Part 2
A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (_Com pena e assombro_) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu!
_Urbano_
Tem graça.
_Cuesta_
Esta menina é optima!
_Marquez_
É scintillante!
_Maximo_
Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo...
_Electra_
(_zombando de Maximo_) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!... É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu sabichão!
_Maximo_
Veremos... veremos isso quando te chegar a vez!
_Pantoja_
(_que não tem dado attenção ao que se passa no grupo_) Não posso occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de Electra com o sobrinho do seu marido.
_Evarista_
Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio...
_Pantoja_
Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o ensinou a mim!
_Electra_
(_no grupo do centro_) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda. Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe.
_Marquez_
Lá isso é verdade!
_Cuesta_
Um dia aprenderá a ser pratica.
_Electra_
De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...»
_Maximo_
E breve o dirá!...
_Electra_
Para que eu lhe responda!
_Evarista_
Electra, minha filha, não disparates.
_Electra_
Tia, é este Maximo... (_passa para o lado de Evarista_)
_Urbano_
O Maximo tem razão...
_Cuesta_
Certamente que sim. (_Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez_)
_Maximo_
Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação?
_Marquez_
Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada.
_Maximo_
E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua penetração descobrir alguma coisa...
_Marquez_
Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para isso... Continúo a observar...
_Maximo_
É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas soletro.
_Marquez_
Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira.
_Maximo_
Quer vir a minha casa?
_Marquez_
Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz. Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me... Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano falarei com ella e proseguirei os meus estudos.
_Maximo_
(_alto_) Vem, Marquez?
_Urbano_
Então assim nos deixam?
_Marquez_
Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo.
_Evarista_
Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu castigo...
_Marquez_
Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me corrige.
_Evarista_
Maximo, tu vens tambem.
_Maximo_
Se me deixarem livre, virei, de certo.
_Electra_
Não venhas, homem de Deus, não venhas! (_Com alegria que não dissimula_) Vens? Dize que sim! (_Corrigindo-se_) Não, não: dize que não.
_Maximo_
Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo...
_Electra_
E has de perdêl-o tu, caturra velho! (_Segue-o com a vista até que sae. Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo_)
SCENA VIII
ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ
_José_
(_annunciando_) A senhora Superiora de S. José da Penitencia.
_Pantoja_
Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz...
_Evarista_
Que entre para aqui. (_Levanta-se_) Espera! Iremos recebêl-a ao salão.
_Pantoja_
Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento.
_Evarista_
Electra, estudar. (_Indica-lhe a sala proxima_)
_Cuesta_
(_despedindo-se_) Eu saio e volto logo.
_Evarista_
Adeus.
_Cuesta_
(_áparte, referindo-se a Electra_) Deixam-a só?
_Pantoja_
(_a Electra_) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do admiravel estylo religioso. (_Saem todos menos Electra_)
SCENA IX
ELECTRA, pouco depois CUESTA
_Electra_
(_entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas suas pastas_) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é bom!... É bom, e é engraçado. (_Canta_)
_Cuesta_
(_entra pelo fundo, recatando-se_) Só...!
_Electra_
(_canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta_) Oh! D. Leonardo...! Cuidei que tinha sahido...
_Cuesta_
(_com timidez_) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de lhe falar.
_Electra_
(_um poucochinho assustada_) A mim!
_Cuesta_
É um assumpto delicado, extremamente delicado... (_Com fadiga e difficuldade em respirar_) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso estar de pé. (_Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se_) Tão delicado este assumpto, que não sei por onde comece...
_Electra_
Deus meu, que é?
_Cuesta_
(_animando-se_) Electra, eu conheci sua mãe.
_Electra_
Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...
_Cuesta_
Que entende a menina por ser desgraçada?
_Electra_
Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como ella queria.
_Cuesta_
Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse... Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?...
_Electra_
A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha! (_Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira_) Diga-me, D. Leonardo, quando você conheceu minha mãe era eu muito pequenina...
_Cuesta_
Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo.
_Electra_
Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa, tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo...
_Cuesta_
Innumeraveis vezes.
_Electra_
(_sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas_) E eu não lhe puxava pelos bigodes?
_Cuesta_
Ás vezes com tanta força que me fazia doer.
_Electra_
E de certo então me batia nas mãos...
_Cuesta_
Devagarinho, sim.
_Electra_
Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem?
_Cuesta_
(_impaciente por entrar em materia_) Mas vamos ao caso... E antes de mais nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe vou dizer... para nós ambos unicamente.
_Electra_
Mette-me medo...
_Cuesta_
Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e o mais elevado sentimento...
_Electra_
(_confusa_) Sim, não duvído, mas...
_Cuesta_
Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho, não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos, não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe. Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa... (_Com grande difficuldade de expressão_) Mas antes de partir... (_Pausa_) Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma consciencia...
