Electra: Drama em cinco actos

Part 3

Chapter 33,352 wordsPublic domain

Já sabes a quanto monta a obra... (_Lendo n’um apontamento_) Trezentas e vinte e duas mil pezetas...

_Evarista_

Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para a continuação do Soccorro. (_A Balbina, que recolhe a taça_) Não te esqueças do que te incumbi.

_Balbina_

Continúo vigiando, como a senhora determinou. Mas este recreio a que a menina agora se entrega não me parece de cuidado. Tantas cartas de namorados juntas são carteio de mais. A menina, emquanto a mim, para o que puxa não é para a tolice, é para a risota.

_Evarista_

Mas quem traz todas essas cartas que ella recebe?

_Balbina_

Isso não sei... Mas ando de pedra no sapato com a Patros.

_Evarista_

Espreita-as, e informa-me.

_Balbina_

Fica ao meu cuidado, deixe estar! (_retira-se Balbina_)

SCENA II

OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis

_Maximo_

Estórvo?

_Evarista_

Não, filho, podes entrar.

_Maximo_

São dois minutos, tia.

_Urbano_

Vens do ministerio?

_Maximo_

Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr, e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para cima!

_Evarista_

Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas...

_Maximo_

Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e com a ama. Que lindo arranjo, hein?

_Evarista_

Vem comer cá.

_Maximo_

Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo...

_Evarista_

Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo, sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos outros. Nada... Não quero responsabilidades.

_Maximo_

Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira.

_Evarista_

Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota.

_Maximo_

Bom. (_Dispondo-se a partir_)

_Evarista_

Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho dito: Se o _magico prodigioso_ precisar de dinheiro para a implantação dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o...

_Maximo_

Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa!

_Urbano_

Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós.

_Maximo_

Isso bem pode ser que sim.

_Urbano_

Obra do seu talento.

_Maximo_

(_com modestia_) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia...

_Evarista_

Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.

_Maximo_

Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer, e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem.

_Urbano_

Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo.

_Evarista_

(_grave_) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a tantos deita a perder.

_Maximo_

Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia...

_Evarista_

(_cortando-lhe a palavra_) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica.

_Maximo_

(_impaciente por sahir_) Tudo, menos eu, que me safo já.

SCENA III

OS MESMOS E JOSÉ

_José_

(_annunciando_) O snr. marquez de Ronda.

_Maximo_

(_detendo-se_) Esperarei já agora para o vêr.

_Evarista_

(_recolhendo os papeis_) Não manda Deus que trabalhemos hoje.

_Urbano_

Adivinho ao que vem.

_Evarista_

Que entre, José, que entre! (_José sae_)

_Maximo_

Vem convidal-os para a inauguração da nova _Irmandade da Escravidão_ fundada por Virginia. Disse-m’o hontem á noite.

_Evarista_

Bem sei... Então é hoje?

SCENA IV

EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ

_Marquez_

(_saudando com affabilidade_) Querida amiga... Urbano... (_A Maximo_) Olá! não esperava encontrar o magico...

_Maximo_

O magico diz-lhe adeus e some-se.

_Marquez_

Um momento. (_Retendo-o_)

_Evarista_

Sim, Marquez: iremos.

_Marquez_

Já sabem?

_Urbano_

A que horas?

_Marquez_

Ás cinco em ponto. (_A Maximo_) A si não lhe digo porque sei que não tem tempo.

_Maximo_

Desgraçadamente. Segue-se então que o não espero hoje.

_Marquez_

Como, se temos essa festa rija de religião e de mundanismo! mas lá vou á noite.

_Evarista_

(_levemente zombeteira_) Já cá se tem notado, com muito regosijo é claro, a frequencia das visitas do Marquez á caverna do nigromante.

_Maximo_

O Marquez dá-me muita honra com a sua amizade e com o interesse que toma pelos meus estudos.

_Marquez_

Veio-me agora o delirio das maquinas e dos phenomenos electricos... Caturrices de velho!

_Urbano_

(_a Maximo_) Parabens pelo discipulo.

_Evarista_

Deus sabe... (_Maliciosa_) Deus sabe quem será o mestre e quem o alumno!

_Marquez_

A respeito do mestre, sinto que elle esteja presente porque isso me priva de applicar aos seus meritos todas as mordeduras que a inveja me inspira.

_Evarista_

Retira-te, Maximo; vamos dizer mal de ti.

