Effeitos do Hypnotismo

Chapter 2

Chapter 2976 wordsPublic domain

_Venceslau_.--Oh! agora acertou. (_a Elvira_) E dize-me, que viste tu hoje de mais notavel?

_Elvira_.--O seu pupillo a beijar a Gertrudes!

_Venceslau_.--Hein? Pois tu beijaste a minha creada?

_Felisberto_ (_afflicto_).--Eu não beijei nada... é falso... pode interrogar... (_indica Gertrudes_).

_Gertrudes_.--Beijou, sim, senhor, e se eu não fujo tão depressa... não sei o que me faria mais...

_Felisberto_ (_sem perceber nada_).--Oh! ceus! que quer isto dizer?... não quero mais hypnotismo... acorde, Elvira... acorde...

_Venceslau_.--Não se mexe...

_Felisberto_.--Acorde... acorde...

_Venceslau_.--Meu Deus! estou com medo!...

_Felisberto_.--Então, acorda ou não? (_ap. a Elvira_) Para graça já basta...

_Gertrudes_ (_a chorar_) Ai! ai! que a minha rica menina fica hypnotisada para sempre!...

_Felisberto_ (_ap_).--Valha-me Deus! Querem ver que a hypnotisei a valer? (_alto_) Vão buscar um leque.

_Simplicio_ (_indo buscar um abano_).--Prompto. O leque do fogão.

_Felisberto_.--Soprem todos... (_elle abana Elvira, os outros sopram-lhe a cara_).

_Venceslau_ (_a chorar_)--Ai! que matou a minha filha! Elvira! Elvira!

_Simplicio_ (_fazendo grande lamuria_).--Ih! ih! ih! _povre_ menina... morrer _assentada_ n'uma cadeira... que morte tão _affrontarosa_!...

_Felisberto_ (_cada vez mais assustado?_)--Façam bulha, muita bulha, a ver se assim...

_Simplicio_--Ah! quer bulha, então espere... (_toca trombone. Todos batem com as cadeiras e fazem toda a bulha possivel_).

_Felisberto_--Toquem, toquem todos... (_todos imitam diversos instrumentos, batem á porta do F._)

_Venceslau_.--Bateram. Vão abrir a ver se é alguem que salve a minha filha. (_Simplicio vae abrir. Apparece um guarda nocturno_).

Scena XII

OS MESMOS E O GUARDA NOCTURNO

_Guarda_.--Que bulha é esta?... Os senhores estão doidos? Está a visinhança toda alvoraçada!... Parece que se mudou para aqui alguma phylarmonica...

_Venceslau_.--Ai! Valha-me pelas chagas de Christo!

_Guarda_.--Mas que foi, que foi? (_vendo Elvira_) Uma mulher desmaiada?

_Venceslau_.--Foi este estupido do meu pupillo que hypnotisou minha filha... e agora não consegue acordal-a...

_Guarda_.--E que se ha de fazer?

_Venceslau_.--Eu não sei, não sei...

_Gertrudes_ (_ap._)--É occasião! (_alto_) Sei eu...

_Venceslau_.--Tu?...

_Gertrudes_.--Sim, eu... conheço quem é capaz de acordal-a n'um instante...

_Venceslau_.--Mas corre, corre... Dou tudo pela vida de minha filha!...

_Gertrudes_.--Não é preciso correr muito, mesmo aqui da janella... (_corre á janella_) Sr. Anacleto, sr. Anacleto, a menina está muito mal...

_Anacleto_ (_fóra._)--Ahi vou, ahi vou já...

_Simplicio_ (_ap._)--Então os _boticairos_ é que tiram o _hypotismo_?...

_Venceslau_.--Mas quem é esse Anacleto?

_Gertrudes_.--O ajudante da pharmacia cá debaixo, rapaz muito intelligente e... olhe, elle ahi está...

Scena XIII

OS MESMOS E ANACLETO

_Anacleto_ (_entra._)--Onde está a menina Elvira?

_Gertrudes_.--Ali, n'aquelle fauteuil quasi morta...

_Anacleto_ (_correndo a Elvira e tornando-lhe o pulso?_)--Ella está mas é hypnotisada... e quem foi o audacioso que a hypnotisou sem ter conhecimento algum d'esta maravilhosa sciencia?

_Simplicio_.--O _audaçacioso_ foi o sr. Felisberto, (_indica-o_).

_Anacleto_.--O sr.?

_Felisberto_.--Mas eu lhe explico...

_Anacleto_.--Não admitto explicações... o que o sr. precisava era ir já para o Governo Civil...

_Guarda_.--E cá estou eu para o acompanhar...

_Venceslau_.--Asseverou-me que conhecia a fundo a sciencia do hypnotismo!...

_Anacleto_.--É inacreditavel tanta audacia!...

_Felisberto_.--Mas, eu, cumpre-me explicar-me...

_Anacleto_.--Cale-se, senhor, e deixe-me salvar esta infeliz menina que seria victima da sua estupidez... se não me chamam tão depressa...

_Venceslau_ (_alegre._)--Não ha então perigo?

_Anacleto_.--Para mim não existem perigos... Posso fazel-a acordar em eu querendo... basta um pequeno sopro...

_Venceslau_.--Veja se encontra outro meio, que isso de _sôpros_ não me _cheira_... (_tapa o naris._)

_Simplicio_.--Pois sim, sim, assopre-a e verá... eu até já a abanei, e ella nada.