_Electra_
(_aturdida_) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por ora, como um menino que dorme no seu berço.
_Cuesta_
(_com tristeza_) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da minha vida.
_Electra_
Erros graves na vida... você, tão bom...
_Cuesta_
Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros, tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada?
_Electra_
(_com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia_) Eu não sei se o entendo... não sei se devo entendel-o.
_Cuesta_
O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem... E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da familia, sinto-a bem aqui: (_indicando o coração_) é um triste relogio que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar modesto...
_Electra_
Um bem estar modesto... Eu?... para mim?
_Cuesta_
O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia...
_Electra_
(_confusa_) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso acabar de me convencer...
_Cuesta_
Mais tarde o convencimento virá.
_Electra_
E por que não fala n’isso a meus tios?...
_Cuesta_
(_preoccupado_) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais deve ter conhecimento da resolução que tomei.
_Electra_
Mas...
_Cuesta_
(_commovido, levantando-se_) E agora, Electra, não quererá mal a este pobre enfermo, que tem contados os seus dias?
_Electra_
Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não fale em morrer, D. Leonardo.
_Cuesta_
Completamente me consola saber que chorará talvez por mim...
_Electra_
Não faça com que eu chore já...
_Cuesta_
(_apressando a sahida para vencer a sua commoção_) E agora, minha querida filha, adeus.
_Electra_
Adeus... (_retendo-o_) E que nome lhe devo dar?
_Cuesta_
O de amigo me basta. Adeus. (_Arranca-se para saír pelo fundo. Electra segue-o com a vista até que desappareça_)
SCENA X
ELECTRA E O MARQUEZ
_Electra_
(_meditativa_) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha alma!... (_O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar_) Ah! O snr. Marquez!
_Marquez_
Assustei-a?
_Electra_
Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que perdeu a viagem. Eu não toco hoje.
_Marquez_
Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter, vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e julgar-me importuno...
_Electra_
Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo?
_Marquez_
Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade?
_Electra_
Coisa naturalissima, me parece.
_Marquez_
Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha amisade com o _magico prodigioso_... Vamos a vêr se me faço entender.
_Electra_
Explique-m’o bem.
_Marquez_
Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos, voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo, para mim, é um sanatorio.
_Electra_
Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de confinado, com faltas d’ar e de vida...
_Marquez_
Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um interesse immenso.
_Electra_
Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades...
_Marquez_
E lastimo-o pelo seu infortunio.
_Electra_
(_surprehendida_) Maximo, desafortunado?
_Marquez_
Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios.
_Electra_
Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje... Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por elles, de ser creada de meninos.
_Marquez_
O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como devia ser.
_Electra_
É o que eu digo tambem.
_Marquez_
Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo, não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem.
_Electra_
Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo...
_Marquez_
Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.
_Electra_
O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum!
_Marquez_
Não direi eu isso...
_Electra_
Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira!
_Marquez_
Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica.
_Electra_
Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria?
_Marquez_
Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser serio para ser bom.
_Electra_
Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo!
SCENA XI
ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo
_Pantoja_
(_do fundo, áparte_) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (_Adeanta-se lentamente_)
_Marquez_
(_dando por Pantoja, áparte_) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos!
_Electra_
O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito estupida hoje. Ficou para outra vez.
_Marquez_
O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a _Sonata pathetica_ ou o _Clair de lune_... Puzemo-nos a conversar, e, visto que não é occasião agora...
_Pantoja_
(_com desabrimento_) A hora do estudo acabou.
_Marquez_
(_recobrando o seu papel de sociedade_) Outro dia será! Virginia e eu, meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com os seus conselhos relativamente ao _Recolhimento das Escravas de Jesus_.
_Pantoja_
Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos...
_Marquez_
Nas _Escravas_ a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima tarde... E como creio que sou demais... (_Movimento de retirar-se_)
_Electra_
O snr. Marquez não estorva.
_Marquez_
Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo.
_Pantoja_
Vá, vá, que ha de gostar!
_Marquez_
Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo.
_Pantoja_
Guarde-o Deus. (_Sae o marquez pelo jardim_)
SCENA XII
ELECTRA E PANTOJA
_Pantoja_
(_vivamente_) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse depravador de innocencias?
_Electra_
Nada: historias vagas, anecdotas para rir...
_Pantoja_
As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada, abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva matisada de lirios um roçagar de reptil.
_Electra_
Ah! não.
_Pantoja_
Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de acalmal-a a minha palavra serena e benefica.
_Electra_
Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o.
_Pantoja_
(_indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos_) Minha presada filha, vou dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por isso?
_Electra_
Tenho.