_Maximo_

Repaste-se a má lingua! Adeusinho todos. Adeus, tia.

_Evarista_

Vae com Nossa Senhora!

_Marquez_

(_a Maximo que sae_) Até á noite, se me deixarem. (_A Evarista_) Extraordinario homem! Sempre o admirei muito, mas agora que tenho apreciado mais de perto todas as suas qualidades, sustento que não ha outro no mundo como este seu sobrinho.

_Evarista_

No terreno scientifico.

_Marquez_

Em todos os terrenos, senhora de Yuste. Pois quê?!...

_Evarista_

De certo que como intelligencia...

_Marquez_

(_com enthusiasmo_) Como intelligencia, como caracter, como coração, como tudo... Quem é que é melhor?

_Evarista_

(_sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada_) Bem, bem, Marquez... (_Variando de tom_) É então ás cinco, disse...?

_Marquez_

Em ponto. Contamos tambem com Electra.

_Evarista_

Não sei se a leve...

_Marquez_

Ora essa! Tenho incumbencia especialissima de conseguir a presença da senhorita Electra n’esta solemnidade, e já prometti que sim. Virginia deseja muito conhecêl-a.

_Urbano_

Á vista d’isso...

_Marquez_

Não me deixem ficar mal!

_Evarista_

Bem: conte com ella.

_Marquez_

Teremos muita gente, toda a nossa roda...

_Urbano_

Oh! vae estar brilhante com certeza.

_Marquez_

Com que então, até já. Tenho de ir a casa de Otumba, e passarei por cá na volta. (_Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e rindo alegremente. O marquez pára a escutal-a_)

SCENA V

OS MESMOS E ELECTRA

_Electra_

Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és! que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (_Apparece pela esquerda com uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada_)

_Evarista_

Que vem a ser isto, rapariga?

_Marquez_

Não lhe ralhe.

_Electra_

Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas.

_Urbano_

(_ao Marquez_) Anda desatinada hoje.

_Electra_

(_afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham_) Que linda que és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor com elle e comtigo!

_Marquez_

Sempre folgazã, pelo que vejo...

_Evarista_

Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado.

_Marquez_

Tristeza? idealidade antes.

_Evarista_

E, agora, está vendo...

_Marquez_

(_carinhoso, dirigindo-se para ella_) Rica menina!

_Electra_

(_approximando a cara da boneca da do marquez_) Vamos, Mademoiselle, não se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (_Antes que o marquez beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu_)

_Marquez_

A Lulu não beija: a Lulu marra. (_Acariciando o queixinho de Electra_) Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella.

_Electra_

De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra.

_Urbano_

Mas que conversas tu com a boneca?

_Electra_

Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas.

_Evarista_

Penas, tu?

_Electra_

Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque nos estão lembrando as nossas coisas passadas...

_Marquez_

Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua cabecinha.

_Evarista_

E que coisas passadas são essas que dizes?

_Electra_

Digo do tempo em que nasci. (_Com gravidade_) O dia em que eu vim ao mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de como foi esse dia?

_Evarista_

Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez te veja tão adoidada?

_Electra_

Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem.

_Marquez_

Muito bem pensado.

_Evarista_

Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade?

_Electra_

(_olhando para o marquez, que sorri ao seu lado_) Isso não posso contar agora.

_Marquez_

Quer dizer que me retire.

_Evarista_

Electra!

_Marquez_

Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco para a levar commigo.

_Electra_

A mim!

_Evarista_

Sim; vamos á inauguração das _Escravas_.

_Electra_

E eu tambem?

_Evarista_

Podes-te ir vestindo.

_Electra_

(_assustada_) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto mais de ficar só.

_Marquez_

Estaremos em familia. E com isto me despégo.

_Evarista_

Até logo, Marquez.

_Marquez_

(_a Electra_) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (_Sae pelo fundo com Urbano_)

SCENA VI

EVARISTA E ELECTRA

_Evarista_

Explicarás agora a extranha maluquice em que andas.

_Electra_

Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema...

_Evarista_

Problemas, tu!

_Electra_

Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata.

_Evarista_

Valha-te Nossa Senhora!

_Electra_

E quero vêr se m’os resolve...

_Evarista_

Quem?

_Electra_

Uma pessôa que já não vive.

_Evarista_

Que dizes?

_Electra_

Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo... e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem vir a este? (_Gesto de incredulidade de Evarista_) Não acredita. Acredito eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...

