Electra_

Olha o que dizes, que estarás por tudo...

_Maximo_

(_carinhosamente_) Por tudo.

_Electra_

Que se fique sabendo!... Eu venho já. (_Sae ligeira e cantando pela esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo_)

SCENA III

MAXIMO E O OPERARIO

_Maximo_

Que ha?

_Operario_

Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda...

_Maximo_

Porque não entrou?

_Operario_

Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então, como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita Electra... Voltarei logo».

_Maximo_

Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio?

_Operario_

Como me disse que voltava...

_Maximo_