_Pantoja_
Tal explicação equivale á revelação de um segredo...
_Electra_
(_muito assustada_) Deus do ceu! estou a tremer...
_Pantoja_
Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra.
_Electra_
Como assim, com a fama de santidade que tem!
_Pantoja_
Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (_Suspirando_) Já lá vão alguns annos.
_Electra_
(_vivamente_) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua maldade, snr. de Pantoja?
_Pantoja_
Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado, não tinha a menina ainda nascido...
_Electra_
Mas nasci afinal...
_Pantoja_
(_depois de uma pausa_) É certo.
_Electra_
Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia...
_Pantoja_
A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A sua condição presente socega-me.
_Electra_
Porquê?
_Pantoja_
Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal, a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim o seja.
_Electra_
(_friamente_) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim, um anjo de seu?
_Pantoja_
Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada por mim; eu tenho o dever de amparar-te.
_Electra_
Tamanha confiança... tão severa auctoridade...
_Pantoja_
A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha consciencia.
_Electra_
(_levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte_) Virgem mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para proteger! (_alto_) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes. Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo submissão e obediencia.
_Pantoja_
Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo. Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim.
_Electra_
Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já estar para anjo do snr. de Pantoja?!
_Pantoja_
Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma, que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e na purificação.
_Electra_
(_com displicencia_) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas estão bem certos de que eu seja impura e má?
_Pantoja_
Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando.
_Electra_
Pobre de mim! (_Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa_)
_Pantoja_
Porque suspiras assim?
_Electra_
Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as consciencias dos outros.
SCENA XIII
ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo
_Evarista_
Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e receber as suas ordens.
_Pantoja_
Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (_Áparte a Evarista_) Falamos. Vigie. Acautelemo-nos! (_Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o Marquez e Maximo pela direita_)
SCENA XIV
ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO
_Marquez_
Tardamos?
_Evarista_
Não. Estiveram no laboratorio?... (_Formam-se dois grupos: Electra e Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita._)
_Marquez_
Lá estivemos. É um prodigio este homem... (_Segue falando no que viu_)
_Electra_
(_suspirando_) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave.
_Maximo_
(_com vivo interesse_) Conta depressa!
_Electra_
(_receosa olhando para o outro grupo_) Impossivel agora.
_Maximo_
Quando então?
_Electra_
Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro palavras...
_Maximo_
Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida, os deveres, as amarguras...
_Electra_
Talvez.
_Maximo_
(_olhando-a fito, com grande interesse_) Na expressão da tua physionomia ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te.
_Electra_
Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa angelical e celeste, que não sei o que é!
_Maximo_
(_vivamente_) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra.
_Electra_
Que me aconselhas?
_Maximo_
(_sem vacillar_) A independencia.
_Electra_
A independencia!
_Maximo_
Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te!
_Electra_
Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles para o jardim, para longe, para onde eu quizer?...
_Maximo_
Tudo!
_Electra_
Olha o que dizes!?...
_Maximo_
Digo-te isto.
_Electra_
Mas é o contrario que me tens recommendado sempre!
_Maximo_
(_olhando-a fixamente_) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as condições da tua vida. Tu agora tens medo.
_Electra_
(_medrosa_) Tenho, sim.
_Maximo_
Tu... (_Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não ousa_) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda...
_Electra_
(_com effusão_) Quero. (_Pausa_) E dizes-me tu que contra o medo... a insubordinação.
_Maximo_
Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se manifeste, e se saiba quem tu és.
_Electra_
O que eu sou? Queres conhecer...
_Maximo_
A tua alma...
_Electra_
Os meus segredos...
_Maximo_
A tua alma... N’ella se comprehende tudo.
_Electra_
(_notando que Evaristo a observa_) Basta... Olham para nós.
SCENA XV
OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo
_Urbano_
Almoça-se?
_Pantoja_
(_a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo_) Então assim a deixa só com Mephistopheles?
_Evarista_
Não tenha sustos, Pantoja.
_Marquez_
(_rindo_) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (_Dá o braço a Evarista_)
_Pantoja_
(_imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir_) Commigo! (_Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo_)
_Maximo_
(_olhando para Electra e para Pantoja_) Comtigo?... Havemos de vêr com quem! (_Maximo e Urbano são os ultimos que saem_)
FIM DO PRIMEIRO ACTO
ACTO SEGUNDO
Scenario do primeiro acto
SCENA I
EVARISTA, URBANO, á banca, despachando negocios, BALBINA, que serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo
_Urbano_
(_dispondo-se a escrever_) Que é que se diz ao reitor do Patrocinio?
_Evarista_
O que se combinou: approvamos a planta, e acceitamos o orçamento. Depois nos entenderemos com o empreiteiro.
_Urbano_