_Evarista_

Virgem Maria! como tens essa cabeça!

_Electra_

... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho...

_Evarista_

Nas Ursulinas de Bayona?

_Electra_

Sim... Minha mãe apparecia-me.

_Evarista_

Em sonhos, naturalmente.

_Electra_

Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora. (_Colloca a boneca n’uma cadeira_)

_Evarista_

Pensa no que dizes, Electra...

_Electra_

Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo, a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente, confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois, não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia, por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não viu.

_Evarista_

Tu deliras, minha pobre filha!

_Electra_

Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (_maior incredulidade de Evarista_) A tia não acredita?

_Evarista_

Vae dizendo.

_Electra_

Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu... Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim, vagarosamente, por entre os troncos escuros...

_Evarista_

E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?...

_Electra_

Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu aqui (_indica o logar dos dois leitos parallelos_) por entre as duas caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar o chão... E debruçava-se para mim...

_Evarista_

Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais crescida... agora—digamos—acabaram essas visões...

_Electra_

Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos. É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho...

_Evarista_

E que dúvidas são as tuas, que assim precisas...

_Electra_

(_pondo os olhos no chão_) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e quer saber.

_Evarista_

Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e de conselho?...

_Electra_

Cá uma coisa... (_Vacilla, está quasi a dizêl-o_)

_Evarista_

O quê? dize.

_Electra_

Uma coisa... (_Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se atrever a revelar o seu segredo_) Uma certa coisa...

_Evarista_

(_severa e affectuosa_) Ih! que intoleravel que estás, com tanta creancice! (_Tira-lhe a boneca_) Que estupida e ao mesmo tempo que atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e te dôa um poucochito... (_Beija-a_) Vamos! juizo. Precisas de te occupar n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...

_Electra_

Sim, tia.

_Evarista_

Faltam tres quartos.

_Electra_

Vou apromptar-me.

_Evarista_

E poucas brincadeiras... cuidado! (_Sae pelo fundo levando a boneca pendida, suspensa por um braço_)

SCENA VII

ELECTRA E PATROS

_Electra_

(_olhando para a boneca_) Pobre Lulu! como te levam á dependura! (_Imitando a postura da boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido_) Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro desengonçado! (_Senta-se meditabunda_) E o outro á minha espera... Como foi triste a separação! como elle chorava, estendendo-me os bracinhos!... e eu que lhe prometti voltar...

_Patros_

(_assomando cautelosa pela esquerda_) Senhorita, senhorita...

_Electra_

Entra.

_Patros_

(_avançando com precaução_) Não está ninguem?

_Electra_

Estamos sós.

_Patros_

Não se pilha outra occasião assim, menina! Ou agora ou nunca.

_Electra_

Vens de lá?

_Patros_

Agora mesmo... Muitos senhores que dizem numeros... milhões, _bilhões_ e _quatrilhões_... E lá dentro, ninguem.

_Electra_

(_vacillando_) Atrevo-me?

_Patros_

(_decidida_) Atreva-se, menina.

_Electra_

Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! (_Dirige-se á sahida que dá para o jardim. Pára assustada_) Espera. Não será melhor sahirmos pelo outro lado? Pode estar a tia á janella da casa de jantar...

_Patros_

Pode, pode! Demos a volta por aqui. (_Pela esquerda_)

_Electra_

Sim, por aqui... Estou a tremer toda... de valentia! e de medo. Ávante! (_Saem a correr pela esquerda_)

SCENA VIII

URBANO E JOSÉ, que entram pelo fundo ao tempo a que saem as duas

_Urbano_

Quem vae ali?

_José_

É a Patros.

_Urbano_

Então que temos?... conta lá.

_José_

São já cinco os que fazem olho á menina: cinco vistos por mim. Fóra os que não vi.

_Urbano_

E quê? rondam a casa?

_José_

Dois pela manhã, dois de tarde, e o mais pequenitate de todos, de sol a sol.

_Urbano_

Tens notado se ha communicação entre a janella do quarto da senhorita Electra e a rua por meio de cesto pendente ou de cordão telephonico?

_José_

Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse os senhores, mudava a menina para os quartos d’acolá. (_Á esquerda_)

_Urbano_

E algum d’esses meninos não se coará para dentro do jardim?

_José_

Isso sim! Não que elles teem espinhaço e querem-o para mais d’uma vez.