_Felisberto_.--Quem tem a culpa d'isto tudo... é... (_vae para indicar Gertrudes._)

_Anacleto_ (_interrompendo-o._)--Cale-se, cale-se, se não quer que eu o hypnotise para sempre... como o sr. ia fazendo a esta menina...

_Venceslau_.--Mas acorde-a, acorde-a, estou ancioso por ouvir minha filha...

_Anacleto_.--Já vae, já vae, primeiro quero proceder a uma pequena experiencia para provar a esse charlatão que valho muito mais do que elle... (_a Elvira_) Diga-me, sabe quem a hypnotisou?

_Elvira_.--Foi um parvo...

_Simplicio_ (_dando palmas._)--Muito bem, muito bem...

_Felisberto_ (_querendo bater-lhe._)--Ah! atrevido... Mas, sr. Venceslau, repare que estão abusando...

_Venceslau_.--Cale-se, já se lhe disse...

_Simplicio_.--Parece que é surdo!...

_Guarda_.--Talvez seja melhor leval-o até á esquadra...

_Anacleto_ (_a Elvira._)--Agora, diga-me, quer casar com o parvo?...

_Elvira_ (_fingindo-se assustada._)--Oh! nunca! nunca! Antes morrer!

_Anacleto_.--É extraordinario o pavor que lhe causa esse _alfenim_...

_Felisberto_ (_correndo para elle._)--Senhor!

_Guarda_ (_detendo-o_)--Silencio, quando não... (_leva a mão á espada?_)

_Anacleto_ (_a Elvira._)--E com quem quer casar?

_Elvira_.--Com aquelle que conseguir acordar-me d'este somno invencivel!...

_Anacleto_ (_soprando-lhe a cara._) Oh! acorde, então...

_Elvira_ (_acordando rapidamente._)--Ah! aonde estou? aonde estou? (_todos applaudem Anacleto, menos Felisberto._)

_Venceslau_.--Nos meus braços, minha filha!... (_abraça-a_)

_Elvira_.--Meu pae! meu pae! (_vendo Felisberto e fingindo um grande medo_) Oh! aquelle homem! aquelle homem quer-me mal...

_Felisberto_ (_querendo explicar-se._)--Mas repare que eu...

_Elvira_ (_fugindo d'elle._)--Não se chegue, não se chegue...

_Venceslau_.--Sae d'aqui, sae d'aqui...

_Felisberto_.--Não sahirei sem uma explicação... Foi essa creada que...

_Venceslau_.--Não quero explicações...

_Simplicio_. (_com importancia._)--Nós não queremos explicações...

_Venceslau_. (_ao guarda._)--Queira acompanhar esse rapaz ao hotel de Veneza e que lhe arranjem um quarto, aqui tem dinheiro para pagar esta noite, amanhã mando-o outra vez para Coimbra. (_dá dinheiro ao guarda_)

_Felisberto_.--Mas, meu tutor...

_Guarda_--Homem, venha a bem, quando não... (_empurra-o._)

_Simplicio_ (_empurrando-o.)_--Cale-se e vá para Veneza... _(sae o guarda levando Felisberto aos empurrões._)

Scena XIV

OS MESMOS, MENOS FELISBERTO E GUARDA

_Venceslau_.--Emquanto ao sr. não sei como hei de pagar-lhe...

_Anacleto_.--Facilmente... Concedendo-me a mão de sua filha...

_Venceslau_.--Ella... porém..

_Elvira_.--Eu amo ha muito este senhor...

_Venceslau_.--Bem, seja, mas com uma condição...

_Elvira_ e _Anacleto_.--Qual?

_Venceslau_.--É que hão de ficar vivendo em minha casa... quero ter sempre um hypnotisador a meu lado...

_Anacleto_.--Está dito, havemos de fazer experiencias em familia...

_Venceslau_.--E viva o hypnotismo!...

_Anacleto_, _Elvira_ e _Gertrudes_.--Viva!

_Simplicio_.--Um viva sem hymno não vae bem... (_começa a tocar o hymno no trombone._)

_Venceslau_.--Oh! descarado!... (_vae para bater em Simplicio._)

_Simplicio_.--(_fazendo-lhe signal que não bata, recita com valsa na orchestra_):

Não me bata, meu patrão Peço por Nosso Senhor, Que eu prometto ir aprender A ser _hypotismador_. Quero depois a _Girtrudes_, Uma vez _hypotismar_ P'ra ver se ella não acorda Quando eu a fôr assoprar!... E convido desde já Com todo o patriotismo... A virem aqui gosar Essa sessão _d'hypotismo_...

CAE O PANNO

A. ARMANDO

PUBLICADO

_Scena intima_, monologo em verso, 2.ª edição, 100

_O que eu sei!_... cançoneta desempenhada pela actriz Mercedes Blasco, 100

_A nota do banco_, monologo em verso, 2.ª edição, 100

_O meu desgosto_, cançoneta com musica do _Meu amigo Banana_, 100

A PUBLICAR

_Ociosidades_, primeiros versos, 200

A. Armando e F. Pinto

PUBLICADO

_A mala de viagem_, monologo em verso recitado pelo actor Carlos Santos, 100

_O vestido de chita_, monologo em verso, 100

_O veterano_, monologo em verso, 100

Typ. Machado, Rua dos Douradores, 21