_Urbano_

Bem: vae vigiando sempre. (_Entra Cuesta pelo fundo_)

SCENA IX

URBANO E CUESTA, com papeis e cartas

_Urbano_

Ora graças a Deus, Leonardo!

_Cuesta_

Já te tinha dito que não vinha de manhã. (_A José, dando-lhe uma carta_) Isto para registar. Logo irão mais cartas. (_Sae José_)

_Urbano_

(_pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega_) Que vem a ser isto?

_Cuesta_

O recibo das cem mil e tantas pesetas... assigna-me agora um talão de sessenta e sete mil...

_Urbano_

Para a remessa para Roma...

_Cuesta_

Isso mesmo. E Evarista?

_Urbano_

A vestir-se.

_Cuesta_

Já sei que vaes á inauguração das _Escravas_ e que tambem vae Electra.

_Urbano_

Essa pequena, positivamente, não promette coisa boa. Está cada vez mais caprichosa e mais leviana...

_Cuesta_

(_vivamente_) Sem maldade!

_Urbano_

Mas com symptomas d’isso. Evarista, que é a cautella e a prudencia em pessoa, anda a pensar em submettel-a a um regimen sanitario em S. José da Penitencia.

_Cuesta_

Has de me permittir que discorde inteiramente d’esse alvitre. Tu dirás que quem me manda a mim...

_Urbano_

Pelo contrario: como amigo da casa muito estimo que dês opinião e conselho.

_Cuesta_

Isso de arrastar para a vida claustral uma rapariga que não denota manifesta vocação de piedade, é grave... E não devereis extranhar que porventura alguem se opponha...

_Urbano_

Quem se ha de oppôr?

_Cuesta_

Que sei eu! alguem... Na vida d’esta menina ha, por emquanto, um factor desconhecido... Um bello dia poderá succeder... não direi que succeda... Um bello dia, quando puxeis pela corda com mais força, poderá vir uma voz que diga: «Alto lá, senhores de Yuste!»

_Urbano_

E nós responderemos: «Querido snr. factor desconhecido, aqui tem a menina, com o que nos livra d’uma tutella difficil e incommoda.»

_Cuesta_

(_senta-se com muita fadiga_) Isto, Urbano, é apenas uma supposição minha... é um modo de fallar...

_Urbano_

Não te sentes bem? Queres tomar alguma coisa?

_Cuesta_

Não... Este maldito coração recusa-se a ser dirigido pela vontade...

_Urbano_

Descansa... Queres-te tu deitar?

_Cuesta_

Pois não sabes o que tenho que fazer? (_Tirando papeis do bolso_) Para já, duas carta urgentes, que teem de partir hoje.

_Urbano_

Escreve-as aqui. (_Fazendo um logar á meza, e retirando livros e papeis_)

_Cuesta_

Está dito... installo-me ahi.

_Urbano_

Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho voltas que dar...

_Cuesta_

Não penses mais em mim. (_Escreve_)

_Urbano_

Desculpa. Evarista não tarda ahi.

_Cuesta_

(_sem olhar_) Até logo... (_Sae Urbano pelo fundo_)

SCENA X

CUESTA, ELECTRA E PATROS (Assomam as duas á porta da esquerda como para reconhecer o terreno)

_Electra_

Cuidado, Patros... Por aqui é difficil trazêl-o.

_Patros_

(_reconhecendo Cuesta, que vê de costas_) D. Leonardo!

_Electra_

Chut!... O mais seguro é deixal-o no teu quarto até á noite. Que massada a tal inauguração!

_Cuesta_

(_volta-se ao ouvir vozes_) Ah! Electra...

_Electra_

Importunamos, D. Leonardo?...

_Cuesta_

Não, minha amiguinha. Quer fazer-me o favor de esperar um pouquinho... que termine uma carta? Tenho que lhe dizer.

_Electra_

Aqui me tem. (_Áparte a Patros_) Que sécca! (_Alto_) Vinhamos unicamente buscar um papel e um lapiz para umas contas. (_Tira da meza um lapiz e papel. Áparte a Patros_) Cuida bem d’elle... Que amor que elle está adormecido! Com o seu focinhinho côr de rosa e as mãos sujas, com as unhitas pretas de andar a escarvar na terra... Dá vontade de o engulir!

_Patros_

Com os lindos pés gordos, e a espessa carapinha d’ouro que elle tem...

_Electra_

(_com effusão de carinho_) Dá volta á cabeça da gente. Olha bem por elle, Patros; vê lá!...

_Patros_

Levo-lhe agora um bôlo.

_Electra_

Não dou licença. Prohibo rigorosamente os bôlos. Para lhe sujarem o estomago!... Leva-lhe uma sopinha...

_Patros_

Mas como hei de eu arranjar sopinha?

_Electra_

Tens razão... Ah! pede na cosinha uma taça de leite para mim.

_Patros_

Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar.

_Electra_

Toma lá tambem o papel e o lapiz para elle fazer os seus rabiscos... É a coisa de que mais gosta... Depois, á noite, na primeira occasião, mette-o no meu quarto, para dormir comigo.

_Cuesta_

(_fechando a carta_) Acabei.

_Electra_

Perdoe um momento, D. Leonardo. (_Áparte a Patros_) Não o deixes nem um momento... Muito cuidadinho! Se D. Leonardo me não prender muito, ainda irei dar-lhe um beijo antes de me vestir.

_Cuesta_

Patros, estas cartas para o correio!

_Patros_

Vão-se levar já.

SCENA XI

CUESTA E ELECTRA

_Cuesta_

(_pegando-lhe nas mãos_) Venha cá, sua grande extravagante... quanto me alegra vêl-a!

_Electra_

É muito meu amigo, D. Leonardo? Não imagina como eu gosto de que me estimem!

_Cuesta_

Mas precisamos tambem de ter mais um poucochinho de proposito e d’assento n’essa cabecinha... É bom que não haja nada que se nos dizer... E a mim contaram-me—pêtas já se vê!—que fervilham os namorados...

_Electra_

Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! Mas não gosto senão d’um.

_Cuesta_

D’um! E quem é?

_Electra_

Isso... lá me parece perguntar de mais...

_Cuesta_

Eu conheço-o?

_Electra_

Se conhece!

_Cuesta_

Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira decente?

_Electra_

Não me fez declaração nenhuma, nem me disse nada... até agora.

_Cuesta_

E a menina ama esse timido donzel, e julga-se correspondida?

_Electra_

Suspeito que me corresponde... Mas não o asseguro...

_Cuesta_

Tenha confiança em mim, e conte-me isso.

_Electra_

Agora não, que vou vestir-me.

_Cuesta_

Falaremos depois.

_Electra_

(_medrosa, olhando para o fundo_) Se não viesse a tia...

_Cuesta_

Vista-se... Ámanhã será.

_Electra_

Sim, ámanhã. Adeus. (_Corre para a direita. Movida de uma ideia repentina dá meia volta_) Antes de me vestir... (_Áparte_) Não resisto. Vou dar-lhe um beijo. (_Sae correndo pela esquerda. Cuesta segue-a com a vista e suspira_)

SCENA XII

CUESTA, URBANO E EVARISTA; depois ELECTRA

_Cuesta_

(_reunindo e recolhendo os papeis_) Que felicidade a minha, se publicamente a pudesse amar!

_Evarista_

(_vestida para sahir_) Desculpe terem-no deixado para ahi, Leonardo. Já me disse Urbano que lançamos uma grande operação.

_Urbano_

(_entregando a Cuesta um talão_) Ahi tens.

_Evarista_

Não me espantarei se o vir apparecer-nos com outra carga de dinheiro... Deus o dá, Deus o recebe... (_Assoma Electra pela porta da esquerda. Ao vêr a tia hesita, não se atreve a atravessar. Decide-se por fim, procurando escapulir-se. Evarista segura-a_) Ora não ha! Então ainda te não vestiste? D’onde vens?

_Electra_

Da casa de engommar. Fui á Patros para me alisar um papo...

_Evarista_

Gabo-te a pachorra! (_Notando que sae a ponta de uma carta de uma das algibeiras do avental de Electra_) Que tens aqui? (_Pega na carta_)

_Electra_

Uma carta.

_Cuesta_

Creancices.

_Evarista_

Não imagina, Cuesta, o desgosto que esta rapariga me dá com as suas travessuras, que já não são tão innocentes como isso! (_Dá a carta a Urbano_) Lê tu.

_Cuesta_

Vamos a vêr isso.

_Urbano_

(_lendo_) Senhorita—Tenho para mim que n’esse rosto feiticeiro...

_Evarista_

(_zombando_) Muito bonito! (_Electra contém difficilmente o riso_)

_Urbano_